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UnB e IFB usam questionários a estudantes para planejar volta às aulas

No instituto federal, mapeamento com alunos já foi feito e tem baseado ações; na universidade, a pesquisa será aplicada a partir desta semana

Ana Paula Lisboa
postado em 03/06/2020 15:46

Ainda nesta semana, a Universidade de Brasília (UnB) começará a aplicar questionários a estudantes, professores e técnicos. As respostas servirão para nortear a estratégia de retomada após a crise de coronavírus. As perguntas avaliarão questões como saúde, inclusão digital, situação socioeconômica, espaço e convivência familiar.

Comunidade acadêmica será ouvida sobre acessibilidade digital, condições familiares e outros aspectos

Questionado sobre como ficam os universitários sem internet que, exatamente por causa disso, podem não ser capazes de responder ao questionário, o vice-reitor da UnB, Enrique Huelva, diz que a instituição tomará medidas para que eles não sejam excluídos. As perguntas devem ficar no ar por duas semanas, acessíveis também por celular, explica Huelva. ;O percentual de alunos que não têm celular é bem mais baixo. E vamos monitorar a quantidade de estudantes que não responderem, justamente para não excluir esse perfil;, afirma.

[SAIBAMAIS];A nossa preocupação é não aumentar desigualdades nem deixar ninguém para trás, nem agora, na captação das respostas, nem na volta às aulas.; Coordenador do Comitê de Coordenação de Acompanhamento das Ações de Recuperação (CCAR), o vice-reitor explica que um dos lemas ao planejar a retomada é justamente ;não deixar ninguém para trás;. Outro mote é ;agir com dados técnicos para não dar nenhum passo em falso;.

Até para entender as distintas realidades dos alunos e os desafios enfrentados por eles a pesquisa é tão importante, e quanto maior a adesão, melhor será o planejamento. O levantamento é majoritariamente objetivo, mas há também questões subjetivas: por exemplo, para avaliar a qualidade da internet, em vez de perguntar a velocidade, o questionário pede para descrever com que facilidade a pessoa baixa imagens ou vídeos.

Universidade parada?

Professor Enrique Huelva, vice-reitor da UnBEnrique Huelva esclarece que, apesar da suspensão das aulas, a UnB não parou completamente. Orientações de mestrado, doutorado e iniciação científica, pesquisas e área administrativa estão em pleno funcionamento. ;Temos mais de 100 projetos em andamento voltados ao combate da epidemia, indo da elaboração de aplicativos à pesquisa epidemiológica em si;, completa.

Além disso, é grande o esforço para normalizar as aulas também. ;Estamos trabalhando diuturnamente para retomar as atividades o mais rápido possível e de forma segura;, diz. ;Estamos fazendo um planejamento amplo, mas com bastante cautela. O modelo está em construção, sendo feito em amplo diálogo com a comunidade e será submetido à aprovação dos órgãos colegiados. Na UnB, a aprovação é de baixo para cima;, explica Enrique Huelva.

Retomada planejada em etapas

A estratégia de retorno da UnB será por etapas, mas ainda não estão definidas datas ou quantas fases serão nem a duração de cada uma. A etapa 0 será a do retorno não presencial, incluindo um conjunto de atividades que podem ser feitas remotamente que dependerão de cada disciplina ministrada na UnB, com cada professor e colegiado de curso avaliando o que é possível em sua área. O vice-reitor observa que ;podem ser coisas que vão mais no sentido de EAD;.

No entanto, ele faz uma diferenciação: ;Para nós, é bem claro que nossos cursos são presenciais. Isso está ancorado nos nossos projetos político-pedagógico. Estamos numa situação excepcional. Além disso, a EAD é a baseada num conjunto de metodologias próprias;, alerta. ;Então, o que vamos fazer não se trata de EAD. No entanto, vamos construir alternativas não presenciais que, se aprovadas pelo Cepe (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão), terão caráter de obrigatoriedade.;

;Começamos com a etapa 0, não presencial, que já pode começar tão logo essa avaliação acadêmica e socioeconômica seja feita, e vamos avançando até a etapa final, que seria o ;novo normal; como o pessoal está denominando. Conjuntos de parâmetros epidemiológicos e de saúde pública vão orientar o que pode ou não acontecer em cada etapa e quando a UnB poderá passar para a etapa seguinte;, explica o vice-reitor. Tudo será avaliado também de acordo com a realidade do Distrito Federal e com diálogo com o governo local.

;A UnB representa mais de 50 mil seres humanos, distribuídos em todas as regiões administrativas do DF e inclusive de fora do DF. Tudo tem que ser avaliado com muita cautela;, diz. Há que se considerar também questões globais, como as condições de transporte público para que alunos cheguem à universidade. Ele pondera que uma retomada total deve demorar. Poderão ser reiniciadas primeiro, provavelmente, as matérias mais teóricas e podem ter atividades remotas; as disciplinas mais práticas precisarão ficar para depois.


IFB planeja retorno e entende desafios dos alunos

O Instituto Federal de Brasília (IFB) parece estar um passo à frente da UnB no planejamento da retomada porque já aplicou questionários à comunidade acadêmica. Os resultados foram surpreendentes até para a reitora, Luciana Massukado. ;Temos 80% dos alunos em situação de vulnerabilidade. A linha de corte é de 1,5 salário per capita. Há muitos deles com dificuldades de conexão;, aponta.

Para ajudar os alunos, o IFB liberou uma espécie de pagamento de auxílio emergencial para integrantes do grupo mais vulnerável, entregou cestas básicas e disponibilizou acompanhamento psicológico. Até por isso, enquanto o passe estudantil não voltar, não há como pensar em volta às aulas. ;Sem o passe, seria impossível para muitos estudantes gastar R$ 7, às vezes R$ 10 por dia para se deslocar.;

A reitora do IFB, Luciana Massukado

Há estudantes que até têm celular ou computador, mas contam uma internet muito fraca, que não permitiria acompanhar aulas on-line. Outros precisam dividir o dispositivo digital com os pais, sendo que muitos pais estão trabalhando em casa. O dia a dia familiar também foi levado em conta na pesquisa.

;Tendo em vista esse levantamento, estamos estudando protocolos para saber quais são as melhores alternativas;, diz Luciana. Ela pondera que o retorno presencial só vai ocorrer quando a segurança de saúde e sanitária dos professores, técnicos e estudantes for garantida por autoridades sanitárias. Em todos os câmpus espalhados pelo DF, o IFB conta com 18.272 aluno (de ensino médio, técnico, superior e mestrado), 705 professores e 590 técnicos.

O instituto federal constituiu um comitê de emergência para acompanhar a pandemia, analisar protocolos de saúde, orientações do governo federal e do GDF. ;No meu entendimento e de outras pessoas, as escolas, as instituições de ensino, devem ser os últimos estabelecimentos a retornar, pois têm uma característica natural de aglomeração. Mas sabemos que um dia vamos voltar e estamos nos preparando para isso;, explica.

Ainda não se trabalha com datas nessa discussão. "O governador até comentou que a volta às aulas poderia ser em agosto. Talvez antes de agosto a gente não volte mesmo", diz Luciana.

EAD inviável?

Segundo a reitora, um dos motivos que motivou a não-migração para a EAD foi a percepção de falta de acessibilidade à tecnologia em muitos alunos. ;Não podemos fazer isso até para não aumentar desigualdades que já existem fora do ambiente escolar;, justifica.

;A gente até pensou que a quantidade de alunos sem acesso seria menor, mas vimos que é grande. E tem também outras questões agora, como o fator psicológico, o convívio familiar com pessoas perdendo renda e emprego. E há inclusive muitos alunos que trabalham e também ficaram desempregados;;

Após resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) que amplia estratégias remotas de ensino, a reitora avalia disponibilizar outras opções para os alunos sem internet. Enviar materiais por Correios ou deixar no câmpus para os estudantes buscarem estão entre as possibilidades consideradas. ;Estamos vendo a possibilidade de educação remota, que não é necessariamente EAD.;

A recepção da comunidade acadêmica varia: há alunos agoniados para voltar e outros mais preocupados com a saúde, mesmo entre os que estão no 3; ano do ensino médio e farão o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e vestibulares. ;Temos estudantes com diferentes faixas de renda domiciliar. E há alunos que compreendem a suspensão até porque veem os colegas com dificuldades de acesso, mesmo que eles mesmos tenham internet;, conta.

Para manter em atividade os estudantes que têm acesso à internet, o IFB tem oferecido atividades opcionais, incluindo lives, discussões, clubes de estudo por WhatsApp. ;Tem professores que enviam atividades em vídeo. Por exemplo, na área de alimentos, eles ensinam como fazer corte juliene, e os alunos fazem e enviam fotos. Mas isso não conta como carga horária;, esclarece a reitora.

O pátio do IFB de Taguatinga: o câmpus vazio se tornou rotina

Como será o novo normal?

Quando imagina a possibilidade de volta às aulas, a imagem que vem à mente da reitora Luciana é bem diferente de como costumava ser o cotidiano de sala de aula. ;Os alunos precisarão estar distanciados, precisaremos rever os espaços de sala de aula, o funcionamento da biblioteca, o próprio registro acadêmico quando a comunidade for fazer matrícula ou pegar alguma declaração;;, comenta.

;Estamos analisando como será o uso de carros oficiais, onde vamos espalhar dispensers de álcool em gel, pensando na distribuição de máscaras, na compra de produtos para desinfeção dos ambientes;, elenca. Um protocolo estabelecendo as regras para o ;novo normal; no IFB deve ficar pronto até o fim do mês, mas ele será revisado constantemente.

;A volta as aulas não vai ser um evento. Vai ser um processo, que está no início, com muita discussão e muita escuta.; Reuniões com alunos e pais de alunos no Google Meet, por exemplo, têm sido usadas para isso.

Instituto ativo

Projetos de pesquisa e extensão também não pararam. Inclusive, editais voltados ao enfrentamento da covid-19 foram lançados. Professores e técnicos estão produzindo face shield (máscaras de acetato) para doar a profissionais de saúde, feitas nas várias impressoras 3D espalhadas pelos laboratórios do instituto.

Um dos muitos laboratórios do IFB: impressoras 3D desses espaços são usadas por professores e técnicos para produzir máscaras para profissionais de saúde

As aulas do mestrado, que já previam um ambiente virtual de aprendizado, continuaram, e houve até duas defesas com transmissão virtual. Nos cursos superiores, os alunos fazendo TCC tiveram assistência, e haverá em breve a primeira defesa on-line.

As decisões tomadas no IFB independem das aplicadas nos outros 38 institutos federais, os Cefets (Centros Federais de Educação Tecnológica) e o Colégio Pedro II (Rio de Janeiro), que integram a rede federal de educação profissional, científica e tecnológica.

;Temos cerca articulação, mas estamos espalhados em mais de 600 municípios, as características são diferentes, é inviável ter um protocolo único. Cada um vai voltar no seu tempo e cada um segue as recomendações dos governos locais;, diz Luciana.

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