Enem 2017
Apresentado por:

Professores aprovam tema de redação do Enem 2017

A proposta "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil" surpreende, mas está dentro da tradição do exame em abordar inclusão, respeito e diversidade

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 05/11/2017 16:21 / atualizado em 05/11/2017 18:32

Os portões dos locais de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) já se fecharam e candidatos do Brasil inteiro estão, neste momento, fazendo as provas de linguagens, códigos e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias e redação. Esta trouxe como tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil". O assunto vai ao encontro das novas medidas de aplicação do exame, que incluem pela primeira vez a aplicação de videoprova traduzida em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Em 2017, 1.635 estudantes com surdez ou deficiência auditiva estão fazendo a avaliação, 48 deles no Distrito Federal.

“É o discurso casado com a prática”, sintetiza Carol Darolt, professora do Centro Educacional Sigma. Ela aprova a proposta e a classifica como “tranquila”. “É um assunto bastante específico. Estamos falando de uma parcela pequena, mas relevante da população”, diz. Porém, cabe ao aluno habilidade e discernimento para não cair em fuga de tema. “Embora não seja substancialmente difícil, exige o cuidado da leitura atenta da coletânea de textos. Não basta falar da educação de maneira geral e discutir apenas tangencialmente a questão dos surdos.”
 
Professor do Sistema de Ensino pH, Thiago Braga também observa a singularidade do tema. “Trata-se de um recorte bastante específico, mas inserido em discussão ampla, que gira em torno do respeito à inclusão dos deficientes físicos na sociedade”, afirma. Para ele, acessibilidade e respeito pautaram as salas de aula de cursos preparatórios ao exame. O estudante atento e informado não será prejudicado. “Abre espaço para o aluno escrever sobre a formação educacional dos surdos, o acesso universal às escolas e a construção de formação sólida para aqueles com algum tipo de deficiência.” 
 
Dificuldade a ser enfrentada
A Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa-DF) comemorou o tema. Em nota, o presidente da associação Luis Claudio Megiorin afirmou: “Notamos o abismo que existe na nossa sociedade quanto ao tema e o despreparo de nossas escolas e, por conseguinte, dos nossos estudantes. A dura realidade dos surdos deve ser enfrentada já! Imagino o quanto é dolorosa a vida silenciosa dos surdos nas nossas escolas, sobretudo, nas privadas, onde a inclusão passa longe.”

“Embora o tema tenha surpreendido, está dentro da abordagem clássica do Enem, que preza pela reflexão dos candidatos. Mais uma vez, está sendo exigido deles que pensem como cidadãos”, afirma Júlio Ferreira, professor e coordenador do curso Poliedro de São Paulo. Ainda que a deficiência auditiva seja inédita como tema de redação, é tradição do exame tocar em problemas pelos quais passam minorias marginalizadas ou que sofrem com dificuldades de acesso à ampla cidadania. “Nesta tarde, milhões de alunos brasileiros vão pensar sobre um tema que não está, infelizmente, tão em voga como deveria. Como uma prova de alcance nacional, o Enem tem esse poder.”
 
Ígor Caíque
 
Aline Rezende, 26 anos, conta que abordou o fato de haver poucos profissionais para esta parcela da população. "O governo tem que ofertar mais cursos de libras. Outro ponto de que falei é que não há muita discussão sobre isso nas escolas, o que atrapalha o desenvolvimento educacional dos surdos", diz. Ela, que faz o Enem pela terceira vez, terminou a prova cedo porque se preparou bem e escreveu a dissertação já na folha definitiva. "O tempo todo eu procurei atenção para não cometer erros", afirma. Ela sonha em ser advogada.
 
Direitos humanos
O veto à nota zero para dissertações que desrespeitem os direitos humanos, imbróglio que tomou conta dos noticiários nos últimos dias, não é preocupação para este tema, acreditam os professores. “Discursos de ódio geram argumentos fracos e sem repertório. Aqueles que insistirem numa abordagem violenta e discriminatória terão, naturalmente, a redação inteira comprometida”, avalia Carol Darolt. Ela observa que, embora a atribuição de nota zero esteja suspensa, a competência 5 da proposta de redação do Enem segue valendo e pode tirar até 200 pontos do candidato que apresente defesa a tortura, discriminação e justiça com as próprias mãos.
 
Júlio Ferreira lamenta a polêmica, mas não enxerga a possibilidade de muitos candidatos levarem a escrita a esse extremo. “É triste ver o Inep não podendo arbitrar sobre a própria prova. Muitos vão usar esse espaço para a intolerância, mas acredito que a maioria vai passar longe dessa abordagem.”