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Uma bola quase perfeita

Segundo estudo que contou com a participação de brasileiro, o Sol é o corpo celeste mais esférico já observado e quase não sofre alterações em seu formato. As conclusões devem forçar a revisão dos modelos de funcionamento da estrela

postado em 18/08/2012 08:00
Apesar de estar a 150 milhões de quilômetros, uma estrela é essencial à vida no planeta, além de ser o corpo celeste mais conhecido e há mais tempo estudado pela humanidade. O Sol fornece a luz e o calor que alimentam todos os organismos vivos. Entender esse gigante tem sido um desafio há milênios, e, agora, uma pesquisa divulgada na edição de hoje da revista científica Science conseguiu desvendar alguns dos aspectos mais interessantes da gigantesca bola de calor. Segundo o grupo, que conta com a participação de um pesquisador brasileiro, a estrela mais próxima da Terra é o objeto mais redondo já medido pelo homem, e, ao contrário do que se acreditava até então, não sofre variações em suas medidas ao longo dos seus ciclos, mesmo sendo formada basicamente por gás. As descobertas prometem revolucionar a forma como o astro-rei é compreendido.

Para conseguir estudar o Sol em minúcias, os pesquisadores contaram com a ajuda do Solar Dynamics Observatory (SDO), satélite da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) construído especialmente para observar a estrela. Durante dois anos, a equipe fez milhares de fotografias. ;As imagens de satélites trazem normalmente uma pequena distorção. No entanto, tirando várias fotos de posições diferentes do Sol, conseguimos montar uma imagem de como ele realmente é, sem distorções;, explica Marcelo Emílio, cientista da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no Paraná, um dos autores da pesquisa. ;A cada seis meses, nós fazíamos imagens, mudávamos o satélite de lugar e produzíamos novas fotografias. A ideia era estudar do ciclo solar, que dura 11 anos.;

Todos os corpos que realizam movimento de rotação (em torno do próprio eixo) possuem os polos achatados. No entanto, no Sol esse achatamento é muito pequeno, quase inexistente. ;Como um experimentalista, é sempre excitante descobrir quando os nossos modelos simplesmente não funcionam. Nesse caso, vimos que ele tem uma forma muito mais redonda do que imaginávamos;, conta Jeff Kuhn, especialista da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, principal autor do estudo.

Por se tratar de medidas muito grandes, é preciso simplificar os cálculos para entender a variação no formato do astro. Se o Sol tivesse 1km de diâmetro, a diferença entre o seu diâmetro nos polos em relação ao diâmetro equatorial seria de 0,017cm, medida menor que a de um fio de cabelo. Comparativamente, se a Terra medisse 1km de diâmetro, essa diferença seria de 3,4m.

Sem mudanças
A segunda constatação dos pesquisadores, ao observar o Sol e suas manchas, é que seu formato quase não sofre alterações. Por ser formado de gases, era esperado que, durante o ciclo solar, ele sofresse deformidades. No entanto, analisando as mudanças de localização das manchas solares, os cientistas perceberam que, apesar de toda a estrutura solar sofrer alterações, sua deformação permanece constante ao longo do tempo. ;Isso significa que vamos aprender algo importante sobre como o Sol organiza o campo magnético em seu interior ou como a turbulência abaixo da superfície gera uma força que o faz tão esférico;, completa Khun.

Uma das hipóteses levantadas para explicar a falta de variação no formato diz respeito à dinâmica das camadas internas do Sol. Ela ocorreria de uma maneira ainda desconhecida que não geraria deformações nas camadas mais externas. Nesse caso, os movimentos rotativos das camadas logo abaixo da superfície seriam entre 3% e 10% mais lentos do que o imaginado. Já Douglas Gough, um astrofísico da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que não participou do estudo, tem outra teoria. Ele sugere que a atmosfera sobre as regiões polares do Sol é ligeiramente diferente da que está sobre o equador solar. ;Tal disparidade poderia causar distorções nos caminhos de luz dirigidos à Terra a partir das várias regiões, assim desviando a estimativa de achatamento inferior ao esperado;, comentou no site da revista Science.

O próximo desafio da equipe será justamente compreender as causas do formato tão surpreendente. A tarefa não será fácil, principalmente por causa da complexidade e da proximidade do Sol. ;As medições em estrelas distantes têm distorções grandes, já no caso do Sol, a proximidade torna-se um desafio, pois são necessários aparelhos e cálculos muito mais precisos;, explica Marcelo Emílio, da UEPG. Assim, olhar para o Sol é como vislumbrar um gigante bem de perto. É tão complexo e tão detalhado que, entendê-lo, exige um esforço imenso.

Supermãe estelar
A Nasa anunciou ontem ter descoberto uma galáxia superprodutora de estrelas. Batizada de Fênix, ela foi apelidada de ;supermãe; por conseguir produzir 740 estrelas por ano. Para se ter uma ideia, a Via Láctea, que abriga o Sistema Solar, produz, em média, apenas uma estrela no mesmo período. Localizada há 5,7 billhões de anos luz, a galáxia foi descoberta com a ajuda do telescópio Chandra.

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