ESTUDO

Metade dos professores não recomendaria a profissão docente aos mais jovens

Pesquisa ouviu 2 mil professores da educação básica de todo o país. Desvalorização, má remuneração e rotina desgastante são os maiores pontos negativos

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postado em 30/07/2018 06:00 / atualizado em 30/07/2018 18:18


Um potente relatório sobre a docência brasileira foi publicado nesta segunda-feira (29). A pesquisa “Profissão Docente” ouviu 2.160 professores da educação básica (da educação infantil ao ensino médio) das redes pública e privada de todo o país, em busca de mapear o perfil, formação e a opinião dos docentes quanto às condições de trabalho vividas por eles em sala de aula. Iniciativa do Todos Pela Educação e do Itaú Social realizada pelo Ibope Inteligência em parceria com a Conhecimento Social, a pesquisa aponta, entre outros dados, que apenas 23% dos professores recomendariam a profissão que exercem para os mais jovens.

De acordo com a pesquisa, a maioria (78%) dos professores afirma ter escolhido a carreira principalmente por aspectos ligados à afinidade com a profissão. Entretanto, quando observa-se os níveis de satisfação com a atividade docente, 33% dizem estar totalmente insatisfeitos, e apenas 21%, totalmente satisfeitos.

Segundo Priscila Cruz, presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação, o que os professores dizem por meio da pesquisa confirma a necessidade urgente de mudanças no conjunto das políticas docentes, desde as relacionadas ao ingresso na carreira, como formação inicial, até aquelas voltadas a quem já está na ativa, como a formação continuada.
 Crédito: Alexandre Ondir/Divulgação
Também pesam negativamente na avaliação dos professores os planos de remuneração e progressão na carreira, passando pela melhora nas condições de trabalho e pela ampliação do envolvimento dos professores nas decisões relacionadas às políticas educacionais.
 
“Não me surpreende o resultado da pesquisa. O país não tem se preocupado muito com a educação nos últimos anos. Nossos índices são péssimos e existe um descaso geral com nossa área, que começa de cima”, afirma Walkyria Vidal, que ensina matemática no Colégio Militar de Brasília. “Como aluno, a motivação do professor é fundamental. Embora não seja o caso aqui, dá para sentir quando ele não está disposto a instigar e buscar algo mais na sala de aula e fora dela”, diz Luiz Araújo, 17, estudante do 3º ano do colégio.

Formação

Sobre a formação inicial que os possibilitou exercer a profissão, apenas 29% dos professores consultados acreditam que tinham o preparo ideal quando ingressaram em sala de aula. Para a melhora da formação, aponta a pesquisa, eles citam três grandes necessidades: conhecimento sobre didáticas específicas das disciplinas (82%), conhecimento prático (81%) e fundamentos e métodos de alfabetização (81%).
 
“Os professores deviam ser mais valorizados, a começar pela sua formação. É inadmissível instituições particulares de ensino superior oferecerem cursos de graduação em três anos ou até menos, quando nós deveríamos investir mais nele enquanto está se formando, dar tempo e leitura de sua disciplina”, diz Luiz Fernando Silva Batista, que dá aula de redação da rede pública federal. Docente há 31 anos, ele se diz satisfeito com a carreira que escolheu logo aos 16 anos, mas entende perfeitamente a condição e opinião de outros colegas. “Quando o alguém não recomenda a docência aos potenciais profissionais, isto se deve à realidade pessoal dele. É muito trabalho para pouca remuneração. O professor, em geral, tem grande carga fora de aula, corrigindo provas, preparando aulas, mas não é devidamente remunerado por isso.”

Para Juliana Yade, especialista em Educação do Itaú Social, "a formação continuada precisa articular a teoria e a prática de modo que propicie o desenvolvimento profissional e ao mesmo tempo dialogue com os desafios do dia a dia do professor. Quando isso acontece, o docente se sente mais valorizado e apoiado, ampliando as oportunidades de aprendizagem tanto para ele como para os estudantes.  Esse processo impacta de forma significativa na melhora da educação."

Condições de trabalho

O relatório aponta ainda que 38% dos professores da rede pública não são concursados e trabalham em média em uma a duas escolas, e são responsáveis por 5 a 6 turmas. A carga horária é de, em média, 31 horas por semana, mas os professores de escolas particulares têm média mais baixa.

Clique aqui e confira a pesquisa completa.