Professora paulista é finalista de prêmio considerado 'Nobel da educação'

Ela atua na rede pública de São Paulo há 14 anos e é a primeira sul-americana a chegar à final do concurso, o Global Teacher Prize

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postado em 06/03/2019 06:00 / atualizado em 06/03/2019 15:21

Arquivo Pessoal
Uma professora brasileira ganhou destaque internacional ao entrar para a lista dos 10 finalistas de um prêmio que é considerado o Nobel da educação: o Global Teacher Prize. O nome dela é Débora Garofalo. Formada em letras e em pedagogia, com pós-graduação em língua portuguesa pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela atua na rede pública de São Paulo há 14 anos e é a primeira mulher sul-americana a chegar à final do concurso.

O feito chama ainda mais a atenção pelo fato de a carreira docente ser desvalorizada no Brasil — tanto que somente 2,4 % dos jovens de 15 anos desejam trabalhar como educadores, segundo o relatório Políticas Eficientes para Professores, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Há 10 anos, 7,5% dos adolescentes tinham interesse na profissão.

O resultado do prêmio mundial de educação será divulgado em cerimônia em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, em24 de março. O professor escolhido receberá a quantia de US$ 1 milhão, concedida pela Varkey Foundation, fundação de caridade global focada em melhorar os padrões de educação para crianças carentes.

Impacto na escola e na comunidade

Débora é orientadora de informática educativa na Escola Municipal de Ensino Fundamental Almirante Ary Parreiras, na Cidade Leonor, bairro de São Paulo. A professora inovou em sala de aula ao criar o Projeto de Robótica com Sucata, em que estudantes de 6 a 14 anos usam lixo para produzir robôs. Ela atribui o fato de chegar à final do “Nobel da educação”, desbancando mais de 10 mil candidatos de 179 países, a iniciativas como essa.

“Eu acredito que é o conjunto da obra. São os resultados apresentados, a questão da integração social entre comunidade e alunos e o fato de ser um trabalho pautado pelos objetivos sustentáveis da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da ONU (Organização das Nações Unidas)”, diz. “Uso a tecnologia como propulsora de aprendizagem e proponho que a robótica integre todas as áreas do conhecimento em cima da resolução de um problema que é a questão do lixo”, explica.

O projeto de Débora vai além dos limites da escola. Muitas aulas do projeto ocorreram na comunidade, retirando lixos. E, com uma iniciativa que envolveu os estudantes, suas famílias e os moradores da área, os alunos passaram a ver sentido no que estavam fazendo. Tudo isso gerou um sentimento de pertencimento e de que eles podem fazer a diferença. E os efeitos se mostraram também no colégio: o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) saltou de 3,5 para 5,2. Outra melhoria foi a redução da evasão escolar.

Satisfação

Débora reconhece que só chegar à final já é um feito e tanto. “É uma responsabilidade muito grande porque você se torna um exemplo. É um momento para a gente repensar e incluir a aprendizagem criativa e o ensino de robótica no currículo das escolas, criando novos caminhos”, defende. Ela destaca o valor de uma professora brasileira estar na lista dos 10 melhores globalmente. “Isso rompe alguns tabus. A mulher é vista no Brasil com muito preconceito por trabalhar com tecnologia. Um professor dessa área é pouco valorizado”, aponta.

“Então, esse resultado mostra o quanto é linda a nossa profissão e o quanto precisamos valorizar as mulheres”, afirma. A chance de concorrer com os melhores do mundo a partir de um trabalho que envolve tecnologia é, para Débora, sinal claro que de essa temática deve ser mais trabalhada na educação. “Precisamos ouvir os nossos alunos. Eles precisam de tecnologia para aprender. O mundo mudou e a profissão de docente também”, percebe.

“Temos que trazer as novas tendências para a sala de aula. É um caminho para reinventarmos o ensino e pensarmos em uma escola que não só produza conhecimento, mas que também contribua com soluções locais”, elucida. Débora se interessou por trabalhar com tecnologia como professora por ter trabalhado na indústria e percebeu que fazia falta aos estudantes conhecimentos de informática e programação.

De acordo com a docente, este é um momento propício para desenhar políticas públicas mais efetivas no campo. “Precisamos que a voz dos professores seja ouvida para que eles sejam valorizados. Muitas práticas que a gente busca, como inovação, já ocorrem em sala de aula”, observa. “Então, é preciso que as políticas públicas, além de dar um suporte maior ao educador, sejam capazes de valorizar essas práticas já existentes e que elas sejam implementadas no resto do Brasil”, destaca.

O caminho da docência

Ainda na infância, Débora decidiu seguir a carreira docente. “Carreguei durante muito tempo uma lousa para cima e para baixo, gostava muito de poder ensinar meus colegas. Quando terminei o fundamental II, eu já sabia que queria entrar na escola do magistério”, lembra. Depois disso, veio a faculdade de letras. “Não consegui passar na USP (Universidade de São Paulo) por dois pontos. Esse foi meu primeiro rompimento com a educação.”

Naquela época, Débora já lecionava e decidiu se afastar das salas de aula para trabalhar na indústria, na área de recursos humanos. “Foi ótimo, porque eu pude vivenciar a tecnologia e o mercado de trabalho”, destaca. É exatamente a falta desse tipo de vivência que ela critica na formação dos professores brasileiros. “Primeiro, a faculdade é muito ineficaz, ela não prepara o professor para enfrentar o chão da escola. Em segundo lugar, é fundamental o docente ter essa visão de mercado de trabalho”, afirma.

É por aí que ela acredita que os currículos das graduações em licenciaturas deveriam ser revolucionados. “É muito frustrante ver a quantidade de jovens que se formam e desistem da profissão. Escola não é uma ilha. Está na hora de integrarmos a universidade às escolas públicas e repensar o ensino docente. A pedagogia poderia ser em tempo integral de modo que, em um dos períodos, o estudante já estivesse na escola”, propõe.

Desafios

Ser professor não é uma missão fácil. Débora admite que chegou a pensar em largar a profissão. “Os desafios são muitos, você vê alunos passando fome, a violência sendo transferida para dentro da escola... Convive com a falta de recursos, salas cheias”, elenca. “Muitas vezes, eu coloco dinheiro do meu bolso para adquirir as coisas. Foi no que investi recursos que ganhei de alguns prêmios”, comenta. “Pensei em desistir muitas vezes, mas nunca fiz isso pelos alunos. Por onde passei, tive alunos maravilhosos. Sempre depositei altas expectativas neles porque eu acredito em uma educação transformadora, que faça sentido”, destaca.
 
 
Arquivo pessoal

Mais pratas da casa

Outro brasileiro que se destacou no Global Teacher Prize este ano é Jayse Antonio da Ferreira, professor de arte na Escola Erem Frei Orlando, em Itambé (PE). Com Débora e outros 48 docentes de diversos países, ele chegou à semifinal do concurso. Nos últimos dois anos, os brasileiros Diego Mahfouz Faria Lima, de São José do Rio Preto (SP), Rubens Ferronato, de São Paulo (SP), Wemerson Nogueira, de Boa Esperança (ES) e Valter Menezes, de Santo Antônio do Rio Tracajá (AM) também tiveram lugar entre os finalistas.

O “Nobel da educação” existe desde 2013, quando a Fundação Varkey fez um estudo em 21 países para explorar atitudes sobre a profissão docente, incluindo salários, a atitude dos alunos, e os sistemas educacionais. Os resultados mostraram que o status da profissão havia caído e as descobertas fizeram com que fundação fundasse o Global Teacher Prize como uma resposta com o objetivo de elevar o perfil da profissão.
 

Os 10 finalistas

Conheça os professores que desbancaram mais de 10 mil concorrentes para chegar à final do Global Teacher Prize:
- Andrew Moffat, do Reino Unido

- Daisy Mertens, da Holanda

- Débora Garofalo, do Brasil

- Hidekazu Shoto, do Japão

- Martin Salvetti, da Argentina

- Melissa Salguero, dos Estados Unidos

- Peter Tabichi, do Quênia

- Swaroop Rawal, da Índia

- Vladimer Apkhazava, da Geórgia

- Yasodai Selvakumaran, da Austrália

Currículo de destaque

Confira honrarias que Débora Garofalo ganhou nos últimos anos:

2017
- Prêmio da Associação Comercial do Estado de São Paulo

- 1º lugar no 5º Prêmio de Direitos Humanos da Secretaria Municipal de São Paulo

2018
- Finalista na 23ª edição do Prêmio Cláudia, categoria Políticas Públicas

- Professor Destaque pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo

- Vencedora na temática especial do Prêmio Professores do Brasil

2019
- Vencedora de Aprendizagem Criativa Brasil do MIT (Massachusetts Institute of Technology)

- Finalista do Global Teacher Prize 

* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa