Especial sobre o 15 anos do PAS

Há 15 anos era criado o Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (PAS)

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postado em 20/09/2011 09:00

Adail,Manoel, André, Luiz Paulo e Daniel eram calouros de cabeças raspadas em 1999. Haviam acabado de ser aprovados no primeiro ciclo de uma avaliação pioneira no país, o Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (PAS/UnB). O Correio foi atrás dos cinco primeiros jovens que ingressaram na universidade por meio do programa para saber se valeu a pena %u201CFoi muito bom ter passado no PAS. O resultado saiu antes do vestibular tradicional, o que acabou com aquela tensão toda de ter que passar. Já a vida de calouro na UnB não é fácil, você sai de um ambiente em que os professores fazem de tudo pra você aprender e cai em um no qual você tem que se virar pra conseguir aprender sozinho%u201D, conta André Reinaldo Novgorodev Jr., aprovado para o curso de engenharia mecânica. %u201CAinda tem o trote, que, nomeucaso, foi %u2018especial%u2019, pois os veteranos haviam lido uma entrevista que eu tinha dado para o Correio Braziliense e resolveram aumentar a minha cota de farinha e tinta%u201D, brinca. Na época da entrevista, André disse que gostava de mexer com motores de carros, mas, depois de formado, acabou optando pela área de geração de energia.Atualmente, Mora com a esposa e o filho no Rio de Janeiroe trabalha no Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes).%u201CEumemudei porque Brasília não oferece muitas opções profissionais para engenheiros mecânicos. Eu estava cursando um %u2018mestrado sanduíche%u2019, na UnB e na França, quando recebi a convocação do concurso da Petrobras e não pensei duas vezes antes de ir para o Rio trabalhar. Acho que essa foi a decisão correta, não tenho do que me arrepender.%u201D Compromisso com os estudos Manoel Augusto Soares Jr. passou para agronomia, mas também foi aprovado no vestibular para medicina- veterinária. Escolheu o segundo curso e hoje trabalha no Serviço de Inspeção Federal (SIF) do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa). %u201CSair da faculdade é bem diferente. Aquele dizer de que%u2018entrar na faculdade é fácil, difícil é sair%u2019 é bem verdade!Mas se nos dedicamos ao estudo desde o início com seriedade, vai tranquilo. Tudo depende do esforço e do compromisso de cada um,%u201D diz. Mudança de rumos Quem também mudou de rumos foi Adail de Castro Cavalheiro. Ele foi aprovado no PAS para o curso de ciência da computação, mas, hoje, é professor do Departamento de Matemática da UnB. %u201CComecei a dar aulas logo no segundo semestre de curso, para ganhar algum dinheiro, e acabei gostando dessa atividade. Até hoje, gosto de lecionar e não me imagino fazendo outra coisa,%u201D relata.Depois de fazer doutorado, ele acredita que continua sendo um nerd, e afirma que encontrou outros desafios depois da graduação. %u201CO maior é tentar dar aulas interessantes, para que os alunos e os calouros (do PAS, inclusive) sintam prazer em estudar e também sejam motivados a viver experiências que ainda estão por vir.Muitos se decepcionam com a UnB, até por esperarem demais dela. Como professor, não quero ser parte desse tipo de decepção%u201D, conclui. Tudo ao mesmo tempo agora Não demorou muito para Luiz Paulo da Silveira desistir do curso de engenharia de redes. No ano seguinte à sua aprovação, o rapaz, que conquistou a terceira maior pontuação do PAS, trancou o curso e prestou vestibular novamente para engenharia de redes. Passou em primeiro lugar! Mas, não satisfeito, prestou vestibular no meio do ano para medicina, e mais uma vez ficou em primeiro lugar. No entanto, optou por continuar no curso de engenharia de redes. Formou-se em 2003. %u201CEu me identifico mais com as exatas, mas acredito que uma formação deve passar por todas as esferas.%u201D Foi com esse argumento que ele prestou vestibular para direito, na UnB, mas interrompeu o curso no mesmo ano. Em2004, se especializou em análise de finanças pela Escola Fazendária. Na sequência, Luiz passou para o curso de ciências econômicas, mas trancou pouco depois. Hoje, estuda matemática, mora com os pais, dá aulas de física e sonha em poder viver de música. %u201CFaço alguns consertos de instrumentos, coisas simples%u201D, explica. Promessa cumprida Em entrevista ao Correio, em 1999, Daniel Paiva, recém-aprovado para o curso de biologia, revelou que gostaria de se especializar em engenharia genética. Doze anos depois, o rapaz provou que tem palavra. Hoje, trabalha no Departamento de Patalogia Molecular, ligado ao curso de medicina. Fica no laboratório oito horas, em média, por dia. %u201CMas às vezes saio muito tarde%u201D, adverte. Nesse meio tempo, Daniel trabalhou como professor em escolas particulares de Brasília. %u201CFoi uma experiência muito boa, a sala de aula é muito gostosa, mas preferi voltar para a universidade.%u201D Daniel terminará sua pesquisa em breve. Quando questionado sobre seus planos, ele não hesita: quer passar um tempo fora do país. %u201CNão sou casado nem tenho filhos, por enquanto ainda é possível%u201D. Todos concordam que valeu a pena ter participado da avaliação numa época em que era pouco conhecida. %u201CInclusive me ajudou quando fiz o vestibular no mesmo ano, pois já tinha vaga garantida na UnB pelo PAS. Durante a prova do vestibular, enquanto eu estava completamente tranquilo e relaxado, observei o nervosismo dos concorrentes, que não paravam de roer as unhas%u201D, conta Manoel. O engenheiro André tem a mesma sensação: %u201CPor ser a primeira turma, muita gente não levou a sério, ou só foi se tocar do que se tratava no terceiro ano. Quem, assim como eu, percebeu logo cedo que esse seria o melhor caminho pra entrar na UnB, teve uma concorrência muito menor que a do vestibular tradicional naquele ano%u201D. Avaliação inovadora Desde a criação em 1996, o Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (PAS/UnB) permitiu a entrada de mais de 14 mil alunos na universidade. A proposta de criação do programa começou a ser discutida na década de 1980, quando LauroMorhy ex-reitor da UnB fazia parte da diretoria de acesso ao ensino superior, órgão que cuidava do vestibular e que deu lugar ao Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe). Porém, a discussão só foi retomada em 1995. O professor vice-chefe do Departamento de Matemática Mauro Rabelo, era coordenador de vestibular do Cespe na época da criação do PAS, e participou do processo de criação do programa. Ele explica que era um momento político ideal para desenvolver a proposta, pois Cristovam Buarque que havia sido reitor da UnB entre 1985 e 1989 era governador doDistrito Federal. No ano seguinte foi aplicada a primeira prova do PAS, que trouxe, segundo Rabelo, diferenças marcantes em relação aos processos anteriores. E o marco não se restringiu apenas àUnB. O modelo de avaliação interdisciplinar e contextualizada do PAS nunca tinha sido oferecido no país.O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) segue princípios parecidos com os apresentados na avaliação seriada,massó foi criado dois anos depois. %u201CAUnB foi pioneira no estabelecimento de provas contextualizadas no processo seletivo, por intermédio do PAS%u201D, afirma. Rabelo lembra uma das características mais importantes do PAS, a de ser uma %u201Cavaliação processual e longitudinal, que contempla o esforço do aluno ao longo dos três anos de escolaridade, e não apenas num momento específico da formação%u201D. Outro dos principais objetivos da prova era aproximar a universidade do ensino médio. Desde o início, a proposta de criação da avaliação foi discutida com a Secretaria de Educação doDistrito Federal. %u201CÉ claro que o PAS nunca objetivou fazer isso em termos nacionais, mas podemos dizer que, em termos locais, ele conseguiu cumprir a sua finalidade, de integrar a universidade coma educação básica%u201D, ressalta. Passaporte para os alunos de escolas públicas? Segundo a diretora técnica de graduação da UnB, Denise Imbroisi, a proporção de alunos deas duas redes de ensino na universidade é semelhante.Mas o número não é revelado pela UnB. O desequilíbrio, segundo a decana, acontece dependendo do curso. Ela explica que, normalmente, nos cursos que possuem maior demanda, há predominância de alunos que vieram de escolas particulares. Geronilson da Silva Santos, aluno do 3º ano do Setor Leste, dá maiores detalhes. %u201CNão temos a mesma quantidade de simulados que os alunos da rede privada. Isso acaba afetando diretamente o nosso desempenho%u201D, critica. Críticas Ocoordenador do curso de graduação de pedagogia da UnB, Cleiton Contigio, defende que o Programa de Avaliação Seriada (PAS) peca por não oferecer as mesmas oportunidades aos alunos das escolas pública e privadas. Segundo o acadêmico, a prova é elaborada com base em um conteúdo que foge aos %u201Csaberes essenciais%u201D do ensino médio. Ou seja, a avaliação se atém a detalhes que, segundo ele, não possuem grande relevância, mas acabam por beneficiar o aluno da rede particular. %u201CEles têm uma carga horária muito maior do que os alunos da rede pública e, por isso, uma oportunidade maior de explorar melhor o conteúdo.%u201D Segundo Contigio, existe também uma grave deficiência por parte dos professores em geral ao ministrarem as aulas de maneira interdisciplinar%u201D. A prova do PAS exige que o aluno consiga resolver o problema utilizando conhecimentos de diferentes áreas. Isso tem de ser trabalhado em sala de aula.Mas, infelizmente, nossos profissionais ainda estão muito presos ao vestibular tradicional%u201D, constata. Outro ponto delicado do PAS é a iniciação muitas vezes precoce do estudante no mundo adulto. %u201CUm desempenho pífio nas primeiras provas pode ser perfeitamente contornável.Mas o aluno acaba jogando fora a oportunidade por se sentir já derrotado.%u201D Para Contigio, nesse momento o apoio da família e dos professores é fundamental para que o aluno não se sinta desmotivado. Ferramenta elitista Prestes a completar 15 anos, o PAS consagra- se ainda como um instrumento elitista para a admissão de estudantes na UnB. Basta conversar com alguns alunos da rede pública de ensino para perceber como a competição é vista como injusta pelos jovens. Para Letícia Christie Fernandes, aluna do terceiro ano do Setor Leste, a carga horária reduzida prejudica a qualidade do ensino. %u201CTemos apenas três aulas de matemática por semana enquanto a rede particular tem pelo menos cinco%u201D. A opinião da jovem é corroborada pela da colega Yohana Caroline de Lima, também do terceiro ano. %u201CA gente vê os colégios aplicando simulados todos os fins de semana. A gente não tem isso. É uma pena%u201D, lamenta. Segundo Alice Menezes, coordenadora do Setor Leste, o maior problema que os professores enfrentam na preparação de seus alunos é trabalhar o conteúdo de forma interdisciplinar. %u201CÉ assim que o PAS cobra o conteúdo. Mas nossos professores ainda estão muito ligados ao vestibular tradicional.%u201D A coordenadora acredita, também, que apenas uma reformulação profunda na rede de ensino poderia deixar os alunos da rede pública mais preparados. %u201CNão adianta colocar nossos profissionais em um curso de 20 horas. Temos realmente que investir em formação para podermos colher bons resultados. Senão, chegar a ser desanimador, tanto para o professor quanto para o aluno%u201D. O professor de biologia Jamir Batista ilustra bem essa situação. Com 38 anos de sala de aula, o acadêmico diz que não sentiu muita diferença no empenho dos alunos com a criação do PAS. %u201CInfelizmente, são tão poucas vagas e nossa condição é tão limitada que até os alunos acabam se desestimulando%u201D. Mesmo assim, o professor não é contra o programa: %u201CPodia ser melhor, mas melhor com o PAS do que sem ele%u201D. Basta, no entanto, cruzar a cidade para ver o avesso dessa realidade.. Conversando com alunos do Colégio Mackenzie, localizado em um dos bairros mais nobres de Brasília, fica claro que a aprovação do PAS não é um sonho distante. Gabriela Castro Freire, 17, aluna do terceiro ano, diz que complementa seus estudos com aulas no período da tarde. %u201CSe eu não passar de primeira, vou fazer cursinho. Meus pais me apoiam nesse sentido%u201D, garante. Sentado ao seu lado, o colega André Lara Rezende concorda e lembra que o PAS também é muito restrito, por selecionar alunos apenas para a UnB. %u201CNesse aspecto, eu prefiro o Enem, que permite a entrada em várias universidades federais por todo o país.%u201D Fala, estudante! O PAS fez você estudar mais durante o ensino médio? sonobrrasil Juliana Silva de Deus, 17 anos, 3º ano, Setor Leste %u201CAté que sim. Eu me preparei para o PAS fazendo os deveres de casa e estudando as matérias em que tenho mais dificuldade. Minha família também acompanha de perto. Minha mãe cobra bastante que eu estude.%u201D Geronilson da Silva Santos, 17 anos, 3º ano, Setor Leste %u201CSim. O PAS ajudou muito, pois o programa traz outras abordagens. São assuntos que a gente não estudaria nem se dedicaria a aprender, normalmente. É preciso sempre procurar novas fontes de conhecimento.%u201D Natalia Paloma Rodrigues, 16 anos, 2º ano, Setor Leste %u201CSim. Escolhiumdia na semana para ficar sozinha na biblioteca e estudar para o PAS . Não tinha o costume de fazer isso. E não se adianta sentar com amigos ou ficaremcasa porque não rende.%u201D André William, 17 anos, 3º ano, Setor Leste %u201COlha, no primeiro ano, eu estava até incentivado a estudar. Estudei bastante. Mas já não foi a mesma coisa para a segunda etapa por causa da minha primeira nota. Eu acompanho as aulas e tento estudar em casa, mas não tenho horário certo.%u201D Fique ligado Inscrições /Pas e vestibular As inscrições para o 1º vestibular de 2012 e o PAS podem ser feitas no período de 26 de setembro a 16 de outubro. Na mesma data, os candidatos poderão se inscrever para os processos de certificação de habilidades específicas, proficiência em inglês e espanhol, transferência facultativa para o 1º semestre de 2012 e admissão de portadores de diplomas de ensinos superiores. Quatro novidades pra já! O Conselho Universitário da UnB aprovou, na semana passada, cinco novos cursos %u2014 sendo que quatro já passam a valer para o primeiro semestre de 2012 %u2014 num total de 170 vagas. São eles: engenharia aeroespacial, engenharia química, teoria crítica e história da arte, além de bacharelado em educação física.O curso de fonoaudiologia, embora também faça parte da lista, só abrirá suas matrículas a partir do segundo semestre de 2012.