Com uma filha nos braços e sem emprego, Janinne Naide Cassimira de Souza sonha em voltar aos bancos escolares. Nascida em Tocantins, mudou-se para Goiânia aos 12 anos, sozinha, para trabalhar em uma oficina de costura. Aos 16, vivia em São Paulo atrás de um balcão como operadora de caixa. Lá, engravidou e abandonou os estudos. Estava apenas na 1; série do ensino fundamental. Sem ajuda do pai da criança, mudou-se para o Distrito Federal, onde deu à luz uma filha. Depois do nascimento de Ana Beatriz, já aos 17 anos, tentou voltar para a sala de aula. Moradora do condomínio Sol Nascente, região de Ceilândia marcada pela violência, tinha uma rotina dura entre a casa e o trabalho. ;Chegava por volta da meia-noite. Era muito perigoso;, lembra. Sem opção, Janinne chegou aos 18 anos fora da escola e sem dominar a leitura.
Pedro*, 15 anos, teve motivos diferentes para abandonar a escola. Depois que um câncer matou o pai, sentiu-se desmotivado para continuar estudando. O garoto, porém, quer voltar no próximo ano, depois de reprovar a 2; e a 7; séries. ;Eu sei que não dei meu máximo e agora quero melhorar;, afirma. ;Pretendo ser advogado ou jogador de futebol;, revela. Morador de uma região de baixa renda, o jovem frequentava uma escola cheia de problemas, como estrutura precária e a presença das drogas.
Outra realidade
Também aluno do Senai, Willyston Rême já deu os primeiros passos de uma trajetória profissional que promete ser brilhante. Aos 15 anos, entrou para o primeiro curso técnico, de edificações, onde descobriu a paixão pelos sistemas elétricos. Hoje, aos 18, prepara-se para concorrer a medalhas na Olimpíada do Conhecimento, em novembro, e conquistar uma vaga para a competição mundial, que será disputada em 2013, na Alemanha. Para isso, a jornada de estudo e prática é longa: vai das 8h às 22h, de segunda a sábado. ;É um aprendizado imenso, que eu não adquiriria de outra forma. Além do mais, a Olimpíada vai me dar visibilidade e uma chance de colocação melhor no mercado;, diz.
O baiano Diego da Silva Oliveira,23, já tem certificados dos cursos técnicos em comércio e em secretariado, além de formação profissionalizante em gestão financeira, em vitrinismo e em moda. Também serão agregados em breve ao seu currículo os certificados de conclusão na graduação como tecnólogo em logística e no inglês. ;Estou me aperfeiçoando para entrar no mercado e seguir uma carreira na área de comércio. Cursos técnicos aliam a teoria à prática e moldam o aluno para ser um bom profissional;, afirma.
Essas diferentes realidades são resultado de uma soma de fatores que precisam ser revistos no Brasil. É preciso que as políticas públicas e as iniciativas privadas invistam desde a infraestrutura aos modelos educacionais. ;A gente precisa rever também a organização do trabalho pedagógico: o professor tem pouco tempo para ensinar. Quando o estudante começa a entender, já é o fim da aula;, defende Sandra Tiné, subsecretária de Educação Básica do DF. E isso é uma questão de repensar as estratégias para o futuro do Brasil. ;Melhorar o nível educacional da força de trabalho é aumentar o potencial de competitividade do país;, conclui José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos.
Promessa de mudança
O secretário de Educação Básica do MEC, César Callegari, diz que a educação no país vai melhorar. Ele reconhece os problemas, mas acredita que, depois da instituição de cotas nas universidades para alunos de escolas públicas, mudanças na gestão, em infraestrutura e no material didático podem melhorar a situação. ;Os estudantes não vão chegar à universidade despreparados. A maioria dos que estão no ensino médio estuda em escolas públicas. A reserva de 50% de vagas vai selecionar os melhores;, argumenta.
Nomes fictícios em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente