Se você acha que ter um currículo de dar inveja e se vestir adequadamente já é o suficiente para causar uma boa impressão no trabalho, não faz ideia da quantidade de informações que podem ser extraídas de um simples gesto. Além de raiva, nervosismo e ansiedade, atitudes como cruzar os braços e desviar o olhar podem indicar, por exemplo, que a pessoa não está disponível para discutir um determinado assunto. A atitude corporal é um reflexo da personalidade de cada um, e, no ambiente profissional, ela indica até mesmo a maneira como um funcionário pensa e tende a agir em determinadas situações.
;Saber interpretar as mensagens não verbais dos colegas, chefes e parceiros de negócios é fundamental para o sucesso no trabalho;, explica o coordenador do Instituto de Formação e Pesquisa Wilhelm Reich, Henrique Rodrigues, analista psicocorporal que estuda as relações entre o corpo e a mente há 30 anos. Segundo ele, os dados expressos pelo tom de voz e pelos movimentos dizem muito mais sobre uma pessoa do que o que ela verbaliza. Por isso, ao lidar, no dia a dia, com um cliente ou com o chefe numa negociação importante, todo cuidado é pouco.
Um aperto de mão é capaz de dizer se a pessoa tende a ser mais submissa, autoritária ou cooperativa; o nervosismo, natural em uma entrevista de emprego ou em uma apresentação em público, pode ser neutralizado seguindo dicas como a de andar de forma ereta, não cruzar os braços e olhar diretamente para a plateia. Numa reunião importante, o melhor é se sentar em uma posição voltada levemente para a esquerda em relação ao interlocutor, e nunca assumir a postura da ;catapulta; (veja a ilustração). Os gestos negativos, como cruzar os braços e os pés, também devem ser evitados, sugere o especialista.
Dicas como essas foram listadas no livro A linguagem corporal no trabalho, que acaba de ser lançado no Brasil. A obra dá sugestões sobre práticas que costumam passar despercebidas nas atribulações do cotidiano e foi escrita por gurus da comunicação, o casal australiano Allan e Barbara Pease, autores de inúmeros títulos sobre o assunto. ;Quando alguém desabotoa o paletó durante uma reunião, é razoável supor que ele também abriu sua mente; e ;sentar-se com os cotovelos apoiados nos braços da cadeira é uma posição de poder que transmite uma imagem de força e de integridade;, ensina o manual, que aborda a linguagem do corpo no trabalho tanto para homens quanto para mulheres.
Para que sejam levadas a sério, elas não devem exibir demais a feminilidade em encontros profissionais. Já eles precisam ficar atentos à maneira como se sentam. Se há um relacionamento amoroso no escritório, é melhor manter as demonstrações de afeto longe do ambiente profissional, mesmo durante os eventos informais. Além disso, o sorriso é um ótimo recurso para resolver impasses, mas deve ser usado com moderação.
Sem deslizes
Sugestões como essas são preciosas no dia a dia de Fabiano Silveira, 28 anos, gerente de Contas de uma empresa de telefonia móvel em Brasília. Espontâneo e brincalhão, ele sabe que precisa manter o controle das atitudes para imprimir a imagem de confiança e responsabilidade que o cargo exige. ;Às vezes, sei que preciso segurar minha onda, senão ninguém me leva a sério;, conta. Para atingir os resultados desejados no trabalho, o gerente procura diminuir o tom de voz e conter os movimentos ao falar com os colegas. O vocabulário também muda, e soltar aquela gargalhada exagerada, nem pensar. Para ele, o Fabiano do escritório e o Fabiano do bar, das piadas, da postura mais relaxada e das brincadeiras, coexistem num só, e um não pode ocupar o espaço do outro.
Por isso mesmo que é tão difícil estar sempre no controle da situação. ;Ninguém consegue segurar a postura técnica o tempo todo;, destaca Délcia Vital, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), que estuda a linguagem do corpo no mundo corporativo. Ela explica que, no trabalho, assim como fora dele, a naturalidade é importante para que as relações sejam vivenciadas de forma genuína. ;Parecer falso ou mecânico demais pode ser um ônus muito grande para quem investe em se mascarar com muito afinco. Se você diz uma coisa e o seu corpo diz outra, há algo errado;, analisa a especialista. Fabiano concorda. ;Algumas vezes, faço coisas involuntárias. Não dá muito para controlar. Mas procuro não exagerar demais, e, com o tempo, essa postura no trabalho acaba ficando automática.;
Espelho, o melhor amigo
Para não cometer nenhum deslize, o melhor é treinar e tentar controlar a parte consciente dessas atitudes. ;Se você precisa ir a uma reunião decisiva para a sua carreira ou para os negócios da empresa em que trabalha, pratique na frente de um espelho a maneira correta de se comportar;, recomenda a diretora de Certificação Profissional da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), Andrea Huggard-Caine. Simular com um colega a situação a ser encarada pode ser um bom método de preparação.
Experiente em recrutar novos funcionários para grandes companhias no país, Andrea tem o olho treinado para identificar qualquer movimento que possa dizer algo a mais sobre o entrevistado. O alarme apita sempre que ela vê alguém de braços cruzados, sentado com a bolsa no colo, com a postura curvada ou, ainda, com pés e mãos inquietos. ;Sinais como esses tendem a ser lidos de forma muito negativa em qualquer negociação ou conversa. As pessoas parecem se preocupar muito com o que vão falar e pouquíssimo com o gestual. A primeira impressão nem sempre é a que fica, mas ela afeta a escolha de qualquer recrutador;, considera.
A advogada Anna Carolina Pinto, 26 anos, criou algumas regras no escritório onde trabalha para que os colegas não confundam amizade com profissionalismo. ;Antes, estávamos acostumados com um ambiente mais relaxado. Com o tempo, percebemos que era preciso fazer alguns ajustes na rotina;, conta. Durante o expediente, não tem cumprimento com beijo no rosto das companheiras e todo mundo se trata da maneira mais formal possível. ;Agora, me chamam de Dra. Anna em vez de Carol. Fora as convenções usuais de qualquer ambiente profissional;, lembra. Ninguém se senta na mesa de trabalho ou come na recepção. Numa reunião, as pessoas se ouvem e não se atropelam. Não há gritaria e todo mundo se entende. ;Sei que é bom trabalhar em ambientes menos sisudos, mas isso é importante para um advogado;, relata.
Na dúvida de como se portar num novo ambiente, o melhor é começar com uma boa observação. ;Ver como as pessoas se vestem, como falam umas com as outras, a maneira que se cumprimentam e se dirigem ao chefe são pistas do que você também deve fazer;, diz a diretora da ABRH Andrea Huggard-Caine. ;Saber ver e ouvir com atenção é o melhor conselho para quem precisa se adaptar às novas realidades de comportamento. Toda organização tem uma cultura comportamental que deve ser aprendida e seguida. A segurança e a confiança expressas por meio do corpo estão no nível de domínio desse conhecimento;, acrescenta a professora da UnB Délcia Vital.
Leia
A linguagem corporal no trabalho ; como causar uma boa impressão e se destacar na carreira
; De Allan e Barbara Pease
; Editora Sextante
; 144 páginas
; R$ 19,90