Nova geração de empreendedores

A possibilidade de fazer o que gosta e de conquistar independência motivou 1,5 milhão de jovens de até 24 anos a abrir o próprio negócio. Muitos enfrentam o desafio sem ter experiência no mercado de trabalho e precisam desenvolver estratégias de gestão

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postado em 11/11/2013 11:00 / atualizado em 11/11/2013 12:22

Iano Andrade
Ana Rayssa

Vinda de uma família de empreendedores, Lais Sakkis, 23 anos, cursou moda no Centro Universitário Iesb e abriu uma loja de roupas ainda durante a graduação. “É muito mais prazeroso fazer um negócio seu e ver o projeto se concretizar do que trabalhar para outra pessoa”, comemora. Antes de abrir a butique Estratosfera, que funciona em um shopping da cidade há mais de dois anos, ela já tinha dado os primeiros passos como empreendedora no fim do ensino médio, quando manteve uma banca de roupas numa feira. Depois de se mostrar tão interessada, conseguiu apoio financeiro dos pais para lançar a grife. “Eles entraram com o dinheiro e eu cuidei de todo o resto. Sem a ajuda deles, eu não teria conseguido. Agora, o negócio dá retorno, mas o progresso é lento”, afirma. Lais correu riscos, mas a inexperiência não foi empecilho para o sucesso da empresária que planeja expandir a loja com franquias.



Lais não está sozinha na estatística dos jovens que tocam um negócio. Os empreendedores de 16 a 24 anos já são mais de 1,5 milhão no país, de acordo com pesquisa do Instituto Data Popular, de 2012. O mesmo estudo mostra que 22 milhões querem empreender (veja o quadro). Movidos, principalmente, pela vontade de fazer o que gostam, eles encaram o desafio, muitas vezes, sem ter passado pelo mercado de trabalho. Para não entrar na estatística dos 60% das empresas que fecham nos primeiros cinco anos, eles precisam desenvolver estratégias de gestão, seja durante os estudos, seja em um emprego formal.

Sem medo de arriscar

A coordenadora da Semana Global do Empreendedorismo no Brasil, Marcella Barros, relata o principal motivo para a expansão das novas empresas no país, especialmente entre os jovens. “Somos uma nação inexperiente nessa prática. Vivemos, agora, a primeira geração economicamente estável, aspecto determinante para o surgimento de novas ideias. A tendência é de que as práticas empreendedoras se tornem cada vez mais comuns”, explica. Marcella ressalta ainda que a ausência de medo é o grande diferencial da população mais nova. “O temor pelo fracasso é um imenso desmotivador. Como os jovens têm menos a perder e, na maioria das vezes, o desgaste é menor, são eles quem têm arriscado mais e puxado esse segmento da economia”, comenta.

Arriscar sem o preparo necessário, porém, nem sempre resulta em sucesso. Formado em marketing pelo UniCeub, Samuel Guerreiro Falleiros, 23 anos, teve a ideia de criar uma rede social enquanto ainda cursava a faculdade e chamou três outros estudantes para serem sócios. Apesar de um longo planejamento e de gastos, o site, chamado Majoritário, só ficou no ar durante seis meses. “Não deu certo, as pessoas não tinham motivos para acessar. Todos do corpo diretor eram estudantes e não tinham dinheiro para investir”, justifica Samuel. O objetivo era fazer um site de enquetes para que o público elegesse os melhores das categorias esporte, notícia e estabelecimentos. Em esporte, Neymar foi eleito o melhor jogador, por exemplo. A frustração não tirou de Samuel o sonho de ser dono do próprio negócio. Ele fez um curso de vivência empresarial no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e planeja montar uma firma de jogos de carta, dessa vez, sozinho. “Aprendi, numa conversa com um empresário de sucesso, que, quando você tem uma boa ideia, deve fazer de tudo para guardá-la para si, juntar grana e montar o negócio, de preferência, individualmente.”

Eduardo Vilas Boas, mestre em empreendedorismo pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor da área na Empreende, avalia que dinheiro não é limitante para se tornar empresário. “Verba é importante, mas não é o principal. Ela pode vir de investidores. O jovem normalmente mora com os pais e tem menos responsabilidades. Ele pode aproveitar esse momento para se dedicar mais”, explica. Ele afirma que poucos grandes negócios se formaram sem uma equipe de sócios. “O mais indicado é achar parceiros confiáveis e complementares para dar certo”, garante.

Paciência


Motivação e coragem, características típicas dos jovens, são apenas alguns dos ingredientes para um negócio de sucesso e que, sozinhas, podem trazer mais dor de cabeça do que alegria. O gerente de projetos da Confederação Europeia de Jovens Empreendedores (Jade, na sigla em inglês), Renan Tiburzio, destaca a importância da busca pela qualificação. Não basta ter proatividade, capacidade de se relacionar e determinação, é preciso desenvolver novas habilidades. “O futuro empresário que já vivenciou a rotina de uma empresa, que conhece os processos e as demandas de um negócio, terá mais facilidade para desenvolver um projeto. É possível encontrar alicerce em cursos de capacitação, análise de cases, além de buscar apoio em organismos direcionados ao fomento empreendedor”, destaca. Para o especialista Eduardo Vilas Boas, outra característica que falta aos jovens é a persistência. “A geração Y quer tudo para ontem e desiste facilmente. Para o negócio ter sucesso, é preciso tempo”, defende.

O empresário Flávio Alves, 28 anos, usou a experiência de trabalho em empresas no Brasil e no exterior para abrir duas startups, a Flama e a Promotools. Ele vê, na geração atual de jovens, características do perfil ideal de um empreendedor. “Somos uma geração questionadora e criativa, que busca ditar o próprio ritmo e fazer o que acredita. O ato de empreender demanda muita energia, e isso os jovens têm de sobra”, pontua. Flávio acredita que a busca por autonomia e maiores desafios são combustíveis para a escolha do negócio próprio. “Abrir uma empresa é desafiador e permite às pessoas explorarem suas principais habilidades. Poder trabalhar de acordo com seus valores e fazer algo em que acredita é um fator que influencia bastante”, opina.

Outra forma de se preparar para essa empreitada é buscar qualificação ainda na universidade, como fez o administrador Tarso Frotta, 25 anos. “A vontade de ter um negócio meu era antiga, desde o início da graduação já percebia indícios da minha veia empreendedora. Pensando no futuro, além de buscar concluir a faculdade com dedicação, eu me engajei em atividades práticas, como o movimento empresa júnior e fui atrás de oportunidades de aprendizado teórico em cursos, seminários, rodas de discussão”, conta. Ele relata que ter referências de peso no mundo empresarial é importante para traçar objetivos. “Às vezes, as dificuldades ao longo do caminho são tantas que pensamos em desistir ou em mudar nossos valores. Ter boas figuras para quem olhar nos faz manter o foco e continuar caminhando sem perder o rumo.”

 

Para ler
Empreenda antes dos 30
Autores: Eduardo Vilas Boas, José Dornelas e Caio Ferraz Júnior
Editora: Saraiva
Páginas: 232
R$ 25

Série retrata cotidiano de
startups brasileiras

Para mostrar o caminho das pedras a quem decidiu se aventurar no empreendedorismo, a Endeavor lançou a série de webdocumentários Vai que dá — A cara das startups brasileiras, que reúne histórias de seis empresas de tecnologia promissoras. Com duração que varia de oito a 10 minutos, cada capítulo mostra a trajetória dos empreendedores e traz comentários de especialistas que analisam e propõem soluções para os problemas enfrentados por eles. As startups selecionadas estão em estágios variados de desenvolvimento. “O objetivo é mostrar a realidade e o exemplo de quem seguiu esse caminho, que pode ser bem difícil”, esclarece o gerente de comunicação Endeavor, Leandro Herrera. Confira aqui reportagem completa e os vídeos.