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Sentimental eu sou...

Crises de choro, mau humor contínuo e agressividade não são bem-vistos no mundo corporativo e podem até culminar na demissão do funcionário

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postado em 17/08/2014 13:04 / atualizado em 17/08/2014 13:06

Por mais que se procure manter postura racional, há momentos em que a emoção se sobressai diante dos colegas. Por problemas pessoais, pressão, frustração ou conflito no serviço, volta e meia surgem choro, mau humor e até ofensas a companheiros. Essas situações, quando recorrentes, podem afetar a equipe e ser prejudiciais à carreira de quem se descontrola.



“Demonstrações constantes de emoção não são bem-vistas no meio corporativo. A empresa não é consultório de psicologia e nem terapia”, defende o consultor em gestão de pessoas Eduardo Ferraz. “Se a pessoa, sem perceber, é agressiva o tempo inteiro, assedia moralmente os outros, chora do nada ou fica azeda por qualquer motivo, pode receber advertência ou ser demitida”, afirma.

O estresse fez com que a advogada Paloma Lima, 28 anos, passasse por uma situação desagradável com a ex-chefe. “Houve uma reunião em que ela se exaltou e apontou erros dos estagiários. Na hora da emoção, disse que eu não tinha perfil para ser advogada. Fiquei chocada e não falei nada. Em casa, chorei muito e escrevi uma carta de demissão. Depois, ela me pediu desculpas, mas resolvi sair mesmo assim”, conta.

Embora nem sempre os problemas se resolvam por meio da conversa, a consultora em gestão de pessoas Indiara Etelvina Gonçalves aponta o diálogo como solução para descontroles. “Agora, quando o exaltamento ocorre em alta frequência, talvez a pessoa não esteja emocionalmente bem ou a função esteja exigindo demais dela”, diz.

Quando o descontrole emocional de um colega interfere na equipe, especialistas são unânimes: deve-se dar um feedback sincero relatando o problema, pois nem sempre a pessoa percebe a gravidade do próprio comportamento. A psicóloga social e do trabalho Jaqueline Gomes de Jesus, do Conselho Regional de Psicologia do DF, alerta que, quando o exaltamento é do chefe, é mais difícil dar um retorno. “Como o subordinado está em situação fragilizada, cabe ao gestor buscar estilo participativo de liderança.”

O educador físico João*, 29 anos, conta que deixou a gerência de uma academia em Brasília devido ao tratamento do dono com os funcionários. “Eu me sentia decepcionado com o ambiente de trabalho e pouco valorizado com o salário. Um gerente costuma criar raiz em empresas com ambiente normal, mas, em cerca de dois anos e meio, fui o sexto que passou por esse cargo lá.”

Livre expressão
Se, por um lado, excessos de demonstração de sentimentos podem prejudicar a carreira, por outro, são parte do ser humano. Para Adriano Peixoto, presidente da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT), a ideia de que vida pessoal e vida profissional são espaços distintos, com pouca comunicação entre si, é falsa.  “Convivemos com colegas de trabalho por mais tempo que com esposa, mãe — pessoas da relação pessoal. Os colegas fazem parte do nosso ciclo de relacionamento.”

Na opinião da psicóloga Jaqueline, o indivíduo pode sim expressar emoções no trabalho. “As instituições deveriam ter psicólogos que façam atividade preventiva”, recomenda. “Deve-se procurar entender o que está havendo na vida do indivíduo e no local de trabalho que tenha provocado conflitos emocionais”, afirma.

Chefe de seção de Lotação e Gestão de Desempenho em um órgão público de Brasília, Maria* lida com servidores que querem deixar o trabalho. “Converso com a pessoa e depois com o chefe, e junto os dois para que se resolvam.” Nem sempre o encontro é possível. “Às vezes, a relação está tão desgastada que se decide pela mudança de unidade do servidor”, finaliza.

*Nomes fictícios