Jornal Correio Braziliense

Trabalho e Formacao

Engenharia de cara nova

CNI tem planos para tornar os currículos dos cursos mais práticos, com disciplinas que acompanham a evolução das tecnologias. Propostas também incluem maior ingresso feminino no setor. O primeiro curso de engenharia de inovação no Brasil está com inscrições abertas

Mais disciplinas práticas, maior integração com o mercado de trabalho e aumento da presença feminina. Essas são as propostas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), por meio da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), para modernizar o currículo dos cursos de graduação em engenharia. Apesar dos avanços na oferta de vagas na área no país nos últimos 10 anos (veja quadro), especialistas avaliam que há descompasso entre o que é ensinado nas universidade e o avanço da tecnologia. Como explica Paulo Mól, superintendente nacional do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), órgão ligado à CNI, os problemas na formação dos engenheiros começam bem antes do ingresso no ensino superior. ;Por meio de resultados em exames como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), percebemos que os alunos brasileiros têm deficiências em matemática e em ciências. Essa dificuldade chega à adolescência, fase em que os jovens decidem que curso superior fazer. Notamos também que os cursos de engenharia são elitizados. Diferentemente de outras formações, em que é possível conciliar trabalho e estudo, o turno integral das graduações em exatas pode afastar alunos que não têm condições de se manter sem estudar;, afirma.

Mais tarde, já na faculdade, os estudantes acabam se sentindo desestimulados. ;Na maioria dos cursos, os dois primeiros anos são dedicados somente às disciplinas técnicas. O aluno passa muito tempo sem ter noção prática do que está estudando;, avalia Mól. A visão do especialista condiz com a de alunos como Marcus Vinícius Leite, 20 anos, que cursa o sétimo semestre de engenharia elétrica na Universidade de Brasília (UnB). Presidente da empresa júnior Enetec, ele vê o interesse de muitos estudantes nas empresas juniores como forma de amenizar a distância entre mercado de trabalho e academia. ;Acho que muitas pessoas não estão satisfeitas com o formato do currículo;, opina. Os colegas concordam que a grade tende a ser excessivamente teórica. ;A visão do curso é muito acadêmica, pouco prática. Falta criatividade e há muitas matérias obrigatórias;, critica Lucas Rodrigues, 20. No entanto, Eduardo Gaspar Gonzalez, 21, vê vantagens no formato atual. ;A parte boa é que conseguimos ver várias áreas e temos aulas com alunos de outros cursos.;

Renan Santos Ferreira, 20 anos, do quarto semestre de engenharia aeroespacial na UnB, sente falta de mais contato com o mercado. ;É preciso ter mais incentivo para que a gente descubra o que fazer na vida profissional. Tem gente que se forma aqui e vai dar aulas de matemática e física;, critica. O colega de curso, Wolfgang Friedrich Stein, 20, faz coro. ;A UnB é uma grande referência, mas a questão é a estrutura. Aprendemos a teoria, mas não temos muita experiência prática;, conta. Já o aluno do quinto semestre de engenharia eletrônica da UnB Lucas Raposo, 19, acredita que a universidade dá suporte necessário para inovar. ;Os professores são muito capacitados, e gostei das matérias experimentais que fiz. Investir em inovação e aumentar os campos de pesquisa são fatores importantes para atrair mais recursos;, diz.

Parceria válida

Com as mudanças propostas pela CNI, Paulo Mól vê vantagens tanto para o setor industrial quanto para as universidades. ;Com parcerias entre as indústrias e as universidades, o currículo das aulas se torna vivo porque é possível trazer problemas da vida real para a sala. Em contrapartida, as empresas recebem profissionais prontos para atuar. Muitas vezes, o empregador demora a capacitar o engenheiro porque ele chega da universidade ainda sem saber como trabalhar em projetos concretos;, diz. Entre as formas como empresas podem contribuir para a formação de engenheiros, estão a construção de laboratórios, o incentivo para estágios e a colaboração em disciplinas.

Outro aspecto abordado pelo levantamento da CNI, a baixa representatividade feminina nos cursos de engenharia é algo que pode ser superado naturalmente, caso o ensino de exatas seja reforçado no ensino básico. ;Muitas mulheres deixam de aproveitar habilidades que são inerentes para a área de exatas por razões culturais. Com estímulo para matemática e ciências na educação básica, independentemente dos sexos, essa diferença deve ser atenuada;, avalia Mól.

Burocracia x progresso

Alessandro Oliveira, diretor do câmpus da UnB no Gama ; onde são oferecidos os cursos de engenharia aeroespacial, automotiva, eletrônica, de energia e de software ;, explica que cerca de 30% das matérias são flexíveis, ou seja, a ementa muda de acordo com o que surge de novo. ;Os próprios alunos cobram que os professores estejam atualizados. Os docentes devem ser estimulados a fazer reciclagens e ter contato com colegas em congressos, pois a pesquisa é o grande motor da inovação;, diz. Ele acredita que a burocracia prejudica a inovação na universidade. ;As grandes pesquisas saem das universidades federais, mas nós estamos amarrados. É um contrassenso falar em inovação: precisamos comprar equipamentos de ponta, mas a legislação existente é arcaica, como a Lei n; 8.666/1993 ; Lei de Licitações ;, que cria impedimentos junto dos órgãos de controle. O foco está na lei, o que não é errado, mas acaba tornando longa a aquisição de equipamentos;, explica. Nos processos de licitação, o prazo entre o pedido e a obtenção de um serviço pode levar meses, já que há concorrência entre diversas empresas, e a escolha de determinada marca ou produto deve ser justificada.

Inovação
Com inscrições abertas, o primeiro curso de engenharia de inovação do país será ministrado no Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec), em São Paulo. A matriz curricular inclui formação básica, técnica e científica, capacitação em engenharia e empresarial e, por fim, um módulo de aprofundamento profissional, que inclui estudo mais completo sobre tecnologia da informação, gestão da inovação, energias renováveis e geologia, petróleo e gás. De acordo com o diretor da graduação, José Marques Póvoa, a ideia é formar, profissionais multiespecialistas, em cinco anos. ;Entendemos que o aluno precisa ter conteúdo humanístico, econômico e das ciências exatas, que são a base da engenharia. O diferencial do currículo é o aprendizado focado no estudante;, explica. ;A função do engenheiro de hoje é ser um eterno estudante. Em áreas como a computação, as mudanças ocorrem muito rapidamente. Por isso, o curso possui disciplinas optativas que se atualizam com as tecnologias;, completa. A graduação foi autorizada pelo Ministério da Educação (MEC) e, segundo Póvoa, os egressos não deverão enfrentar problemas para se registrar junto dos conselhos profissionais.

O conselheiro do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e membro da Comissão de Educação e Exercício Profissional (CEEP), Daniel Salati, comenta que o órgão analisará as diretrizes curriculares do novo curso e deve definir as atribuições profissionais dos formados. ;A inovação é o resultado dos avanços da pesquisa e da prática científicas. Acreditamos que é viável a criação de uma graduação em torno desta linha de investigação, tanto que já teve aprovação do MEC. Essa é uma medida que deve considerar a importância de investir em novas estruturas curriculares, que abranjam cenários como o empreendedorismo e a ética, entre outras possibilidades de pesquisa;, diz.

Na primeira turma do curso de engenharia de inovação do Isitec, com 60 vagas, todos os selecionados receberão bolsas integrais, patrocinadas por indústrias parceiras. Para o professor José Luís Landeira, que ministrará aulas de linguagens no curso, a diversidade é um dos destaques da graduação. ;O trabalho que fazemos é interdisciplinar. Uma das novidades é, por exemplo, a realização de aulas com dois ou três professores, de diferentes áreas, sobre o mesmo assunto. Houve muito tempo e empenho na preparação dessa formação;, garante. A disciplina lecionada por Landeira abordará diversas manifestações da linguagem, passando por temas como arte, textos verbais e não verbais e escrita técnica.

Os próprios alunos cobram que os professores estejam atualizados. Os docentes devem ser estimulados a fazer reciclagens e ter contato com colegas em congressos, pois a pesquisa é o grande motor da inovação;
Alessandro Oliveira, diretor do câmpus da UnB no Gama


Para saber mais
O Dia do Engenheiro, do Arquiteto e do Agrimensor foi comemorado na última quinta-feira (11). Nessa data, em 1933, foi promulgado o Decreto Federal n; 23.569, que regula o exercício das três profissões. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) também foi criado pelo decreto

Inscreva-se

Graduação em engenharia
de inovação do Isitec
Inscrições: pelo site www.isitec.org.br/page/processo-seletivo/MS00 até 5 de janeiro de 2015
Taxa: R$ 35
Número de vagas: 60 (todos os selecionados da primeira turma do curso terão bolsa integral)
Etapas: Os candidatos passarão por testes de aptidão lógica on-line, redação (prova presencial) e avaliação da nota do Exame Nacional do Ensino
Médio (Enem)
Data da avaliação presencial: 22 de janeiro de 2015
Resultado da 1; chamada: 1; de fevereiro de 2015
Início das aulas: 23 de fevereiro de 2015

Curso aberto de introdução à engenharia de produção
A plataforma de ensino Miríada X oferece um curso aberto, on-line e gratuito de introdução à engenharia de produção. Com duração de seis semanas, sendo 3h30min/semana, as aulas foram desenvolvidas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Para fazer o curso, basta ter conhecimentos de matemática e física de ensino médio. Inscrições pelo site www.miriadax.net.