Como a tecnologia vai revolucionar o emprego?

A Quarta Revolução Industrial já começou e, em apenas três anos, deve fechar 7 milhões de vagas no mundo. Profissões como as de motorista, caixa de supermercado, bancário e contador correm o risco de ser extintas

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postado em 28/01/2018 07:55 / atualizado em 11/02/2018 17:02

Reprodução/Internet

Não é de hoje que o desenvolvimento tecnológico gera medo e fascínio. Ao passo que a evolução de máquinas desperta curiosidade, as transformações provocadas por elas tiram muita gente da zona de conforto, pois implicam mudanças para a sociedade, que deve se adaptar a uma nova forma de trabalhar — aliada a robôs e a inteligência artificial. As projeções de especialistas mostram tendência no aumento de empregos associados às inovações computacionais. Haverá ainda carreiras novas, a serem criadas a depender das tendências tecnológicas — 2 milhões de vagas (especialmente, ligadas a computação, engenharia, arquitetura, matemática, mídia e entretenimento) devem ser geradas, na expectativa de especialistas. Quem não se preparar para o contexto contemporâneo poderá ter problemas, ser forçado a se adequar e, em último caso, até ser substituído por máquinas ou por pessoal capacitado para operá-las.

Segundo estudo do Fórum Econômico Mundial (FEM), até 2021, pelo menos 7 milhões de empregos podem ser extintos por causa das transformações tecnológicas e financeiras que se passam pelo mundo. Neste século, termos como internet das coisas, sistemas ciberfísicos, computação em nuvem, nanotecnologia, impressão 3D, robótica e ciberdependência passam a fazer parte do cotidiano. Klaus Schwab, fundador e presidente do FEM e autor do livro A Quarta Revolução Industrial, formulou em 2016 o conceito de indústria 4.0, que promete mudar o mundo como o conhecemos. O pesquisador alemão garante: vivemos agora a nova revolução industrial. No século 18, máquinas a vapor e de fabricação de tecido reinventaram a forma de se fazer comércio. Na segunda metade do século 19, a incorporação da energia elétrica às fábricas acelerou e barateou processos produtivos.

Fabrice Coffrini/AFP
 
Entramos na era digital no século 20, período em que  computadores começam a entrar em cena. Tendo em mente um cenário disruptivo ainda em fase inicial, o caderno Trabalho e Formação Profissional inicia hoje a série de reportagens “A revolução tecnológica”. Nos próximos domingos, leitores poderão conferir matérias sobre as profissões, o ensino e o jeito de trabalhar do futuro. Semanalmente, serão publicados conteúdos para esclarecer as transformações laborais e educacionais pelas quais passamos e passaremos. A tendência é de que paradigmas atuais de empresas, escolas e universidades sejam rompidos dentro dos próximos anos, o que exige olhar atento e preparação da mão de obra para novas necessidades.
 
 
 
 
Humanos serão trocados por máquinas?
O que você está lendo agora poderia ter sido escrito por uma ferramenta de inteligência artificial — o jornalismo, assim como várias outras áreas de trabalho, pode passar a ser exercido por equipamentos e softwares que vêm sendo desenvolvidos mundo afora. O primeiro robô jornalista do Brasil, o Medir do Poder, está sendo construído pelo projeto de inteligência artificial Operação Serenata de Amor para acompanhar o que se passa na Câmara dos Deputados. O objetivo é que o dispositivo produza pequenos textos sobre a tramitação de projetos de lei. A eficiência de grande parte das máquinas é imbatível: compilam informações, diagnosticam e calculam resultados em poucos instantes e sem pausas. Diante desse cenário, as pessoas podem se tornar obsoletas em inúmeras atividades — o que não significa dizer que perderemos empregos para robôs.
 
Kiva Systems/Divulgação
 

É urgente a necessidade de que profissionais saibam manipular dados e programar softwares para acompanhar o processo evolutivo da nova indústria. Criatividade e interpessoalidade serão atributos cada vez mais desejáveis, pois ainda estão longe de serem alcançados por dispositivos, mas serão conciliados aos aparelhos emergentes. Uma coisa é certa: a invasão automatizadora vai ocorrer e a sobrevivência no mercado depende da sua capacidade de se adaptar.  Pesquisa de 2017 feita pela consultoria multinacional EY revela que uma em cada três profissões existentes hoje deve sumir do mapa até 2025. Ocupações braçais que põem em risco a vida humana e cujos processos e lógicas são previsíveis têm grande propensão a serem automatizadas nos próximos anos. 
 
STR/Divulgação
 

O cenário futurístico está mais próximo do que imaginávamos e várias mudanças começaram. “Tarefas manuais que demandem esforço repetitivo têm maior potencial de robotização e, consequentemente, de desmobilização de mão de obra em favor de inclusão de robôs”, conta Oliver Kamakura, sócio executivo da EY, pós-graduado em gestão de negócios pela Universidade da Califórnia. Você pode estar pensando que se tratam de máquinas com duas pernas e braços, corpo ereto, cabeça, semelhantes à figura humana (humanoides), mas a realidade é outra. Mecanismos compactos e precisos deslizarão por galpões movendo cargas em velocidade sobre-humana, como os robôs alaranjados Kiva, adquiridos pela Amazon em 2014 e utilizado em 20 armazéns da empresa; eles pesam 145kg e chegam a carregar 340kg. Drones entregarão cartas, pizzas e encomendas, além de sobrevoar áreas inteiras mapeando e fotografando.
 
You Tube.com/Reprodução da Internet
 

Carros autônomos com sensores avançados farão com que dirigir seja atividade ultrapassada. Aplicativos de smartphones serão cada vez mais usados como meio de transações bancárias, pagamento, check-in em voos e compra de passagens. Psicóloga da consultoria ProCarreira e mestre em gestão estratégica de pessoas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Cristina Guerrero Moyses entende que, “assim como a indústria praticamente acabou com o trabalho artesanal, a quarta revolução transformará profundamente todas as funções laborais”. Apesar de alguns setores serem mais automatizáveis do que outros, nenhuma área sairá ilesa. “A tecnologia entrará nas nossas vidas de todas as formas. Em maior ou menor grau, todos os profissionais podem ser afetados”, alerta. Não são, portanto, apenas as pessoas menos especializadas que sofrerão os impactos das novidades.

“Mesmo dentro da medicina, por exemplo, ocorrerão mudanças. Um médico, eventualmente, deixará de fazer cirurgias para que robôs efetuem o procedimento”, prevê. “A máquina tem que ser vista como ela é: um instrumento na mão do homem”, acredita. Para Cristina, a indústria sem participação de pessoas é cenário improvável. “O ser humano será o direcionador desse aparelho. Trabalhos operacionais, provavelmente, entrarão em extinção. No entanto, o profissional que tiver visão mais estratégica, ampla e sistêmica conseguirá passar por essa mudança de forma mais tranquila”, afirma. “Se tomarmos como exemplo, digamos, um drone, será necessário ter um operador para direcioná-lo e para aumentar a capacidade de autonomia dessa tecnologia. Ou seja, o equipamento não substituirá a pessoa, mas, sim, será um auxiliar na busca de imagens. Em vez de o cartógrafo pegar um helicóptero para registrar imagens aéreas, ele pode se utilizar do drone com muito mais precisão para desenvolver o trabalho dele”, ilustra. 
 
 
Metamorfoses em curso
 
 
Amazon Go/Divulgação
 
 
 
As transformações na forma de trabalhar já são presentes em empresas de diferentes setores. Elas vêm gradualmente se adaptando de forma a conciliar prestações de serviço por meios digital e físico. Muitos veículos de jornalismo, por exemplo, passaram a reservar o conteúdo impresso à cobertura mais analítica dos fatos, deixando notícias que exigem imediatismo a plataformas on-line. Tarefas mais mecânicas, contudo, podem ser desenvolvidas por inteligências artificiais. Um exemplo é o robô que integrou a equipe do jornal The Washington Post durante a cobertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016, reportando placar de jogos e quadro de medalhas pelo Twitter. “As tecnologias têm transformado significativamente os métodos e as formas de trabalho no jornalismo, mas, sempre haverá espaço para o ser humano que saberá distinguir o que é ou não notícia ao levar em conta as necessidades que a sociedade têm de se informar”, afirma o professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Fernando Oliveira Paulino, doutor em comunicação.
 
Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 
 
Outra carreira que pode ser fortemente afetada é a de bancário. As agências de bancos têm direcionado o atendimento presencial a aconselhamentos, operações de maior complexidade e resolução de problemas específicos de clientes, conforme pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) de 2017, tendo como referência dados de 2016. O estudo revela que 34% das transações bancárias são desempenhadas via mobile banking (banco móvel). Os aplicativos permitem que essas operações, além de consultas de saldo, verificação de extrato e pagamentos de contas sejam feitas onde quer que o cliente esteja, poupando custos de pessoal e manutenção de dependências. Outras 23 transações, em taxa percentual, são efetuadas por meio de internet banking. Ou seja, mais da metade (57%) desses procedimentos ocorrem no meio digital. Os espaços físicos, caixas eletrônicos e outros intermédios similares somam 33% das movimentações financeiras. Membro do Sindicato dos Bancários de Brasília, Rafael Zanon, 38 anos, teme que o advento dos aplicativos de banco resulte em demissões massivas.
 
Zaffari/Reprodução
 
 
Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 
Bertrang Guay/AFP
 
“Nos preocupa bastante a questão de mão de obra. A informatização tende a reduzir o número de empregos. Claro que não somos contra a tecnologia e o avanço, mas é preocupante”, afirma o bancário brasiliense que está há 17 anos no ramo. “É importante ter os serviços via aplicativos porque facilitam operações, mas nada substitui o atendimento presencial, que tem qualidade e humanidade e do qual muitas pessoas fazem questão”, defende. As mudanças também ocorrem nos caixas de supermercado. Alguns estabelecimentos brasileiros começaram a instalar máquinas de self-checkout (autoatendimento, em tradução livre). A substituição de caixas tradicionais, em que há uma pessoa para passar os produtos do cliente, deve ser gradual. A Amazon inaugurou uma loja do futuro em Seattle, nos EUA, na última segunda-feira (22): ao entrar, parece que você está numa estação de metrô. Ali, não há caixas: ao finalizar a compra, o cliente apenas sai dali com os produtos em mãos, sem precisar tirar a carteira do bolso. O minimercado de 167m² se chama Amazon Go e, para efetivar as compras, é preciso instalar um aplicativo da marca no celular e o registro do que foi comprado é feito a partir do monitoramento de câmeras.
 
Antonio Cunha/CB/D.A. Press
 
 
As mudanças também têm chegado ao Brasil. O Hipermercado da Rede Zaffari no bairro Higienópolis, em Porto Alegre (RS) disponibilizou, em 2016, quatro máquinas que suprimem a necessidade de interação humana para fazer compras. O cliente escolhe os itens que deseja levar e passa os produtos sozinho. Entretanto, os terminais permitem adquirir apenas até 10 itens por vez e o pagamento deve ser feito por meio de cartão de crédito ou de débito (afinal, o uso de dinheiro em espécie está em desuso e, na Suécia, o uso de cédulas já tem até data para sair de circulação: 2030). Letiane de Jesus Nascimento, 31, é operadora de caixa no Supermercado Ideal, em Samambaia Norte, e se preocupa com este cenário. “Precisa de uma pessoa, sim, para atender. Imagina alguém com o carrinho cheio de compras passando tudo isso sozinho? Não vai dar certo. Se o cliente estiver com um amigo então, não vai parar de conversar enquanto a fila cresce”, comenta a maranhense, que também lamenta as possíveis demissões. “Vai ter tanta gente desempregada. Não dá nem para pensar em uma coisa dessas. Gosto do meu serviço.”
 
Em Extinção
 
 
 
 
O que vai e o que fica?
 
 
 

 

 

*Estagiário sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa