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Em busca do equilíbrio entre gerações

Uma nova tendência de RH é buscar mesclar equipes de jovens com profissionais mais velhos. O objetivo, com a diversidade etária, proporciona ao time o melhor dos dois perfis: tanto a coragem e a familiaridade com a tecnologia dos mais novos quanto a maturidade e o conhecimento dos veteranos

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postado em 04/02/2018 14:57 / atualizado em 04/02/2018 17:34

Cinquentões cobiçados

 

Cristiano Costa/LEEHECHT

 

 

De alguns anos para cá, recrutadores e gerências têm buscado cada vez mais profissionais a partir dos 50 anos para compor equipes. Apesar de não necessariamente ocuparem cargos de liderança, os seniores funcionam como “a voz da experiência” em meio a times de novatos e ajudam a melhorar os resultados das empresas

 

A diversidade vem sendo cada vez mais valorizada entre empresas brasileiras, principalmente as de grande porte, que já entenderam que ter perfis diferenciados no quadro de funcionários gera mais resultados. Gênero, etnia, orientação sexual estão entre alguns dos fatores mais conhecidos quando se fala em pluralidade e inclusão. Há outro aspecto que, de alguns anos para cá, tem sido levado em conta: a faixa etária. Segundo Luciano Maia, diretor da consultoria Lee Hecht Harrison (LHH) no Centro-Oeste, várias instituições passaram a fazer esforço para mesclar as idades dos integrantes dos departamentos. “Estava se tornando bastante comum ter um setor inteiro formado apenas por jovens — que têm boas ideias, entendem de tecnologia e arriscam, mas carecem de bagagem — e as companhias perceberam que isso gerava problemas. Então, passaram a colocar um ‘silver head’ (que, em inglês, significa ‘cabeça branca’), ou seja, alguém mais velho, acima dos 50, no meio do time”, afirma.

 

 

Maturijobs/Divulgação

 

 

Segundo ele, a tendência, iniciada há três anos, é mais forte nos Estados Unidos e em São Paulo, mas tem chegado ao DF.  Simone Maia, consultora sênior da LHH no Centro-Oeste, acredita que essa valorização começou há mais tempo e vem aumentado progressivamente há 10 anos. “É algo ainda sutil”, comenta. Esses trabalhadores de idade mais avançada não necessariamente exercerão cargos de gestão, mas serão a voz da experiência ou o ponto de equilíbrio dentro das equipes, falando com calma aos ouvidos de jovens mais afobados. O movimento é boa notícia para veteranos, já que, por preconceito ou falta de visão, durante muito tempo, eles foram marginalizados no mercado de trabalho; tendo dificuldade de se recolocar e correndo risco de serem mandados embora à medida que envelhecem. A tendência seria um contraponto à primeira década dos anos 2000, quando as maravilhas do conhecimento tecnológico e a desenvoltura no assunto puxava a juventude, e tão somente ela, para o centro do mundo do trabalho.

 

 

Cristiano Costa/LEEHECHT
 

 

 

Aos poucos, porém, profissionais bem formados e experientes vencem essa barreira. “O boom da juventude advém do fato de a tecnologia e a inovação terem valorizado a ‘meninada’ que cresceu com esses elementos à sua volta”, observa Simone. “Não raro, aqueles acima dos 45 anos pensavam ‘Meu Deus, estou ficando velho’, mas isso tem mudado”, aponta. Entre os motivos, está também o aumento da expectativa de vida do brasileiro, que, em 2016, era de 75,8 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Esse sentimento de envelhecimento diminuiu imensamente ou mesmo acabou, em alguns casos. Não é mais fator que leva automaticamente à exclusão de alguém a uma vaga.” Apesar disso, a discriminação ainda é realidade. Atualmente, 36% dos brasileiros com 50 anos ou mais estão na ativa no mercado de trabalho, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva. Ainda assim, 81% deles acredita que exista preconceito contra os mais velhos.

 

Faixa etária discriminada

“As empresas ainda são muito fechadas. Mesmo aquelas que falam em diversidade, em geral, não incluem os mais velhos”, diz Mórris Litvak, fundador da Maturijobs, que busca oportunidade de emprego para pessoas acima dos 50. Ainda assim, sente, aos poucos, os mesmos sinais de mudança de mentalidade que anuncia Simone Maia. É parte do trabalho diário de Litvak auxiliar o reposicionamento desses profissionais no mercado, oferecendo cursos e consultoria, bem como divulgando centenas de vagas oferecidas para essa faixa etária. Em dois anos e meio de existência, a Maturijobs alcançou 580 empresas e 21 mil pessoas cadastradas na plataforma, todos procurando a melhor conexão entre oferta e procura dos “silver heads” no mercado. “Não diria que a situação está mudando completamente, mas alguns empreendimentos têm olhado mais para essa questão. Os números mostram isso e revelam também que a população está ficando mais velha e tanto o mercado de trabalho quanto o público consumidor está envelhecendo e buscando seu espaço.” O maior desafio quanto ao preconceito etário, avalia Mórris, está na quebra de mitos antigos que não se confirmam na realidade.


“Há muitas ideias falsas, como a visão de que quem tem acima de 50 anos é um trabalhador mais caro e ineficiente, lento ou desatualizado. O Brasil é um país que vangloria a juventude, mas precisa entender que há outras possibilidades.” Simone Maia pondera que a situação está mais balanceada. “Vejo equipes mais equilibradas no que diz respeito à idade, há melhor convivência”, diz. Afinal, o perfil sênior tem vantagens. “Os mais velhos, geralmente têm mais recursos perante momentos críticos, apresentando, naturalmente, mais vivência para resolução de problemas. Enquanto um jovem encara um contratempo como ‘marinheiro de primeira viagem’, o trabalhador mais experiente não se desespera.” Apesar disso, não quer dizer que a idade seja fator relevante quando o assunto é liderança. É o que observa Nayade Kenis, psicóloga e especialista em recrutamento e  performance na Vitta. Segundo ela, o que faz diferença nesse sentido é a personalidade. “Não vejo muita diferença entre jovens e pessoas mais velhas em posições de liderança, varia muito do perfil de cada um, mostrado desde cedo e aprimorado. No Brasil, há um exagero na necessidade de formar líderes. Há quem não se encaixe nesse tipo de cargo, funcionando muito bem em ocupações mais técnicas.”

 

A voz da experiência - Silver heads contam suas histórias

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

Trabalhando no meio da “garotada”
Robespierre Moreira de Sá, 53 anos, apresenta longo e variado currículo. Após se formar em engenharia mecânica pela Universidade de Brasília (UnB), aos 21, alternou, durante anos, a carreira na área e o ensino da matemática e disciplinas correlatas em sala de aula. “Trabalhei no funcionalismo público durante muito tempo, mas mantive a convicção de que tinha outro perfil”, conta ele, que é chamado de Pierre. Para se qualificar, fez mestrado e ingressou em uma empresa de telecomunicações, onde subiu de cargo ao longo de nove anos. “Mais tarde, desligado de lá, fui dar aula no curso de administração da Universidade Católica de Brasília (UCB) e, da mesma forma, expandi minha atuação da teoria à prática ao conquistar espaço como diretor administrativo financeiro.” De lá para cá, Pierre trabalhou em escolas, na Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) e em escritório de advocacia.


Ficar parado nunca esteve nos planos. Há um mês, chegou ao fim de um processo seletivo em que era “uma pessoa mais velha entre garotos”. E se saiu bem: a Diletto Café terminou por contratá-lo. “Quando cheguei, só tinha jovens — a média de idade rondando os 30 anos. Eu era o ‘vovô’ da sala”, conta, bem-humorado. Pierre não vê problema nisso. “Acredito que a minha vivência de trabalho somada à minha idade me ajudaram a ser escolhido”, afirma. “A experiência me dá serenidade, esse é o diferencial de trabalhadores da minha idade. O profissional sênior tende a apresentar soluções sem se estressar perante crises”, afirma. “Já fui uma pessoa de pavio muito curto e, hoje, vejo que não precisava fazer nada daquilo. Sempre é possível dizer algo de outras maneiras, enfrentando desafios de maneira positiva e com menor atrito”, ensina.

 

Diálogo entre gerações

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

Carlos Eduardo Pereira, 54, também tem a experiência como diferencial, ainda que não tenha migrado tanto de áreas. No setor de turismo, passou por grandes operadoras de hotéis pelo Brasil e assumiu, há apenas três meses, o cargo de diretor executivo de um clube de turismo Bancorbrás. Ali, atua numa equipe com quatro gerentes e 60 colaboradores, cuja idade gira em torno de 30 anos. Entre eles, há profissionais mais jovens a quem ele precisa se reportar. Carlos Eduardo encara a situação com naturalidade. “Sou sempre um aprendiz e procuro relação interpessoal que envolva diálogo. Acredito que a liderança dentro de uma equipe é baseada na troca de informação e experiência”, afirma.


“Em tempos de crise, o mercado precisa de bons profissionais, gente que tenha propriedade sobre o que faz. Vejo o perfil dos que têm mais de 50 anos como muito disposto e aberto”, diz. “Trabalhar com jovens deixa a gente jovem também.  Se você tem respeito e recebe respeito, pode ser chefe ou subordinado de qualquer pessoa mais jovem ou mais velha.”

 

O que importa é o desempenho

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

“Em qualquer área, há espaço para quem é competente e, na equipe ideal, há sempre mistura de faixas etárias”, opina Luiz Omar Tavares, farmacêutico bioquímico que, há 28 anos, trabalha no laboratório Sabin. Ocupando hoje o cargo de gerente científico, ele se considera, aos 64 anos, um líder natural nas equipes que integrou e integra. “Sempre tive esse perfil. Hoje, com a experiência acumulada, me aprimorei no sentido de inspirar confiança, calma, o que nem sempre tive no passado. Você precisa conquistar a equipe”, percebe. Na visão dele, perfis mais jovens e mais seniores têm vantagens e características próprias. “Quem é mais novo hoje tem mais independência, não tem medo de desafios, de sair de uma empresa e ir para outra. Isso é diferente para mim, que sou mais conservador com relação à manutenção do emprego”, avalia.