REVOLUçãO TECNOLóGICA »

Algumas profissões perdem espaço, enquanto outras se tornam promissoras

A tendência é que a Quarta Revolução Industrial promova mudanças não apenas nas carreiras: a onda computadorizada valorizará habilidades exclusivas de pessoas, entre elas empatia, liderança e empreendedorismo. Assim, profissionais que desejam se dar bem no mercado, em qualquer ramo, precisão cada vez mais desenvolver capacidades comportamentais

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postado em 11/02/2018 15:51 / atualizado em 25/02/2018 17:38

Carreiras em crescimento

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

A revolução tecnológica condena determinadas profissões à extinção, mas alavanca outras ao estrelato. Se você é piloto de drone — como Everton (foto) —, analista de big data ou cientista da computação, por exemplo, saiba que seu campo de atuação deve se tornar ainda mais promissor nos próximos anos

 

À medida que algumas formas de produzir renda se tornam obsoletas graças ao desenvolvimento tecnológico, outras, pelo contrário, despontam. Trabalhos que se baseiam em processos repetitivos e previsíveis têm alta probabilidade de passarem a ser executados por computadores. A indústria 4.0 requer pessoal capacitado para operar, compreender e desenvolver softwares e hardwares modernos, além de contemplar diferentes tarefas. Entretanto, em um mundo repleto de computadores cumprindo todo tipo de encargo, as habilidades mais intrínsecas aos seres humanos, como empatia, tendem a ser ainda mais requisitadas. As funções que dependem de intervenção da relação humana, com baixa expectativa de robotização, devem permanecer; ao passo que atividades mecânicas, como as de quem confecciona e costura roupas, se tornarão cada vez menos comuns. Designers de moda, entretanto, utilizam-se de atributo ainda longe de ser alcançado por máquinas: a criatividade.

Os professores Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, elaboraram, em 2013, um estudo encomendado pelo Citigroup intitulado The future of employment: how susceptible are jobs to computerisation? (O futuro do emprego: quão suscetíveis são os postos de trabalho à informatização?, em tradução livre). Os britânicos apontam qualidades desejáveis aos profissionais do futuro. Entre as aptidões importantes que robôs não conseguem reproduzir, estão: interação social (na hora de negociar), adaptação (uma vez que as máquinas ainda não se ajustam bem a ambientes irregulares) e criatividade (que abrange campo amplo, como criação de conceitos, poemas, músicas, teorias, receitas culinárias, piadas). Neste último quesito, o Brasil leva vantagem, acredita João Lacerda, diretor da escola de programação Mind Makers.

 

 

Flavio Santana/Divulgação
 



Ele chama a atenção para a necessidade de as empresas investirem em tecnologia e, assim, acompanharem o ritmo da nova indústria. “A criatividade brasileira é reconhecida no mundo inteiro, mas os negócios daqui precisam repensar o trabalho. Lá fora, apostam pesadamente em inteligência artificial. Quem se mantiver preso ao formato antigo ruirá”, comenta ele, ao citar a companhia Kodak como exemplo de organização que não seguiu os avanços tecnológicos e acabou por falir em 2012. A atualização é mandatória tanto para organizações quanto para pessoas. “Para manter seu lugar no mercado, o profissional precisa se diferenciar.” Segundo Lacerda, é interessante adquirir perícia em mais de uma área. “As profissões que serão criadas tendem a exigir múltiplas habilidades e conhecimentos. Quanto mais diversas forem as especializações do profissional, mais ele se destacará”, diz.


A tecnologia será “requisito consensual” na hora de empregar. “Robotização é tendência e o que está por trás do robô é o engenheiro”, observa. “Toda a parte de engenharia ligada à automação aumentará e será ainda mais valorizada nos próximos anos, especialmente para quem tiver capacidade de interligar inteligência artificial a outras áreas de conhecimento”, analisa Esther Luna Colombini, professora do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), com pós-doutorado em engenharia da computação pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Ela explica que “a natureza dessas atividades é multidisciplinar, então engenheiros associados à automação acabam tomando emprestado muitos conhecimentos da psicologia, da neurociência, da medicina...”

 

Vítor Duarte está se adaptando bem para as exigências do mercado. Desde pequeno, é curioso. O brasiliense desmontava objetos para desvendar o conteúdo deles. “Eu queria entendê-los”, explica. Por volta dos 14 anos, descobriu a engenharia mecatrônica e passou a cobiçá-la. Hoje, aos 21, está no décimo semestre do curso na Universidade de Brasília (UnB). Profissionais desta área projetam, constroem e aperfeiçoam aparelhos mecânicos e automatizados para a indústria. “Conheci muito sobre machine learning (aprendizado de máquinas, em tradução livre), área em que vou me apoiar para meu trabalho de conclusão de curso”, conta .


Áreas para apostar

Confira algumas das profissões que podem ser impulsionadas pelo desenvolvimento tecnológico

 

Drones em alta

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

A lista de tarefas que drones podem cumprir é extensa: combate a incêndios, salvamento aquático, investigação em cena de crime, mapeamento, cinegrafia, inspeção... As projeções para usos futuros das pequenas aeronaves são as mais diversas. Desde entrega de encomendas, cartas e pizzas até assistência médica, com desfibriladores que voam em direção a vítimas de ataque cardíaco. O termo “drone”, de origem inglesa, significa zangão, em função do som emitido pelas hélices do objeto. Outro nome que o designa é veículo aéreo não tripulado (Vant).

Esses equipamentos deixaram de ser apenas ferramenta bélica do governo estadunidense e passaram a sobrevoar o mercado de trabalho. Por isso, a profissão de piloto de drone tem ganhado  destaque. Para o engenheiro da computação Everton Oliveira, 40 anos, emprego e paixão se misturam. Ele era funcionário público e chegou a trabalhar com helicópteros de aeromodelo em 2010. No mesmo ano, começaram a aparecer os primeiros drones no Brasil, os quadricópteros. “Foi amor à primeira vista.” Hoje ele é dono da Multidrones, empresas de filmagens aéreas, venda de equipamento e treinamentos voltados às aeronaves de controle remoto.

Segundo Everton, a remuneração mensal desses profissionais (em geral, freelancers) costuma variar entre R$ 2 mil e R$ 9 mil. Para quem deseja seguir a carreira, ele sugere a aquisição de equipamento próprio para viabilizar treinamento contínuo. A maioria das escolas fornece o Vant durante o período de aprendizagem, que varia entre três e seis meses. “A pessoa tem que ter boa noção espacial e de distância”, afirma o empreendedor. Ele acredita que os praticantes de jogos eletrônicos costumam ter mais traquejo para operar drones. “Isso porque a musculatura dos braços e os reflexos mentais estão mais treinados. Quem joga videogame acaba absorvendo conhecimentos para pilotagem mais rapidamente.” Um drone custa entre R$ 5 mil e R$ 150 mil.

 

Dados, dados e mais dados

 

 

SAS/Divulgação
 

 

 

Já ouviu falar em big data? O termo cunhado para designar grande volume de dados está por todo lugar. Não é à toa. Segundo pesquisa elaborada pela consultoria de tecnologia da informação IDC (International Data Corporation), o universo digital dobra a cada dois anos. A progressão geométrica de informações criadas pela humanidade vem de inúmeras fontes, que incluem áudio, texto, e-mail, vídeo, cotações da bolsa, transações financeiras e o que mais você conseguir imaginar na tela do computador. “É necessário tirar valor dos dados e não simplesmente deixá-los armazenados para consultas pontuais, gerando inteligência com base neles”, observa Sérgio Zaccarelli, especialista em big data na multinacional de software SAS, formado em engenharia da computação pela Unicamp. O campo é cada vez mais atrativo no mercado de trabalho.

Os cientistas da área coletam grandes bancos de informação e os lapidam utilizando linguagens de programação, extraindo informações importantes em formato palatável. Padrões de negócios podem contribuir com estratégias empresariais.

O profissional desse campo poderá passear por diversas zonas de perícia. “A base acadêmica é muito importante, normalmente ligada a área de exatas, mas todo conhecimento a ser adquirido está diretamente relacionado ao tipo de negócio em que a pessoa desenvolve a análise de dados”, explica Zaccarelli. “É importante ter capacidade de aprender rapidamente e habilidade comunicativa para poder extrair o que é relevante. Além da base matemática e computacional, é importante conhecer bem o mercado para atrair mais vendas ou reduzir custos tendo a análise como referência”, completa. Ele cita as graduações em matemática, ciências da computação, engenharias e estatística como boas opções para quem deseja se tornar gestor de big data. A última, salienta Zaccarelli, é a mais adequada a quem aspira ao cargo, cuja média salarial é de R$ 10.689, segundo o site Love Mondays. “A faculdade de estatística é a que mais prepara, aborda os dados de modo mais prático”, diz.

 

ÁREAS PARA APOSTAR »

 

Eu desenvolvo inteligência artificial

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

A ciência da computação é outro campo que se encaixa bem nas exigências do futuro por contemplar o desenvolvimento de inteligências artificiais no currículo, acredita Isaac Roitman, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n-FUTUROS) da UnB e doutor em microbiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Conhecimentos múltiplos são requisitos para especialistas deste ramo, uma vez que esses devem se adaptar à área de conhecimento na qual aplicarão a computação, seja ela biologia, administração, economia, seja qualquer outra. Hugo Honda, 24 anos, cursa o 10º semestre de ciência da computação na UnB e trabalha como desenvolvedor na startup Legal Labs, empresa responsável por criar uma advogada virtual (inteligência artificial que faz gestão de processos jurídicos e peticionamento automático), chamada doutora Luzia. As noções que adquiriu em direito em pesquisas para elaborar a ferramenta foram fundamentais para escrever o código da solução.

 

 

 

 

Hugo fazia engenharia da computação, mas não estava satisfeito com o leque de opções que o curso abria (cujo foco está na produção de equipamentos eletrônicos). Resolveu mudar para uma carreira que “via como expoente”, sob incentivo de familiares. “Transferi para ciência da computação para não ficar preso a um setor específico. Vejo a programação não como fim, mas como ferramenta que permite trabalhar em quase qualquer campo”, justifica. “Algumas áreas passam por crise, mas não acredito que a computação passará por uma. O programador também não vai ficar longe de ser reinventado, mas acho a possibilidade de ser flexível e poder se adaptar muito atrativa”, comenta Hugo. Para ele, a essência dessa flexibilidade está no domínio de uma linguagem de programação. “Você tem um dialeto para desenvolver todo tipo de coisa. Com ele, é possível ‘conversar’ sobre tudo. Se uma linguagem computacional não der certo, posso aprender uma nova”, completa o jovem, que já foi analista de dados no Laboratório de Neurociência e Comportamento do Instituto de Biologia da UnB.

 

Seriam os androids artistas?

 

 

Reprodução/Internet
 

 

 

Reprodução/Internet
 

 

 

Um robô escritor desenvolvido por cientistas da Universidade do Futuro (Hakodate, Japão) produziu um conto que chegou a ser selecionado em concurso de literatura. O texto elaborado pelo software teve palavras e frases pré-selecionadas por programadores, assim como um tema geral. Outra invenção curiosa feita pela ING (Internationale Nederlanden Group), em parceria com a Microsoft em 2016, foi o The next Rembrandt (O novo Rembrandt, em tradução livre), capaz de assimilar traços e outros padrões do famoso pintor e replicá-los no que seria uma nova obra do artista. O mundo musical não passa impune. Vários modelos de programas computacionais capazes de “compor” vêm sendo criados. O projeto Magenta do Google, também de 2016, foi capaz de, similarmente, construir inteligência artificial que compõe músicas rudimentares de até 90 segundos. O Instituto de Tecnologia da Geórgia (EUA) criou, em 2017, o Shimon, robô que combina influências musicais diversas e produz um som inédito — capaz até de improvisar.

 

Reprodução/Internet

 

 

Marcos Santos/USP Imagens
 

 

 

O que está por trás
Isso significa que escritores, pintores e músicos estão ameaçados por tecnologias como essas? Longe disso. Máquinas criativas não estão no horizonte de projeção dos cientistas — ainda. “Esses softwares existentes são baseados nos modelos que a gente tem sobre obras de grandes artistas. Ainda tem muita força humana nesse processo. Vamos demorar para chegar ao ponto de produzir máquinas imaginativas, se a gente chegar”, explica Esther Luna Colombini. “Não é o computador que está se programando. Nada mais são do que comandos. Sempre tem lá o engenheiro de computador que programou aquilo e está instruindo o software para fazer algo”, diz Fernando Iazzeta, professor de música e tecnologia da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor em música e tecnologia pela mesma universidade. Além disso, segundo ele, “o grande barato de ouvir música é quando alguém compõe.”

 

 

 

 

 

*Estagiário sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa