Série A revolução tecnológica

Tecnologias alteram modelos de trabalho, que passam a ser mais flexíveis

Home office, ausência de vínculo empregatício, contato com profissionais do outro lado do globo em idiomas que você nem sabe falar, contratos por projetos... A indústria 4.0 impõe ao mercado remodelagem de padrões tradicionais e traz ferramentas que agilizam a rotina de trabalhadores

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postado em 18/02/2018 16:32 / atualizado em 19/02/2018 21:32

Centro Europeu/Divulgação

 

 

O futuro terá menos empregos e mais trabalho. Enquanto o primeiro termo traduz uma fonte de renda, o último remete a realização profissional e estilo de vida. Com o passar dos anos, os vínculos empregatícios começam a ser desfeitos, abrindo espaço para outras formas de gerar renda que não exigem presença física do funcionário — motoristas de Uber são um grande exemplo disso. Serviços mediados por tecnologias aumentam gradativamente; assim como contratações a distância, por projeto e por consultoria, em benefício de maior autonomia dos profissionais. As mudanças já podem ser observadas, e a reforma trabalhista aponta nesse sentido, ao contemplar ofícios flexíveis — possibilidade prevista nas legislações de muitos países. “Cada vez mais as atividades poderão ser desempenhadas simultaneamente em vários lugares”, analisa Cristina Guerrero Moyses, psicóloga da consultoria ProCarreira, sobre a maleabilidade dos novos postos. Formatos tradicionais serão substituídos por contratos esporádicos e temporários, em que o vínculo entre as partes se encerra após a entrega.“O expert pode trabalhar em dois, três lugares diferentes participando de projetos distintos. Então, essa coisa da exclusividade, a tendência é que diminua muito”, prevê.

 

 

Slack/Divulgação

 

 

Corrobora essa ideia o avanço dos canais de comunicação, que encurtam distâncias por vias digitais. Se o e-mail possibilitou a troca instantânea de mensagens via internet décadas atrás, hoje é possível traduzir em tempo real tudo dito do outro lado da tela. “Não precisa mais estar presente numa mesma região do mundo para se fazer entender. A comunicação está cada vez mais estreita e isso impacta as novas formas de trabalho”, completa a psicóloga. Desenvolvido pela Microsoft, o Skype Translator converte até oito idiomas por identificação de voz. Quando se trata de texto, as possibilidades de conversões aumentam para 50 línguas. A ferramenta permite, por exemplo, que um programador chinês ajude a desenvolver um sistema para uma empresa brasileira sem que ele saiba falar português. A computação em nuvem é outro recurso que permite que trabalhos sejam desenvolvidos em qualquer hora ou lugar. Por meio dela, é possível armazenar dados em servidores interligados pela internet. Desta forma, o conteúdo salvo em nuvem fica disponível para ser acessado em smartphones, notebooks, tablets, entre outros aparelhos que se conectam on-line. A plataforma Slack, por exemplo, é análoga a um escritório virtual.

 

 

Skype/Divulgacao
 

 

 

Funcionando como uma rede social, é possível criar salas de bate-papo sobre diferentes tópicos com a ferramenta, bem como compartilhar documentos, vídeos, áudios e mensagens — sem precisar recorrer a e-mails internos. Oliver Kamakura, sócio executivo da consultoria EY, pós-graduado em gestão de negócios pela Universidade da Califórnia, acredita que esses novos formatos vieram para ficar e decreta que as formas de se conseguir dinheiro mudarão drasticamente. “Os modelos de negócio que são fundamentados unicamente em empregar dentro de uma estrutura fixa para produzir valores tendem a ser flexibilizados. Em um mesmo ambiente, você potencialmente terá pessoas empregadas de maneira tradicional pela empresa; outras que são contratadas por projetos e ainda grupos que eventualmente colaboram sem estar fisicamente presentes.” Por isso, é preciso dar adeus aos padrões enraizados pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), inalterada entre 1943 e 2017. A reforma trabalhista, em vigor desde novembro de 2017, formaliza o home office em seu texto.

Hora de se adaptar
Em casa, na empresa, seja lá onde for feito, o trabalho envolverá manipulação e compreensão de máquinas. Quem não se adaptar corre grandes riscos de não acompanhar a evolução do mercado nos próximos anos e ficar desempregado. A onipresença de tecnologias é realidade na indústria 4.0 e os funcionários devem lidar com os avanços. Gradativamente, instrumentos como drones e inteligências artificiais estão sendo incorporados em empresas de todos os ramos. Escritórios e órgãos públicos brasileiros já investem nas novidades. Profissionais que compreendem e sabem manipular os novos recursos se destacam entre analfabetos digitais. “A tecnologia estará presente, não há alternativa. É por meio dela que os profissionais vão em busca de soluções e inovações para o trabalho deles”, prevê Cristina Guerrero Moyses, mestre em gestão estratégica de pessoas pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Ronaldo Cavalheri, engenheiro civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e diretor-geral do Centro Europeu, instituição de ensino com foco em economia criativa, afirma: “Essas máquinas vão precisar ser supervisionadas por um humano, que precisa dominá-las.” Ele chama a atenção para a necessidade de se informar sobre novos aparelhos e, assim, não ficar para trás. “É preciso estar atento, articulando e entendendo as novas tecnologias, não só as da profissão em que você atua, mas todas as novas ferramentas que pipocam por aí. É importante, ainda, participar de eventos temáticos para não ficar ultrapassado”, diz.

 

Na prática
Confira áreas em que a tecnologia chegou com tudo para trazer mais produtividade no DF

 

Advogada virtual brasiliense

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

O universo judiciário cada vez mais adere e passa por grandes transformações. Isso graças a robôs que conseguem cumprir funções antes feitas apenas por pessoas especializadas na área, como pesquisas de jurisprudência. O primeiro software desenvolvido com esse propósito foi o Ross, que se utiliza de algoritmos, fornecendo respostas em instantes com base em grande massa de documentos. Em Brasília, a empresa Legal Labs desenvolveu plataforma própria. Diogo Corvello, 29 anos, teve seu trabalho agilizado com a ajuda da Doutora Luzia, inteligência artificial desenvolvida pela startup candanga. Ela é capaz de fazer gestão e análise de processos jurídicos em massa e gerar petições. Advogado há seis anos, Diogo se formou em direito pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) e, atualmente, trabalha no escritório Carvalho Fernandes. A empresa, da qual é sócio-proprietário, aderiu à advogada virtual no início de 2017. Depois de um tempo para se adaptar a dividir tarefas com a tecnologia, ele vê aumento de eficiência no serviço que presta. “Demorou um pouco para que eu entendesse o processo do programa no início, porque é uma área que a gente (da advocacia) não conhece”, conta.

 

 

 

 

 

“O software faz o cruzamento de dados e me dá informações que preciso saber em cerca de 30 minutos. Isso facilitou brutalmente meu trabalho”, afirma. Natural de Salvador, o advogado, percebe que, agora, ele e a equipe podem se dedicar a atividades que, verdadeiramente, são destinadas a um profissional do direito. “Direcionei o pessoal do escritório ao que realmente precisa de atenção. Focar no mérito de questões processuais, em vez de analisar coisas simplórias, que não requerem formação para tal.” O período de implantação levou menos de dois meses e contou com especialistas do direito e da tecnologia. “O processo de criação do programa para o escritório foi feito a quatro mãos. O pessoal que faz os códigos no computador e a gente, que tem o conhecimento técnico sobre a matéria.” Sobre a adaptação, ele dá breve explicação de como foi feita: “Solicitávamos um relatório, por exemplo, daí a advogada virtual gerava. Depois de conferirmos, informávamos o que estava errado para fazer um ajuste fino até sair da maneira que queríamos. Demora um pouquinho para fazer essa moldagem, mas nem se compara com o tempo que a gente gastaria para lidar com todos os documentos da forma que era feita antes”.

 

Fiscalização pública com drones

 

 

Divulgação/Agência de Fiscalização do DF

 

Minervino Junior/CB/D.A. Press

 

Ed Alves/CB/D.A Press

 


As tecnologias da nova indústria, aos poucos, entram em todo tipo de ambiente de trabalho, o que requer pessoal capacitado para operá-las e compreendê-las. Os drones, pequenas aeronaves não tripuladas, têm variados usos e passaram a fazer parte do rol de equipamentos de dois órgãos públicos do Distrito Federal: Detran (Departamento de Trânsito) e Agefis (Agência de Fiscalização). O primeiro aderiu ao equipamento em dezembro de 2017 para flagrar motoristas que usam celular enquanto dirigem, mas esta não será a única atribuição da máquina. “A gente busca implantar tecnologias como essa, não apenas na área de fiscalização, mas também para ajudar na fluidez do trânsito e da segurança”, afirma o diretor-geral do departamento, Silvain Fonseca. Ele conta que uma equipe da unidade aérea do órgão foi capacitada para pilotar os drones. Também com apoio da tecnologia remota, a Agefis quer intensificar a fiscalização de áreas ocupadas ilegalmente e com aglomeração de camelôs e de descarte ilegal de lixo. O equipamento foi comprado por R$ 12 mil e os fiscais estão em fase de treinamento. Na primeira ação usando drone, a agência flagrou, em 20 de janeiro, crime ilegal no Setor Noroeste, no momento em que caminhão descartava lixo de maneira irregular e apreendeu o veículo.

 

Na mira da onda tecnológica 

Músicos ameaçados?

 

 

Marcos Santos/USP Imagens
 

 

 

Para Fernando Iazzeta, professor de música e tecnologia da Universidade de São Paulo (USP), ainda que as máquinas fossem capazes de ser criativas, músicos ainda estariam por aí. “Fazer música é questão de prazer, de o artista querer expressar algo. Ele não vai deixar de criá-las porque tem um robô que também faz”, comenta. Entretanto, a indústria musical deve sofrer grandes mudanças nos próximos anos. “Cada vez mais os profissionais da área terão de conviver com tecnologias, isso me parece uma coisa que não há dúvida.” Empresas recorrem a softwares que produzem melodias funcionais, para diversas finalidades, como trilhas sonoras de games. “Desta forma, é possível fazer música de forma mais barata no meio comercial.” O saldo, conta ele, é ter menos pessoas tocando efetivamente e mais pessoas produzindo. Além de reduzir custos, programas que auxiliam em composição são “mais ágeis, ocupam menos espaço, não atrasam no ensaio, então, terão bastante espaço no futuro próximo”, afirma. “Computadores não saem para tomar uma cerveja”, brinca.


Softwares são de grande auxílio a produtores, especialmente na criação de ritmos dançantes.

“Músicas para pista de dança são muito baseadas em repetições. Por isso, são fáceis de produzir no computador: basta pôr uma gravação para repetir e fazer pequenas modificações”, explica. Para Fernando, muitas das invenções que surgirão comercialmente no ramo devem facilitar a vida de compositores, como tecnologias de reconhecimento de acordes. Um equipamento transcreve a música para uma partitura. “Esse tipo de invenção já existe de forma embrionária e, nos próximos anos e décadas, estará bem desenvolvida e será possível ter toda a partitura ao apertar um botão”, prevê. Questionado sobre a possibilidade de afinadores automáticos se aperfeiçoarem ao ponto de não existirem mais cantores profissionais, ele contesta: “Essa é uma tecnologia que está se desenvolvendo muito rápido, é muito fácil produzir coisas no estúdio artificialmente, mas sempre vai haver o encanto por pessoas que fazem isso sem tecnologia nenhuma”. Para ele, os vocalistas que conseguem cantar sem recorrer a tecnologias são dotados de “aura”.

 

 

 

*Estagiário sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa