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Alfabetização midiática pode combater fake news, aponta professora dos EUA

Renee Hobbs está no Brasil para ministrar palestras em São Paulo e em Brasília. Ela falou com exclusividade ao Correio e explicou que a área de pesquisa dela tem tudo a ver com as notícias falsas alastradas pela internet

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postado em 11/03/2018 13:58 / atualizado em 11/03/2018 14:29

Basta de consumir mídia passivamente!

 

Arquivo Pessoal

 

De bebês de poucos meses a idosos, todas as faixas etárias têm intenso contato com mídia e tecnologia, intensificado com o advento dos smartphones. Consumir informações virou parte da rotina desde a mais tenra idade. O problema é que, muitas vezes, as pessoas apenas acessam plataformas e dados sem ter postura crítica e reflexiva. Há quem utilize redes sociais sem se dar conta de que certos conteúdos são publicitários e até notícias falsas — as famosas “fake news”, em inglês. Nos Estados Unidos, a preocupação com o assunto está em alta e tem ajudado a impulsionar um conceito não tão conhecido do grande público: alfabetização digital e midiática. A pesquisadora norte-americana Renee Hobbs defende o investimento na área, da educação infantil ao ensino universitário, a fim de formar cidadãos que possam ter mais consciência, discernimento e autonomia frente a conteúdos vinculados nas mais diferentes mídias (incluindo jornal, rádio, TV, sites e grupos de WhatsApp).


Doutora em educação e desenvolvimento humano pela Universidade Harvard, mestre em comunicação e bacharel em literatura inglesa e estudos de filme/vídeo pela Universidade de Michigan, ela é professora da Faculdade Harrington de Comunicação e Mídia da Universidade de Rhode Island e fundadora do Media Education Lab. Renee Hobbs está no Brasil a convite da Embaixada dos Estados Unidos. Na última quinta-feira (8), participou do Seminário Internacional Educação, mídia e consumo — entendendo a educação midiática e seu impacto na sociedade da informação, em São Paulo. Esta semana, tem agenda cheia em Brasília. Aqui, a pesquisadora se encontrará com representantes do governo, professores e estudantes dos cursos de jornalismo e publicidade da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Católica de Brasília (UCB), além de ministrar uma palestra na Câmara dos Deputados amanhã (12).

Não perca!

Palestra sobre Educação em alfabetização digital e midiática, com Renee Hobbs
Quando: 12 de março, das 15h às 17h
Onde:
Plenário 14 do Anexo II da Câmara dos Deputados
Informações e inscrições: 3216-5322 (falar com Camila Flores)


O que é exatamente alfabetização digital e midiática?

Uma boa definição para o termo é uma conceituação ampliada de alfabetização, que se expande para refletir mudanças em tecnologia, na cultura e na sociedade. A alfabetização vem se expandindo por 3 mil anos. Em tempos antigos, uma pessoa era alfabetizada se sabia falar e ouvir; depois, isso passou a envolver ler e escrever; e, agora, na era da mídia digital, pensamos em alfabetização midiática como ser capaz de analisar criticamente e também ser capaz de criar conteúdos com ferramentas digitais. Não é preciso ter internet disponível para isso. Eu vim ao Brasil 20 anos atrás a convite de representantes de jornais impressos e, naquela época, as pessoas estavam aprendendo a fazer alfabetização digital e midiática com jornais. Esse conceito deve refletir o tipo de mídia que está disponível em cada comunidade.

É importante que profissionais de todos os ramos tenham algum contato com essa alfabetização? Por quê?

Sim e vou dar três razões para isso. A primeira é que a alfabetização está mudando e, agora, não basta apenas falar, ouvir, ler e escrever bem, já que vivemos num mundo digital. O segundo motivo é que, infelizmente, a comunicação de massa nos treinou para sermos consumidores passivos — sabe quando chegamos em casa após um longo dia, nos sentamos e apenas assistimos à TV? E existem perigos envolvidos nisso, já que há pessoas que não são capazes de identificar quando algo é propaganda. Ser um telespectador passivo contribui para que você absorva estereótipos e mal-entendidos que limitam seu conhecimento sobre o mundo. A terceira razão: alfabetização midiática contribui para o exercício da cidadania. A partir disso, podemos pensar em nós mesmos não apenas como consumidores, mas também como produtores de mídia, compartilhando e criando nossas próprias histórias. E a internet — por meio de ferramentas como o YouTube — torna isso possível para qualquer um. Se pensarmos a partir de uma perspectiva humanística, o YouTube contribui para promover entendimento cultural, tolerância e respeito à diversidade, algo muito importante para viver numa sociedade democrática.

A alfabetização digital pode ajudar no desenvolvimento de competências comportamentais, como trabalho em equipe, empatia e liderança?

Definitivamente. E uma das ferramentas para isso são discussões sobre mídia. Quando alguém diz “meu programa de TV favorito é The Celebrity Apprentice” e você odeia essa atração, precisará aprender a respeitar, apreciar o fato de que as ideias do outro são diferentes da sua e construir a habilidade de tolerar diferenças de opinião para conseguir conviver na mesma sala e discutir. Isso é muito real. A partir de divergências de opinião, as pessoas podem começar uma briga ou, muito melhor, uma conversa e talvez até aprender uma com a outra. E o que acontece se dois indivíduos com posições tão opostas são colocados para fazer um vídeo juntos, documentando um experimento? Há muitas tomadas de decisão envolvidas: de qual ângulo filmar, como fazer o registro, que legenda usar… Para fazer todas essas escolhas, precisarão trabalhar como time e aprender a resolver problemas. São alguns exemplos das finalidades pedagógicas da alfabetização digital e midiática.

Hoje em dia, qualquer um pode ser um produtor de conteúdos. Isso é positivo?

A criação de mídia se tornou mais democrática e isso nos permite valorizar talento e autenticidade em vez de acesso a recursos financeiros. Alguns dos maiores youtubers do mundo são pessoas bastante comuns, que não têm muito dinheiro ou câmeras tecnológicas, mas a autenticidade delas é que conta. Isso muda nosso gosto quando se fala de entretenimento. Estou animada com essa realidade. Alguns dos meus youtubers favoritos são bastante jovens, mas se comunicam de maneira tão autêntica e cheia de sentido que toca meu coração. São indivíduos engraçados, realistas e fazem que com as pessoas sintam que compartilham algo com eles. E teremos muito mais disso. Youtubers podem produzir conteúdos muito úteis para a educação, apesar de muitos professores terem certo preconceito. Há muita cultura, valores e experiência humana envolvida num canal do YouTube, seja ele de alguém muito diferente de nós, seja de alguém parecido.

As escolas ao redor do mundo têm ensinado os alunos a ter postura crítica diante da mídia? Como é a situação em países desenvolvidos e subdesenvolvidos?
Vou dar três exemplos. Na Inglaterra, existe um foco forte em filmes. É muito típico que, mas escolas primárias e de ensino médio, crianças e adolescentes se engajem em atividades que envolvem ver e discutir filmes britânicos, antigos e contemporâneos. Existem pesquisas que mostram que metade das escolas do país têm um clube do filme. A produção de vídeos (animados, stop motion, documentários...) também é bastante comum. Outro exemplo é da Itália. Lá, existe uma grande diferença entre o sul e o norte, que é bastante moderno e desenvolvido. Nessa parte, a educação midiática começa nas séries primárias quando crianças aprendem sobre propaganda, cultura de consumo, celebridade, beleza, estereótipos de gênero. Elas se tornam capazes de reconhecer e analisar as informações de propagandas. E, mais importante, entendem que não é preciso comprar nada para ser uma boa pessoa ou se parecer com uma celebridade para ser bonita. O último exemplo é da rica alfabetização midiática das Filipinas. Muitas das iniciativas vêm da educação católica, já que o cristianismo é muito desenvolvido por lá. Então, nesse contexto, a alfabetização midiática toma a forma de educação de valores. Algumas vezes, a mídia apresenta mensagens que contradizem a fé, ao mostrar agressão e violência como heroicas e justificáveis. Essa abordagem filipina à educação digital e midiática se torna política. Você pode ver, a partir desses três exemplos, que essa alfabetização toma como foco que os alunos, os professores e as famílias entendam o que consomem na mídia.

Como é o trabalho de alfabetização midiática no seu país?
Nos Estados Unidos, o grande debate acerca das fake news tem tudo a ver com isso. Além disso, teorias da conspiração são uma ótima oportunidade de desenvolver alfabetização digital e midiática. Aqui, a educação digital varia de escola para escola de acordo com o estado no nosso sistema de ensino, como no Brasil. Cada comunidade tem um currículo próprio. Em geral, a alfabetização midiática se concentra num professor ou num pai que é entusiasta do assunto. Mais comumente, as crianças terão acesso a esse aprendizado entre os 11 e os 13 anos. Nós estimamos que 40% de todos os estudantes estadunidenses têm acesso a algum tipo de educação digital e midiática durante o ensino fundamental.

Os estudantes do Brasil, em geral, têm grandes lacunas até em conteúdos básicos, como português e matemática. Então, como esperar que as escolas priorizem a alfabetização digital e midiática?
Pense dessa maneira: as crianças brasileiras passam mais tempo acessando mídia do que na escola. Quem está falando com elas sobre o que aprendem e absorvem disso? Vamos deixar que a comunicação de massa controle cinco horas por dia do desenvolvimento de uma criança sem ter alguma conversa sobre as mensagens que ela recebe? Vamos fingir que o tempo que ela passa com a mídia é desimportante? É irresponsável como pai e como professor ignorar isso. Quando as crianças são estimuladas a serem críticas sobre as escolhas que fazem como consumidoras de mídias, conseguem escolher melhor. Então, por que não ensinar sobre alfabetização midiática? O que eu aprendi sobre álgebra avançada na escola, nunca mais vou usar. Mas o que eu aprendo sobre alfabetização digital e midiática vou usar diariamente.

Os professores, em geral, estão preparados para ensinar alfabetização digital e midiática?
Com certeza, não. Tipicamente, professores serão expostos à pedagogia da alfabetização midiática quando já estiverem lecionando há alguns anos. Para conseguir passar algo de forma efetiva na escola e na comunidade, existem formações específicas. No entanto, hoje em dia, com a internet, é possível ser autodidata, aprendendo a partir de sites como o www.mediaeducationlab.com, que disponibiliza materiais curriculares e vídeos.

Como o tema é tratado no ensino superior?
Nas universidades, os professores com maior chance de desenvolver o assunto estão alocados em faculdades de comunicação e jornalismo, que, tipicamente, são cursos com foco em preparação para carreira. Hoje em dia, porém, temos evidências de que a alfabetização midiática tem sido introduzida de modo mais geral em graduações superiores de outras áreas, por meio de disciplinas chamadas “tecnologia e sociedade” ou “mídia e sociedade”, inclusive fora da comunicação, como formações em farmácia e negócios. E, na verdade, deveríamos introduzir alfabetização midiática no aprendizado de um segundo idioma. Já há professores fazendo isso, pois a exposição a materiais midiáticos em outra língua pode acelerar a aquisição de vocabulário e o entendimento de outra cultura. Se alguém estiver aprendendo português, por exemplo, pode assistir a telenovelas brasileiras e observar os estereótipos e os costumes apresentados.

Existem escolas, inclusive nos Estados Unidos, que aposentaram cadernos de papel e usam apenas tablets. Isso pode acarretar alguma consequência negativa?

Eu estou segurando um bloco de notas de papel enquanto conversamos. Mas meus alunos de nível universitário normalmente preferem fazer anotações em seus smartphones ou laptops. Estamos vendo uma mudança geracional. Algo que insisto para que meus estudantes façam é trabalhar em documentos colaborativos, por meio do Google Docs, por exemplo. Para professores da educação básica, a ferramenta de escrita colaborativa é muito poderosa para apoiar as habilidades de escrita e leitura dos alunos. Por quê? Por que o docente pode comentar e dar feedback de modo muito mais fácil do que em papel. Papel é só uma mídia, e mídia sempre vai mudar, assim como as informações, as ideias e o uso da linguagem. O que importa é a comunicação.

Não saber escrever com a caneta pode trazer algum problema mais para a frente?
Eu costumava pensar sobre como a pessoa faria para assinar, num documento legal, por exemplo. Mas, hoje em dia, em alguns contextos, usa-se assinaturas digitais para autenticar documentos. Algo se perdeu e isso importa? Não! A comprovação de autenticidade permanece intacta. Saber escrever com caneta será importante para alguns grupos, como historiadores, a fim de entender documentos antigos. A tendência é de que o resto das pessoas use cada vez mais documentos digitais para se comunicar.

Com o avanço das novas tecnologias, é comum observar escolas que fazem de recursos como lousa interativa, smartphones, tablets, impressoras 3D e laboratórios tecnológicos motivo de propaganda. O simples uso de tecnologia é positivo?

É importante distinguir alfabetização digital e midiática de tecnologia educacional, que é usar dispositivos digitais para atingir objetivos educacionais tradicionais, como tarefas de casa, trabalhos etc. Existem escolas que usam tecnologia digital como símbolo de status: o colégio que dá um laptop a cada estudante é considerado, de alguma forma, melhor que os outros. Isso é em parte porque muitos temos em mente o mito de que mais tecnologia é sempre melhor. É por isso que enfatizamos que a alfabetização digital e midiática pode acontecer em escolas pouco tecnológicas. Não é só o uso da tecnologia, mas o pensamento crítico, a análise e a reflexão sobre mensagens e seus significados que importa. É preciso persuadir esses colégios a entender que, se eles vão trazer mais tecnologia, os alunos não deveriam só fazer planilhas num tablet.

Você já esteve no Brasil antes? Qual a sua expectativa para as palestras que dará por aqui?

Esta é minha terceira viagem ao Brasil. Nas experiências anteriores, conheci alguns dos mais incríveis professores com que tive contato em toda a minha vida. Eu me lembro de ver educadores trabalhando alfabetização digital e midiática no Norte do país, em lugares dos mais isolados, criando jornais com seus alunos. A qualidade do trabalho era tão alta que eu fico muito animada de voltar ao Brasil. Tantos professores daí são tão criativos e dedicados. Ainda estou pensando bastante sobre o que vou falar em minhas palestras, mas com certeza abordarei propaganda e seu papel na sociedade.