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Você tem um plano B para a carreira? Pode ser interessante pensar nisso

Ser pego desprevenido não é o melhor cenário para lidar com desemprego, falência ou outras dificuldades que podem surgir. Por isso, vale a pena pensar em uma rota de fuga para caso algo dê errado - e, muitas vezes, a alternativa será até melhor e mais proveitosa do que a primeira escolha

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postado em 22/04/2018 15:29 / atualizado em 23/04/2018 11:41

E se nada der certo?

 

De nada adianta se desesperar. Reerguer-se será desafiador de qualquer modo, mas tudo ficará mais fácil se você tiver um plano B no qual investir. O importante, segundo especialistas, é traçar uma rota alternativa mesmo quando tudo estiver bem para, em momentos de dificuldades, você poder se reconstruir, alcançando até mais sucesso do que antes

 

Arquivo Pessoal
Se você precisasse mudar de profissão ou arranjar novo emprego hoje, estaria preparado? Ter uma estratégia em mente para o caso de algo dar errado é uma maneira de diminuir as dificuldades e os sofrimentos envolvidos numa mudança forçada, seja porque você foi demitido, seja porque não conseguiu decolar em uma área de atuação, por exemplo. Trata-se do famoso plano B. Apesar de muita gente só pensar numa alternativa quando se vê em uma situação de desespero, especialistas defendem que o ideal é ter rotas de fuga mesmo quando tudo está bem. Na carreira, também vale a máxima “prevenir é melhor do que remediar”. Afinal, nunca se sabe em que contexto será necessário apostar num projeto-reserva: pode ser depois de anos na mesma empresa, ou logo de cara, ao perceber que a alternativa A não funciona.

 

 

De acordo com Marcelo Simonato, mentor de carreiras e professor de empregabilidade convidado na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o importante é estar preparado para caso precise de um segundo plano, ou mais de um. O necessário é que ele esteja organizado enquanto a primeira opção ainda está funcionando. “Meu salário serve para manter minha família. Ao decidir aderir à outra escolha, consigo planejar melhor e de forma mais consciente do que se eu tivesse ido com a cara e a coragem de repente”, explica o pós-graduado em finanças e gestão empresariais. Esse também é o conselho do psicólogo e palestrante Waldez Ludwig. “Eu não sugiro sair como o primeiro passo a ser tomado: então, primeiro fique onde está e comece a planejar”, aconselha.

 

Arquivo Pessoal
No Brasil, a maior parte das empresas não têm plano de carreira para os funcionários, conforme pesquisa do site de carreiras Catho. Como apenas 33% das companhias oferecem estrutura de crescimento e promoção definida, ter uma carta na manga se torna fundamental. “Independentemente da carreira e do cargo, a pessoa precisa ter um plano B. A gente não sabe o que pode acontecer amanhã. É importante tanto para quem tem estabilidade quanto para quem está fatigado”, explica Andréa Guedes, relações-públicas com MBA em gestão de pessoas. “Sou um exemplo disso, tinha uma carreira consolidada dentro de uma empresa há nove anos e eu sabia que devia ter um plano, mas sempre adiei idealizar outro projeto. Quando precisei, não tinha nada, e começar do zero é muito mais difícil”, exemplifica a CEO da Tárin Consultoria Empresarial

Resiliência em alta

Segundo Waldez Ludwig, que trabalhou como analista de sistemas por 20 anos, até abrir uma empresa de palestras que leva o próprio nome, mais do que ter outros planos, o profissional do futuro precisa ser multiespecialista e, assim, estar preparado caso ocorram mudanças. “Isso não é difícil para a geração que está entrando no mercado de trabalho agora, que é muito talentosa em muitos aspectos, consegue aprender rápido, sem ficar restrita a uma área só e estará pronta para mudar de ramo assim que for preciso”, aposta ele, que ministrou 2.324 palestras, cursos ou seminários, atingindo um total de 953 mil pessoas ao vivo. De acordo com Ludwig, o emprego formal perde espaço a cada dia e é necessário que as pessoas saibam lidar com essa nova realidade. “O desemprego está aumentando, mas o ‘destrabalho’, não. Eu sempre incentivo a procura por uma ocupação, porque o emprego de carteira assinada vai ficar cada vez mais complicado”, diz. Dessa maneira, será mais comum a contratação por projetos.

Arquivo Pessoal
Graduado em administração e comércio exterior, Marcelo Simonato acrescenta que a tendência é que, no futuro, todos tenham mais de uma fonte de renda. “As profissões serão ‘diaristas’. A carga de trabalho no Brasil é muito alta e os empresários não conseguem manter todos os empregados com jornadas de oito horas por dia.” Um movimento que deve ganhar força com a reforma trabalhista, a partir da regulamentação do trabalho intermitente (em que se recebe por horas trabalhadas). Discordâncias com relação às novas regras laborais à parte, o importante é se preparar para as mudanças que elas devem trazer — o que torna o plano B ainda mais vital. Para Ludwig, não é necessário temer. “Tem gente que acha que segurança é ter emprego, mas, na verdade, é ter o perfil profissional requerido pelo mercado.” Com base nisso, a preparação é essencial: faça cursos e esteja atualizado, algo que pode, inclusive, ajudar na missão de traçar uma rota de fuga.

“Estude e pesquise. Essa segunda alternativa de carreira pode ser um hobby que você exercia aos fins de semana, por exemplo. A pessoa precisa se encontrar. Pergunte a si mesmo o que o faz feliz. Se mesmo com os obstáculos, a atividade proporcionar prazer, está no caminho certo”, observa Andréa, da Tárin Consultoria Empresarial. Mais do que fazer o que gosta, para Ludwig, é necessário priorizar o que se faz bem. “O talento é determinante, e todo mundo tem um ou mais, é só descobrir e se dedicar a ele”, diz. O consultor em gestão empresarial indica que, diante de uma situação em que se precise pensar em uma segunda alternativa, é importante assumir uma postura de estudo. “Isso não quer dizer que você tenha de fazer um MBA, mas ter uma atitude de aprendizado, um exemplo: ler jornais.” Isso porque, de acordo com ele, o empregador quer saber se você está atualizado. “O profissional bacana é contemporâneo. O currículo não ajuda muito, porque é passado. O bom é saber o que vai acontecer no futuro, e alguém pronto para o que der e vier é bem-visto”, aponta.

 

Cartas na manga

 

Bridge/Divulgação
A psicóloga Magele Valdo dá dicas de como traçar e colocar em prática um plano B. Ela é pós-graduada em psicologia do desenvolvimento e em psicodrama e ciências comportamentais, gestora do X.five, frente de desenvolvimento individual do Grupo Bridge, de RH

1 Não decida a mudança em momento de crise: Às vezes, a insatisfação com a carreira é só porque você está muito cansado ou executando um projeto difícil. Antes de definir um caminho alternativo, é necessário cuidar de si mesmo e descansar. Tire férias e pratique alguma atividade que o deixe mais equilibrado.

2 Se o descontentamento continuar, é hora de se programar. Não é simplesmente chutar o balde e tentar outra coisa sem pensar nas consequências dessa decisão. Entra aí um planejamento passo a passo.

3 Pesquise: não pense que a grama do vizinho é mais verde à toa. Temos o costume de pensar que a outra profissão é que é legal, uma empresa diferente que é boa, mas, muitas vezes, isso não condiz com a realidade. Para não cair nessa armadilha, investigue. Não basta simplesmente gostar de uma atividade para entrar no ramo, tem de saber tudo que há em torno daquilo.

 

4 Tenha suporte financeiro. Se vai mudar de emprego ou abrir um negócio, isso pode demorar, então é preciso ter dinheiro para investir.

5 Faça escolhas baseadas em valores. Se seu problema é a dificuldade de lidar com as pessoas, isso pode ser resolvido. Agora, quando é uma questão de valores, dificilmente você vai conseguir se encaixar numa empresa que tenha princípios diferentes dos seus. Então, o plano tem de ser pensado a partir disso.

6 Cuide de si. Em caso de demissão, isso pode trazer um abalo muito grande. Então, para uma boa reestruturação, não contará só o currículo, mas também tudo que está em torno do equilíbrio emocional. O momento é de cuidar de si mesmo: do psicológico, do relacional, dos propósitos e dos conhecimentos.

 

Está querendo mudar de carreira? 

 

Conheça alguns sites que podem te ajudar com o planejamento

Knowe
A Knowe é uma plataforma de mentoria de carreira e aconselhamento profissional por demanda. A startup conecta profissionais a pessoas interessadas em receber orientações para a carreira e vivências reais sobre o mercado de trabalho. A ferramenta tem uma base de mais de 7 mil mentores com diversos perfis e experiências. Conheça: www.knowe.co 

Jooble
Funciona como um buscador de vagas. A pesquisa se torna mais precisa com a ajuda de um painel de filtros. Também é possível assinar uma newsletter que traz alertas sobre oportunidades adequadas às suas preferências. Conheça: br.jooble.org

EduK
Tem como principal objetivo desenvolver pessoas que querem trabalhar por conta própria. A plataforma disponibiliza cursos em áreas como gastronomia, artesanato, fotografia, beleza, moda, odontologia, negócios e variedades, além de fornecer ferramentas que auxiliam os empreendedores a administrarem negócios. São mais de 1.400 cursos ministrados por experts que podem ser acessados por meio do site ou do aplicativo disponível para Android e iOS. Conheça: www.eduk.com.br 

Escola Conquer
É uma aceleradora de pessoas que busca desenvolver habilidades como oratória, liderança, negociação, inteligência emocional, produtividade, entre outras. A organização tem unidades em São Paulo e em Curitiba. Conheça: escolaconquer.com.br

 

Tive de usar um plano B 

 

 

Conheça histórias de pessoas que passaram por situações em que foi necessário usar uma segunda opção 

Em busca de uma paixão

Antonio Cunha/CB/D.A. Press

 

Formada em ciência da computação, Mirtes Vidica Fernandes, 40 anos, percebeu que não gostava muito da própria área de atuação quando entrou no mercado de trabalho. Apesar disso, passou 16 anos em uma empresa de TI. “Eu estava bem financeiramente, só que faltava paixão. Então, procurei um coach, que me ajudou a me redescobrir e a me reinventar.”

Assim, Mirtes resolveu cursar gastronomia. “Sempre gostei de cozinhar, mas nunca tinha me aventurado profissionalmente”, conta a aluna do último semestre da graduação na área do Centro Universitário Iesb. Recentemente, ela tomou coragem e saiu do emprego, pois se sente preparada para atuar no novo ramo. Como tem uma filha pequena, aproveita o tempo extra para cuidar dela e terminar o trabalho de conclusão de curso. Depois disso, quer trabalhar com o que realmente gosta. “Antes de fazer essa escolha, planejei. Pensei muito bem no que queria, no que me fazia feliz e me motivava. A mudança traz medo, não foi fácil, mas tive muito apoio da minha família e sei que tomei a decisão certa”, conta.

Sonho realizado

Tia Sá Minidelícias/Divulgação

 

O sonho do ex-gerente de remoção hospitalar Luis Belentani, 60 anos, era abrir um negócio na área alimentícia, por sempre ter gostado de cozinhar, mas ele sentia que nunca sobrava tempo para se dedicar ao projeto. Ser demitido de uma empresa de locação e manutenção de equipamentos hospitalares aos 56 anos de idade, porém, fez com que ele tivesse de agir rápido, pois procurou uma nova oportunidade no mercado e não achou portas abertas. “Eu pensava em montar algo independentemente de parar de trabalhar, mas, com a situação, tive de correr”, conta. “Quando você tem um emprego, acaba se acomodando porque se sente seguro”, justifica. Para driblar o desemprego, o paulista pegou o dinheiro da rescisão, vendeu uma moto e fez um empréstimo para montar a Tia Sô Minidelícias, em São José do Rio Preto (SP). Luis não poderia imaginar que o projeto daria tão certo: hoje, quatro anos depois, a empresa produz 1 milhão de salgadinhos por dia e está presente em 35 cidades, a partir de franquias.

“Tudo que é feito com carinho e trabalho pode dar certo”, explica. Contar com o apoio da família na hora de mudar de rota foi fundamental. A receita é da esposa, que depois de um tempo também saiu do emprego como professora universitária para se dedicar inteiramente à empresa; o filho ajuda na gerência do negócio. Inicialmente, a produção era só de coxinhas. “A escolha foi porque tentamos lembrar a primeira vez que tínhamos experimentado esse salgado e não conseguimos, dessa forma percebemos como esse quitute está presente no dia a dia do brasileiro.” Hoje, a rede de lanchonetes também produz churros e outros salgadinhos. Luis não se arrepende da guinada na trajetória. “A pessoa tem que buscar aquilo que completa a vida dela, mesmo se para isso tiver de abandonar uma carreira de muitos anos. A minha vontade genuína era ter meu próprio negócio e trabalhar com o que eu gostasse. Quem quer isso também deve apostar em planejamento e força de vontade.”

Reinventar-se é preciso 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

 

Na opinião da contadora Cláudia Hélia da Silva, 49 anos, todo mundo é capaz de ter infinitas habilidades, basta desenvolvê-las. Então, ninguém precisa passar a vida toda se dedicando a uma única área de atuação. Ela percebeu isso depois de um baque, há 20 anos, quando entrou em uma depressão profunda. “Eu chorava porque não conseguia nem assinar o ponto e não conseguia exercer a profissão.” Na época, era servidora pública e precisou ficar afastada do Ministério da Justiça, onde trabalhava na própria área de formação, por mais de um ano. Quando retornou ao órgão, não permaneceu na função de contadora, passando a prestar apoio a colegas, pois não conseguia fazer os cálculos necessários, por questões psicológicas. Por isso, teve de procurar novos caminhos.

Com a ajuda de terapia, se redescobriu. “Comecei a pintar e a bordar, coisas que nunca imaginei fazer. Passou a ser uma renda extra”, conta. Nos dias atuais, além do emprego formal no Ministério da Justiça, e das artes que faz, Cláudia ainda atua como terapeuta corporal com a técnica Barras de Access, que visa promover o desprendimento de pensamentos limitantes que a pessoa tenha sobre alguma situação ou experiência. “Hoje, vejo essa possibilidade de investir na área de saúde, por meio de cursos. Descobri outros caminhos”, comemora. Como um investimento na nova carreira, Cláudia está fazendo um curso sobre voluntariado. De acordo com ela, o mais importante, em qualquer situação, é estar preparado para lidar com as adversidades. “Nós temos o poder de nos reinventarmos. É gostoso descobrir que você pode ser outras coisas. Se não for atrás, morrerá achando que só sabe fazer aquilo a que está acostumado”, diz.

Escape premeditado 

Arquivo Pessoal
A arquiteta Carolina Caribé, 36 anos, tinha uma carreira consolidada, o que não a impediu de largar tudo para começar do zero com a própria empresa. Carolina trabalhou em diversas firmas até perceber de qual área realmente gostava: incorporações imobiliárias, departamento que está muito mais próximo da parte de gestão do que da arquitetura em si. Carolina estava bem, tinha sido promovida recentemente a um cargo de gestão em uma construtora. Quem olhasse não diria que existiam motivos para buscar outra alternativa, mesmo assim, resolveu pensar em algo novo. “Eu estava satisfeita, mas comecei a trabalhar em um plano B porque ficava incomodada com a exigência de estar sempre disponível nos horários em que meu superior precisasse”, lembra. Assim, começou a se preparar para deixar o emprego, fazendo network e juntando dinheiro. “A gota d’água foi quando meu chefe não deixou eu ficar em um enterro, mandou eu voltar para o escritório, então pedi demissão.” Nesse momento, começou a fazer consultorias. Hoje, a arquiteta é dona da empresa Incorporação na Prática e reconhece a importância de ter se planejado. “O plano B me deu coragem para pedir para sair. Você tem que ter tudo preparado para quando precisar”, ensina. Hoje, ela mora na Alemanha, onde faz mestrado em incorporação imobiliária e gerenciamento de construções. “Meu plano B me proporcionou a chance de estudar fora, algo que eu queria havia uns 10 anos”, comemora.

 

 

*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa