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Cursos de engenharia serão reestruturados; proposta é analisada pelo CNE

O objetivo é trazer mais flexibilidade, prática, inovação e empreendedorismo às formações do setor. Mudanças, se bem aplicadas, poderão ajudar a melhorar o índice de competitividade do país, além de aumentar a empregabilidade de egressos

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postado em 15/07/2018 16:21 / atualizado em 15/07/2018 17:05

A reestruturação das engenharias

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

 

 

Proposta de reformulação dos cursos da área está em análise no CNE com o objetivo de trazer mais flexibilidade, prática, inovação e empreendedorismo às formações do setor. Mudanças, se bem aplicadas, poderão ajudar a melhorar o índice de competitividade do país, além de aumentar a empregabilidade de egressos

 

Os recém-formados em engenharia engrossam os números do desemprego brasileiro, que atinge 13 milhões de pessoas. A construção civil, a indústria e os projetos de empreiteiras têm sido bastante afetados pela crise. Como resultado, muitas pessoas que enfrentaram pelo menos cinco anos nos bancos da faculdade terminam no desemprego ou no subemprego depois da formatura. Ao mesmo tempo, empregadores se queixam de não conseguirem achar mão de obra qualificada no ramo. O dilema tem relação com a qualidade dos engenheiros que o país tem formado. E também com a quantidade, já que os cursos são marcados por alto índice de evasão.

Para preparar mão de obra capaz de atender as necessidades da atualidade, faz-se necessário atualizar a formação. Os resultados do ranking mundial de inovação Global Innovation Index GII, divulgados na última semana, reforçam essa necessidade. As graduações em engenharia afetam a capacidade de o Brasil competir no mercado internacional. O país subiu cinco posições e se classificou no 64º lugar entre 126 nações na última edição do ranking. Apesar de ser a maior potência da América Latina, o Brasil foi o sexto colocado da região, atrás de Chile (47º), Costa Rica (54º), México (56º), Uruguai (62º) e Colômbia (63º). O estudo leva em conta 80 indicadores. Uma das maiores fraquezas brasileiras apontadas pelo levantamento são as graduações em ciência e engenharia (quesito em que o Brasil ficou em 79º lugar). Para melhorar, é preciso avançar quantitativa e qualitativamente.

O Brasil tem uma relação de 4,8 graduados em engenharia por 10 mil habitantes — proporção que sobe para cerca de 16 em nações como Portugal e Chile; e para mais de 20 em países como Coreia do Sul, Rússia, Finlândia e Áustria. Para progredir, as faculdades precisam arranjar maneiras de atrair mais estudantes (um desafio, visto que muita gente se afasta dos cursos por eles serem considerados difíceis), reter os que entram (já que os índices de evasão são altos, na ordem de 50%) e garantir que eles aprendam no ritmo certo (reprovações são muitos comuns, especialmente em disciplinas de cálculo nos primeiros semestres). Para tentar reverter todos esses problemas, estão em discussão novas diretrizes para os cursos superiores da área.

A proposta tem sido tema de conversas desde o início de 2017 entre a Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), a Confederação Nacional da Indústria (MEI/CNI), a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (Sesu/MEC) e o próprio Conselho Nacional de Educação (CNE), que avalia o documento. A expectativa de Vanderli Fava de Oliveira, presidente da Abenge, é de que o CNE termine de avaliar o material este mês e que o homologue em agosto. “Assim, as mudanças começariam a ser aplicadas em janeiro do ano que vem”, explica. “Estamos trabalhando nisso há um ano e meio e, agora, chegou o momento do finalmente”, completa Paulo Barone, secretário de Educação Superior do MEC. O objetivo é que as instituições de ensino promovam mais integração entre teoria e prática e formem engenheiros que não sejam apenas bons em cálculos e conteúdos técnicos, mas que tenham também habilidades comportamentais valorizadas pelo mercado de trabalho, como liderança e trabalho em equipe. Entre as alterações propostas estão a formação baseada em competências, o uso de metodologias inovadoras de ensino e o fortalecimento de parcerias com empresas.

O mundo do emprego
A reforma vem para contornar o desinteresse em torno de bacharelados na área, desencadeado, segundo Barone, por formações muito convencionais. “O fato de a educação superior em engenharia, tanto pública quanto particular, ser muito quadradinha e pouco inovadora não condiz com as aspirações da juventude nem com os requisitos do mundo do trabalho”, diz. “Os projetos pedagógicos são muito pouco atualizados, o que conduz à evasão. Em alguns casos, no fim do quinto ano de curso, só 8% dos alunos se formam.” Paulo Barone avalia a reformulação como central, já que “a engenharia envolve alguns milhares de cursos e uma força de trabalho fundamental para a inovação no Brasil”. Segundo ele, “é preciso romper com a lógica de um curso com uma etapa básica, que massacra os estudantes, separada de uma etapa profissional”. A expectativa de uma reforma bem empregada é, no fim da cadeia, a melhora da empregabilidade. “Cursos superiores com mais qualidade que antedam melhor as demandas da economia e da juventude contribuirão para baixar o desemprego. E quando se fala em emprego, é preciso pensar nas novas formas de trabalho, com empreendedorismo e startups”, diz.

Esse é um aspecto fundamental na avaliação de Vanderli, engenheiro civil, mestre e doutor em engenharia de produção e pós-doutor em educação em engenharia. “Quem arruma emprego para engenheiro é engenheiro. Então, é preciso ter mais formados desse campo abrindo empresas. Para isso, temos de formar um engenheiro empreendedor, o que só se consegue colocando-o para lidar com situações do mundo real, problemas de empresas, ainda na graduação.” Ele avalia que, se não houver mudança, a empregabilidade se tornará um problema ainda mais gritante. “Os melhores alunos brasileiros vão para o exterior. Daqui a pouco, teremos de começar a importar engenheiros de fora.” Para que as propostas sejam de fato postas em prática, o professor aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) defende que é necessário que as faculdades tenham parcerias com empresas, valorizem os professores que investem na graduação (sendo que, normalmente, trabalhos com pesquisa e pós-graduação são critérios para ser promovido), aderir a um sistema internacional de acreditação dos cursos.

 

Palavra de especialista

Visão do empregador

“O diálogo é menos no sentido de os cursos atenderem ou se submeterem à indústria e mais no sentido de ter melhor conectividade com a realidade. Dois dos maiores problemas dos cursos de engenharia são a excessiva carga teórica e a desconexão com campos de prática. É importante haver avanço nesse sentido no Brasil, como acontece nas economias desenvolvidas, em que as universidades buscam forte conexão com o mundo real e os campos de prática. O diálogo com as empresas é importante na parte de estágio e para que não se perpetue um problema que temos no Brasil, onde os empregadores dizem que demoram até dois anos para qualificar engenheiros formados pelas universidades brasileiras. O que é uma ineficiência competitiva para o país e uma inadequação do processo formativo. O papel da universidade não pode ser só formar pessoas para o setor produtivo, mas isso não pode ser ignorado. Com a melhora desses cursos, todo mundo sai ganhando, os estudantes, os empregadores, a sociedade e o território brasileiro, já que é um fator de competitividade e de atração de investimentos. O desemprego entre recém-formados também cai com o avanço nas graduações, com emprego direto e empreendedorismo, que é o grande formato do futuro.”

Rafael Lucchesi, diretor de Educação e Tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além de
diretor-geral do Serviço acional de Aprendizagem ndustrial (Senai)

 

A visão de quem saiu da faculdade

Engenheiros contam experiências com a graduação e o mercado de trabalho e opinam sobre as propostas de mudança de currículo para cursos da área

 

EM BUSCA DE EMPREGO

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

 

Falta prática
Laila Beatriz de Morais Passos, 23 anos, se formou em engenharia elétrica em junho e está em busca de emprego. “Sempre entrego currículos, mas ainda não obtive retorno”, lamenta a moradora do Recanto das Emas. Para ela, o que dificulta a procura por uma vaga é a falta de experiência. “Nenhum recém-formado terá os requisitos que as empresas pedem”, reclama. A engenheira eletricista acredita que um grande problema dos cursos da área é partir para a experimentação apenas nos últimos semestres, sendo que seria mais proveitoso mostrar como é a profissão na prática logo nos primeiros períodos.

“É complicado você só ver algo da área no fim da graduação. O cálculo, muito presente nos primeiros ciclos, ajuda a visualizar melhor algumas situações, o que não impede de conciliar matérias de engenharia elétrica mesmo com essa parte”, diz. Na experiência de Laila, inovação foi um tema apenas “pincelado” nos 10 semestres da faculdade. “Entre uma aula e outra, os professores nos atualizavam, contando sobre algum novo programa e explicando rapidamente.” Ao passo que a jovem percebe que alguns elementos do bacharelado em engenharia elétrica poderiam ser revistos, ela é cética com relação ao encurtamento do curso. “Reduzir a carga horária das engenharias é algo que precisa ser pensado direito, pois, antes de retirar alguma matéria da grade, é importante garantir que o conteúdo não fará falta”, acrescenta.

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

 

Períodos iniciais maçantes

Engenheiro civil desde o fim do ano passado, Pedro Henrique Cidade Feitosa, 23 anos, ainda não encontrou emprego na área. “Há oportunidades, mas poucas. E as que existem são bem concorridas. Pelo menos, no DF, tem sido assim”, diz. Enquanto não acha uma posição, o jovem tem administrado o escritório imobiliário do pai em Santa Maria. Ele sentiu falta de atividades práticas durante a faculdade, que poderiam auxiliá-lo a ter mais vínculos com o mercado após a formatura. “Os primeiros semestres são bem maçantes, pois têm muitos cálculos. Seria bom se conciliassem matérias teóricas e práticas”, afirma.

Para Pedro percebe, essa característica teórica dos períodos iniciais faz com que muita gente desista do curso. “Na engenharia civil, há vários caminhos para se trabalhar. Porém, não se tem muito contato com a área, só mais para o fim do curso, o que pode desmotivar o graduando”, explica. Apesar disso, ele reconhece a importância de se aprender bem os cálculos. “Muitas pessoas vêm de um ensino médio defasado, então, esse conteúdo na graduação é uma base. Mas isso não impede de combinar prática, teoria e projetos”, sugere. Algo de que ele sentiu falta na formação foi o contato com a tecnologia. “Na minha área, usa-se muitos programas computacionais, porém não aprendemos a mexer em vários, só em alguns. Deveriam inseri-los melhor nas aulas”, propõe.

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

 

Por mais empreendedorismo e inovação

A cerimônia de colação de grau de Danielly Freire Rolin, 23 anos, em engenharia química, foi em maio deste ano, mas os formandos pararam de ter aulas no ano passado. Por enquanto, ela não está trabalhando e está disposta a deixar a capital federal se encontrar oportunidade em outra cidade. A jovem vê nos programas de trainee o melhor caminho para não só entrar, mas se manter e se consolidar no mercado. “Eu me candidatei a vários processos e, se eu passar em algum, não tenho receio de sair daqui”, conta. Danielly nota, porém, que a situação não está fácil e que a concorrência é grande. “Os processos são muito concorridos”, percebe. Durante a graduação, a engenheira não se deteve apenas à teoria e buscou aprender na prática. “Sempre procurei estágios e trabalhei em empresas juniores, o que agregou grande conhecimento”, diz.

No entanto, a iniciativa partiu dela, não era uma exigência do curso. Danielly sentiu falta de conteúdos mais voltados à inovação e ao empreendedorismo durante os 10 semestres da formação. “Tive poucas disciplinas sobre o tema. Seria muito interessante que as faculdades de engenharia tivessem mais matérias sobre isso”, observa. Em compensação, ela acredita que a carga de disciplinas básicas foi excessiva. “Tivemos muitos conteúdos que não serão realmente aproveitados na área”, explica. Por isso, ela vê com bons olhos a possibilidade de uma reformulação nos bacharelados no ramo.

 

Tempo de curso

Ana Paula Lisboa

 

MEC/Reprodução
 

 

A parte mais polêmica do projeto de reformulação das engenharias diz respeito à carga horária: o documento prevê a possibilidade de flexibilizar o tempo de cinco anos, estabelecido como mínimo para graduações na área atualmente. “Dependendo do nível da escola, quatro anos podem ser suficientes. O Brasil nunca pensou nisso, mas os Estados Unidos formam em quatro anos. Em cinco anos, talvez, dê para fazer um MBA com a graduação”, comenta Paulo Barone, secretário de Educação Superior do MEC. Algo que ajudará nessa redução é tirar o foco de disciplinas e colocar em eixos de formação, com conteúdos ensinados de modo transversal. “Os melhores cursos de engenharia do mundo não seriam bem avaliados pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e não passariam nas diretrizes do MEC por não atenderem a carga horária mínima, que, atualmente, engessa muito”, diz Vanderli, da Abenge. “Com mais flexibilidade, seria possível deixar o último ano do curso para uma trilha de interesse do aluno, permitir que as universidades criem suas vocações, algo que, hoje, esbarra no cinturão legal.”

O tema, porém, ainda está em discussão. “É uma proposta conjunta e, no fim do ano passado, o único ponto de divergência que restou foi com relação à carga horária”, observa Vanderli. “A ideia inicial era de ter 3.200 horas e quatro anos como referencial. Isso quer dizer que seria uma referência, não um padrão mínimo. Então, nenhum curso seria obrigado a reduzir para quatro anos”, esclarece. “Nos reunimos em janeiro, e a CNI (Confederação Nacional da Indústria) defendeu permanecer com os cinco anos e 3.600 horas como referencial. E foi o que estabelecemos. No entanto, os cinco anos da proposta são referência, não padrão mínimo; então, ainda há margem para que faculdades que desejarem reduzam”, completa.

“Isso traz flexibilização para que as instituições ofereçam grades mais adaptadas ao perfil delas. E há condições de oferecer cursos excelentes em quatro anos”, defende. Segundo o presidente da Abenge, a mudança também viria no sentido de acompanhar o que ocorre no resto do mundo, já que, em outros países, é bastante comum encontrar cursos com essa duração. O objetivo, segundo Vanderli, é priorizar as competências e não a carga horária. “Até porque há muitas diferenças entre as instituições e o perfil dos alunos. Um estudante que fica integralmente por conta da faculdade pode fazer o curso em menos tempo do que alguém que só estuda no turno noturno e trabalha durante o dia”, compara. Uma vantagem de abrir margem para a diminuição no número de semestres do curso seria a possibilidade de formar mais engenheiros em menos tempo, algo importante, visto que o país precisa aumentar a quantidade de profissionais na área. Para dar certo, porém, o porta-voz da Abenge esclarece que seria necessário ter bons laboratórios. “A maioria dos cursos brasileiros são particulares e não têm laboratório — não porque as faculdades não querem ter, mas porque não têm condições e, se aumentarem a mensalidade, os alunos vão embora.”

Engenharias no país

42
modalidades

3.365
instituições

4.184
cursos

306.244
ingressos

1.024.010
matrículas

100.238
concluintes

148.117
matrículas trancadas

Fonte: Sinopses
Estatísticas da
Educação Superior, 2016

Contexto do DF
114
cursos em atividade,
dos quais 63 são presenciais

Modalidades oferecidas:
» Aeroespacial
» Ambiental
» Ambiental e sanitária
» Automotiva
» Civil
» De alimentos
» De computação
» De comunicações
» De controle e automação
» De energia
» De produção
» De redes de comunicação
» De software
» Elétrica
» Eletrônica
» Florestal
» Mecânica
» Mecatrônica
»  Química

Fonte: e-MEC

A visão de quem saiu da faculdade

Engenheiros contam experiências com a graduação e o mercado de trabalho e opinam sobre as propostas de mudança de
currículo para cursos da área

 

Trajetória consolidada

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

 

Busca por novidades

Apesar de o estímulo ao empreendedorismo ainda não ser tão forte no ensino superior brasileiro, esse foi o caminho escolhido pelo engenheiro da computação Hugo Molina, 26 anos, após se formar. Ele terminou o curso em 2016 e é sócio da IPT Engenharia, empresa especializada em diagnósticos elétricos. “O primeiro contato que tive com empresas do setor privado foi durante a graduação, quando fui estagiário. Gostei tanto que, mais para a frente, eu me tornei sócio de uma”, conta. O contato com inovação durante a faculdade foi frequente, mas por proatividade dele. “Eu decidi ser monitor bem no início do curso e foi bem na época em que chegaram novos equipamentos à universidade. Então, pude aprender antes de todos, o que me deu a capacidade de ensinar para outros alunos depois.”

Segundo o engenheiro, matérias básicas densas no início da graduação deixam o curso pesado. “Seria bom se colocassem conteúdos práticos também, para as pessoas visualizarem o que querem fazer”, comenta. Mesmo assim, Hugo não vê a possibilidade de alteração na duração do curso com bons olhos. “Acho que os cinco anos são necessários, pois, mesmo com esse tempo, a pessoa, às vezes, ainda acaba precisando procurar conhecimento por fora para se especializar. O formando sai com muito conhecimento e domínio teórico e pouco prático”, diz. Para quem está ingressando na faculdade por agora, o engenheiro deixa uma dica: “Busque sempre fazer coisas novas que te façam crescer, a busca por novidades e capacitações é que dará diferencial à sua carreira”.

 

Arquivo Pessoal
 

 

Fora do país
Engenheira da computação desde 2015, Samantha Coimbra Limonge, 26 anos, faz mestrado em ciências da informação na Universidade Radboud, na Holanda, desde agosto de 2016, após ter ganhado bolsa de estudos. Antes disso, em 2013, fez intercâmbio pelo programa Ciência sem Fronteiras no país. O desemprego, que tem se apresentado em índices alarmantes, especialmente para recém-formados em áreas como engenharia no Brasil, foi um dos motivos para a mudança. “Muitas pessoas estavam ficando desempregadas e com dificuldade de achar novo emprego, inclusive, profissionais experientes. Isso me motivou a procurar oportunidades no exterior”, conta. A jovem trabalhou em uma empresa de consultoria da Microsoft antes de se mudar. “Eu iniciei como estagiária, logo após meu retorno da Holanda pela primeira vez, e fui contratada quando me formei. Coincidentemente, no meu último dia na empresa, teve um grande número de demissões. Vi vários colegas sendo demitidos por causa da crise”, lembra. “Pela minha experiência, o mercado de trabalho no exterior é mais promissor para engenheiros, principalmente recém-formados”, compara.

“Aqui na Holanda, por exemplo, há várias oportunidades para pessoas que estão entrando no mercado. Já, no Brasil, muitas vagas exigem anos de experiência, o que acaba dificultando para quem acaba de sair da faculdade”, compara. Atualmente, Samantha trabalha aos fins de semana em uma cafeteria para se sustentar. “Mas já fiz algumas entrevistas de empregos na minha área, para quando me formar em novembro deste ano.” Antes de entrar na faculdade, em Brasília, Samantha escolheu a carreira em que atua de olho na necessidade dos empregadores. “Computação e engenharia eram cursos em que profissionais estavam (e ainda estão) em grande falta”, diz. O que mais encantou Samantha durante o curso foram atividades fora da grade curricular padrão. “A possibilidade de participar de pesquisas foi, com certeza, a parte mais interessante: poder ir mais a fundo na teoria e colocar tudo em prática.” Ela acredita que, se tivesse tido mais aulas sobre empreendedorismo e inovação, teria uma visão mais ampla do mercado, o que é interessante tanto para quem vai abrir um negócio quanto para quem vai trabalhar numa empresa. Ela é contra a redução da carga horária de cursos de engenharia, que poderia excluir matérias essenciais do currículo.

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

 

Redução necessária

Pedro Henrique Chagas Freitas, 26 anos, é engenheiro da computação e atua como analista da informação no Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Ele decidiu prestar concursos públicos no fim da graduação, em 2014. “O que me chamou a atenção, além da estabilidade financeira, foi a perspectiva de trabalhar em projetos nacionais e internacionais, o que, em órgão público, é bem significativo”, diz. Durante a faculdade, Pedro teve contato também com o setor privado. “Eu tive a oportunidade de conhecer o mercado internacional quando fiz um intercâmbio de três meses no Canadá.” O analista percebe diferenças entre os setores privado e público na área de engenharia. “O primeiro visa o lucro, e o segundo é um ônus ao cidadão, mas oferece mais perspectiva de futuro”, compara.

O jovem estudou por quatro meses, exclusivamente, para concursos. “Nesse tempo, eu passei em outros quatro certames e no Ministério do Planejamento, onde estou há dois anos”, relata ele, que se sente realizado com a profissão. Pedro, que também dá aulas num cursinho, acredita que as graduações em engenharia carecem de mais matérias que não se restrinjam a cálculos. “Ter acesso a conteúdos sobre empreendedorismo, inovação e mundo digital, algo que o serviço na área cobra muito, é fundamental para que, quando a pessoa concluir o curso, tenha condição de competir no mercado”, afirma. O engenheiro sabe que aumentar o número de engenheiros é uma necessidade nacional; então, avalia como importante a redução na duração dos bacharelados, o que permitiria formar mais gente em menos tempo. “Com essa diminuição, a formação seria mais voltada para trabalhar, e os alunos perderiam menos tempo com a parte teórica”, acrescenta.

 

Como será a mudança?

Confira os principais aspectos da revisão das Diretrizes Nacionais Curriculares (DCNs) proposta pela Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), que tem como objetivo elevar a qualidade do ensino, permitir maior flexibilidade na estruturação dos cursos e reduzir a taxa de evasão:

 

Carga horária e tempo e integralização dos cursos
A carga horaria referencial é de 3.600 horas de atividades efetivas, e o tempo de integralização referencial é de cinco anos. É importante, notar, no entanto, que “referencial” não quer dizer “mínimo” ou “obrigatório”. Assim, cada curso de engenharia poderá definir carga horária e tempo de integralização próprios. O estágio obrigatório supervisionado deve ser de no mínimo 300 horas.

Perfil do egresso
Os cursos deverão formar engenheiros humanistas, críticos, reflexivos, criativos, cooperativos, éticos, isentos de discriminação, comprometidos com responsabilidade social e desenvolvimento sustentável, aptos a pesquisar, desenvolver, adaptar e utilizar novas tecnologias, capazes de reconhecer as necessidades dos usuários, analisando problemas e formulando questões a partir de necessidades e oportunidades de melhorias para projetar soluções criativas de engenharia. A atuação dos profissionais deverá ser inovadora, empreendedora, multidisciplinar e transdisciplinar, considerando aspectos globais, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.

Foco na formação por competências
As formações deverão proporcionar aos egressos as seguintes habilidades: analisar e compreender os usuários das soluções de engenharia e seu contexto para formular as questões de engenharia e conceber soluções desejáveis; analisar e compreender os fenômenos físicos e químicos por meio de modelos matemáticos, computacionais ou físicos, validados por experimentação; conceber, projetar e analisar sistemas, produtos (bens e serviços) componentes ou processos; implantar as soluções de engenharia considerando os aspectos técnicos, sociais, legais, econômicos e ambientais; comunicar-se efetivamente e eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; trabalhar e liderar equipes multidisciplinares; interpretar e aplicar com ética a legislação e os atos normativos no âmbito do exercício da profissão; aprender de forma autônoma, para lidar com situações e contextos complexos, atualizando-se em relação aos avanços da ciência e da tecnologia.

Metodologias inovadoras
Recomenda-se a adoção de metodologias para aprendizagem ativa, promovendo uma educação mais centrada no aluno. Devem também ser estimuladas atividades complementares, tais como trabalhos de iniciação científica, projetos multidisciplinares e transdisciplinares, visitas técnicas, trabalhos em equipe, desenvolvimento de projetos, protótipos, monitorias, participação em empresas juniores e outras atividades empreendedoras. Os cursos devem englobar atividades laboratoriais obrigatórias, privilegiar atividades que articulem teoria prática e contexto de aplicação, além de estimular a interdisciplinaridade

Fortalecimento do relacionamento com diferentes organizações
Deve-se privilegiar nos cursos atividades que articulem simultaneamente a teoria, a prática e o contexto de aplicação, incluindo ações de integração empresa-escola. As instituições de ensino devem estabelecer parcerias com organizações de engenharia para que alunos e professores se envolvam em situações reais que contemplem o universo da engenharia. Recomenda-se a formação de comitês ou conselhos com a participação de empresas, a fim de que contribuam nos debates sobre demandas do mercado e da sociedade para a engenharia. É desejável estimular o envolvimento do aluno em atividades de voluntariado, nas quais tenha oportunidade de contribuir com o seu conhecimento e aprendizado em engenharia.

Valorização da formação do corpo docente
Os cursos devem manter permanente programa de formação e desenvolvimento do corpo docente, a fim de valorizar a atividade de ensino e gerar maior envolvimento dos professores com o projeto pedagógico do curso e a seu aprimoramento. As instituições de ensino devem definir ainda indicadores de avaliação e valorização do trabalho docente nas atividades desenvolvidas nos cursos de graduação.

Implementação de políticas de acolhimento
A partir da análise do perfil dos ingressantes, a instituição de ensino deve adotar, sempre que necessário, sistemas de acolhimento e nivelamento visando à diminuição da retenção e da evasão ao longo do curso, que considerem: as necessidades de conhecimentos básicos que são pré-requisitos para o ingresso nas atividades do curso; a preparação pedagógica e psicopedagógica para acompanhamento das atividades do curso; e a orientação para o ingressante visando melhorar as suas condições de permanência no ambiente de ensino.

Formação continuada
O projeto pedagógico de cada curso deve definir como serão desenvolvidas as ações de relacionamento, acompanhamento e educação continuada dos egressos no exercício profissional, visando à retroalimentação do curso e à atualização do conhecimento científico e tecnológico dos profissionais.

 

A reforma das engenharias e a empregabilidade

Confira o posicionamento de professores de instituições de ensino brasilienses

 

UniCeub/Divulgação
 

 

Abiezer Fernandes, coordenador de engenharia elétrica e da computação do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), doutor em engenharia elétrica

“Atualmente, a engenharia civil sofre os efeitos da crise, então há dificuldade de conseguir emprego. A engenharia elétrica está um pouco melhor e a da computação oferece um nicho diferenciado, em que é possível atuar em várias vertentes. Mesmo assim, o mercado está complicado. Vários dos nossos alunos estão procurando experiências fora do país, especialmente no Canadá, por causa da dificuldade de fazer carreira no Brasil. Poucos saem da faculdade com a ideia de montar uma startup; Brasília ainda tem uma cultura forte de concurso público. A maioria dos estudantes sai do curso para tentar emprego formal, e as grandes oportunidades não estão no DF — só que nem todos estão dispostos a se mudar daqui. A reformulação dos cursos de engenharia poderá impactar positivamente a empregabilidade dos alunos, pois chegarão ao mercado de trabalho com perfil empreendedor e não com perfil de mero empregado, podendo fazer surgir várias empresas e startups. Indicadores, como o ranking global de inovação e a quantidade de engenheiros por habitantes, impulsionam esse processo de mudança. A verdade é que o Brasil está frágil na pesquisa e nos recursos humanos para ciência e engenharia. Alguma coisa tem de ser feita. Então, a proposta vem no sentido de atualizar o conteúdo e promover integração real entre empresa e escola, além de valorizar a interdisciplinariedade. É um processo complexo, difícil de implementar, mas é preciso começar. Não existe essa cultura de parceria com empresas nas instituições de ensino brasileiras. O período de cinco anos que temos agora é muito bem aplicado, é preciso refletir bastante sobre reduzir para quatro anos porque alguma coisa importante poderá ficar de fora.”

 

Gabriela Studart?/Esp.CB/D.A. Press
 

 

Dianne Magalhães, professora do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Brasília (UnB), doutora em engenharia civil

“Faz tempo que os cursos de engenharia não passam por reformulação, ao passo que há muitas transformações na produção e no trabalho. Mesmo com a economia estagnada, as tecnologias tem avançado. É preciso modernizar esses cursos para ter melhorias na empregabilidade. Uma recomendação que achei importante na proposta é usar metodologias de aprendizagem ativa, ter uma educação centrada do estudante, que deve deixar a postura passiva e correr atrás do conhecimento. Com isso, teremos profissional mais autônomos, proativos, capazes de continuar sua formação, realizar estudos independentes. O estímulo ao empreendedorismo é importante e, na UnB, trabalhamos isso, mas ainda não com matérias obrigatórias. A reformulação vem em bora hora, pois, hoje, o importante para formar um profissional capaz de competir no mercado internacional é o foco em competências. A UnB tem muitas parcerias com empresas, mas principalmente em pesquisa e pós-graduação, não tanto na graduação. Na Universidade de Brasília, não vejo perspectiva de diminuir o tempo de formação, pois os cinco anos são bastante densos. E, reduzindo o período do curso, há risco de reduzir a qualidade.”

 

UCB/Divulgação
 

 

Marcelo Resende, coordenador das engenharias da Universidade Católica de Brasília (UCB), doutor em hidrologia

“Toda vez que o país entra em crise, o primeiro profissional afetado é o engenheiro, de todas as áreas, e os alunos sabem disso desde calouros. Tem muito engenheiro no desemprego e no subemprego. Na recessão, faltam projetos para empreiteiras e construtoras, a indústria produz menos. Quem ainda mantém o emprego é quem está vinculado a órgãos públicos. As empresas abertas por ex-alunos que estão dando certo prosperaram por prestarem serviços terceirizados para o serviço público. Outras não deram certo, tem gente que deu azar de pegar um momento ruim, mas depende muito da criatividade. Pessoal que está batendo na mesma tecla, fazendo o mesmo que outras empresas tem dificuldade de continuar no mercado. Inovação hoje é tudo, por isso a reformulação do currículo dos cursos de engenharia é legal. A última reformulação é de 16 anos atrás e reflete o jeito de ensinar engenharia do século passado, quando só existiam engenharias civil, elétrica e mecânica. Hoje, há 66 tipos de engenharia. Muita coisa mudou. A ideia agora é colocar o engenheiro como alguém que organiza soluções para a sociedade. O único ponto que me preocupa na reforma é a carga horária: fazer 3.600 horas em quatro anos, para as instituições que optarem por essa redução, ficaria muito pesado e seria preciso garantir que as horas de atividades complementares sejam cumpridas. Isso precisa ser melhor debatido.” (APL) 

 

 

 

*Colaborou Neyrilene Costa, estagiária sob a supervisão da
subeditora Ana Paula Lisboa