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Trabalho na indústria 4.0

Com o desenvolvimento da tecnologia, novas profissões surgirão e ganharão espaço nos próximos cinco a 10 anos. Enquanto isso, outras perderão mercado. Saída para se manter necessário e relevante é buscar atualização constante. Além da capacidade técnica, ganham cada vez mais importância as habilidades socioemocionais

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postado em 09/09/2018 16:42 / atualizado em 09/09/2018 19:25

Pesquisa do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) concluiu que 50% das atividades de trabalho poderão ser automatizadas até 2065. Determinadas profissões podem desaparecer, mas outras surgirão e crescerão. O relatório aponta carreiras de níveis médio e superior que devem ganhar relevância entre os próximos cinco a 10 anos. A previsão é de que 30 profissões (confira todas no quadro) ganhem espaço em oito setores: automotivo, alimentos e bebidas, construção civil, têxtil e vestuário, tecnologias da informação e comunicação, máquinas e ferramentas, química, petroquímica, petróleo e gás. Essas áreas devem sofrer mais impacto da chamada indústria 4.0, conceito definido pela integração dos mundos físico e virtual.
 
 
Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 
O levantamento foi feito a partir de um modelo de prospecção, que permite prever quais tecnologias passarão a ser utilizadas no trabalho. O diretor-geral do Senai e diretor-superintendente do Serviço Social da Indústria (Sesi), Rafael Lucchesi, explica que, além das oito áreas principais, outras 20 fazem parte do relatório. “Nós pegamos os setores que mais empregam e mais impulsionam o progresso técnico”, diz. O diretor do Senai explica que os profissionais que se especializarem nessas áreas trabalharão para deixar o dia a dia das pessoas mais fácil. “As novas tecnologias sempre estabelecem meios de eficiência, melhorias de bem-estar, meios de produtividade e maior geração de riqueza. Então, a inteligência artificial vai assegurar ganho efetivo de bem-estar e qualidade de vida”, destaca.

Para ter cidades e casas inteligentes, maior fluxo de informação e mobilidade, é preciso pensar em escolas do futuro, ou seja, instituições de ensino que dialoguem com essas tecnologias que alterarão a vida humana, defende Lucchesi. Bruno Goytisolo, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e administrador de empresas, explica que existe um grande desafio para a difusão da inovação tecnológica: a resistência das empresas. “As instituições devem estar abertas à inovação e receptivas às novas tecnologias. As pessoas ainda estão muito atreladas à chefia e precisam saber que têm autonomia para resolver problemas”, defende. O profissional do futuro também deverá estar apto a processar grande volume de informações. “Vai se dar bem no mercado quem souber lidar com dados, para trazer inteligência ao negócio”, argumenta. 
 

Carreiras transformadas

 

“Diversos setores estão experimentando a transformação digital, mas isso não quer dizer que postos de trabalho estão sendo fechados, mas, sim, que a tecnologia está mudando a forma como as coisas são feitas. Na área da saúde, a inteligência aplicada a dispositivos garante a segurança das informações, possibilitando até uma consulta a distância, só que o médico continua sendo fundamental. É necessário que as faculdades ensinem os alunos a utilizar essas tecnologias. Outras profissões tradicionais como a de engenheiro, professor e advogado não deixarão de existir, mas serão transformadas.”

George Paiva, gerente de RH para América Latina da Orange Business Services 
 
Confira, por setor, profissionais que devem ganhar espaço com o avanço da indústria 4.0, de acordo com levantamento do Senai:

» Automotivo: mecânico (de veículos híbridos, e especialista em telemetria); programador de unidades de controles eletrônicos; e técnico em informática veicular.
» Alimentos e bebidas: técnico em impressão de alimentos; especialista em aplicações de TIC para rastreabilidade de alimentos; e em aplicações de embalagens para alimentos.
» Construção civil: integrador de sistema de automação predial; técnico (em construção seca e em automação predial); gestor de logística de canteiro de obras; e instalador de sistema de automação predial.
» Têxtil e vestuário: técnico de projetos de produtos de moda; engenheiro em fibras têxteis; e designer em tecidos avançados.
» Tecnologias da informação e comunicação: analista de IoT (internet das coisas); engenheiro de cibersegurança; analista de segurança e defesa digital; especialista em big data; e engenheiro de softwares.
» Máquinas e ferramentas: projetista para tecnologias 3D; operador de High Speed Machine; programador de ferramentas CAD/CAM/CAE/ CAI; e técnico de manutenção em automação.
» Química e petroquímica: técnico (em análises químicas com especialização em análises instrumentais automatizadas; e especialista no desenvolvimento e reciclagem de produtos polimétricos).
» Petróleo e gás: especialista (em técnicas de perfuração; em sismologia e geofísica de poços; e para recuperação avançada de petróleo).

Estamos prontos?

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press

 

Antônio Isidro, psicólogo, professor de administração da UnB e doutor em administração com ênfase em inovação, avalia que, em termos de potencial de consumo, o Brasil está preparado para a indústria 4.0, mas em questões de infraestrutura e qualificação profissional, não. “Nós temos uma carência muito grande de mão de obra. Isto é muito claro”, aponta. O professor destaca que o fator mais importante para a evolução tecnológica é o investimento na educação. Segundo ele, é preciso aproximar o setor produtivo das instituições de ensino. “Necessitamos de política pública e atividades que vão ao encontro dessas tecnologias, por meio de palestras ou eventos. Tem de se fazer o caminho da educação, para termos um mercado com mais oportunidades e mais inclusivo”, diz.

O professor destaca pontos essenciais para o profissional de hoje se adaptar ao mercado futuro. O principal não está em saber programar ou entender de tecnologia. Na avaliação dele, o mais importante serão as competências comportamentais, aquelas que inteligência artificial e robôs não conseguem ter. “O funcionário tem de ter habilidades socioemocionais: inovação, criatividade, capacidade de superação e de trabalhar em equipe”, pondera. E é justamente esse tipo de competência que está cada vez mais difícil de  encontrar, já que as pessoas ficam muito tempo na internet, segundo ele. “Isso cria um distanciamento social. Fica mais difícil ter foco e atenção. Também se perde o sentimento de pertencimento social, o que prejudica as relações interpessoais, algo que tem contribuído para o aumento de casos de depressão.”

Para tirar um projeto do papel, a técnica em equipamentos biomédicos pelo Instituto Federal de Brasília (IFB), Lorraine Costa Silva, 33, precisou usar não só a tecnologia, mas a criatividade e a capacidade de resolver problemas. Ela estuda letras na Universidade de Brasília (UnB) e percebeu a importância da ligação com o mundo digital durante um projeto do IFB, criando uma mão biônica a partir de materiais recicláveis. “Foi um desafio para mim, pois era algo a que eu não estava acostumada”, diz. Depois de superar a dificuldade, Lorraine percebe que conseguiu evoluir. “O bom é que saímos da zona de conforto e, em vez de só consertar e fazer manutenção, nós criamos”, explica.

Atualização

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

Para acompanhar a evolução do mercado de trabalho e das tecnologias, o técnico em redes Rafael Moreira Ferreira, 20, está sempre estudando. Ele terminou o curso no Senai em 2017 e, há dois meses, trabalha na área de suporte técnico em uma empresa de empréstimo consignado. Rafael fez outros três cursos: técnico em informática (operador de micro), montagem e manutenção de micro e web designer. Todos eles quando ainda estava no ensino fundamental. “Só consegui ingressar no mercado por causa dos cursos.” Ele destaca a importância de acompanhar o mercado de trabalho e buscar atualização constante. “Em todas as entrevistas que fiz, exigiram bastante formação nesse meio tecnológico, principalmente quando se trata da minha área”, comenta. 
 
 
Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 
O estudante do curso de sistemas de informação Márcio Valério, 19, decidiu, em 2015, se especializar na área de soluções em software para negócios no Senai. Márcio diz que optou pela área, por gostar de solucionar problemas empresariais. “Isso me proporciona algo que gosto, que é ajudar pessoas. Então, por meio de softwares, a empresa pode solucionar problemas, como má gestão, agilizar demandas e aumentar a produtividade”, menciona. Além da graduação e do curso do Senai, o estudante também fez cursos de desenvolvedor de sistemas, desenvolvimento de aplicativos e Microsoft. Para ele, as habilidades adquiridas contribuíram para a inserção no mercado de trabalho. Atualmente, Márcio atua em uma empresa de desenvolvimento de soluções para o mercado. “Ainda tenho muito em que me especializar. Pretendo fazer outros cursos na área, para não ficar pra trás”, promete.

Três perguntas para 

 

José Paulo/Divulgação
 

 

Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai, diretor-superintendente do Sesi, e diretor de Educação da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Como as pessoas podem se capacitar para não serem substituídas pela tecnologia ao longo do tempo?
As atividades repetitivas e rotineiras tendem a ser substituídas. O domínio de determinado padrão técnico, comunicação, base eletrônica, eletrotécnica serão decisivos para essas competências mais transversais, como automação, domínio de produção integrada e conectada, capacidade analítica, ou seja, vai ter muita informação e isso certamente vai estabelecer novas formas de trabalho. Ao antecipar essas competências, aquelas pessoas que buscarem isso vão se manter mais ativas no mercado de trabalho e, quando, eventualmente, perderem seus vínculos retomarão mais rapidamente. É preciso focar a formação técnica ou superior nas áreas de competência que dominam essas transformações. Quem fizer isso, certamente vai manter seus vínculos de trabalho de forma mais longa e retornará mais rapidamente ao mercado de trabalho, pois haverá maior demanda por esse tipo de competência.

O que a pessoa precisa estudar para se manter no mercado nos próximos cinco a 10 anos?
Um técnico em automação, por exemplo, pode trabalhar em diversos segmentos da indústria, como prédios inteligentes ou shoppings, porque usa competências de inovação. Essa imagem é interessante para mostrar o quanto a versatilidade e o domínio dessas habilidades propõem algo que seja mais importante para o mundo do trabalho. E não basta ter só aptidão técnica, mas, também, socioemocional. É preciso saber trabalhar em equipe e ter a capacidade de ouvir. Portanto, trata-se de um conjunto de novas competências de diálogo e liderança, que têm um papel determinante na forma como as pessoas serão selecionadas e se manterão no trabalho.

Atividades rotineiras serão afetadas pela digitalização?
Sim. Existe um processo de mudança em curso. O que podemos garantir é que o Senai está pronto para o domínio profundo das novas competências necessárias para apoiar a indústria brasileira no importante esforço de assegurar a participação do Brasil nos mercados internacionais.

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 * Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa