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Garimpar a mão de obra ainda é desafio para empregadores

Mais de um terço das empresas brasileiras enfrentam dificuldades para contratar por carência técnica, falta de experiência ou ausência de perfil comportamental. Segundo pesquisa, o desafio de preencher cargos no Brasil, porém, já foi bem maior: o desemprego tem aumentado a oferta de candidatos por vaga. O lado interpessoal é o que tem se tornado mais decisivo nas seleções

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postado em 14/10/2018 15:27 / atualizado em 14/10/2018 17:23

O desafio de garimpar mão de obra


Mais de um terço das empresas brasileiras enfrentam dificuldades para contratar por carência técnica,falta de experiência ou ausência de perfil comportamental. Segundo pesquisa, o desafio de preencher cargos no Brasil, porém, já foi bem maior: o desemprego tem aumentado a oferta de candidatos por vaga. O lado interpessoal é o que tem se tornado mais decisivo nas seleções

A era digital tem transformado os modelos de trabalho, que passam a exigir novas habilidades. Nesse contexto, alguns setores acabam ficando saturados. Enquanto, em outros, há gente qualificada de menos para as vagas. São os nichos que sofrem com escassez de talentos. Pesquisa da empresa de soluções de recursos humanos, desenvolvimento e gestão ManPowerGroup com mais de 39 mil trabalhadores em 43 países, incluindo o Brasil, mapeou a carência de mão de obra capacitada no mercado. Uma das primeiras conclusões do estudo é de que as companhias têm contratado mais pessoas, mas isso, muitas vezes, não quer dizer que elas consigam o que estavam procurando. Ou seja, não há profissionais com as competências necessárias — técnicas ou comportamentais. No cenário mundial, a escassez de talentos tem se agravado, chegando a 52% em 2018, o maior índice dos últimos 12 anos.
 
 
Arquivo Pessoal
 
Os países que reportam o maior nível de dificuldade para preenchimento de vagas são Japão (89%), Romênia (81%) e Taiwan (78%); enquanto no Reino Unido (19%), na Irlanda (18%) e na China (13%), há menos obstáculos. O cenário do Brasil tem melhorado gradativamente para as empresas, mas não para os trabalhadores. Em 2018, 34% dos empregadores brasileiros tiveram dificuldade de recrutar empregados. Esse percentual, porém, já foi maior: em 2016, era de 43%; em 2015, de 61%. A taxa mais alta foi em 2012: 71%. Segundo Nilson Pereira, gerente nacional do ManPowerGroup no Brasil, isso se deve à alta no desemprego. “Esta conjuntura é momentânea e reflete a atual situação do país, que conta com mais de 13 milhões de desempregados. Avaliando nossos levantamentos anteriores, nota-se que as habilidades mais procuradas e escassas no mercado permaneceram praticamente as mesmas ao longo dos anos. Ou seja, o avanço na esfera da capacitação foi tímido”, afirma.

Obstáculos

 

As maiores dificuldades das empresas no processo de contratação no Brasil são a ausência de habilidades técnicas (33%), seguida pela falta de experiência (23%) e pela carência de habilidades interpessoais (19%). A primeira tem a ver com as lacunas educacionais brasileiras. A segunda se relaciona com a resistência de recrutadores de dar chance a novatos. E a terceira problemática, para alguns, pode parecer algo ligado à personalidade dos trabalhadores, mas não é bem assim: as competências comportamentais não são inatas e também é possível desenvolvê-las. “É urgente que as empresas se antecipem à necessidade de contratação, intensificando a capacidade de sua força de trabalho e, como solução complementar, buscando no mercado talentos com habilidades específicas que não podem ser formadas internamente.”

Segundo a diretora de Desenvolvimento de Negócios do Grupo Cia de Talentos, Luana de Paula, a tendência é de que o mercado profissional se torne cada vez mais exigente. “Os empregadores buscam pessoas que possam de fato contribuir positivamente com a empresa, e isso não é tarefa tão fácil, pois muitos trabalhadores não procuram se especializar”, observa. Além das competências técnicas, faltam a mão de obra, em geral, vários atributos comportamentais, que podem ser grande diferencial. “Para isso, também existe capacitação. Há cursos que ensinam como trabalhar em equipe. Os que procuram desenvolver isso podem ter um atalho para ingressar no emprego”, analisa. Entre as características humanas valorizadas estão agilidade, flexibilidade cognitiva, iniciativa, bom relacionamento interpessoal, resiliência, protagonismo, criatividade e capacidade de análise.
 
 
Arquivo Pessoal
 
A diretora de Gestão de Talentos do ManPowerGroup, Wilma Dal Col, observa que esses atributos são necessários em qualquer tipo de carreira, da mais a menos tecnológica. “Por mais que a maioria das transações financeiras sejam feitas pela internet, ainda existe contato com o funcionário; assim, ele tem de estar preparado para lidar com o cliente e atender as demandas com qualidade”, comenta. Os consumidores se tornam cada vez mais exigentes; então, quanto mais preparadas as empresas estiverem para recepcionar e proporcionar uma boa experiência para as pessoas, mais chances elas terão de crescimento empresarial. Médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem precisam estar atentos a isso. Apesar de se tratar de um setor com muitas vagas e que com dificuldade de encontrar qualificação técnica, recrutadores se contentam cada vez menos apenas com isso. “Atualmente, exige-se que um médico se preocupe mais com o paciente, para além da doença e do diagnóstico”, afirma Wilma.

Carência


A tecnologia e a inteligência artificial fazem com que as funções que podem ser automatizadas aumentem cada vez mais. Motivo pelo qual algumas profissões estão desaparecendo. Assim, as exigências passam a ser mais altas do topo até a base das carreiras. Internacionalmente, de cada quatro empregadores, um acredita que está mais desafiador encontrar pessoas para cargos de ofícios considerados manuais, como assistentes administrativos, recepcionistas e outros colaboradores de apoio, representantes de vendas, soldadores, mecânicos, eletricistas, operadores de máquinas industriais e motoristas. “Um motorista, nos tempos de hoje, não pode simplesmente dirigir e transportar pessoas e mercadorias. É preciso ter uma atitude diferente, recepcionar e cuidar do material, saber que você pode estar carregando um sonho de uma pessoa”, comenta a diretora de Gestão de Talentos do ManPowerGroup, Wilma Dal Col. A carreira de vendas exige como nunca bom grau de instrução, postura adequada, dinamismo, determinação e boa capacidade de relacionamento interpessoal.

Concorrência

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

Kayo César Borges, 24 anos, se define como antenado, engajado e determinado. Nada disso, porém, garantiu-lhe a permanência no mercado. Desempregado há um ano, ele busca vaga como vendedor, área em que tem experiência. As exigências dos empregadores e a alta concorrência têm tornado difícil colocar as habilidades em prática. “Essa área comercial contrata muitas pessoas, mas acredito que a oferta (de mão de obra) está muito grande. Em boa parte das entrevistas, já tem uma fila enorme de gente esperando ser chamada”, destaca. O brasiliense, que já trabalhou como vendedor e auxiliar de escritório, terminou o ensino médio em 2012. Kayo percebe que as habilidades interpessoais são valorizadas. “Nas entrevistas, perguntam muito se sou comunicativo, se tenho facilidade de lidar com pessoas. Sempre deixei isso claro, mas o que me faltou mesmo foi mais experiência no currículo”, argumenta. Para não ficar parado, o jovem pretende fazer um curso técnico de massoterapia, para ter mais alternativas no mercado de trabalho. “Não quero ficar na mesmice, pois quero crescer.” 

O lado do empregador

 

Catarine Cavalcante/Esp.CB/D.A Press
 

A pesquisa do ManPowerGroup revelou que 64% dos empregadores investem em plataformas de aprendizagem e outras ferramentas de desenvolvimento para os funcionários, a fim de suprir as lacunas da mão de obra. Metade das empresas oferece cursos, palestras ou oficinas. Empresários têm investido também em benefícios, como assistência médica, vale-alimentação, vale-cultura, bolsas de estudo e auxílio-creche, considerados por 54% dos empresários. Cerca de 32% das corporações disponibilizam um ambiente mais interessante para os colaboradores. Além disso, pacotes de remuneração maiores e trabalho em horário flexível são realidade em 30% das instituições. Pós-graduada em administração de negócios, Wilma Dal Col observa que essas ações vêm para gerar engajamento.

“Percebemos que existe vontade de aprender. Então, se oferecemos condições, é possível preencher as exigências dos empregadores após a contratação”, diz. Pensando nisso, Leonardo Marchetti, 31 anos, sócio-fundador da empresa de consultoria empresarial Grupo R4B, capacita a equipe por meio de treinamentos anualmente. “Isso funciona muito. Quando as pessoas se sentem parte do processo e engajadas, isso preserva a empresa de forma positiva”, destaca. Ele diz ainda que, muitas vezes, por falta dessas qualidades, prefere contratar funcionários sem experiência. “A parte técnica você treina, capacita e investe, mas a parte comportamental tem de partir da própria pessoa, ela tem de ter interesse”, defende. A sede da companhia do administrador de empresas e pós-graduado em inteligência do mercado fica em São Paulo e, há um ano e seis meses, uma unidade foi inaugurada em Brasília. Leonardo estranhou o cenário do Distrito Federal.

“Falando de regionalismo, na capital paulista, temos um pessoal mais preparado. Aqui no Centro-Oeste, senti dificuldade em encontrar atributos de qualidade profissional nas pessoas”, diz. Um grande problema é a falta de interesse dos jovens por se especializar. Para ele, o imediatismo é o grande vilão. “Tem gente que entra na empresa com 18 anos e já quer alcançar um cargo alto. É preciso correr muito atrás.” Priscila Sigolo, 36 anos, é uma das funcionárias do Grupo R4B e atua como gerente comercial. Graduada em administração pela Upis — Faculdades Integradas desde 2003, a brasiliense acredita  que chegou onde está graças a conhecimento teórico e prático. “Desde os 17 anos, quando fazia estágio em mercado financeiro, fui desenvolvendo algumas competências.” Ela também buscou aprimorar habilidades por conta própria.

“Fiz cursos de matemática financeira e aplicada, mercado de capitais, informática e vendas.” Priscila também reconhece as habilidades interpessoais como relevantes para ser considerada uma das melhores funcionárias da equipe. “Acho que nasci com boa comunicação, desenvoltura e postura”, diz. Priscila foi contratada por Leonardo de modo inusual. O chefe frequentava o restaurante que a brasiliense gerenciava na época. Mesmo sem se conhecerem, o psicólogo organizacional observava como a jovem se desenvolvia no trabalho e como era ágil nas tarefas. “Eu estava com uma vaga em aberto há 45 dias e tinha entrevistado mais de 20 pessoas. Foi quando comecei a analisar, como cliente, o dia a dia dela no restaurante. Então, fiz a proposta e a convenci a vir trabalhar comigo”, relembra. “Quando trouxemos a Priscila para fazer parte do time, estávamos buscando um profissional que conseguisse navegar entre as competências técnicas e comportamentais alinhadas aos pilares da nossa empresa. Ela mostrou ter o que procurávamos”, elogia.


Crise afeta exigências

 

Arquivo Pessoal
 

Marcelo Oliviere, diretor da empresa de recrutamento de profissionais de vendas e marketing Trend Recruitment, percebe que as exigências do mercado se elevaram nos últimos cinco anos. “Há um tempo, empresas contratavam qualquer um, mas o cenário mudou. Atualmente, as organizações estão mais exigentes”, ressalta. A farta oferta de mão de obra motivada pela alta do desemprego tem relação com o fenômeno. No entanto, a maior parte do público não está preparada para o trabalho. “Pelo menos, 40% do pessoal que entrega currículo aqui não está qualificado”, afirma o psicólogo e pós-graduado em administração. Fabíula da Silva Franco, 24, tem sentido na pele o aumento do grau de exigência dos empregadores. Ela se formou em gestão de RH pelo Centro Universitário Iesb, em 2013. Durante a graduação, fez estágio na área de vendas, em um supermercado, no qual ficou por 11 meses. Depois de formada, trabalhou em uma loja de roupas, também na área de vendas, onde ficou por um ano e quatro meses.
 
 
Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 
Durante o processo seletivo, não sentiu dificuldades. “Não tinha exigência, até porque, na minha opinião, eles preferem contratar pessoas sem experiência para que possam treinar do jeito que quiserem”, explica. No mesmo ano, a jovem se mudou para Rio Paranaíba (MG), mas decidiu voltar depois de alguns meses. Já em Brasília, Fabíula procurou a empresa onde tinha estagiado. “Entreguei meu currículo e achei que nem daria certo, mas fui chamada em poucos dias”, diz. Mas o emprego só durou dois meses. A filha dela adoeceu, e ela acabou deixando trabalho. Só que conseguir se recolocar depois disso não foi tão fácil. “Até hoje, estou buscando emprego na área”, ressalta. Fabíula acredita que as empresas exigem cada vez mais experiências profissionais, o que dificulta a aprovação em um processo seletivo. “Por exemplo, para trabalhar como recepcionista ou auxiliar administrativo, você precisa já ter trabalhado nessas áreas antes.” Para ela, um dos motivos que podem justificar a exigência de contratação das companhias é o grande número de pessoas para poucas vagas disponíveis.

Se um trabalhador tem uma lacuna técnica ou comportamental, Vinícius Lages, diretor de Administração e Finanças do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), defende que ele precisa correr atrás do prejuízo, estando atento às competências exigidas pelo mercado. “Nem sempre a pessoa vai conseguir acompanhar tudo, mas é preciso se adaptar por meio de qualificações para, assim, receber mais ofertas de trabalho”, argumenta. De acordo com ele, o interesse do funcionário pelo local onde escolheu trabalhar faz toda a diferença. “É fundamental estar motivado para ser mais produtivo. Você não pode estar em um lugar cujo propósito não se alinhe com sua meta de vida pessoal e profissional”, destaca. Com 30 anos de experiência em RH, Wilma Dal Col orienta os trabalhadores, especialmente os recém-chegados, a tentar aprender com os veteranos da firma. “Quem está chegando agora tem bagagem menor. Os mais velhos têm mais experiência, e os jovens inteligência emocional. Com essa troca, há mais chances de os dois grupos passarem a ser mais produtivos”, afirma.
 
César Siqueira, 29 anos, aposta na busca por mais estudo para sanar lacunas. Tecnólogo em sistemas para internet pelo Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) desde julho 2016, ele trabalhava na área administrativa de uma empresa de armazenagem de documentos durante o curso e nunca fez estágio na área da informática. Depois de se mudar para o Distrito Federal, em abril de 2017, isso atrapalhou a busca por uma vaga. “Na época, eu não pensava que um estágio seria tão importante. Como eu era contratado, preferi ficar no trabalho fixo, ganhando mais. Mas, para conseguir trabalho na minha área de formação, está sendo um impedimento”, diz. Foram mais de 30 currículos enviados para companhias distintas, mas o jovem foi chamado para apenas duas entrevistas. Durante o processo seletivo, na fase de entrevista, César percebeu que os outros candidatos tinham mais experiência. Ele também destaca o fato de empregadores exigirem muitas qualificações. “Nos sites de emprego que sou cadastrado, cobram muita coisa. Por exemplo, na parte de suporte e manutenção, pedem mais do que deveriam”, explica. Por isso, ele apostou em buscar outro curso: atualmente, estuda tecnologia em processos gerenciais no Instituto Federal de Brasília (IFB). “Agora serão duas opções. Terei maiores chances”, argumenta.
 
 
 



*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa