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Tia Zélia faz sucesso com restaurante de comida caseira na Vila Planalto

Ela recebe clientes na própria casa e, apesar de não calcular quantas pessoas passam por ali, conta que os resultados têm sido positivos. A empresa foi aberta há 20 anos. Antes disso, a cozinheira baiana foi empregada doméstica

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postado em 04/11/2018 16:54 / atualizado em 04/11/2018 18:58

Há 20 anos, a rotina de Tia Zélia é a mesma: de segunda a sábado, das 12h às 15h, ela abre as portas da própria casa, na Vila Planalto, para a clientela se deliciar com comida caseira. O cotidiano, no entanto, nunca perde a graça porque ela trabalha com o que ama: cozinhar e receber as pessoas. Maria de Jesus Oliveira da Costa, a Tia Zélia, combinou dois apelidos para formar o nome pelo qual é conhecida. “O ‘Tia’ veio por causa dos clientes: quando eu trabalhava num boteco, o povo me chamava assim. Já ‘Zélia’ veio da minha mãe”, conta. “Aqui é uma casa muito simples e rústica, mas tudo é feito com carinho, amor e respeito”, diz. Aos 64 anos, mãe de cinco filhos e avó de seis netos, ela não perde o pique, mas precisou aprender a delegar. “Eu tive artrose e tendinite porque não deixava ninguém fazer nada para mim. Eu achava que só eu sabia fazer, parecia um general dentro da cozinha. Então, com os problemas, revi minha perspectiva. Não aguento fazer tudo como antes. Ainda faço muita coisa, moqueca, sarapatel... Mas outros pratos deixo para minha equipe”, relata.
 
 
Catarine Cavalcante/Esp.CB/D.A Press
 

O time conta com a filha caçula, Márcia, na gerência e mais 12 pessoas, incluindo empregados fixos e diaristas, que trabalham aos sábados. “Todos são muito limpos e caprichosos, fazem tudo muito bem-feito. Quando saírem daqui, podem trabalhar em qualquer lugar do mundo”, elogia Tia Zélia. A gestão de pessoas é na base da sinceridade. “Eu respeito para ser respeitada também. Se percebo que a pessoa está desanimada, converso, pergunto: ‘Você quer sair?’ Pois ninguém rende insatisfeito. Ninguém obriga ninguém a nada. E nada obrigado presta”, afirma. Nesses anos todos, porém, ela nunca mandou ninguém embora. Questionada sobre os segredos culinários que ensina aos empregados, ela rebate que não há mistério ali. “O tempero daqui é só cebola, alho e um pouco de pimenta-do-reino. Não uso nem cheiro-verde.” Segundo a cozinheira, todos os pratos recebem muitos pedidos. “É difícil algum sobrar, mas o pernil e a feijoada batem recorde.”

Tia Zélia não tem noção de quantas pessoas frequentam o restaurante diariamente, mas ressalta que o local fica cheio mesmo na quinta, na sexta e no sábado. “Tenho capacidade para receber até 380 pessoas. No salão, cabem 80. No quintal, tem mesas em baixo de tenda e pé de árvore.” As marmitas também têm muita saída: chegam a ser cerca de 100 pedidos às sextas-feiras. Apesar de servir só almoço, a baiana faz jantar por encomenda, fazendo também bufê para festas. Ela não revela o faturamento, mas diz que o negócio está indo bem. “Eu sou controlada na gestão financeira. Não sou daquelas pessoas que trabalham com a faca na guela, endividadas.” O conselho dela para quem deseja empreender é começar pequeno, sem dívidas. “Eu iniciei isso aqui com quatro pratos. O que precisa mesmo é não ser orgulhoso, tratar as pessoas bem e fazer comida boa.” A simplicidade de Tia Zélia faz sucesso no salão: na hora do almoço, boa parte da clientela quer falar com ela. A grande propaganda é o boca a boca. “Quem vem aqui chama outro.”
 
 
Catarine Cavalcante/Esp.CB/D.A Press
 

Segredos

 

“Sempre faço a diferença, invento, testo e vou me aperfeiçoando. Na cozinha e em outras áreas. A gente tem de ter visão, não dá para ficar esperando outras pessoas te ajudarem. E, quando a gente tem vontade de aprender e disposição, tudo fica mais fácil”, resume Tia Zélia sobre os 35 anos de experiência com a culinária. O segredo para persistir e ter sucesso, ela ensina, está em gostar do que faz, além de ter responsabilidade. “Acho gostoso, além de cozinhar, ver as pessoas chegarem e me cumprimentarem. Tanto os clientes quanto os funcionários. É um pessoal muito bacana. Sou muito feliz.” Entre os comensais envolvidos com a política estão ministros, deputados, senadores, prefeitos.

Memória

 

A baiana de Buritirama cresceu na roça, onde viveu até os 18 anos. “Lá, eu cozinhava só o trivial, feijão e carne. Porque arroz não tinha, era muito difícil. Aprendi a cozinhar mesmo em Brasília”, lembra a filha de lavradores. Ela chegou à capital federal em 1976, quando já tinha três filhos. “Eu trouxe dois e deixei um com minha mãe. Vim de caminhão para ficar com o pai dos meus filhos, que tinha vindo trabalhar em Brasília. A gente se comunicava por telegrama, que demorava muito a chegar, às vezes, até mais de seis meses”, diz. Quando Tia Zélia apareceu na região, o ex-marido se assustou. “Ele vivia em alojamento de solteiro, não estava me esperando, não tinha nem onde eu ficar.” Na Vila Planalto, ela recebeu abrigo e trabalho de uma senhora que ofereceu um quarto à família.

Em Brasília, teve mais duas filhas. “A Dona Maria tinha uma cantina e percebeu que eu era esperta. Ela não precisou me ensinar nada, fui observando, pego as coisas rápido, sou muito inteligente. Depois de dois meses, eu estava cozinhando para encarregados que trabalhavam em obras na Esplanada e fui me aperfeiçoando”, relata. Essa rotina durou oito anos até que Tia Zélia foi trabalhar como empregada doméstica. “Eu já avisava a dona da casa de que a cozinha era do que eu gostava. Então, eu preparava aqueles cafés da manhã completos, com bolo, biscoito, essas coisas que o pessoal da Bahia sabe fazer muito bem.” A cozinheira de mão cheia conta que caprichava.

“Eu trabalhava para gente que gostava de comer, não tinha frescura de colesterol, diabetes”, brinca. As preparações começaram a fazer sucesso tanto entre os patrões quanto entre convidados. “Todo mundo elogiava.” O que despertou-lhe a vontade de trabalhar apenas com isso e empreender. Durante quatro anos, ela trabalhou num trailer em parceria com o irmão. Quando a sociedade acabou, Tia Zélia foi cozinhar em casa. “Eu comecei o restaurante com quatro pratos e duas panelas, e a clientela toda me seguiu. Não é preciso começar grande, você começa com o que tem e vai crescendo”, ensina.


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3306-1526 / Vila Planalto, Rua Maranhão, nº 8, Acampamento Pacheco Fernandes