postado em 06/04/2015 10:17
Geralmente, os protagonistas dos casos de corrupção que estão nos noticiários são autoridades e políticos. Entretanto, os desvios de conduta cometidos na iniciativa privada existem e precisam ser combatidos, como mostra a pesquisa Perfil ético dos profissionais das corporações brasileiras, realizada pela companhia ICTS Protiviti com 8.718 participantes de 121 companhias entre 2012 e 2014. O objetivo era descobrir as decisões diante de dilemas éticos. As conclusões chamam a atenção: 65% dos que mais tendem a ocultar erros são colaboradores de nível técnico; há maior incidência de permissividade a suborno entre não graduados 58%, mas são profissionais de direção os que mais tendem a revelar informações confidenciais, chegando a um índice de 43%.Para Maurício Reggio, sócio-diretor da ICTS, falta reflexão sobre o assunto. ;As pessoas não pensam profundamente sobre ética e se limitam a criticar os desvios dos outros.; A regulamentação da Lei Anticorrupção (n; 12.846/2013) e a exposição pública das empresas investigadas pela Operação Lava-Jato foram fatores que despertaram a atenção das companhias para a importância da cultura da ética e da transparência. ;A lei é um marco civilizacional. A corrupção é vista falaciosamente como crime sem vítimas, mas ganhos econômicos e sociais se perdem por causa de más condutas arraigadas na cultura brasileira;, aponta.
Segundo o diretor, as ações para a construção de um ambiente corporativo de boas práticas começam nos processos seletivos. ;Além da capacitação técnica, as empresas estão passando a analisar minuciosamente o aspecto comportamental de candidatos.; Para o quadro efetivo, Reggio indica que as empresas ofereçam treinamento em compliance (atuação em conformidade com regulamentos), canais seguros de comunicação e medidas disciplinares efetivas.
Postura valorizada
Marcelo Borges, 35 anos, supervisor comercial no Grupo Brasal, é famoso pela honestidade e preza pela ética tanto por uma questão de caráter quando por visar bons resultados. ;Sigo as regras defendidas pela companhia. As necessidades do cliente incluem tratamento transparente, o que gera confiança e boa reputação. Seguindo esses padrões, vendemos mais e batemos as metas;, garante ele, que atua na comercialização de carros, gere equipes e controla transações de altas somas financeiras.
O bom comportamento de Marcelo é reconhecido, inclusive, pelo superior dele, o gerente comercial Mário Celso de Araújo. ;Ele é muito correto na aplicação dos padrões, como integridade e excelência;, elogia. O gestor ressalta que a observação do código de conduta do grupo é constante e traz bons frutos. Entre as ações, estão canais de comunicação anônimos para denúncias e um sistema que detecta procedimentos financeiros suspeitos. Amélia Regina Alves, psicóloga e professora de gestão de RH no Centro Universitário Estácio Facitec, aprova esse tipo de iniciativa e avalia que minimizar o treinamento ético é contraproducente. ;Empresas estão focadas na rentabilidade, mas se esquecem de quem torna isso possível: o colaborador. Boas práticas criam vínculos sólidos entre companhias e funcionários.;
Dilema começa cedo
A pesquisa da ICTS Protiviti revela que os profissionais mais jovens formam o grupo de maior risco em grande parte dos dilemas éticos pesquisados. Os dados mostram que 82% das pessoas de até 24 anos possuem maior tolerância a atos antiéticos. Na mesma faixa etária, 68% dos trabalhadores tendem a hesitar mais em denunciar irregularidades; 59% teriam propensão a furtar algo pertencente à empresa e 56% podem cogitar receber suborno. Para Mauricio Reggio, algumas características típicas de gerações que chegaram recentemente ao mercado podem ajudar a explicar os números. ;O imediatismo na busca por realizar ambições de crescimento profissional leva jovens a tomarem decisões, muitas vezes, precipitadas. A tolerância a frustrações é baixa, e a relação com autoridades, complicada.;
;Os jovens têm certo distanciamento, inércia e tolerância em relação aos problemas de conduta que ocorrem a volta deles. Falta demonstrar vontade de alterar a realidade, o que é preocupante. Insegurança e desconhecimento são os principais fatores que contribuem para esse comportamento. Há também uma minoria que age deliberadamente de acordo com a lógica de levar vantagem em tudo;, observa Ligia Pavan Baptista, doutora em filosofia com ênfase em ética e professora da Universidade de Brasília (UnB). Sem estereotipar os que estão começando a carreira, o diretor Mauricio Reggio afirma que a solução para as organizações é investir em treinamentos com conceitos éticos sólidos. ;Não é uma questão apenas de idade, mas de formação de valores e consolidação de uma cultura moral;, explica. A pesquisa confirma essa análise, já que aponta que profissionais com mais de 55 anos são os que apresentam maior tendência ao uso de atalhos antiéticos para alcançar objetivos e cumprir prazos e metas.
Reprovados
Profissionais que utilizariam atalhos antiéticos ou ilícitos:
69%
dos trabalhadores com mais de 55 anos
68%
desses em nível de direção
63%
dos homens
63%
dos não graduados
Fonte: ICTS Protiviti