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Pessoas com deficiência sofrem sem acessibilidade no mercado de trabalho

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi na última sexta-feira (21), e a má notícia é que não há tanto para comemorar quando o assunto é o mercado de trabalho. Profissionais com algum tipo de limitação física, visual, auditiva ou intelectual têm muitas dificuldades para conseguir e se manter no emprego, e a acessibilidade é uma das principais


postado em 23/09/2018 15:54 / atualizado em 25/09/2018 16:56

Os obstáculos que pessoas com deficiência enfrentam no mercado de trabalho são tantos e de tamanha extensão que começam antes mesmo de entrevistas de emprego. Pesquisa do site de vagas Catho deste mês revelou que 44% dos trabalhadores com algum tipo de deficiência já perderam alguma seleção por  problemas de acessibilidade. Os principais são calçadas inapropriadas, transporte não adaptado e falta de infraestrutura, como rampas e semáforos inteligentes. Essas mesmas adversidades motivaram pedidos de demissão de 37% dos profissionais com deficiência. De acordo com o gerente de Marketing da Catho, Ricardo Morais, as cidades pequenas são as que menos oferecem adaptações necessárias nos espaços públicos e mobilidade. “Municípios maiores se adéquam mais rapidamente a essas dificuldades, pois é onde estão as maiores empresas.”
 
 
Carolina Ignarra, fundadora da Talento Incluir (foto: Arquivo Pessoal)
Carolina Ignarra, fundadora da Talento Incluir (foto: Arquivo Pessoal)
 
Há distinção entre ambiente externo e meio organizacional. “A instituição, quando vai fazer entrevista com esse público, tenta já adaptar as ferramentas acessíveis necessárias”, comenta. O que esconde outra problemática: muitas organizações barram esses candidatos durante a seleção, visando não implementar ferramentas acessíveis. Para Ricardo, muitas instituições ainda têm grande dificuldade em adequar o espaço para receber esse público. Outro estudo da Catho, entre julho e setembro de 2017, revelou que 78% dos empregados com deficiência  disseram não necessitar de acessibilidade. O que demonstra que aqueles que se inserem no mercado laboral, em geral, são os que exigem menos mudanças para atuar num ambiente. O levantamento demonstrou que, para os empregadores, a falta de acessibilidade é a segunda maior dificuldade na contratação de pessoas com deficiência.

Tanto a falta de adaptação arquitetônica (que envolve rampa de acesso, banheiros acessíveis, vagas de estacionamento reservadas) quanto a comunicacional (como intérprete de libras, recursos que facilitem a comunicação) e a tecnológica (por exemplo, softwares leitores de tela, lupas de aumento, impressora braille) podem barrar admissões ou dificultar as atividades e desmotivá-lo.  Mesmo 27 anos depois da aprovação da lei que estabelece cotas para a contratação de pessoas com deficiência nas grandes empresas, o mercado de trabalho ainda se mostra resistente a incluir esse público. “Quando a companhia contrata  e tem uma visão apenas de atingir a cota, ela já começa em desvantagem, pois o profissional entra no ambiente desestimulado pela falta de plano de carreira”, afirma Ricardo.


Benefícios 

 

Segundo Ricardo Morais, quanto maior a organização, maior também a percepção do RH sobre os benefícios trazidos pela contratação de perfis profissionais diversos. Para ele, apesar de muitas companhias contratarem pessoas com deficiência apenas para cumprirem as cotas, ainda assim, acabam por perceber as vantagens que isso pode gerar, incluindo o aumento da produtividade e dos lucros. “Se a empresa confia nesse profissional, ele tende a se dedicar mais. E quanto mais dedicação, mais produtivo ele é.” Especialista em neuroaprendizagem e sócia-fundadora da Talento Incluir, Carolina Ignarra argumenta que as organizações só têm a ganhar com a política de inclusão.

“A instituição adquire embasamento, resultados, além da imagem positiva. Hoje, as pessoas estão mais exigentes, e muitas só fecham negócio com empresas que pregam a diversidade.”  Um levantamento feito entre fevereiro e março deste ano pela Talento Incluir mostrou que 55% dos recrutadores de empresas que têm entre 100 e 499 funcionários contratam pessoas com deficiência pelo fato isso de gerar uma imagem positiva para a companhia e tornar o ambiente mais criativo. Outros 39% dos gestores afirmaram que isso fortalece a cultura da entidade. No caso das instituições que têm de até 2.999 contratados, a melhoria na performance do ambiente corporativo foi levada em consideração por 79% dos entrevistados.

Mais entraves

 

Apesar de parecer que a acessibilidade exige muito esforço e recursos, isso não é necessariamente realidade. Às vezes, pequenas coisas podem ter muito impacto. A boa notícia é que as construções mais modernas já são planejadas levando em conta as pessoas com deficiência. “São detalhes que fazem a diferença. Por exemplo, hoje em dia, os empresários quando vão construir prédios, já pensam na questão da acessibilidade”, diz Morais. O que não quer dizer que as dificuldades estejam perto de acabar. Na pesquisa da Catho, gestores elencaram a baixa qualificação dos profissionais e a resistência dos gestores como outros impedimentos. 

Falta acessibilidade não só dos espaços físicos, mas, sobretudo, das pessoas e das empresas. Pesquisa da Talento Incluir concluiu que apenas 10% das companhias estão aptas para receber trabalhadores com deficiência; outras 62% estão parcialmente preparadas. Carolina Ignarra, sócia-fundadora da empresa explica que a acessibilidade é um termo amplo, e a adequação vai depender da deficiência de cada profissional. “Por exemplo, uma pessoa que tem limitação nas mãos ou encurtamento de pernas não terá a mesma necessidade que um cadeirante. No dia a dia, ela se adapta com as dificuldades. Não precisa ter um mundo perfeito para trabalhar, mas isso não pode barrar uma contratação.”

Segundo a diretora de diversidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil), Jorgete Lemos, é dever do RH preparar os ambientes corporativos para receber essas pessoas. “O departamento de recursos humanos não deve esperar pela direção da empresa. Se a companhia tem alguém na alta direção que quer pregar a diversidade, isso cresce.”

“O primeiro passo é criar uma política na organização para conscientizar os outros funcionários. Em seguida, é hora de investir em acessibilidade, criando ferramentas adequadas, como rampas de acesso e leitores de tela.” Cabe à companhia buscar conhecimento a respeito, garante Ricardo Morais.

Oferta de vagas longe do topo

 

Levantamento deste mês do site de empregos Vagas.com revelou que 61% das vagas exclusivas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho são para postos operacionais e auxiliares. Apenas 3% das oportunidades são destinadas a cargos de coordenação, supervisão, gerência e direção. Apesar disso, o volume de vagas para pessoas com deficiência vem aumentando desde 2014. Comparando os anos de 2016 e 2017, entre os meses de janeiro e agosto, a oferta cresceu 11%.

 

Data comemorativa


Instituído em 14 de julho de 2005, pela Lei n° 11.133, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, na última sexta-feira (21), serve para lembrar a todos sobre a importância da promoção de direitos humanos para pessoas com deficiência. A data foi escolhida em função da proximidade com o início da Primavera e o Dia da Árvore, que representam o renascer das plantas e simbolizam o sentimento de renovação das reivindicações em prol da inclusão e da participação plena de todos.


Por mais igualdade

 

Saulo tem deficiência severa auditiva e precisa de um intérprete(foto: Arquivo Pessoal)
Saulo tem deficiência severa auditiva e precisa de um intérprete (foto: Arquivo Pessoal)
 

Estudante de psicologia do Centro Universitário Iesb Saulo Moraes, 21, estagia há dois meses na Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF). Ele tem deficiência auditiva severa, usa aparelho auditivo e necessita de intérprete de libras no estágio. Saulo trata questões extrajudiciais, encaminhando as demandas para outro núcleo de rede. “Tenho certa limitação. Consigo ouvir e conversar, mas preciso que o cliente fale devagar e um pouco mais alto para eu poder acompanhar. Por mais que eu não seja tão dependente assim, eu ainda preciso de ajuda. Mas quando não tem? Acabo tendo dificuldades mesmo.”

Consigo me virar

 

Pyther Barbosa usa uma perna mecânica, devido a um acidente que sofreu em 2005 (foto: Arquivo Pessoal)
Pyther Barbosa usa uma perna mecânica, devido a um acidente que sofreu em 2005 (foto: Arquivo Pessoal)
 

Foi em 2005 que Pyther Barbosa, 30 anos, sofreu um atropelamento e teve metade da perna esquerda amputada. O acontecimento ficou marcado e trouxe consequências até hoje. Após o acidente, Pyther teve de andar de cadeira de rodas, mas fez uso por apenas quatro meses, pois ganhou uma perna mecânica do GDF. Foi por conta desse benefício que o jovem não mediu esforços para se inserir no mercado de trabalho. O estudante faz graduação em administração na Faculdade Anhanguera e está no 6° semestre. O currículo dele é extenso e, atualmente, o jovem trabalha como auxiliar operacional no Ministério da Cultura. Com a prótese, ele conta que não necessita de nenhum suporte e garante que põe a mão na massa sozinho. “Tem pessoas com deficiência que acham que a vida acabou, e isso não pode ocorrer. Tem que ter garra e força”, diz. Para o brasiliense, o panorama geral tem melhorado. “Nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Nem aqui nem nas empresas por onde passei.”

Vagas

Confira empresas de recrutamento e seleção para pessoas com deficiência
 
Catho
O portal dá acesso gratuito às vagas de emprego para pessoas com deficiência. Os interessados podem se inscrever no site: www.catho.com.br/pcd/ 

Talento Incluir
A empresa faz o intermédio de pessoas com deficiência e empresas. Por meio do site talentoincluir.com.br, o candidato pode se inscrever e ter acesso a vagas gratuitamente. Ao todo, são mais de 300 companhias cadastradas.

Deficiente online
O portal é direcionado a pessoas com deficiência e conta com mais de 1.300 empresas no banco de dados. Os interessados podem cadastrar o currículo por meio do site deficienteonline.com.br

i.Social
A consultoria i.Social trabalha com foco na inclusão social e econômica de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Para concorrer a uma das vagas, acesse o endereço isocial.com.br

CS4 Consultoria
A empresa busca pessoas com deficiência física para atuarem em uma das 20 empresas cadastradas. Os interessados podem se inscrever pelo site cs4consultoria.com.br

Radiografia
No Brasil existem mais de 45 milhões de pessoas com alguma deficiência, o que representa 24% da população, conforme  o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apenas 418,5 mil estão empregados, ou seja, menos de 1%. Os dados são da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2016. Entre 2009 e 2015, o número de pessoas com deficiência no mercado de trabalho formal cresceu 39,73%. A área de serviços aparece em primeiro lugar, com a criação de 51,5 mil postos, seguida do comércio (29,7 mil) e da indústria de transformação (24,1 mil).
 
 

*Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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