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Correio Braziliense

Filho de empregada doméstica é aprovado para medicina na UnB

Negro, determinado, morador do Paranoá e criado sem pai, Mateus Lopes, 18 anos, conseguiu uma vaga no mais concorrido curso da instituição por meio do PAS. Ele estudou em colégios particulares, com mensalidades pagas pela patroa da mãe


postado em 02/02/2019 06:00 / atualizado em 01/02/2019 20:45

Mateus Lopes, 18 anos, está entre os mais novos aprovados para estudar medicina na Universidade de Brasília (UnB). O adolescente conquistou, por meio do Programa de Avaliação Seriada (PAS), a única vaga disponível para cotistas negros que não estudaram em escola pública. O resultado foi divulgado na última quinta-feira (31). Tornar-se médico, por vezes, parecia um sonho distante, do qual até mesmo o jovem duvidava. Todo o esforço nos estudos compensou ao ver o nome na lista de selecionados. Filho de uma empregada doméstica, Mateus nunca conheceu o pai. Morando no Paranoá, ele estudou em escolas particulares da capital federal.
 
 
Mateus passou na única vaga para cota racial de medicina
Mateus passou na única vaga para cota racial de medicina
 
O ensino médio, o adolescente cursou no Colégio Pódion, especializado em preparação para seleções de ingresso no ensino superior. No ano passado, a mensalidade do 3º ano custava R$ 2.668. Mateus tinha 30% de bolsa, e o restante era pago pela empregadora da mãe, desde cedo, patrocinadora e incentivadora dos estudos dele. “Ela trabalha para a mesma família há 30 anos. A patroa sempre nos ajudou em tudo porque minha mãe cuidou dos filhos dela. Minha mãe também sempre me apoiou em tudo”, destaca Mateus. Incentivo e inspiração para investir nos estudos vieram, ainda, dos filhos da patroa da mãe, que são padrinhos do jovem e estudam na UnB.

O suporte da família dos patrões, na história de Mateus, é bem diferente do apresentado no enredo do filme Que horas ela volta?, dirigido por Anna Muylaert e estrelado por Regina Casé e Camila Márdila. Na produção cinematográfica, Jéssica, a filha de uma empregada doméstica, deseja estudar arquitetura na Universidade de São Paulo (USP), mesmo curso almejado por Fabinho, filho dos patrões, que duvidavam das chances de Jéssica ser aprovada. Quando Jéssica passa no vestibular e Fabinho, não, a tensão entre as duas famílias fica evidente, estimulando reflexões sobre a desigualdade social no Brasil. “Ela sempre ajudou e sempre ajudará, mas, agora, como passei numa universidade pública, esse apoio financeiro será um pouco menos necessário, pois quero trabalhar”, projeta Mateus.

Futuro médico


Mateus conta que decidiu se tornar médico para poder ajudar pessoas. “Também escolhi cursar medicina porque minha mãe, assim como eu, não tem acesso a hospitais particulares e necessitamos do serviço público, que quase sempre é precário”, revela. Mesmo estudando num bom colégio, ele não acreditava na aprovação. “Eu achava que não conseguiria, mas tive fé e bastante sorte”, destaca. O jovem foi resistente a dar entrevista, pois acha que essa vitória deve ser comemorada em família. Mateus se considera “uma pessoa privilegiada, com uma história que não se vê por aí”. Depois de parte da história dele ser contada em reportagem publicada no site Eu, Estudante, Mateus comemorou em post no Instagram.

“Pra quem não sabe essa é a minha história, a qual contei para pouquíssimas pessoas dentro daquele colégio, por sei lá (medo)”, escreveu. “Pretos no topo”, completou. Além do sucesso no PAS, o estudante também teve bom desempenho no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que se baseia na nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), pelo qual foi aprovado para estudar engenharia de redes na UnB. “No PAS, primeiro eu me inscreveria para engenharia elétrica, mas, como já tinha me garantido pelo Sisu, resolvi arriscar medicina, que é o que eu realmente quero”, conta.

O valor das cotas


A UnB é pioneira na reserva de vagas para negros. Em 2018, a instituição comemorou 15 anos desde o primeiro vestibular com cotas raciais. A decisão, polêmica na época, acabou por influenciar outras instituições a adotarem o modelo. Não existe lei federal que estabeleça reserva de vagas exclusiva para pessoas pretas e pardas em instituições de ensino superior públicas. No entanto, a Lei nº 12.711/2012 destina 50% das vagas de universidades e institutos federais para estudantes que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. Dentro desse montante, há uma reserva para negros, pardos e indígenas de acordo com o percentual dessas populações em cada unidade da Federação.

Os resultados desses incentivos podem ser sentidos. Em 2011, os negros correspondiam a 11% dos matriculados no ensino superior brasileiro, percentual que saltou para 30%, em 2016. Os dados são do Censo do Ensino Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em 2017, o número de ingressantes na UnB que se autodeclararam negros atingiu 33,53%, segundo levantamento do Decanato de Planejamento, Orçamento e Avaliação Institucional (DPO/UnB).



*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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