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Correio Braziliense TENDÊNCIA

Robotização, na verdade, ajuda a ressaltar valor das competências humanas

Com o avanço da tecnologia, os atributos que os robôs não têm passam a fazer a diferença para o sucesso profissional. Análise crítica, criatividade e empatia são habilidades que podem garantir o emprego


postado em 10/02/2019 17:37 / atualizado em 10/02/2019 19:39

Quando o assunto é a substituição gradual de humanos por robôs no mercado de trabalho, Celso Sousa, 46 anos, está em uma posição privilegiada. Isso porque o especialista em criptografia e diretor técnico da Dinamo Networks é responsável por criar softwares que executam tarefas antes desempenhadas por pessoas, no segmento de tecnologias para segurança de identidade digital. “As mudanças por causa da robotização afetam menos a minha profissão porque eu construo o robô. Estou do lado de cá da mesa nesse processo. Quanto mais robô para mim, melhor”, brinca. “Pois isso significa mais comércio e mais possibilidade de negócios. Para outras profissões, isso não é tão verdade e, talvez, o destino seja um pouco cruel”, analisa o bacharel em ciências da computação pela Universidade Católica de Brasília (UCB).

 

 

Renato Panessa(foto: RMA Comunicação/Divulgação)
Renato Panessa (foto: RMA Comunicação/Divulgação)
 

O cenário para boa parte das profissões parece mesmo não ser tão animador quando o de trabalhadores da área de tecnologia, conforme indica pesquisa da consultoria McKinsey. O estudo, publicado no fim de 2017, detectou que entre 400 milhões e 800 milhões de empregos devem ser automatizados até 2030, o que representa um terço das ocupações atuais. Embora esteja, provavelmente, fora dessa estatística, Celso não se acomoda. “Procuro me atualizar sempre, fazendo cursos e buscando literatura especializada. Nunca me senti apreensivo, mas estou atento. Não posso relaxar porque senão vou ter de trocar de profissão”, afirma.
 
 
Celso Sousa (foto: Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press )
Celso Sousa (foto: Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press )
 
"As mudanças por causa da robotização afetam menos a minha profissão porque eu construo o robô. Estou do lado de cá da mesa nesse processo”
Celso Sousa, especialista em criptografia

"As pessoas terão de buscar conhecimento em metodologias que visam trazer agilidade para o desenvolvimento de um produto ou serviço. Caso contrário, serão substituídas por robôs”
Renato Panessa, administrador 
 

Qualificação é a palavra de ordem

Consultor de negócios e especialista em RH, Ricardo Veríssimo afirma que a substituição de homens por máquinas não é novidade, pois ocorre desde a Revolução Industrial. Ele enxerga o processo como uma evolução e afirma que o foco da discussão deve estar na qualificação das pessoas diante das mudanças inevitáveis dos próximos anos. “Todos os profissionais precisam estar atentos para não serem pegos de surpresa. Uma profissão, assim como um produto, tem uma curva de vida que pode ter altos e baixos e até mesmo desaparecer”, destaca. “Trabalhadores que se mantêm atualizados e estudam constantemente sobre a própria área sabem o momento de migrar ou de se ajustar”, aponta.

A busca por qualificação deve ir além da área de formação inicial, como acredita Renato Panessa, diretor regional de Sul e Sudeste da Globalweb Outsourcing, empresa de manutenção de TI. “Independentemente de o sujeito ser um técnico de informática, ele deve ter um mínimo de visão de negócio para entender que está prestando um suporte de TI em uma empresa de logística que tem de carregar a mercadoria de um ponto a outro da maneira mais rápida possível”, exemplifica o administrador de empresas com especialização em comércio exterior pela Universidade Paulista (Unip).

O caminho para o homem competir em condições mais favoráveis diante dos softwares de inteligência artifical ou das máquinas pode ser diminuir as desvantagens em relação à tecnologia, como a rapidez na tomada de decisões, por exemplo. “As pessoas terão de buscar conhecimento e especialização em metodologias que visam trazer agilidade para o desenvolvimento e a aplicação de um produto ou serviço. Caso contrário, serão substituídas por robôs”, alerta Renato.

As vantagens emocionais

É fato que robôs têm alta capacidade de processamento de informações e ganham de goleada dos humanos quando o assunto é executar tarefas repetitivas ou protocolares, mas, diante do cenário incerto sobre o que os softwares serão capazes de fazer em longo prazo, as pessoas se diferenciam naquilo que é mais difícil de ser reproduzido, como as habilidades socioemocionais e a aptidão para relacionamentos. É o que afirma João Roncati, sócio-diretor da People Strategy, consultoria de gestão organizacional. “Quem tem capacidade analítica, consegue lidar e se adaptar rapidamente a cenários diversos e, principalmente, convive bem com questões emocionais e de relacionamento, dificilmente será substituído”, avalia.
  
Ricardo Veríssimo(foto: Rayene Marques/Divulgacao)
Ricardo Veríssimo (foto: Rayene Marques/Divulgacao)
Ricardo Veríssimo aposta na habilidade de compreensão e afinidade como marcas que vão distinguir robôs de humanos. “Os homens podem sentir empatia; as máquinas, até o momento, não. Essas têm a capacidade de processamento e análise de informações, mas não têm vivência emocional, enquanto nós somos regidos por emoção”, diz. O palestrante de empreendedorismo e RH acredita que os cargos de liderança exigem o desenvolvimento dessas competências interpessoais. “Sem empatia, é impossível termos crescimento empresarial na atualidade e voltaríamos à escravidão. Logo, se você trabalha com pessoas, precisa ser especialista em emoções”, completa.
 
João Roncati(foto: Conecte Comunicação/Divulgação)
João Roncati (foto: Conecte Comunicação/Divulgação)
As habilidades para se relacionar e a atenção com o próximo podem fazer a diferença na manutenção do emprego. Por isso, as profissões menos impactadas pela tecnologia são as de cuidado humano, ressalta João. “Você não substitui facilmente um cuidador ou um enfermeiro por um robô, tampouco alguém que vai educar os seus filhos por uma máquina que só transmite conhecimento e não passa estrutura moral, afeto e convivência”.

Tecnologia humanizada

'Em vez de fazer trabalhos mecânicos, como um relatório, começo a utilizar as informações que os softwares dão estrategicamente', analisa Allan Ramos, gestor de rede de computadores(foto: Arquivo Pessoal)
'Em vez de fazer trabalhos mecânicos, como um relatório, começo a utilizar as informações que os softwares dão estrategicamente', analisa Allan Ramos, gestor de rede de computadores (foto: Arquivo Pessoal)
Gerente de produtos na empresa de manutenção de tecnologia da informação Globalweb, Allan Ramos, 39, trabalha em um setor que passa por automação constantemente. No entanto, ele faz parte de um projeto desenvolvido pela empresa que vai na contramão desse processo e busca humanizar mais o atendimento aos clientes. Por isso, não teme ser substituído por um robô. “O produto que eu conduzo é apoiado no pilar de ‘sempre servir’, do sorriso na voz, com disponibilidade e entrega de resultados constantemente”, explica o graduado em gestão de rede de computadores. “Senti-me apreensivo, não do ponto de vista de ‘posso ser substituído’, mas no sentido de buscar acesso e conhecimento para me aproveitar das transformações o quanto antes”, afirma.


Allan participou de palestras sobre a temática, fez cursos de capacitação e se esforça bastante no trabalho. Tudo isso pensando em se tornar capaz de sobreviver às mudanças na profissão. “Cedo ou tarde, a minha área vai ser automatizada, mas, em vez de eu fazer trabalhos mecânicos, como um relatório, começo a utilizar as informações que os softwares dão estrategicamente”, projeta. De acordo com Renato Panessa, muitas atividades na área de tecnologia tendem a ser automatizadas naturalmente, mas os usuários acabam se ressentindo da falta de atendimento humanizado. “Muitas vezes, as empresas fazem uma economia burra de tirar um ser humano para colocar um robô. Pode ser que, para alguns clientes e determinados casos, o robô não seja a melhor opção de atendimento”, avalia.


Três perguntas para / Vicente Goetten, diretor-executivo da Totvs Labs no Vale do Silício, provedora de soluções de negócios para empresas

(foto: RMA Comunicação/Divulgação)
(foto: RMA Comunicação/Divulgação)
 


Como você enxerga o futuro do mercado de trabalho com a transformação digital?
A transformação digital está impactando a forma como conhecemos o mercado de trabalho. Mas a boa notícia é que não importa o caminho, as empresas ainda precisarão de pessoas que desenvolvam as inteligências das máquinas. Novas profissões serão criadas, e a criatividade e o pensamento crítico serão cada vez mais importantes para as empresas. Precisamos ver a tecnologia como algo que aumentará a nossa capacidade para desempenharmos nossos trabalhos.

Como o profissional pode se capacitar para não ser substituído pela robotização, mas ser alguém que trabalha em conjunto ou domina softwares e máquinas?
A melhor forma é estarmos em constante modo de aprendizado. Aprender não pode acabar quando a pessoa conclui um curso de graduação, ela deve continuar. Uma forma de fazer isso, que está ganhando cada mais espaço, são nanodegrees, cursos de especialização de curta duração e com certificado. Para se ter uma ideia, a visibilidade deles está crescendo tanto que estão recebendo patrocínio de grandes players como Google, Amazon e IBM, que inclusive contratam muitos desses alunos. Esse tipo de graduação é uma resposta dos novos tempos de mudanças rápidas, já que nem sempre dará tempo de as empresas esperarem futuros profissionais terminarem suas graduações tradicionais de cinco anos. Por isso, fazer uma especialização em seis meses pode ser um dos caminhos para acompanhar as mudanças.

Análise crítica, criatividade e outras habilidades comportamentais serão diferenciais nesse processo?
Sem dúvida. O mercado de trabalho precisará da criatividade humana, de pessoas que consigam desenhar soluções, para continuar no desenvolvimento de novas tecnologias, processos e experiências para as pessoas.

Palavra de especialista / Por que preparar as crianças para a era da robotização?

Andreia explica programação para alunos da escola Arara Azul(foto: Arquivo Pessoal)
Andreia explica programação para alunos da escola Arara Azul (foto: Arquivo Pessoal)
 
 
"Investir na formação das crianças nessa era digital é fundamental para o desenvolvimento de um conjunto de habilidades importantes no processo de formação humana, intelectual e consequentemente profissional. É fato que as crianças têm uma relação, na maioria das vezes, sem supervisão e muito solitária com a tecnologia. Precisamos nos preocupar em prepará-las para lidarem com esse processo de robotização inserido no atual comportamento humano e no mercado de trabalho, em que a automação também está cada vez mais presente. Surge, então, a necessidade de termos crianças preparadas com diferenciais que não as possibilitem serem substituídas por robôs no futuro profissional. Para isso, é necessário que as crianças desenvolvam habilidades que dificilmente um robô conseguiria ter com a mesma qualidade; como a criatividade, a superação de erros, a empatia e a inteligência emocional para melhor trabalhar as relações humanas, a gestão e o planejamento estratégico, dentre muitas outras. Usar a tecnologia a favor da educação é ajudar as crianças no desenvolvimento de competências atuais importantes e essenciais! Um bom exemplo de êxito nesse processo formativo é o de inserir a robótica no contexto educacional, já que ela propicia o desenvolvimento de uma prática que traz uma nova realidade em que o aluno passa a ser autor do próprio conhecimento e centro do processo, aplicando toda sua imaginação criadora capaz de interferir no seu meio, em busca de soluções para os problemas que afligem a humanidade. É necessário voltar nossos olhares para o futuro das novas gerações, dos nossos pequeninos! A inteligência artificial pode ocupar a maioria dos postos de trabalho que conhecemos e as crianças precisam estar preparadas para fazer a diferença pessoal, social e profissional."

Andreia Falcão, mestre em tecnologias da educação pela Universidade de Brasília (UnB), pesquisadora em robótica educacional e programação para crianças e adolescentes e coordenadora de robótica da escola Arara Azul, em Águas Claras.

Filosofia em meio aos algoritmos

Autor do best-seller Sapiens — uma breve história da humanidade, o historiador israelense Yuval Noah Harari acredita que, em meio a tantas profissões que devem surgir nos próximos anos por causa da quarta revolução industrial, uma ocupação que vem desde a antiguidade pode se fortalecer: a filosofia. A “previsão” foi dada no lançamento do novo livro de Yuval: 21 lições para o século 21. De acordo com o historiador, os filósofos serão importantes na programação de softwares e máquinas inteligentes, sobretudo quando essas tiverem que lidar com “dilemas morais” no futuro. Uma das questões éticas, por exemplo, atinge diretamente a produção dos carros autônomos, guiados exclusivamente por meio da inteligência artificial.

Empresas como Uber, Google, Tesla e Mercedes-Benz investem para substituir completamente os seres humanos na direção dos veículos do futuro. No entanto, um grande entrave para a regularização dos carros autônomos pode ser quando esses carros se deparam com problemas éticos. Que decisão o software deve tomar, por exemplo, quando um pedestre surge no meio da pista inesperadamente? Seguir em frente e atropelá-lo ou desviar e se chocar contra um muro ou se lançar no precipício com o passageiro do carro dentro? Para o israelense, a filosofia pode ser útil nesses casos.

Leia

 

21 lições para o século 21

Autor: Yuval Noah Harari
Editora: Companhia das Letras
432 páginas
R$ 54,90 / R$ 29,90 (Ebook)

Os atributos do ano

O LinkedIn divulgou uma lista com as cinco principais habilidades que as empresas mais precisam em 2019:
Criatividade
Persuasão
Colaboração
Adaptabilidade
Gerenciamento de tempo

Atualizar-se é preciso
Segundo o relatório O futuro do trabalho, do Fórum Econômico Mundial, 54% dos profissionais terão de ser requalificados até 2022. A demanda será alimentada pelo desenvolvimento da inteligência artificial, já que muitas funções serão substituídas por máquinas.
  
 

* Estagiário sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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