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Elas fazem ciência! Conheça pesquisadoras brasileiras da atualidade

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o Correio investiga a realidade dos pesquisadores do país. Assim como ocorre no restante do mercado de trabalho, elas ganham menos e ocupam menos cargos de liderança. Mas existem saídas para virar o jogo: por exemplo, incentivar o gosto de meninas pela área desde a infância e flexibilizar prazos e metas para as que saem de licença-maternidade


postado em 10/03/2019 16:56 / atualizado em 13/03/2019 19:26

No mercado de trabalho brasileiro, as mulheres estudam mais, mas ganham menos e ocupam menor quantidade de cargos de liderança. É uma realidade que se repete em diversos setores do mercado, inclusive no mundo da ciência. Na base da pirâmide, ao começar uma carreira na pesquisa, a quantidade de pesquisadores e pesquisadoras ainda é desigual, mas a diferença não é tão gritante. À medida que se aproxima do topo da pirâmide, o montante de investigadoras só cai. No Brasil, as trabalhadoras são 44% da mão de obra, mas ocupam apenas 18% das posições de chefia, segundo a pesquisa Panorama Mulher 2018, da Talenses em parceria com o Insper. Movimento semelhante se observa no mundo dos trabalhos acadêmicos.
 
 
Em levantamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que considera mais de 134 mil doutores no país, as doutoras são responsáveis por 47% do total. No entanto, nos níveis mais altos de pesquisa, há apenas 363 pesquisadoras, contra 1.023 pesquisadores — ou seja, elas ocupam 26% dos cargos mais altos da ciência. De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), dos 364.094 estudantes de programas de pós-graduação no país, mais da metade, 195.301, são mulheres. Atuando como professores de especialização, mestrado ou doutorado, há 76.894 profissionais, dos quais 33.318 são professoras, representando menos da metade. No Brasil, 49% dos artigos científicos publicados são de autoria feminina, de acordo com a Elsevier, maior editora científica do mundo.


A pesquisadora Marjorie Chaves percebe que mais afasta as mulheres da pesquisa é a discriminação(foto: Arquivo Pessoal)
A pesquisadora Marjorie Chaves percebe que mais afasta as mulheres da pesquisa é a discriminação (foto: Arquivo Pessoal)
 
 
 
 
Entretanto, há muita desigualdade entre o total de cientistas mulheres despontando. De acordo com especialistas, a ocupação de cargos mais altos no âmbito acadêmico é dificultada por uma série de fatores. Progressão de carreira e salarial, ambiente competitivo, assédio moral, gravidez e, principalmente, preconceito de gênero estão entre eles. “Há muita discriminação só por ser mulher e, atrelado a isso, tem a maternidade. Às vezes, a licença para esse período é um empecilho para a progressão funcional da pesquisadora”, aponta Carolina Horta Andrade, diretora da Divisão de Química Medicinal da Sociedade Brasileira de Química (SBQ). “Isso porque ela tem de cumprir metas para manter uma bolsa de pesquisa, como horas de aulas e produção científicas. Então, nem todas dão conta de manter o ritmo tendo filhos”, observa.
 
 
 
 

Questão de renda

 

Fábio Eon é coordenador de Ciências Naturais da Unesco e percebe a importância das mulheres na pesquisa(foto: Unesco/Divulgação)
Fábio Eon é coordenador de Ciências Naturais da Unesco e percebe a importância das mulheres na pesquisa (foto: Unesco/Divulgação)
Para o coordenador de ciências naturais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, Fábio Eon, um dos principais motivos da desigualdade no topo da pirâmide está na progressão de pagamento. “Os salários pagos na ciência ainda são desiguais entre homens e mulheres. E essas diferenças vêm de baixo. O número de ingressantes no ensino superior até que é equiparado, mas, quando vai subindo para os cargos mais altos, gera-se essa grande diferença entre os sexos”, cita Fábio Eon. O que se observa também no restante do mercado. Pesquisa da plataforma de bolsas de estudos Quero Bolsa, a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), demonstrou que, em todas as carreiras, a diferença de remuneração entre sexos chega a 44,90%, com os homens sendo favorecidos em praticamente todas as profissões.

A renda média mensal de trabalhadores contratados para funções com exigência de nível superior era de R$ 3.756,84 para homens e de R$ 2.592,65 para mulheres. O salário de um cientista pode variar bastante. Em universidades, o profissional pode atuar tendo mestrado ou doutorado, podendo receber entre R$ 5.968,03 e R$ 20.530,01, respectivamente. De acordo com o Guia de Profissões e Salários gerado pelo Quero Bolsa, no Distrito Federal, a renda de um pesquisador pode variar entre R$ 1.816,50 e R$ 13 mil. Os valores mudam de acordo com a área. Os vencimentos médios de um pesquisador em ciências da terra e meio ambiente é de R$ 9.393. Porém, homens recebem 66% mais do que mulheres no mesmo nicho: as pesquisadoras ganham R$ 7.070; enquanto os pesquisadores colocam no bolso R$ 11.716 por mês.


Desequilíbrio

 

Há muitas discrepâncias no número de cientistas por gênero de acordo com a área da pesquisa: assim como há menos engenheiras do que engenheiros no país, isso se repete entre os cientistas: nesse ramo, há 3.077 pesquisadoras e 9.258 pesquisadores. Enquanto isso, em linguística, letras e arte, elas são 5.332, e eles 3.081.Marjorie Chaves, doutoranda em política social, mestra em história e pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (Neab/Ceam-UnB), explica que os motivos para isso começam na vida escolar. “A ausência das mulheres nas ciências, principalmente, no campo das exatas, ocorre desde a infância devido a um estereótipo que coloca meninos como melhores em matemática do que meninas”, diz.
 

“Elas, geralmente, não são incentivadas às carreiras científicas, constituindo um contingente bastante pequeno nos cursos de exatas nas universidades e pesquisas”, destaca. Para além dos aspectos que dificultam escalar até o topo da pirâmide na ciência, existem os obstáculos que complicam o ingresso das mulheres na carreira de cientista. Para Marjorie Chaves, o que mais afasta as brasileiras da pesquisa é a discriminação de gênero. “Isso devido à divisão sexual do trabalho. Em sociedades patriarcais como a nossa, mulheres exercendo ocupações consideradas próprias do feminino têm seu trabalho naturalizado como uma espécie de ‘dom’, uma aptidão”, aponta. “Uma tendência que segue para o trabalho doméstico e de cuidados com outras pessoas em um cenário de servidão e silêncio. A ciência, porém, sempre foi vista como o lugar dos homens, do masculino”, elenca. 

Escopo de trabalho

 

Sônia Báo é diretora de avaliação da Capes(foto: Capes/Divulgação )
Sônia Báo é diretora de avaliação da Capes (foto: Capes/Divulgação )
 
 
 
O campo de atuação de uma profissional da ciência tende a ser bastante amplo. Ela pode atuar em universidades, órgãos públicos e empresas, por exemplo, de desenvolvimento tecnológico. “Uma boa fatia da força de trabalho está nas faculdades, em que se exerce duas funções ao mesmo tempo, a de professor e a de pesquisador”, observa a diretora de avaliação da Capes, Sônia Báo. Segundo ela, a atuação em companhias particulares é mais complicada. “Muitos dirigentes ou donos de empresas acham que ter um pesquisador no quadro de pessoal é inviável, pois geraria mais custo. É aí que se enganam, pois, para desenvolver melhores projetos, é necessário um profissional capacitado”, defende. “No setor público, o pesquisador pode atuar em planejamentos de projetos e políticas públicas em órgãos do governo”, acrescenta.
 
 
 
 

Para superar

 

Na avaliação de especialistas, ultrapassar barreiras para aumentar a quantidade de mulheres fazendo ciência, especialmente nos cargos mais altos, não é uma equação simples de solucionar. A questão exige mudanças desde a base escolar até o topo das instituições de ensino. “O principal ponto a ser superado é a educação básica porque, a partir daí, as pessoas terão mais capacidade para entrarem em uma universidade e pensar ciência”, analisa Maria Sueli Felipe, pesquisadora e presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Fábio Eon, da Unesco no Brasil, concorda que o investimento deve começar cedo. “A responsabilidade de se incentivar a pesquisa deve ser compartilhada entre família, comunidade e escola. As instituições de ensino devem também ter professores que deem mentoria para os jovens, a fim de que tomem gosto por carreiras acadêmicas”, sugere.
 
 
 
 
“A elaboração de materiais didáticos tem que ser outra preocupação. É necessário ter mais figuras femininas para elas se sentirem representadas”, acrescenta. Carolina Horta Andrade, pesquisadora de química e ganhadora dos prêmios para Mulheres na Ciência e International Rising Talents (IRT), tem uma preocupação com as políticas de licença-maternidade e as bolsas de pesquisa. “No momento, eu estou de licença-maternidade e vejo que ela é necessária para que a conciliação entre ser mãe e pesquisadora seja mais fácil. Já existem instituições que acrescentam 12 meses a mais de bolsa para quem tem filho, justamente para que a produção científica não seja prejudicada e a pessoa, penalizada por isso. Outras instituições devem fazer o mesmo”, acredita.

Comparativo

Currículos de doutores cadastrados
Feminino: 225.382
Masculino: 228.849

Currículos de doutores atualizados nos últimos quatro anos
Feminino: 125.728
Masculino: 111.686
Fonte: Plataforma Lattes

Meu sobrenome é pesquisa


Não é de hoje que mulheres se destacam em laboratórios e universidades por seus feitos. Grande exemplo é Bertha Lutz (1894-1976), bióloga, ativista feminista e deputada federal. Filha de um cientista e de uma enfermeira, ela estudou ciências na Universidade de Sorbonne, em Paris. Em 1919, tornou-se a segunda mulher funcionária pública no Brasil quando passou num concurso do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Ela se especializou em anfíbios, deu aula por mais de 40 anos. Engajada com o movimento feminista, por meio de entidades como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que encabeçou campanha a qual, mais tarde, conseguiu conquistar o voto feminino, em 1932. Ela se tornou deputada federal, em 1936. Há exemplos de sucesso recentes que podem inspirar todas as meninas. Conheça a trajetória de pesquisadoras brasileiras da atualidade:

“Estou na vanguarda da ciência” 


Pesquisadora de astrofísica, Marcelle Soares-Santos dá aulas em universidade nos EUA (foto: Arquivo Pessoal )
Pesquisadora de astrofísica, Marcelle Soares-Santos dá aulas em universidade nos EUA (foto: Arquivo Pessoal )
Quase uma celebridade no mundo da ciência, a astrofísica Marcelle Soares-Santos hoje é professora na Universidade de Brandeis, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Capixaba e negra, ela atua em um dos mais importantes centros de pesquisa em física de partículas, o Fermilab (Fermi National Accelerator Laboratory). A cientista pesquisa a natureza da expansão acelerada do universo. Em 2019, ela foi reconhecida pela Fundação Alfred P. Sloan, organização americana sem fins lucrativos que escolhe os jovens que mais se destacam na ciência para receber uma bolsa de US$ 70 mil para gastar com o trabalho.

Assim, é considerada parte da “vanguarda da ciência no século 21”. Marcelle também venceu o Prêmio Alvin Tollestrup por contribuições para o Dark Energy Survey (DES), em 2014. Foi um reconhecimento pelas contribuições ao estudo da energia escura. Até 2017, tinha publicado 120 artigos e era citada em 2.235 estudos. Para ter mais exemplos como ela na ciência, é preciso mudar o modo como a realidade se apresenta. “É necessário criar ambientes em que todos sejam respeitados e valorizados dentro da comunidade científica e na sociedade, independentemente de gênero ou da cor da pele e criar linhas de apoio contínuo aos intelectuais e cientistas jovens, com ideias transformadoras e potencial para se tornarem líderes”, afirma.

Ela se formou em física pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Com mestrado e doutorado em astrofísica pela Universidade de São Paulo (USP), a cientista acredita na importância dessa mudança de cenário. “Ter uma representação diversa entre os pesquisadores faz com que a ciência resultante seja melhor. Se 50% das pessoas são mulheres; então, quando as excluímos estamos simplesmente deixando de aproveitar metade da capacidade humana de produção intelectual! Imagina quantos avanços faremos no dia em que tivermos contribuição mais igualitária?”  (Thays Martins*)

“Amo o que faço”


Rose Monnerat pesquisa controle biológico de pragas na Embrapa(foto: Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press )
Rose Monnerat pesquisa controle biológico de pragas na Embrapa (foto: Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press )
Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) há quase 30 anos, Rose Monnerat, 56 anos, acredita que a profissão de pesquisadora precisa começar a ser valorizada ainda nas escolas. “Toda criança é curiosa por natureza; então, se incentivada, pode se interessar por isso. É necessário mostrar que é possível ser cientista”, diz a graduada em ciências biológicas pela UnB. Com doutorado em agronomia e pós-doutorado em bioquímica, Rose conta que a paixão pela pesquisa surgiu, no caso dela, na faculdade. “Sempre fui muito curiosa; então, entrei em um projeto de pesquisa e gostei. Depois, fui estagiar na Embrapa e percebi que era o que eu queria. Eu me sinto realizada”, comemora a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Ela trabalha com controle biológico de pragas de importância agrícola e vetores de doenças. “Se estudamos o ocorrido e descobrimos o que o causou e tudo mais, podemos antecipá-lo para não ocorrer algo ruim”, comenta. “Na pesquisa, tem-se uma dinâmica muito legal. Se você termina um trabalho, acompanha o desenvolvimento dele e, logo na frente, surge outro desafio. E começamos tudo de novo”, descreve. Na hora de escolher a carreira, ela indica, é fundamental decidir pelo que gosta. “Tem que fazer algo que dá prazer, para tentar conciliar o carinho com a importância daquilo que se trabalha”, diz.

“Eu, por exemplo, estou quase me aposentando e parece que comecei a trabalhar ontem, isso porque me divirto com o que faço”, diz a também professora da pós-graduação em agronomia da UnB. Casada e mãe de três filhos de 22, 23 e 35 anos, ela avalia que não enfrentou tantas dificuldades para conciliar a criação dos filhos com a pesquisa. “Tudo é possível. Eu amo minha família e amo minha pesquisa. Tudo, com carinho e apoio, dá para ser feito. Meu marido, que é pesquisador, também me ajudou muito”, lembra. Um problema que ela enfrentou foi a falta de compreensão dos outros. “Às vezes, as pessoas nos chamam de nerd, porque acham que a gente tem uma vida diferente.”  (Neyrilene Costa*)

“Estudei para vencer na vida”

 

A pesquisadora Dalva Maria em campo no Parque Nacional de Point Reyes, na Califórnia(foto: Arquivo Pessoal)
A pesquisadora Dalva Maria em campo no Parque Nacional de Point Reyes, na Califórnia (foto: Arquivo Pessoal)
Nascida no interior de São Paulo, mas com experiência em diferentes cidades no Brasil e no exterior, Dalva Maria da Silva Matos, 54 anos, é citada na lista das mulheres que mais se destacam nas pesquisas sobre incêndios florestais no planeta. Ela nutriu o desejo de estudar para vencer na vida ainda criança. “Minha mãe faleceu quando eu tinha 12 anos e ela sempre me incentivava a estudar. A partir do ocorrido, tive mais vontade ainda de seguir estudando”, conta. Dalva concluiu a educação básica na rede pública, tendo em mente o sonho de cursar medicina para evitar que outras crianças perdessem suas mães. A primeira vez que tentou o vestibular, não passou. Então, por medo, decidiu tentar biologia, que era algo relacionado, e conseguiu.

“Na faculdade eu cursei matéria da medicina também, mas chegou um momento em que tive que decidir o que realmente queria, optei pelo curso em que estava e me encontrei”, diz. Ela se graduou em ciências biológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Não foi um período fácil e, por eu vir de uma família carente, o dinheiro que meu pai e meus irmãos mais velhos mandavam mal dava para eu me sustentar. Consegui ajuda na universidade para almoço e transporte”, relembra, agradecida. “Eu estudava o dia todo. Fiz bolos à noite para vender em uma cantina, trabalhei como ensacadora em uma loja e fui professora de ciência, sem tempo até para almoçar”, recorda. Dalva fez mestrado em biologia vegetal também na Unicamp e doutorado em dinâmica da população de palmito na Universidade de East Anglia, na Inglaterra.

“Pensando ainda na minha ideia inicial de salvar mães, busquei isso na biologia, mas fui além: posso salvar mães, pais e filhos com o meu trabalho, pois trabalho para salvar o ambiente”, destaca. “Então, acho que fiquei megalomaníaca em ecologia, pensando que posso salvar o planeta. É para isso que eu luto”, explica. Dalva defende que maior igualdade entre mulheres e homens trará benefícios, inclusive, para os resultados dos estudos. “Existe uma grande diversidade de pensamentos e habilidades. Então, é importantíssimo que tenhamos tanto homens quanto mulheres na pesquisa. As nossas habilidades se complementam”, observa. “Temos que ter diversidade de classes sociais, gêneros, culturas em todos os setores. Eu, que trabalho com biodiversidade, tenho que lutar pela diversidade”, ressalta.

Segundo a pesquisadora e professora titular do Departamento de Hidrobiologia da Universidade Federal de São Carlos (Dhb/UFSCar), o estímulo para seguir a carreira de pesquisa deve se iniciar nas escolas. “Precisamos estimular as meninas que desconhecem a carreira científica. Na verdade, as crianças e jovens, de forma geral”, indica. “As universidades devem também trabalhar com projetos de extensão e palestras em escolas, para que os estudantes conheçam os diversos campos do saber e despertem a curiosidade para isso”, sugere. “Assim, os alunos verão como é interessante e divertido fazer pesquisa, além de perseguir uma meta e alcançá-la”, conclui. (» Neyrilene Costa*)

“A curiosidade me move” 


Tainá Raiol pesquisa saúde pública na Fiocruz (foto: Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press )
Tainá Raiol pesquisa saúde pública na Fiocruz (foto: Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press )
Brasiliense de criação e natural de Porto Velho (RO), Tainá Raiol é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) há quatro anos. O desejo por fazer ciência surgiu cedo. “Eu me interesso por isso desde criança. Eu sou curiosa e sempre fui atrás de entender as coisas que ocorriam ao meu redor”, conta. Hoje, trabalhando como pesquisadora em saúde pública na Fiocruz e professora de pós-doutorado, ela percebe que o caminho para as mulheres seguirem carreira acadêmica, por vezes, não é fácil. “Temos, em muitos casos, de estar nos reafirmando como pesquisadoras”, desabafa. “Acho que, pelo fato de a mulher ser mais sensível, por compreender mais o outro, acaba não sendo levada a sério. Isso é algo que tive que vencer, me impondo, mostrando sempre que sei o que estou fazendo e sei da importância daquilo”, diz a graduada em ciências biológicas pela UnB que não tem filhos.

Na pós-graduação, Tainá escolheu a área de bioinformática que, como ela percebeu, é dominada por homens. “Esse é um campo de conhecimento bem carente de profissionais e eu percebi que a presença feminina é baixa. Às vezes, não é por falta de interesse em matérias exatas e aptidão, mas, sim, por não ter incentivo para que elas continuem nesse ramo”, diz. Para ela, o que sempre move um cientista é a pesquisa. “Essa é uma das características. Você tem de ir atrás, querer saber o que é, entender algo que se passa na sociedade”, diz a mestre e doutora em biologia molecular. Tainá defende que a ciência é necessária na vida de todas as pessoas por abrir caminho para descobertas. “O conhecimento sobre nossos problemas e doenças faz com que possamos combatê-las. Para isso, precisamos ser resilientes. Não é uma carreira fácil, porém é muito gratificante você conseguir concluir algo, resolver um problema.” (» Neyrilene Costa*)

“Pensaram que eu não daria conta”


Pâmela venceu o prêmio L`Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência e dá aulas na Unipampa (foto: L´oreal/Divulgação)
Pâmela venceu o prêmio L`Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência e dá aulas na Unipampa (foto: L´oreal/Divulgação)
Ao decidir ser cientista, Pâmela Carpes, 35 anos, conta que foram muitas as pessoas que pensaram que ela não conseguiria. A então recém-graduada em fisioterapia estava grávida. Esse é exatamente um fator que afasta muitas mulheres da pesquisa. Ainda bem que não foi o caso de Pâmela. “Pareceu que tudo que eu tinha planejado não ia dar certo, mas decidi que ia fazer acontecer. Eu sabia que ia ser mais difícil, mas eu daria conta”, lembra. O primeiro desafio foi a procura por um orientador para o mestrado que cursaria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “É muito difícil conseguir um professor que te aceite. São muitos anos de trabalho junto e, se você tem um filho pequeno, quebra as expectativas de que  se dedicará exclusivamente à pesquisa”, explica. “Um homem não passaria por isso mesmo que tivesse filho pequeno. Eu tive muito apoio dos meus pais e do meu marido”, destaca.

Mãe de um filho de 14 anos, ela revela que a possibilidade de ser mãe novamente foi sendo deixada de lado. “Meu filho não foi planejado. Decidi que não teria mais porque sempre tinha alguma coisa no caminho. Por exemplo, ano passado eu fui professora convidada na Espanha e levei meu menino comigo, mas, se ele ainda fosse um bebê, não teria como”, afirma. É exatamente para que essa questão mude que a neurocientista tem aproveitado a visibilidade do trabalho dela para discutir questões de gênero na ciência em palestras. Pâmela, que hoje é pesquisadora da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), foi ganhadora do prêmio L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência, em 2017. A linha de pesquisa vencedora foi Ciências da vida: a privação de cuidados no início da vida e como os mecanismos neurobiológicos gerados por ela afetam a formação do cérebro. “Os homens conseguem chegar ao topo da carreira rapidamente e as mulheres, não. Vários fatores explicam isso, desde preconceito, até a questão do assédio e a sobrecarga de trabalho”, afirma. (» Thays Martins*)


"Somos talentosas e temos que dar nossa contribuição"


Betania Quirina trabalha com biologia molecular(foto: Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press )
Betania Quirina trabalha com biologia molecular (foto: Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press )
Pesquisadora da Embrapa Agroenergia há 11 anos, Betania Quirino é filha de pais brasileiros, nasceu nos Estados Unidos e se considera brasiliense, já que foi criada na capital federal. O interesse pela ciência veio da curiosidade. Ela trabalha na área de biologia molecular, com ênfase em microbiologia. “Podemos ajudar nas indústrias e temos importante função de descobrir novas enzimas para resolução de problemas”, diz sobre a área. Mãe de dois filhos, de 11 e de 15 anos, Betania conta que não teve grandes dificuldades para conciliar a maternidade com a pesquisa. “Pelo fato de eu estar em uma empresa pública, todas as leis são seguidas. Então, pude tirar a licença-maternidade e cuidar deles. Logo depois, continuei meus trabalhos”, relembra.

Para ela, a presença feminina no mundo da pesquisa acaba sendo menor por diversos fatores. “A começar pela graduação e pela pós. Em algumas áreas, como as exatas, não se vê muitas mulheres. Durante os quatro anos do meu doutorado, por exemplo, eu era a única aluna no programa. Também havia poucas professoras”, diz. Betania se graduou em ciências biológicas na UnB, fez mestrado, doutorado e pós-doutorado em biologia celular e molecular pela Universidade de Wisconsin, em Madison, EUA. Outro obstáculo citado é a falta de conscientização sobre a profissão no país. “Tem que se fazer um trabalho para que as pessoas enxerguem mulheres como líderes, precisa-se divulgar dados sobre o assunto”, comenta.

“É necessário promover eventos com cientistas, mostrando que elas podem ser líderes excelentes e inspirar novas meninas. Somos talentosas e temos que dar nossa contribuição ao mundo”, acredita. Ela também defende melhores condições para as mães. “Seria mais interessante uma licença parental, em que homens e mulheres poderiam tirar um tempo para ficar em casa cuidando dos filhos e administrando tarefas, do que uma licença-maternidade”, percebe. A pesquisadora enfrentou dificuldades também quando fez doutorado no exterior. “Foi um período que demandou bastante de mim, tudo era muito rigoroso. Acho que não seria possível eu ter feito se eu tivesse filhos na época, pois trabalhava por longas horas”, conta.

Prêmio para cientistas

Organizado pela L´Oréal, em parceria com a Unesco no Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a 14ª edição do prêmio Para Mulheres na Ciência está com inscrições abertas até 30 de abril. Ao todo, sete pesquisadoras das áreas de ciências da vida, ciências físicas, ciências químicas e matemática serão contempladas com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil cada uma para dar prosseguimento aos estudos. Para participar, é necessário que a candidata tenha concluído o doutorado a partir de 2012, tenha residência estável no Brasil, desenvolva projetos de pesquisa em instituições nacionais, entre outros requisitos. Para se inscrever e saber mais acesse:
 

Realidade nacional

 

A desigualdade de remuneração no mercado de trabalho entre homens e mulheres tem diminuído, apesar de lentamente. É o que mostra o Relatório Anual de Informações Sociais (Rais), da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia. Enquanto em 2013, elas recebiam, em média, 82,3% do salário dos homens, esse valor passou para 85,1%, em 2017. As mulheres são maioria entre os trabalhadores com ensino superior, representando cerca de 58,9% da força de trabalho com essa qualificação. No mercado laboral, as maiores taxas de participação delas estão em atividades relacionadas a saúde (76,6%), ensino (62,6%), indústria têxtil (61,8%) e administração pública (58,5%). 

Contexto do DF 

 

A Pesquisa de Emprego e Desemprego do Distrito Federal — Especial Mulher (PED-Mulher), divulgada pela Secretaria de Estado de Trabalho (Setrab), na última sexta-feira (8), mostra que as mulheres no DF têm uma jornada três horas mais longa que os homens, somando o trabalho doméstico e o trabalho fora de casa. Isso porque, além do serviço formal, elas ainda são responsáveis pelos afazeres no lar: 92,8% das mulheres ocupadas afirmam fazer atividades domésticas, enquanto que 66,4% dos homens dizem realizá-las. 

Três perguntas para  

 

(foto: Marcello Dantas/Divulgação)
(foto: Marcello Dantas/Divulgação)
Carolina Horta Andrade, pesquisadora de química medicinal, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e ganhadora dos prêmios Para Mulheres na Ciência e do International Rising Talents

Por que há menos mulheres no topo da carreira de pesquisa?
Isso pode ser explicado pelo fato de que a carreira de pesquisador é muito competitiva, exige muita dedicação, muito estudo, muito trabalho. Trabalho esse, muitas vezes, fora do expediente, aos fins de semana, em madrugadas e feriados. As mulheres, em geral, têm jornada dupla ou tripla e, apesar dos avanços conseguidos, ainda persiste o modelo patriarcal em nossa sociedade. Por isso, as mulheres acabam se distanciando da excelência científica, pois têm de se dedicar também aos cuidados da casa, dos filhos, e até dos pais idosos. A licença-maternidade provoca um hiato no currículo da maioria das mulheres pesquisadoras. Na carreira acadêmica, as atividades para progressão são contabilizadas por um sistema cumulativo de pontos. Durante o período da licença, simplesmente, a mulher não conseguirá pontuar por estar afastada do trabalho e acaba sendo prejudicada.

O que fazer para ter mais pesquisadoras?
São necessárias soluções afirmativas dentro das universidades brasileiras para inclusão na sociedade! Quando uma jovem não vê pesquisadoras no topo, recebe uma mensagem negativa de que esse universo não é para ela. Além disso, ainda existe a imagem de que cientistas são nerds, que não “combinam” com a figura de uma mulher vaidosa, bonita. Afasta-se, assim, da ciência 50% da população, o que certamente terá impactos na geração do conhecimento para aquele país. É preciso que toda a população, principalmente os homens, se engajem e apoiem a causa das mulheres na ciência. Políticas públicas e particulares para promoção de pesquisadoras são também de extrema importância.

O que a presença de mulheres gera de impacto para a pesquisa?
As mulheres são igualmente capazes e podem ocupar qualquer cargo ou área de pesquisa. No entanto, considero que elas têm algumas vantagens: são mais criativas, sabem lidar com vários problemas/temáticas ao mesmo tempo, são mais pacíficas. A criatividade pode trazer muitas inovações tecnológicas, sendo um ingrediente importante para o avanço da ciência e geração de produtos e conhecimento. Com uma equipe mista, melhores ideias e soluções com certeza surgirão em comparação com um grupo estritamente masculino. 
 

Leia

 

 

 


 
Pioneiras da Ciência no Brasil 
A obra traz histórias de nove pesquisadoras que atuaram nas áreas da psicologia, química, história e matemática.
Edição: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
 
 
 
 
As cientistas: 50 Mulheres que mudaram o mundo 
O livro apresenta a história de 50 mulheres notáveis para os campos da ciência, da tecnologia, da engenharia e da matemática, desde o mundo antigo até o contemporâneo.
Autora: Rachel Ignotofsky
Editora: Blucher
R$ 34,93
128 páginas
 
 
 
 
 
 
 
Mulher faz ciência — dez cientistas, muitas histórias 
O e-book traz a história de 10 cientistas brasileiras, diferentes entre si, mas que têm similaridades nos desafios enfrentados. 
Coordenação: Vanessa Fagundes
Editora: Fapemig
Disponível para download em 
minasfazciencia.com.
26 páginas 
 
 



*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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