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Correio Braziliense

Vestibular da UnB não é mais interdisciplinar

Chamou atenção, no teste de exatas, o fato de a seleção ter perdido o caráter interdisciplinar. Para professores, isso demonstra falta de qualidade. Cerca de 15 mil candidatos concorrem a vagas na instituição


postado em 03/06/2019 11:38 / atualizado em 03/06/2019 19:37

No segundo e último dia do vestibular da Universidade de Brasília (UnB), candidatos enfrentaram o desafio de responder a 150 questões de biologia, física, química e matemática em cinco horas de prova. Eles concorrem a 2.105 vagas em 98 cursos nos quatro câmpus da instituição. No sábado, o teste foi de língua portuguesa, língua estrangeira, geografia, história, artes, filosofia e sociologia — além de uma redação, sobre o tema Muros: um símbolo do medo. Dos 15.175 inscritos, 1.391 faltaram à prova ontem; e 1.229 não compareceram no sábado. A abstenção foi de 9,17% e de 8,10%, respectivamente. Em ambos os casos, o índice de faltosos foi inferior ao registrado em 2018 pelo Cebraspe (Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos), de 9,06% no primeiro dia e de 9,7%, no segundo dia.

No sábado, estudantes classificaram tanto a prova quanto a redação como “tranquilas”. A mesma sensação não apareceu no domingo. Até porque, tradicionalmente, os alunos costumam ter mais dificuldade com a área de exatas. Para o professor de matemática do curso Exatas Bruno Leonardo Lüke, isso não acontece porque os testes de cálculos sejam especialmente desafiadores, mas por falta de pré-requisitos, ou seja, por ausência de uma boa base que permita aprender bem os conteúdos no ensino médio. “O padrão do vestibular da UnB vem caindo a cada ano. A cada ano, está mais fácil. Mas os alunos relatam dificuldade porque, se não tiverem um bom domínio de conteúdos-chave no ensino fundamental, é muito difícil recuperar depois”, afirma.
 
 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Ana Letícia Matos, 17 anos, cursa o 3º ano do ensino médio no Centro Educacional Sigma e deseja cursar administração na UnB. Ela admite que o desempenho não foi o esperado ontem. “Eu fui muito bem no primeiro dia, mas depois não consegui fazer o mesmo em exatas”, lamenta. Ela reparou que havia muitas questões relacionadas ao espaço e algumas coisas sobre doenças, como malária, na prova. 
 
Para Augusto Rocha Fernandes, 21, e Bárbara Bronco Tavares, 17, a parte de química estava especialmente difícil. Ela deseja cursar nutrição. Ele quer estudar engenharia mecânica e já passou duas vezes no vestibular da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), mas o objetivo dele, na realidade, são concursos militares. “Fazer o vestibular da UnB, para mim, é uma forma de medir como eu estou”, afirma Augusto.

“Algumas questões demandavam tempo para resolver porque exatas é justamente no que eu tenho dificuldade”, avalia Vitor Magalhães, 20. A trajetória dele em busca da vaga na UnB não terminou no fim de semana. A primeira opção de curso dele é música, e ele precisará fazer a prova específica. O jovem toca violão, guitarra, contrabaixo e bateria. Em outra ocasião, chegou a ser aprovado no vestibular, mas não no teste de habilidades, que é pré-requisito. Eduardo Souza, 17, já tem certeza de que, no próximo semestre, será um estudante de arquitetura e urbanismo da UnB. “Na prova de humanas, acho que fui bem. Na de exatas, que é minha área, fui melhor. É a prova em que eu deito e rolo”, brinca. O gabarito oficial do vestibular sai amanhã e é só quando ele vai conferir as respostas, mas sem estresse. “Estou bem esperançoso”, alegra-se.

Participantes

 
Bárbara Melo, 20 anos, chegou cedo ontem, por volta das 11h, para garantir que estaria a tempo na sala de aula. No sábado, um erro na lista de alunos dos pavilhões fez com que ela se deslocasse para um lugar errado e quase perdesse a prova. Precisou pedir carona para conseguir entrar nos últimos minutos. A jovem foi acompanhada do pai, o militar Tarcísio Melo, 47. “Vim trazê-la de carro para evitar esse tipo de problema. Como houve esse erro, estou aqui para levá-la ao lugar correto, se for necessário. Uma falha dessas pode custar toda a preparação”, disse o militar.

Allan Delmar, 21, optou por chegar mais perto do horário de fechamento dos portões, por volta das 12h40. “Já conheço bem o caminho e não gosto de chegar muito cedo, porque a espera gera muito mais ansiedade”, pondera.
 
 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
 
A estudante Beatriz Alvino, 19, mora em Recanto das Emas e também preferiu chegar mais perto do horário do fechamento do portão. Ela fez o caminho inverso da maioria dos outros candidatos. “Nos últimos dias, estudei mais, dei uma acelerada. Assisti a muitas videoaulas no YouTube.” Pedro Brugnerotto, 20, veio de Pouso Alegre (MG) fazer a prova no DF. “Sempre tento os bons cursos. A UnB tem ótima avaliação em medicina e forma profissionais muito bons”, diz.
 
 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Depois de algumas tentativas frustradas, ele mudou um pouco a rotina de estudos e incluiu a prática de esportes na preparação. “Estudo de oito a 10 horas diárias, mas optei por fazer também uma arte marcial para manter o equilíbrio.” O candidato Silvio Pereira dos Santos, 22, é outro que deixou Minas Gerais para fazer a prova aqui. Ele saiu de Januária para fazer o vestibular e levou cerca de 12 horas de ônibus para chegar à capital federal. “Tenho parentes aqui em Brasília e sempre quis fazer universidade federal”, afirma. O jovem destaca que, em todo o país, a UnB é referência de qualidade.
 
 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Confira seu desempenho


Os gabaritos oficiais preliminares dos itens dos tipos A, B e C das provas de conhecimentos serão divulgados no link www.cebraspe.org.br/vestibulares/vestunb_19 a partir das 19h de terça-feira (4). O prazo para interpor recurso vai das 9h de quarta-feira (5) até as 18h de quinta-feira (6), no mesmo site.

Prova perdeu caráter interdisciplinar


Chamou a atenção de professores o fato de o segundo dia do vestibular ter sido dividido por matérias, sendo que, tradicionalmente, as seleções da UnB têm caráter interdisciplinar e costumam apresentar itens de diversas disciplinas, de modo bem misturado. Para Cesar Augusto Severo, diretor pedagógico do cursinho Exatas, isso demonstra queda da qualidade. “Isso facilita para o aluno, mas demonstra perda de padrão. A qualidade principal do Cebraspe (antigo Cespe) era essa. Era ter um mesmo texto com itens de química, biologia etc. Desta vez, a prova foi bem setorizada”, aponta. “Isso é característica de uma banca mais fraca”, avalia. “Desde 2004 até hoje, isso nunca tinha acontecido. Foi uma surpresa ver as questões separadas. E as de química foram as últimas da prova, então os alunos já resolveram cansados”, acrescenta o professor de química Sami Afanah.

Confira análise de professores do curso Exatas sobre cada disciplina:


Física
 
“O conteúdo não estava difícil. Vários conteúdos ficaram de fora, como dinâmica, eletrostática e física moderna. E um conteúdo que nem sempre aparece, gravitação, apareceu bem. Não teve um tema central na prova. Cada questão era sobre um tema.”

Cesar Augusto Severo


Matemática
 
“Tinham questões que demandavam muito tempo, extensas, e outras bem mais fáceis. Tudo que caiu era esperado, era conteúdo de sala de aula. A parte de progressão foi a que teve mais peso. Teve pouca contextualização ou interdisciplinaridade. Era mais no estilo ‘simplesmente resolva’, mais objetivo mesmo.”

Bruno Leonardo Lüke


Biologia
 
“A prova estava mediana. Nem difícil, nem fácil. Tudo que estava lá se vê no ensino médio. Conteúdos importantes ficaram de fora ou foram abordados superficialmente, como fisiologia humana e genética. Os itens priorizaram ecologia. Os assuntos estavam dispersos, porque teve menção de aquecimento global, doenças virais, botânica... Não tinha um eixo.”

Alisson Pedrosa


Química
“A prova estava média e acessível para os alunos. Ao mesmo tempo, tiveram alguns erros conceituais e falta de informações importantes para resolver questões. Deve ter pelo menos uma questão anulada, do tipo C. Este ano, os itens foram muito focados em energia e questões climáticas.”

Sami Afanah

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