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Correio Braziliense SAÚDE »

Você sabe o que é a síndrome da pressa?

Apesar de não tão conhecida, a condição, muitas vezes confundida com estresse, impacta o desempenho laboral e tem como símbolo as pessoas que se sentem sempre sem tempo e vivem aceleradas


postado em 22/09/2019 14:04 / atualizado em 22/09/2019 15:35

Você mesmo já disse ou ouviu alguém dizer que precisa de mais horas no dia? Ou reclamou que não consegue fazer tudo que precisa? Ou viu um colaborador que, sempre que procurado no trabalho por colegas, chefes ou clientes, diz que está sem tempo ou abarrotado de tarefas? Essas podem ser algumas características de indivíduos que sofrem com a síndrome da pressa. Esse transtorno afeta cerca de 36% dos brasileiros, de acordo com dados da International Stress Management Association (Isma - Br). Segundo a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente do Isma-Br, os portadores da síndrome ficam regularmente irritados e angustiados, além de terem problemas com sono e permanente sentimento de frustração.
 
"Com toda a disponibilidade tecnológica, os indivíduos se sentem sobrecarregados e com a sensação de terem menos tempo para fazerem as tarefas, pois estão constantemente recebendo informação e fica difícil se desligar" Ana Maria Rossi, presidente do Isma-Br (foto: Arquivo Pessoal)
Ela explica que, para ser considerado portador da síndrome, o indivíduo precisa ter constantes pressas injustificadas. Por exemplo, estar apressado mesmo quando não tem nenhum compromisso; irritar-se apenas por estar em uma fila, como as de banco ou supermercado; sentir-se incomodado quando alguém anda devagar na sua frente... Ana Maria analisa que a maneira como as pessoas vivem hoje oferece muitos gatilhos desencadeadores da síndrome. Formada pela Universidade do Nebrasca (EUA), ela acredita que a sobrecarga de informações que as pessoas recebem durante o dia torna o descanso algo difícil.

“Com toda a disponibilidade tecnológica, os indivíduos se sentem sobrecarregados e com a sensação de terem menos tempo para fazerem as tarefas, pois estão constantemente recebendo informação e fica difícil se desligar”, afirma. Para ela, um dos grandes desafios desse transtorno é identificá-lo. “Geralmente, as pessoas não enxergam isso como um problema e só recorrem aos médicos quando os sintomas físicos começam a aparecer. Dores musculares, cabeça e taquicardia são as principais reclamações de quem sofre com a pressa excessiva”, completa. Os efeitos vão além da vida pessoal: impactam a carreira.

Márcia Vazquez, gestora de capital humano da consultoria Thomas Cases&Associados, afirma que, em ambientes corporativos, a síndrome da pressa pode afetar a produtividade do trabalhador. “O colaborador para de ser criativo, não consegue mais ter pensamentos positivos em relação ao próprio desempenho e não consegue executar as atividades mais básicas”, explica. Formada em psicologia pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e pós-graduada em recursos humanos pela Fundação Getulio Vargas (FGV), ela alerta que a síndrome, quando não tratada, pode levar até a uma demissão. “O funcionário pode ter um intelectual fantástico, mas, por causa do cansaço e da sobrecarga, não consegue produzir com a mesma qualidade de antes. Por isso, pode acabar demitido”, afirma.

Sempre ocupada

Nossa, acho que tenho, sim, essa síndrome. Não gosto de sentir que meu tempo está ocioso, preciso estar sempre fazendo alguma coisa
Nossa, acho que tenho, sim, essa síndrome. Não gosto de sentir que meu tempo está ocioso, preciso estar sempre fazendo alguma coisa" Priscila Couto, graduada em RH, estudante de gestão financeira, recepcionista, artesã e assistente virtual (foto: Clara Lobo/Esp.CB/D.A Press)
Priscila Couto, 41 anos, se sente muitas vezes sem tempo. No entanto, ela não gosta de ficar desocupada. Com muitas atividades na rotina, ela suspeita que tenha a síndrome da pressa. “Nossa, acho que tenho, sim, essa síndrome. Nunca tinha ouvido falar, mas eu me identifiquei com as características. Isso só reforça que realmente preciso de ajuda”, diz. Às 5h30 da manhã, Priscila se levanta para cuidar da filha mais nova, de 2 anos, enquanto as outras, de 16 e de 20 anos, dormem. Às 6h20, a graduada em recursos humanos pelo Centro Universitário do Planalto do Distrito Federal (Uniplan) começa a se arrumar para ir à clínica de fisioterapia na Asa Sul onde trabalha como recepcionista, uma das três profissões que exerce.

Quando tem um tempo livre, como nos intervalos de almoço, confecciona peças de artesanato em EVA (espuma vinílica acetinada) para vender ou responde a pedidos dos clientes do serviço que tem como assistente virtual. Ao voltar para casa, por volta das 19h, cuida da caçula até o marido chegar. De noite, assiste às aulas da segunda graduação, em gestão financeira, que cursa a distância na Universidade Paulista (Unip). Priscila costuma se deitar às 23h, mas demora para pegar no sono. Ele reclama constantemente de cansaço e da falta de tempo para exercer todas as atividades do dia. No entanto, ela sente necessidade de estar ocupada a todo momento.

“Não gosto de sentir que meu tempo está ocioso, preciso estar sempre fazendo alguma coisa”, afirma. “Não sei se isso é proatividade ou se posso chamar de outra coisa”, admite. Ela costuma sentir cansaço extremo ao fim do dia. “Chego em casa muito cansada. Quando deito para dormir, demoro para realmente pegar no sono”, observa. “Fico pensando no meu dia, nas coisas que tenho de fazer e me preocupando. É comum também eu dormir e acordar mais cansada ainda”, relata. Apesar da dificuldade, ela afirma que o cansaço vence algumas vezes   não consegue executar tudo o que planejou para o dia. “De vez em quando, estou tão cansada que durmo. Acordo com minhas filhas me chamando. Às vezes, também sinto dores musculares”, diz.

Apesar de reconhecer o problema, Priscila ainda quer mais trabalho. “Por enquanto, tenho cinco clientes que atendo como assistente virtual. Minha meta é chegar a 15”, conta. Ela acredita que não sofre de ansiedade que, às vezes, pode ser relacionada à síndrome da pressa. Priscila conhece, porém, muitas pessoas que são diagnosticadas com a doença. “Aqui na clínica, algumas colegas de trabalho têm acompanhamento profissional por causa disso. Minha filha mais velha também apresenta alguns sintomas”, continua. Ela considera a possibilidade de fazer uma terapia para tentar desacelerar um pouco, mas, novamente, reclama da falta de tempo. “Primeiro, que eu não tenho dinheiro para pagar esse serviço. Segundo, porque teria que arranjar tempo para ir até a terapia, teria que me organizar”, pondera.

Rotina atordoada

"A exaustão física e emocional começou a interferir muito no desempenho das minhas tarefas diárias. Tomar decisões de cabeça quente atrapalha demais" Antônio Pimentel, administrador e promotor de eventos (foto: Clara Lobo/Esp.CB/D.A Press)
Em muitos casos, apesar de a pressa constante e o fato de estar sempre ocupado causar sofrimento, as pessoas não conseguem, sem ajuda, parar de serem assim. Antônio Pimentel, 35, trabalha como administrador de empresas e promotor de eventos e não tem uma carga horária fixa por dia. Ele afirma que está com a cabeça sempre ligada no exercício das funções. “Desde a hora em que acordo até quando vou dormir, estou pensando no que posso fazer para melhorar meu trabalho, e isso vem me esgotando bastante. Por exemplo, tenho insônia, pois fico até as 3h pensando no que vou fazer no dia seguinte”, conta.

Para o morador de Planaltina, os momentos livres e que poderiam ser usados para relaxar acabam sendo os mais utilizados por ele para pensar nas atividades do dia a dia. “Parece que, quando estou sozinho, sem funcionário me ligando e nada para resolver, as ideias começam a surgir e minha cabeça não para”, garante. Recentemente, ele buscou ajuda profissional de uma psicóloga, pois estava sentindo muito cansaço e esgotamento por falta de repouso. “A exaustão física e emocional começou a interferir muito no desempenho das minhas tarefas diárias. Tomar decisões de cabeça quente atrapalha demais. Por isso, a preocupação em buscar ajuda”, diz.

Ele garante que tem consciência dos problemas de estar sempre pensando em coisas relacionadas ao serviço, mas não consegue resolver sozinho nem se forçar a ter pausas. “Faz tempo que ser agitado desse jeito me preocupa. Cheguei a tentar praticar ioga e meditação, mas não fui capaz de esvaziar a mente. É extremamente difícil, eu começo a pensar em tudo ao mesmo tempo”, afirma. A meta do administrador é conseguir repousar sem a ajuda de medicamentos. “Por um período tomei remédios para conseguir dormir, mas eles pararam de fazer efeito. Com o auxílio da psicóloga, espero poder dormir sem precisar de nada”, ressalta.

Alivie o estresse

É preciso ter momentos de descanso. Não temos que estar ligados o tempo todo
É preciso ter momentos de descanso. Não temos que estar ligados o tempo todo"Márcia Vazquez, gestora de capital humano (foto: Arquivo Pessoal)
Segundo o psicólogo comportamental Vitor Friary, a síndrome da pressa é consequência da correria do dia a dia. Ele afirma que é necessário, para todo trabalhador, ter um momento de pausa. “Todos somos cheios de problemas na vida profissional e pessoal, mas é preciso se permitir repousar para diminuir os níveis de estresse”. Para quem reclama que não tem tempo para descansar, Vítor garante que é possível relaxar sem sair do local de trabalho. “Momentos de pausa podem ser curtos e frequentes. Parar na mesa, ajustar a coluna, fechar os olhos e prestar atenção na respiração por um minuto”, explica.

“Nesse tempo é possível diminuir a tensão e renovar o pensamento para voltar ao trabalho. É tão simples, não exige muito esforço. Com apenas um minuto, várias vezes durante o dia, é possível adquirir uma qualidade de vida melhor”, afirma. Formado pela Universidade Middlesex University, em Londres, e mestre em terapia cognitivo-comportamental pela Universidade Metropolitana de Londres, Vítor reconhece que algumas pessoas podem enxergar as pausas como perda de tempo, mas ressalta que são necessárias. “As pessoas geralmente têm dificuldade de abrir mão das preocupações. Para termos saúde, temos que abrir mão do excesso de tempo em que ficamos presos com inquietações”, diz. Ele assegura que descansar não significa que a pessoa se tornará relaxada e relapsa. “Não quer dizer que não vou resolver nada nunca. É como se fossemos computadores; precisamos parar e reiniciar. Se não, ficamos mais lentos, exaustos e menos produtivos”, completa.

Alison Horts, 27 anos, é caixa bancário em uma agência de banco na W3 Norte. Desde 2010, a empresa oferece aos funcionários aulas de ginástica duas vezes por semana. Para Alison, as pausas servem para promover a saúde dos funcionários. “Um instrutor vem e dá aula para todos os setores, lógico que não ao mesmo tempo, mas todos recebem as orientações”, diz. Ele afirma ainda que, além da atividade oferecida pela empresa, ele costuma tirar uma pausa de 10 minutos para cada 50 minutos trabalhados. “Costumo fazer alongamento e isso tem me ajudado muito na correção da postura e na diminuição das dores de cabeça. Como faço um trabalho muito repetitivo é importante ter esses momentos de relaxamento”, conta.

Pausas laborais

Formado em ciências contábeis pela Universidade de Brasília (UnB), Alison trabalha há sete anos no Banco de Brasília (BRB) e acredita que empresas que permitem ou incentivam o colaborador a ter as pausas laborais fidelizam o empregado. “Deve ser uma preocupação da instituição, pois promove a saúde e a maior consciência do empregador em relação aos próprios limites. Além disso, demonstra uma preocupação da companhia para com os funcionários, coisa que acredito ser positiva para o próprio empregador”, explica. “Acredito que ajuda muito a aliviar o estresse da rotina, faz o sangue circular pelo corpo e previne algumas doenças ligadas ao estresse”, continua.

Márcia Vazquez destaca a importância do descanso para o funcionamento do corpo humano. “Até as máquinas quebram se não foram reiniciadas e restauradas. Nosso corpo também é assim”, diz. Ela afirma que deve ser interesse das instituições e dos patrões que os funcionários tenham momentos de descanso. “Os empregadores podem disponibilizar momentos de descontração para que os colaboradores reiniciem o cérebro e consigam pensar melhor e de maneira mais clara”, comenta. A especialista ressalta que as pessoas precisam compreender e respeitar a necessidade do descanso.

Três perguntas para

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Lia Clerot, psicóloga formada pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e especialista em terapia familiar sistêmica


Como identificar a índrome da pressa?
A identificação da síndrome da pressa é feita por meio de diagnóstico clínico. Ou seja, durante a terapia passa por uma uma análise dos sintomas. Mas, normalmente, quem tem a síndrome sente-se sobrecarregado, não consegue dormir bem e acorda cansado. Em resumo, é um conjunto de fatores que pode levar a pessoa a adoecer, inclusive psicologicamente. Geralmente, pessoas que têm a síndrome da pressa estão sempre preocupadas com alguma coisa e têm muita dificuldade para relaxar. Além disso, estão sempre aceleradas e, normalmente, apresentam dores de cabeça e no estômago.

Qual é o melhor tratamento?
Primeiro de tudo, é preciso mudar a rotina com ajuda do especialista. Aconselho sempre a evitar fazer muitas coisas ao mesmo tempo, se concentrar para colocar atenção máxima em uma única atividade. Além disso, é importante que a pessoa reserve um tempo para realizar o que mais gosta, desligar-se do relógio. E, claro, quando possível, se exercitar, pois isso aumenta a produção de endorfina no cérebro, diminuindo o estresse.

É possível confundir a síndrome da pressa com alguma outra doença?
A síndrome da pressa tem semelhança com o estresse em um grau mais avançado. No entanto, os problemas têm sintomas e começam de formas diferentes. O estresse avançado, por exemplo, é uma reação física e psicológica a um evento novo. Já a síndrome da pressa é desencadeada por um padrão de comportamento em que a pessoa acumula atividades. Em muitos casos, o indivíduo, por ansiedade, transforma sua vida em uma correria sem fim para produzir mais, ter mais retorno financeiro e até mesmo para ter mais reconhecimento no trabalho.
 
 



*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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