Trabalho e Formacao

Histórias de superação

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 06/10/2019 04:17
Graças, dona de salão de beleza

Uma preta de raiz

Nascida no Piauí, Maria das Graças Santos, 66 anos, mudou-se com a família para Goiás aos 3 anos, e, no início dos anos 1970, chegou ao Distrito Federal, com 17 anos. Em 1974, passou no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) para cursar psicologia.


Graças se encantou pela área educacional da psicologia. No entanto, ao se deparar com a realidade, percebeu que não era bem o que esperava. Nesse mesmo período começou a se articular em grupos de militância social e racial, inaugurando, em 1978, o Centro de Estudo Afro Brasileiro (Ceaps), primeira entidade negra do Distrito Federal. "Era um período muito difícil, estávamos em plena ditadura militar, não se podia falar sobre racismo. Mas enfrentamos a repressão sem medo, atitude de jovem", lembra.

A luta pelos direitos civis para a população negra tornou-se algo presente na vida dela. Em 1981, entrou para o Movimento Negro Unificado (MNU), onde teve importante papel para conquistas lembradas até hoje. Foi coordenadora do Encontro Nacional de Mobilização da Sociedade, que tinha como argumento levar propostas para os constituintes de 1988, entre as reivindicações, estava a que estabelecia racismo como crime. "Conseguimos depois de muito combate", revela.
Após sair do MNU, por divergências, recebeu o convite de dois colegas para abrir o primeiro salão afro-brasileiro no Distrito Federal, com nome sugestivo de "Daralewa", palavra iorubá que significa, coisas boas e bonitas. Com a proposta de provocar o mercado de beleza tradicional que não atendia o público que desconhecia ter, o salão é inaugurado, no Conic, em 21 de março de 1992, Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial. O empreendimento mudou de nome e endereço. Passando a se chamar Afro-Nzinga, em homenagem à grande rainha negra do povo banto da África, onde se localiza a Angola. Hoje, está instalado no Conjunto Nacional.

Graça encara o empreendedorismo como mais uma alternativa que a população negra encontrou para sobreviver. No entanto, não nega as dificuldades. "Existem várias causas, mas as principais são a falta de formação e capacitação;, pontua.

Ela avalia que seu salão é um incentivador para outros negócios e acredita na potencialização da comunidade negra a partir do afroempreendedorismo.

Mulher de fibra
O envolvimento de Adriana Ribeiro, 41, moradora do Riacho Fundo 1, com o empreendedorismo começou muito cedo. ;Desde pequena, acompanhava a minha mãe, que é cabeleireira, nos salões em que ela trabalhou, sempre prestando atenção a tudo. Foi a partir dessas vivências que adquiri o interesse pelo universo de beleza;, conta. Ela esteve presente no evento Impulsione com Facebook, principalmente, para assistir à palestra de Tia Má. No local, compartilhou com todos as experiências como afroempreendedora. Abriu o primeiro salão, Madriafro, com a irmã, aos 17 anos, na garagem da casa da mãe e, desde então, não parou mais.

Com ajuda do marido, Adriana se profissionalizou e fundou o Salão Afro & Cia Ponto Chic, que tem um espaço de 200m; e 20 profissionais. O público-alvo são mulheres negras que desejam passar pelo processo de transição capilar, restaurando os cabelos para a forma natural deles. Ela divulga, com muita felicidade, que a maioria dos seus funcionários são negros, ressaltando a importância de contratá-los. ;Vivemos em uma país altamente racista, que diariamente nega oportunidades a pessoas pretas. Então, é mais do que justo que, na minha empresa, todos sejam negros;, defende.

Saiba mais
Confira informações sobre os próximos encontros do Impulsione com Facebook em parceria com o AfroHub no link www.facebook.com/afrohubbrasil

Palavra de especialista

"O maior empecilho para a população negra empreender é que ninguém quer financiar projeto de pobre e preto, pois a visão da maioria que detém o capital é de que não temos capacidade. No entanto, essas mesmas pessoas que negam oportunidades não se perguntam o porquê e não refletem o quanto são responsáveis por perpetuar essa desigualdade. Por essas razões, acredito que alternativa para o povo negro sair dessa situação que lhe foi imposta é empreender. A comunidade está sendo empurrada à pobreza em função do desemprego, é a mais atingida. Portanto, a melhor maneira de combater esse processo é reagindo".
Frei David, presidente da ONG Educafro

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