Publicidade

Correio Braziliense TRAJETÓRIAS

Trabalhar após os 50 anos está cada vez mais comum, mas há resistência

Por necessidade, escolha ou sonho, pessoas acima dos 50 anos estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho. Algumas empresas, inclusive, têm programas específicos para atrair mais gente da faixa etária, apesar de muitas ainda terem resistência com trabalhadores mais velhos


postado em 20/10/2019 15:33 / atualizado em 20/10/2019 17:16


 
Pesquisa da consultoria Robert Half concluiu que 69% das empresas não contrataram trabalhadores com mais de 50 anos em 2019. Entre os receios dos recrutadores com relação a esse perfil estão salário alto (31%), pouca flexibilidade (18%), desatualização (12%) e o risco de ampliar conflitos entre gerações (7%). Os 1.161 respondentes também apontaram benefícios de contratar alguém depois dos 50: experiência (86%), conhecimento (66%), resiliência e inteligência emocional (43%) e contribuir para a diversidade da organização (30%).
 
Em geral, as instituições e os recrutadores precisam se abrir para trabalhadores com perfil sênior, que, muitas vezes, enfrentam grande dificuldade para se recolocar. Apesar dos desafios, brasileiros e brasileiras com mais de 50 anos estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho. Seja pela decisão de continuar trabalhando, seja pela escolha de mudar de ramo de atuação, seja por necessidade de complementação da renda, profissionais seniores enriquem a produção e o ambiente laboral de empresas e órgãos públicos.
 
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press, Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press,Arquivo Pessoal)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press, Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press,Arquivo Pessoal)
 
A última carta de conjuntura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em setembro, mostrou que a população ocupada com mais de 60 anos cresceu 5,3% em comparação com o trimestre anterior, embora a taxa de desemprego do segmento tenha avançado, no mesmo período, de 4,4% para 4,8%. Na faixa etária entre 40 e 59 anos, a desocupação diminuiu de 7,5%, em 2018, para 7,2% no mesmo período de 2019 (veja mais números na página 6).
 
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de idosos, grupo etário convencionalmente composto por pessoas acima de 60 anos, deve chegar a 25,5% da população brasileira até 2060. Se a reinserção, ou entrada, de pessoas acima de 50 anos não passar a ser uma realidade cada vez mais comum, o país vai enfrentar problema de falta de mão de obra em pouco tempo. 

Aposta nos mais velhos

Fábia tem 56 anos e começou a cursar direito aos 52. Há cerca de um mês, é estagiária de um escritório(foto: Arquivo Pessoal)
Fábia tem 56 anos e começou a cursar direito aos 52. Há cerca de um mês, é estagiária de um escritório (foto: Arquivo Pessoal)
 

É neste cenário que algumas empresas estão criando programas específicos para contratação de pessoas acima de determinada idade. É o caso da Martorelli Advogados, escritório de advocacia de Recife, em Pernambuco, que, em agosto deste ano, criou o Programa Longevidade, para estagiários de direito com mais de 55 anos. “Percebemos que existiam estudantes do curso com mais idade dentro das universidades, mas que essas pessoas não eram aproveitadas nos escritórios de advocacia”, afirma Victor Rodrigo de Melo Gonçalves, gerente de Recursos Humanos do escritório. “É um projeto interessante, pensando no futuro, com base em dados estatísticos do IBGE, que mostram o crescimento da população com mais de 60 anos no decorrer do tempo”, continua o gerente.

Ele acredita que, para construir um amanhã sustentável em termos de empregabilidade, é necessário começar hoje. “É pela sustentabilidade da própria empresa. Se a gente não começar a trabalhar, de hoje, a cultura de receber e entender que essas pessoas são produtivas, o público de fato ativo para o trabalho vai ser muito pequeno”, argumenta. Foi por meio do programa que Fábia Ribeiro Pinheiro, 56 anos, começou a estagiar no escritório. Ela estuda direito na Faculdade de Ciências Humanas de Pernambuco (FHCPE), instituição particular mantida pela Sociedade Pernambucana de Cultura e Ensino (Sopece). Quando viu o anúncio do projeto nas paredes da faculdade, Fábia desconfiou. “Liguei para a empresa, pensei que era ‘fake’, porque é pioneiro, não tem nada parecido, principalmente na área do direito”, conta a estagiária.
 
A ideia surgiu após a empresa de advocacia abrir oportunidades para advogados negros, em 2018. “Não chegavam currículos dessas pessoas. Nem tínhamos a oportunidade de entrevistá-las e fazer seleções com elas”, conta o gerente. “Definimos, então, um percentual de pessoas negras que deveríamos ter para criar, de fato, uma sociedade de advogados mais justa e plural”, completa. “E é interessante porque as pessoas com mais idade não têm ninguém que as defenda. Tem gente na causa negra e na LGBT, por exemplo, mas não existem pessoas lutando por essa pauta.” Fábia começou o curso de direito há quatro anos, depois de ser desligada da empresa em que trabalhava e não conseguir se recolocar no mercado. “Comecei, então, a estudar direito, que era um sonho antigo”, relembra.

Ela é graduada em ciências contábeis e fez MBA em gestão empresarial. A trajetória profissional dela, até então, havia sido construída na parte administrativo-financeira. Para Fábia, a experiência na Martorelli Advogados tem sido transformadora. “A equipe é muito seleta, tenho muito o que aprender. Todos me acolheram muito carinhosamente e estão me vendo de maneira natural. É um dos momentos mais felizes que já tive porque estou fazendo algo que amo”, orgulha-se. “É uma quebra de paradigmas enorme. É imensamente agregador e motivador, além de uma grande responsabilidade.” Em relação ao desempenho da estagiária desde que começou a colaborar com o escritório, há cerca de um mês, e à adesão do restante da equipe ao programa, o gerente Victor não poupa elogios.

“É uma pessoa que vem com maturidade, bagagem e vivência. A recepção e a integração estão sendo fantásticas. Boa parte das pessoas que voltam a estudar com essa idade o fazem por um sonho antigo; então, elas vão fazer de tudo para dar certo”, continua. Entre as vantagens de contratar pessoas mais velhas, ele destaca, além do nível de entrega e comprometimento, a maturidade para lidar com situações adversas. “O grau de responsabilidade e compromisso com as atividades delegadas são altos também, porque têm maturidade para entender prazos e demandas.” Para quem está em uma situação parecida com a de Fábia e em busca de reinserção profissional, ela sugere dedicação e esforço.
 
“É preciso não ter medo de desafios e de se arriscar nem temer o novo. Não se acomodar é o mais importante. É preciso encarar e saber que somos capazes.” Fábia torce para que mais pessoas da idade dela alcancem a colocação que desejam. “É sobre integração, que é o que o Brasil está mais precisando hoje. Inserir pessoas com mais idade é dar uma chance a elas. Temos um potencial muito grande. Quem aposta nisso está investindo em qualidade e experiência”, completa.

Desigualdades influenciam

Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea, acredita que desigualdades estão ligadas à recolocação de quem tem mais de 50(foto: Ascom Ipea/Divulgação )
Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea, acredita que desigualdades estão ligadas à recolocação de quem tem mais de 50 (foto: Ascom Ipea/Divulgação )
 

Nem todos encontram  a chance que Fábia achou: existe preconceito contra trabalhadores mais velhos. De acordo com Ana Amélia Camarano, coordenadora de Estudos e Pesquisas de Igualdade de Gênero, Raça e Gerações da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não é possível desvencilhar a recolocação profissional da educação. “A maioria das pessoas dessa idade tem qualificação e escolaridade baixas. É importante investir na educação e qualificação desse pessoal, com treinamentos e capacitações”, afirma. Para ela, outros fatores, como gênero, raça e situação socioeconômica, também passam pela discussão da reinserção profissional.

Em estudo ainda a ser concluído e publicado, a pesquisadora aborda o cenário de trabalho de pessoas de 50 a 59 anos sob as lentes raciais e de gênero. “21% das mulheres negras ocupadas nessa faixa etária são empregadas domésticas; 4,8% são cozinheiras e 2,3%, cuidadoras de crianças. Ou seja, 28,1% das mulheres negras estão no serviço doméstico e só 46,9% delas podem contribuir para a seguridade social”, aponta. “Então, como essas pessoas vão entrar em um mercado de trabalho fora do ambiente doméstico?” Em relação às mulheres brancas com alguma ocupação, os números daquelas no serviço doméstico são menores. “11% são funcionárias domésticas; 2% são cuidadoras de crianças e 3,7% são cozinheiras. Cerca de 16% das mulheres brancas estão no trabalho doméstico e 74% delas podem contribuir para a seguridade social.”

A importância da educação

Para a gerente do Senac-DF Antonia Rodrigues, a reinserção no mercado de trabalho de pessoas acima de 50 anos passa pela educação (foto: Cristiano Costa/Fecomercio-DF)
Para a gerente do Senac-DF Antonia Rodrigues, a reinserção no mercado de trabalho de pessoas acima de 50 anos passa pela educação (foto: Cristiano Costa/Fecomercio-DF)
 

As taxas de escolaridade divergem se analisadas sob a ótica racial. “As negras têm 8,5 anos de estudo, enquanto as brancas, 10,11 anos”, afirma Ana Amélia. “Sem educação, dificilmente parte do problema será resolvida”, argumenta. “Precisa capacitar e recapacitar, dar incentivo para que as empresas contratem mão de obra mais velha, a fim de diminuir o preconceito”, destaca.

Antonia Rodrigues, gerente de Projetos e Programas da Divisão de Educação Profissional e Tecnológica do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), concorda. “A reinserção passa pela educação. Se a pessoa está há muito tempo longe do mercado e não busca capacitação, a dificuldade para encontrar uma oportunidade vai ser maior. A perseverança faz diferença”, observa a gerente.

Para a coordenadora Ana Amélia, colocar ou manter pessoas acima de 50 anos no mercado inclui também discussões sobre infraestrutura e logística. “São necessárias melhorias na mobilidade urbana. Investir em saúde também é essencial, além de prover melhores condições de trabalho”, argumenta. “Outra questão é que, quando se mexe em previdência social, o mercado de trabalho é afetado. Idade mínima  de aposentadoria significa trabalhar por mais tempo. Vai ter emprego para todas essas pessoas?”, questiona.

A gerente do Senac afirma que boa parte das pessoas acima de 50 anos busca cursos. “Mais cedo, aos 30 ou 40 anos, muitos ainda procuram mudanças na carreira por decisão”, compara Antonia. “Aos 50 anos, boa parte das pessoas já quer se aposentar. Muitas, porém, voltam aos bancos escolares para ter uma aposentadoria melhor”, observa. “Tem casos de escolha, mas são menores. A maioria é por perda de emprego ou necessidade de colaborar com a renda da família.”

Histórias de recomeços

Conheça profissionais seniores que deram início a uma nova trajetória

Ascensão após a demissão

Após ficar desempregada perto de completar 50 anos, Marylane Lima se reinseriu no mercado(foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
Após ficar desempregada perto de completar 50 anos, Marylane Lima se reinseriu no mercado (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

Quando estava perto de completar 50 anos, Marylane Lima se viu em uma situação delicada: havia perdido o emprego. Ficou dois anos sem encontrar trabalho, até que uma oportunidade lhe foi dada em uma loja de artigos para o lar, no Jardim Botânico. “Quando fiquei desempregada, eu senti que a idade incomoda mais as outras pessoas do que a mim mesma. Minha antiga chefe, graças a Deus, ignorou minha idade e me contratou”, relata. “Eu tomava conta da parte de adornos e de enfeites para casa. Eu era a responsável por todo o piso inferior”, relembra.

Marylane ficou cerca de um ano e meio na loja e, depois, foi trabalhar na empresa Casa de Vidro, onde também não se importaram com a idade dela durante a contratação. Hoje, aos 53 anos, ela é gerente de vendas da loja onde trabalha. “Sempre tive muita disposição, criatividade e disponibilidade para agir na área do comércio, que eu gosto muito. Eu acho que a idade enriquece o serviço, porque a pessoa leva a bagagem que tem e adapta ao mundo de hoje”, opina. “É um pouco difícil se recolocar? Às vezes, sim, mas não é impossível. Na minha opinião, quando você consegue ultrapassar essa barreira, desenvolve muito mais do que o jovem, que não tem a responsabilidade e o compromisso que uma pessoa mais velha tem.” 

Reconstrução na terceira idade 

Depois de se aposentar da Globo, Alexandre Garcia se reinventou nas redes sociais(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)
Depois de se aposentar da Globo, Alexandre Garcia se reinventou nas redes sociais (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)
 

Em dezembro do ano passado, o jornalista Alexandre Garcia deixou a Rede Globo, emissora de televisão em que trabalhava, após 30 anos de colaboração. Desde então, incorporou o uso das redes sociais à sua atuação profissional. “Minhas filhas me estimularam a entrar nesse novo mundo. A minha profissão, a comunicação, antes era só informação, porque eu não tinha retorno”, pondera o comentarista de 78 anos. “Agora, eu dialogo com as pessoas que me acompanham. Antes, eu não sabia o que pensavam aqueles que me veem e ouvem.”

Ele mantém contas no YouTube, no Twitter e no Instagram. Nesse último, direciona as postagens para o lado pessoal, com fotos de almoços e atividades de fins de semana. No YouTube, Garcia entrou em dezembro de 2018 e acumula mais de 38 milhões de visualizações. O jornalista tem 817 mil inscritos e três programas em seu canal: dois diários, em que comenta as principais notícias do dia e mostra os bastidores da gravação de seus comentários para rádios, e um semanal, em que lê, interpreta e analisa o artigo da semana enviado a jornais. No Twitter, tem 1,7 milhão de seguidores.

“Continuo fazendo palestras, falando em quase 320 rádios todos os dias e escrevendo para 27 jornais, como sempre fiz. Agora, tenho também o mundo digital. Estou aprendendo todos os dias”, observa. Para Alexandre Garcia, a relação entre pessoas de diferentes idades é uma complementação benéfica para ambos os lados. “Os jovens têm a cabeça já preparada para o mundo digital. Nós, de outra geração, ainda somos analógicos. Não é separação por faixa etária. É o contrário. O que funciona é a integração.” Ele destaca algumas dicas para quem quer se reinventar profissionalmente.

“Abra os olhos e os ouvidos para o mundo digital e para os jovens: eles têm muito para ensinar. Cada vez que a gente faz uma atividade nova, é um renascimento e um rejuvenescimento.” Quem tem menos idade, no entanto, não deve ignorar aqueles que atingiram certa faixa etária. “Tem o outro lado também. Jovens, não desprezem o que os mais velhos podem ensinar. Vocês não são donos do mundo nem são os mais sábios. Vocês podem aprender muito com pessoas de idades diferentes”, completa. 

» Workshop

Meeting Inspire, Expire e Não Pire — Intergerações
O jornalista Alexandre Garcia e as executivas Renata Castro e Denise Garcia ministram workshop sobre como lidar com ansiedade e estresse no mercado de trabalho e acerca do desafio da convivência entre gerações em um contexto digital. O evento ocorrerá em 30 de outubro, no Senac da 903 Sul. O ingresso custa R$ 179, e as inscrições já estão abertas no link
 
5 questionamentos para refletir 
Confira cinco questões que chamam a atenção para atitudes a corrigir e para o que pode cair numa entrevista de emprego: 
 
1) Ao se preparar para uma entrevista de emprego, você considera importante detalhar vitórias ou conquistas em sua atuação profissional, como, por exemplo, “no período de X meses aumentei o percentual de vendas em Y%” ou “treinei mais de X executivos ao longo de Y anos”? Por quê?

2) É natural que uma pessoa desempregada se sinta desanimada ou muito angustiada. Deixar transparecer esse estado de espírito, na sua visão, poderia interferir na sua avaliação? De que forma? Como não transparecer desânimo?

3)Entre as perguntas formuladas pelos entrevistadores, uma que costuma ser feita é: “Alguma decisão que você tomou já foi questionada pelo seu gestor?”. Ao fazer esse questionamento, é possível que o recrutador queira saber sobre sua capacidade de decisão, persuasão, sua resiliência e como costuma se relacionar com profissionais hierarquicamente superiores. Demonstrar ter facilidade em interagir, aceitar críticas, saber argumentar e se posicionar lhe parece uma boa ideia? Por quê? Quais exemplos poderia dar sobre o assunto?
  
4)Alguns entrevistadores perguntam qual foi o último (ou atual) salário do candidato. Profissionais especializados em recolocação orientam a conduzir a resposta educadamente, indicando que as posições e empresas são diferentes e que, por isso, não deveriam ser comparadas. Por que você acredita que seguir essa orientação pode ser importante? Quais prejuízos podem advir do fato de você responder com um valor muito diferente daquele praticado pela empresa na qual você está sendo entrevistado?

5)Em qual das descrições a seguir você se encaixa melhor? Como alguém que está pedindo um emprego ou como alguém que está oferecendo toda a sua expertise e experiência para contribuir favoravelmente para o crescimento da empresa? Quais são as principais diferenças entre essas atitudes? Como você pode transmitir uma ou outra atitude? 

Leia!

(foto: Editora Matrix/Reprodução)
(foto: Editora Matrix/Reprodução)
 

 

 

Recolocação profissional — 100 questões para ajudar antes, durante e depois da entrevista de emprego

Autora: Andréa Cordoniz
Editora: Matrix
100 cartas  
R$ 37 
 
 
 
 
 
 

Palavra de  especialista 

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
Mais velhos lidam com preconceito 

“Quando uma pessoa mais velha está procurando se reinserir no mercado de trabalho, é preciso avaliar qual é o contexto, se é mudança de carreira por causa da aposentadoria, por exemplo, ou se é uma pessoa que depende ainda de algum tipo de labor para conseguir sua renda. São situações bem diferentes. O Distrito Federal é um local atípico nesse cenário em relação aos outros lugares do Brasil porque o grau de formação aqui é muito alto. 

Várias pessoas que entram em contato com o Instituto de Educação e Envelhecimento Humano (IEEH) estão entrando no processo de aposentadoria e querem continuar contribuindo profissionalmente, mas são negligenciadas pelo mercado de trabalho, por falta de políticas públicas e de interesse mercadológico. No entanto, existem também pessoas que têm baixa escolaridade.
 
É uma realidade brasileira. Não existem programas de educação permanente para essas faixas etárias e há preconceito na hora de contratar uma pessoa mais velha. Imagina-se duas possibilidades para uma pessoa com mais de 50 anos que está buscando emprego: ou ela é extremamente qualificada ou ela é tão mal preparada que até hoje não conseguiu trabalho. 
 
Quem está tentando se reinserir no mercado de trabalho deve se manter atualizado e deixar claro quais são os objetivos, os interesses e de qual trajetória vem. A preocupação com as pessoas mais velhas passa por todas as faixas etárias, porque são elas que vão formar os idosos de amanhã.”
 
Leonardo Pereira, presidente do Instituto de Educação e Envelhecimento Humano (IEEH), doutorando em ciências e 
tecnologia em saúde pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador de determinantes do envelhecimento humano. 

Três perguntas para / Andréa Cordoniz 

(foto: Bettina Maia/Divulgacao)
(foto: Bettina Maia/Divulgacao)
 

Psicóloga com mais de 30 anos de experiência nas áreas organizacional, hospitalar, escolar e clínica. Escritora, palestrante, instrutora e conteudista de treinamentos comportamentais. Escreveu, entre outros, livro sobre recolocação profissional em forma de cartas 
 
Como ler e usar as cartas de recolocação profissional do seu livro?
Não há ordem nas cartas. São 100 perguntas que podem ser usadas por pessoas que querem se preparar melhor para seleções, mesmo que não leiam todas as perguntas, e também por quem ministra treinamentos. Treinar, discutir e ler as questões em grupo pode ser interessante, porque dicas de várias pessoas enriquecem muito. Todas as perguntas levam a uma resposta dentro da realidade de cada um. Não tem fórmulas prontas, frases feitas ou clichês. Com perguntas, não há indução, mas chama-se a atenção, com liberdade, para perguntas que podem ser feitas e a atitudes que podem ser tomadas que não são tão legais.

Durante uma entrevista de emprego, se pedirem para você citar um erro cometido no trabalho, qual o melhor jeito de responder?
São as típicas perguntas que o fazem ser quem você é. Se a pessoa se coloca como perfeita durante uma entrevista, vai levantar dúvidas dos entrevistadores. Normalmente, quando o contratante faz uma pergunta, ele não está interessado na resposta em si, mas quer saber mais: se o entrevistado teve iniciativa na situação descrita e se tem a capacidade de reconhecer erros. É interessante comentar como o equívoco foi resolvido ou como resolveria hoje depois de outras experiências adquiridas, claro que sendo verdadeiro, sem inventar nem acrescentar nada, porque é possível perceber quando isso é feito.

O que deve ser considerado antes, durante e depois de uma entrevista de emprego?
Antes, é preciso procurar conhecer bem a empresa, ver como ela está colocada no mercado, até, se possível, saber a maneira como os funcionários se vestem. Durante a entrevista, deve-se procurar saber quais serão as possíveis perguntas para não ser pego de surpresa, e pensar em atitudes básicas, como apertos de mão, por exemplo. E depois, é buscar acompanhar os resultados. É bacana enviar um e-mail, ou mandar uma mensagem por onde o convite para a entrevista foi feito, agradecendo a recepção e a oportunidade, de forma elegante, e perguntando sobre os próximos passos. É legal também a pessoa perguntar, no fim da entrevista, sobre quando o retorno vai ser dado. 

Concurso público após a aposentadoria

"Quando a pessoa quer trabalhar, nem idade nem doença importam" Zailda Rodrigues Santos, contadora, funcionária pública (foto: Arquivo pessoal)
 

Zailda Rodrigues Santos tem 83 anos e, há 19, é funcionária da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), em Aracaju (SE). Em 1997, aos 61 anos, ela decidiu fazer o concurso para a empresa, depois de 10 anos aposentada da Companhia de Eletricidade da Borborema (CELB), em Campina Grande (PB), hoje integrante do Grupo Energisa.

“Fiz o concurso para Petrolina, mas era de nível federal. A experiência de voltar foi ótima. Até hoje é, eu adoro. Tanto é que estou em dúvida se vou aderir ao PDI (o plano de desligamento incentivado, programa de aposentadoria). Todo mundo me recebeu muito bem. Meu negócio é trabalhar”, afirma a paraibana de Campina Grande, mãe de duas filhas e avó de dois netos.

“Estou muito em dúvida se me aposento ou não. Minha filha diz que eu tenho muito para fazer em casa, mas não é a mesma coisa ter uma rotina de sair de casa cedo, ir para o trabalho, encontrar os amigos e estar se movimentando”, continua. “Eu sei que em casa não quero ficar, porque senão, sem fazer nada, vou morrer logo!” Zailda é formada em ciências contábeis pela Universidade Regional do Nordeste (URNe), hoje Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).
 
Ela fez especialização em administração financeira pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A ideia de prestar o concurso da Codevasf, organizado pelo Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe), veio da filha mais velha, Vânia, que já era funcionária da companhia, e de amigos próximos. “Mas a decisão final foi minha”, argumenta.

“Minha filha mais velha trabalhava na Codevasf de Campina Grande, foi transferida para Juazeiro e eu me mudei com ela. Quando abriu novo concurso, a princípio, eu não queria fazer. Estava há 12 anos sem estudar! Quando decidi prestar, eu me preparei em casa, sozinha e passei em quarto lugar”, orgulha-se. Na empresa, ela é analista de desenvolvimento regional e trabalha em regime semanal de 40 horas.

Pessoa atualizada que é, Zailda participa de cursos de aperfeiçoamento, capacitações e eventos. “Não assisto mais a televisão, mas acesso a internet e leio o jornal.” Ela gosta de ler, estudar, construir amizades, caminhar, fazer palavras-cruzadas e orar, tanto ao acordar, quanto antes de dormir. “Faço minhas orações no meu cantinho. Não me preocupo com nada. Eu me cuido muito bem. Caminho todos os dias por uma hora. Durmo cedo, por volta das 21h ou das 22h”, conta.
“Por mim, eu iria e voltaria andando do trabalho, mas a Vânia não deixa”, diverte-se. Ela mora a cerca de 10 minutos de caminhada da empresa. Em 2002, Zailda teve problema cardíaco e ficou afastada da Codevasf por três meses. “Fiz três pontes de safena e revascularização. Fiquei de licença e voltei do mesmo jeito, claro que com cuidados.” Em 2016, ela foi diagnosticada com câncer de mama e iniciou tratamento, que durou cerca de seis meses.

“Fiz quimioterapia, a cirurgia de mastectomia de uma mama, depois, radioterapia. Hoje não sinto nada. Não tenho dores nem na unha! Acho que tenho mais motivação hoje em dia do que quando entrei”, opina. “Quando a pessoa quer trabalhar, nem idade nem doença importam. Eu tive muito incentivo, mas para quem quer voltar a trabalhar, eu diria para se esforçar e estudar bastante”, sugere.

População
54,8 
milhões
Pessoas entre 40 e 59 anos

33,3 
milhões
Pessoas acima de 60 anos

Trabalhando
37,6 
milhões 
Pessoas ocupadas entre 40 e 59 anos

7,5 
milhões
Pessoas ocupadas acima de 60 anos

Sem trabalho
2,9 
milhões
Pessoas desocupadas 
entre 40 e 59 anos

386 mil
Pessoas desocupadas 
acima de 60 anos

Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, do 2° trimestre de 2019

Passo a passo da reinserção

Confira orientações para não ter dificuldades de conseguir trabalho após os 50:

» Manter-se atualizado e informado;
» Procurar cursos para entender as novas tecnologias e saber utilizá-las;
» Deixar a mente aberta a novas plataformas, ideias e opiniões;
» Entender o momento atual, que requer profissionais criativos e ágeis;
» Conviver de maneira harmoniosa com pessoas de diferentes idades;
» Manter a cabeça, a mente e o corpo ativos;
» Demonstrar ter abertura a novos conhecimentos;
» Planejar-se de forma meticulosa e séria;
» Ter humildade para reconhecer que não é dono da verdade e que precisa de ajuda;
» Cultivar habilidade para lidar com decepções, raiva e frustrações;
» Exibir uma atitude proativa, positiva e de disposição em aprender.

Fontes: Antonia Rodrigues e Gutemberg B. de Macêdo

Leia!

(foto: Alta Books/Reprodução)
(foto: Alta Books/Reprodução)
 

 

 

Guia de sobrevivência corporativa — volte ao mercado pela porta da frente
Autor: Gutemberg B. de Macêdo
Editora: Alta Books
320 páginas
R$76,90 
 
 
 

 
 
*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade

MAIS NOTÍCIAS

Não há desenvolvimento sem educação 07:00 - 11/11/2019 - Compartilhe

Não há desenvolvimento sem educação

Seleção exclusiva para PCD 07:00 - 11/11/2019 - Compartilhe

Seleção exclusiva para PCD

Brasília: futuro polo de moda internacional 07:00 - 11/11/2019 - Compartilhe

Brasília: futuro polo de moda internacional

publicidade
publicidade
publicidade
publicidade
publicidade
publicidade