Publicidade

Correio Braziliense

Negros ocupam cargos com menor remuneração no mercado de trabalho

No mês em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, IBGE revela que mercado de trabalho ainda coloca obstáculos para a população negra


postado em 17/11/2019 18:43 / atualizado em 17/11/2019 20:18

 

Pela igualdade racial nas empresas

A população preta do país recebe menos que os brancos e é maioria nos setores da economia com baixa remuneração. Entre os principais obstáculos para a inserção estão o preconceito e dificuldades de acesso à educação. Mas especialistas reconhecem que, pouco a pouco, os negros têm ganhado espaço nas empresas que promovem ações em prol da diversidade.
 
O angolano Vinda Daniel Afonso, popularmente conhecido como DJ Afrika, 36 anos, mora no Distrito Federal desde 2004 e conta que teve dificuldades para se inserir no mercado de trabalho, mesmo sendo capacitado. “Eu falo cinco idiomas e, mesmo assim, foi difícil para arrumar emprego. Participava de processos seletivos em que o perfil da vaga era compatível com o meu, mas eu não era escolhido”, conta o empresário.

Formado em administração de empresas pela União Pioneira de Integração Social (Upis), atualmente, Afrika é DJ e trabalha na área de Tecnologia da Informação (TI).
 
Publicitário Heitor Perpétuo, 36 anos, e Cleide Rodrigues, 56, com cursos de gastronomia na Europa, montaram um bistrô no Cruzeiro.
Publicitário Heitor Perpétuo, 36 anos, e Cleide Rodrigues, 56, com cursos de gastronomia na Europa, montaram um bistrô no Cruzeiro."Eu me vejo como um dos poucos negros empresários e publicitários" (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 
A dificuldade enfrentada por  ele é comum para muitos negros no Brasil, como mostram dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de constituírem 55,8% da população, a representatividade no mercado de trabalho ainda é baixa.
  
De acordo com a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais, 14,7% da população negra estava desocupada em 2018,contra 10% dos brancos. No DF, a Pesquisa de Emprego e Desemprego também  apontou disparidade: 20,9% de desocupados no primeiro grupo contra 15,3%, do segundo.
 
Outro dado é que pretos e pardos são maioria em setores com remuneração mais baixa: agropecuária (60,8%), construção civil (63 %) e serviços domésticos (65,9%) —– essas eram as atividades que tenham menores rendimentos médios em 2017.
 
"Eu falo cinco idiomas e, mesmo assim, foi difícil para arrumar emprego. Participava de processos seletivos em que o perfil da vaga era compatível com o meu, mas eu não era escolhido" Daniel Afonso, DJ e microempreendedor individual (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 
Por fim, a disparidade salarial é outra vertente do preconceito. Mesmo quando têm nível de escolaridade equivalente ao de brancos, negros costumam receber salários menores: para quem têm ensino superior , as médias, em 2017,  foram de R$ 31,9 e R$ 22,30, por hora, respectivamente. A diferença representa uma queda de 43,2%.

Principais dificuldades

Entre os obstáculos encontrados, está o processo de formação. “Normalmente, o negro mora na periferia, estudou em escola pública e, se falamos em ensino superior, está em uma universidade mediana”, explica Ednalva Moura, gerente-geral do Instituto Ser+ — ONG que visa desenvolver o potencial de jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

E esse não é o único entrave. De acordo com Ednalva, muitos recrutadores têm uma visão preconceituosa. “Geralmente, eles olham para o negro considerando uma visão muito simplista e, algumas vezes, subalterna. Isso está muito ligado ao racismo estrutural”, afirma.
 
 
“Outro desafio é a questão do deslocamento. Normalmente, o negro mora na periferia e muitas empresas não querem pagar o auxílio-transporte necessário para que ele consiga acessar oportunidades”, acrescenta. “Então, ele acaba ficando nas pequenas empresas do bairro onde mora.”

Além disso, os desafios não acabam depois da conquista da vaga. Um exemplo é a disputa por cargos na empresa, em que saem prejudicados desde o início, como explica a gerente-geral do Instituto Ser . “Em uma concorrência interna entre negros e brancos, até quando o negro tem todas as competências necessárias, muitas vezes, os patrões dizem que ele não está apto para a vaga”, afirma.

Mudanças a caminho 

Apesar dos índices desfavoráveis, especialistas afirmam que, pouco a pouco, espaços como universidades e mercado de trabalho têm mudado. “Em 2014, surgiu a lei das cotas em universidades públicas para pretos, pardos e indígenas”, explica o professor do Departamento de Artes Visuais e ex-coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (UnB), Nelson Fernando Inocêncio da Silva.

“Essa política se agrega a outras que estavam em curso. Várias universidades já haviam adotado cotas raciais, por exemplo.” Para o professor, as ações afirmativas têm resultados mais profundos que a simples garantia do ingresso. “Isso é importante porque você consegue qualificar pessoas que haviam sido desestimuladas e não tinham perspectiva de estar na universidade.”

Outra pesquisa do IBGE aponta que, pela primeira vez, negros são maioria nas instituições federais de ensino superior — em 2018, mais de 1,14 milhão de estudantes se declararam pretos e pardos, o que equivale a 50,3% do total de alunos matriculados nas universidades públicas.
 

Ednalva Moura, do Instituto Ser , concorda que houve mudanças positivas nos últimos anos. “Entre 1950 e 2000, o movimento negro firmou uma busca constante para o reconhecimento de alguns desafios socioeconômicos e estruturais, tentando melhorias para essa população”, afirma.


“A partir dos anos 2000, esse movimento nos garantiu o Programa Universidade Para Todos (ProUni), que foi uma conquista boa para a população negra, e a lei que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas”, exemplifica. De acordo com Ednalva, essas conquistas colocaram as empresas em alerta “sobre a necessidade de somar esforços para a inclusão”.

Nas corporações

Ednalva Moura, do Instituto Ser :
Ednalva Moura, do Instituto Ser : "Hoje, as empresas reconhecem que é importante discutir o racismo" (foto: Instituto ser /Divulgação)
 
Algumas empresas “estão mais abertas às diferenças, o que tem sido um diferencial para seus resultados”, afirma Ednalva Moura. A gerente do Instituto Ser indica que tudo começa com uma mudança de visão. “Muitas vezes, as pessoas diziam que não existia racismo e que não era necessário discutir. Hoje, as empresas reconhecem que é importante, sim.”

O escritório de advocacia Tozzini Freire é uma dessas instituições. Neste ano, eles lançaram o grupo de afinidade racial TFAfro, que discute a discriminação e a pequena participação de negros no mercado jurídico, promovendo debates, rodas de conversas e exibição de documentários mensalmente. Neste mês, será realizado um encontro com estudantes negros de cursos de direito de São Paulo, para falar sobre as áreas de atuação do escritório. Sempre que surge oportunidade, ações práticas são aplicadas, por exemplo, um glossário que apresenta termos de conotação racista, criado a partir da sugestão de um dos participantes do TFAfro.

Um dos fundadores da iniciativa é Kenneth Ferreira, sócio do escritório. Ele conta que, nos quase 20 anos de profissão, teve pouco colegas negros. “É muito raro no ramo da advocacia empresarial encontrar funcionários pretos. Posso contar nos dedos com quantos eu interagi em todos esses anos”, diz. “Infelizmente, é um quadro bem dramático”, lamenta.
Por ter consciência desse cenário, ele definiu que teria o papel de trazer mudanças e encontrou no TFAfro a maneira de colocá-las em prática. “Acho que sem dúvida essa questão ganhou uma relevância muito grande, porém ainda é um tabu para muitas empresas”, analisa. “Mas hoje, cada vez mais, a gente vê que essa discussão está acontecendo, os colegas estão preocupados em, pelo menos, abrir o diálogo. Isso é muito importante.” 

Conheça histórias de profissionais pretos que superaram as barreiras do preconceito

Empresários

"O negro tem alguma representação na arte, na cultura e no esporte, mas nossa representatividade nos pilares da sociedade, que são a economia e a política, ainda é muito fraca" Heitor Perpétuo, sócio-proprietário do restaurante Sambistrô (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

Heitor Perpétuo, 36, e Cleide Rodrigues, 56, se conheceram por meio de amigos em comum e, juntos, montaram um restaurante italiano — o Sambistrô, localizado no Cruzeiro Velho. Ela cuida da cozinha, ele é responsável pela administração e comunicação do estabelecimento.

Cleide conta que é apaixonada por culinária e fez diversos cursos de gastronomia na Europa, onde morou por cerca de 30 anos. “Não fiz faculdade, porque não é necessário. Você tem que fazer o que gosta”, diz. “Eu amo meu trabalho, é meu prazer, minha vida, e agradeço a Deus pelo que ele me deu”, acrescenta.

A carioca, que estudou em colégio militar e fala cinco idiomas, passou pela Inglaterra, Itália e Espanha, onde fincou raízes. Há cerca de três anos, ela se mudou para Brasília e começou a trabalhar em casa preparando comidas veganas, vegetarianas e fitness. Mas não estava plenamente satisfeita, pois sempre gostou mesmo da gastronomia espanhola e italiana.

Foi aí que ela conheceu Heitor, um publicitário que tinha uma loja fechada em um centro comercial e queria abrir um estabelecimento que reunisse música e gastronomia. Da coincidência de objetivos, nasceu o Sambistrô, que, posteriormente, migrou para o Cruzeiro Velho.

Além de administrar o restaurante, Heitor trabalha em uma agência de publicidade. De acordo com ele, faltam tanto empresários quanto publicitários negros no mercado. “Eu me vejo como um dos poucos (negros) nos dois setores”, afirma. “Não sinto necessariamente um preconceito. Acho que não dou muita atenção a isso, que, na minha opinião, é mediocridade intelectual”, completa.

“Mas o que eu percebo e me causa estranhamento é a pouca quantidade de negros, principalmente em restaurantes caros e escolas particulares.” Na opinião dele, é fundamental que jovens negros tenham referências de empresários como forma de incentivo. “Nós temos alguma representação na arte, na cultura e no esporte, mas nossa representatividade nos pilares da sociedade, que são a economia e a política, ainda é muito fraca”, opina.

Cleida também não se sente discriminada no trabalho por ser negra. “Eu sempre fui muito valorizada pelo que sou, pela minha trajetória, por todo meu trabalho e empenho”, relata. “Não senti nenhuma reação, a não ser de dois ou três que chegam aqui e me olham meio diferente, mas é a minoria. Não tenho problema nenhum quanto a isso.” Orgulhosa, ela conta que foi a primeira chefe de cozinha negra em Palma de Mallorca, na Espanha, e sua irmã, a primeira marinheira negra na mesma cidade.

Pluralidade

Somos negros, temos hobbies, temos vontades na vida e somos pessoas como outras quaisquer. Não somos apenas a nossa cor
Somos negros, temos hobbies, temos vontades na vida e somos pessoas como outras quaisquer. Não somos apenas a nossa cor" Fabiana Reis, idealizadora do projeto Black Me (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

Jornalista de formação, Fabiana Reis, 38, criou um projeto para “mudar o foco da questão negra” — o Black Me. Ela produz bolsas com artes inspiradas em mulheres negras urbanas e comercializa em salões afro, feiras e na rodoviária do Plano Piloto. O objetivo, entretanto, não é lucrar, mas expor a beleza afro.

“Na maioria das vezes, quando você ouve falar da questão negra, você ouve falar da escravidão, dos movimentos sociais e da nossa luta”, diz. “A ideia do projeto é focar na questão do existencialismo. Somos negros, temos hobbies, temos vontades na vida e somos pessoas como outras quaisquer. Não somos apenas a nossa cor”, completa.

Além de ter atuado como jornalista, Fabiana já foi chefe de cozinha e, depois da maternidade, decidiu trabalhar em algo mais “light”. Foi aí que surgiu a ideia das bolsas. Ela conta que, por ser uma mulher negra, teve que fazer “um caminho completamente diferente” para chegar onde está hoje.

“Não deveriam todas as pessoas ter oportunidades no mercado de trabalho?”, questiona. De acordo com a brasiliense, quando era mais jovem, ela não tinha tantas figuras negras em quem se inspirar. “Em absolutamente todos os lugares, só havia mulheres brancas e de cabelo liso...”, relata. “Está na hora de a gente estampar nossa cara.”

Sucesso pelos estudos

"Comecei a vivenciar mais a discriminação quando abri a clínica. Percebi nos rostos das pessoas que, quando chegavam para ser atendidas, se espantavam ao ver que eu as atenderia. Chegou ao ponto de perguntarem se eu realmente trabalho aqui" Thayene de Oliveira, dentista do Centro Médico Lúcio Costa (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

A dentista Thayene Oliveira, 31 anos, se descreve como uma mulher negra empreendedora. Brasiliense, é formada em odontologia pela Universidade de Brasília (UnB). Thayene conta que os pais tiveram uma origem muito pobre, mas que mudaram de vida por meio da educação.

“Meu pai foi guardador de carro e minha mãe foi caixa de padaria, mas sempre tiveram uma coisa muito forte de que o estudo os tiraria daquela situação. Lutaram muito para poder reverter as circunstâncias na qual viviam”, conta. A recompensa por todos os anos de dedicação veio quando Thayene e a irmã Rayane de Oliveira Carvalho passaram na universidade.

Para Thayene, a experiência na graduação foi bastante solitária. “Infelizmente, tive poucos colegas negros durante o curso, senti muita falta desse pertencimento, de ter a minha galera, que se parece comigo. Os cursos na área da saúde são majoritariamente preenchidos por pessoas brancas”, explica.

Após concluir a faculdade, ela decidiu colocar em prática o sonho que compartilhava com o pai de ter a própria clínica. “Foi um combinado que nós dois fizemos, eu passaria para odonto e ele,  para administração, assim abriríamos o consultório. No entanto, no meio da graduação, meu pai faleceu. Por isso, deixei a ideia um pouco de lado”, lamenta. Depois de ter passado pelo luto, Thayene resolveu retomar a ideia e, em janeiro de 2018, abriu as portas do consultório, que leva o seu nome.

Ela compartilha os desafios e preconceitos que enfrenta por ser uma dentista negra que é dona do negócio. “Comecei a vivenciar mais a discriminação quando abri a clínica. Percebi nos rostos das pessoas que, quando chegavam para ser atendidas, se espantavam ao ver que eu as atenderia. Chegou ao ponto de perguntarem se eu realmente trabalho aqui”.
Thayene diz se sentir realizada quando atende clientes negros. “Fico muito feliz quando alguém vem me procurar por se identificar, pelo fato de sermos iguais. É uma sensação de conexão, sinto que flui mais fácil, me tira um pouco desse receio, porque sei que ele está me vendo como igual”, reflete.

Dia da consciência negra

A importância da data para a história do país
Em 20 de novembro de 1695, morreu Zumbi dos Palmares, um dos maiores símbolos brasileiros da luta e resistência do povo negro. Por conta desse acontecimento, em 2011, foi sancionada a Lei nº 12.519, que institui o Dia Nacional da Consciência Negra. A data é reservada para refletir sobre a história da população negra no Brasil. Do passado aos dias atuais.

Vale lembrar que o Brasil foi a última nação a abolir a escravidão na América Latina, em 13 de maio de 1888. No entanto, a luta por liberdade, melhor condição de vida e pelos direitos mínimos continua através das diversas figuras públicas representantes da causa, das organizações sociais e das pessoas anônimas que, dia a dia, tentam vencer as barreiras do acismo.

Palavra de especialista

A barreira do racismo 

A principal dificuldade para a inclusão de negros no mercado de trabalho deveria ser qualificação, mas não é. A gente tem, obviamente, uma dificuldade muito grande no processo de formação, porque as pessoas negras, em função das circunstâncias econômicas, muitas vezes têm de trabalhar como arrimo de família e isso torna precoce a evasão escolar. Mas essa é uma parte da história, não tudo.
 
Mesmo quando a gente fala das pessoas que são qualificadas, você encontra a barreira do racismo no mercado de trabalho. Muitos empregadores estão ainda contaminados pelo mito da “boa aparência”. Eu me lembro de quando era muito jovem e ia procurar emprego nos classificados. Às vezes,  eu tinha todas as condições para pleitear o cargo, mas não tinha a tal da “boa aparência.” E o que é a boa aparência? No fim das contas, é ser branco.
 
As empresas, muitas vezes, estão mais preocupadas com a imposição de um padrão eurocêntrico do que necessariamente em empregar a pessoa que está mais capacitada. Em muitas seleções, o indivíduo mais qualificado é negro e não terá um emprego em função da discriminação racial, em função do racismo que permeia as relações entre empregador e empregado.
 
Nelson Fernando Inocêncio da Silva - bacharel e mestre em comunicação e doutor em arte pela UnB, professor adjunto no Departamento de Artes Visuais da UnB e ex-coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros



» Estagiários sob supervisão da editora Ana Sá

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade

MAIS NOTÍCIAS

publicidade
publicidade
publicidade
MEC lança diploma digital 20:01 - 10/12/2019 - Compartilhe

MEC lança diploma digital

publicidade
MEC lança diploma digital. Acompanhe ao vivo 15:04 - 10/12/2019 - Compartilhe

MEC lança diploma digital. Acompanhe ao vivo

publicidade
Começa a primeira edição da FeLiB 14:46 - 09/12/2019 - Compartilhe

Começa a primeira edição da FeLiB

publicidade