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Correio Braziliense NATAL

Aposentados ganham até R$ 22 mil para ser Papai Noel no Natal

Shoppings, lojas de rua, feiras, festas de família e de firmas contratam aposentados para atuarem como Papais Noéis e incrementarem as vendas nesta época do ano. A atividade pode gerar uma renda extra de até R$ 22 mil


postado em 24/11/2019 18:15 / atualizado em 01/12/2019 17:53

A fantástica carreira de Papai Noel

Nesta época do ano, senhores de barba branca se vestem da tradicional roupa de veludo vermelho, óculos de grau e botas para tirar fotos com crianças e ouvir pedidos. É uma profissão que traz alegria para esses profissionais, crianças e até para adultos. E bem remunerada. Os bons velhinhos dos shoppings, por exemplo, trabalham cerca de 45 dias e ganham até R$ 22 mil 
 
Desde o início deste mês, luzes e enfeites se espalham pela capital federal colorindo alguns pontos da cidade. É o Natal que vem chegando — época da esperança, bondade e compaixão. Para a celebração ficar completa, não pode faltar um personagem famoso: de barba branca, uniforme vermelho e barriga protuberante. Onde quer que esteja, o Papai Noel atrai crianças de todos os cantos. Nos shoppings, casas temporárias já foram montadas e devem ficar, aproximadamente, 45 dias oferecendo magia aos visitantes.
 
Essa também é a época em que alguns aposentados encontram uma segunda profissão. O bom velhinho passa a ser, além de tudo, fonte de complemento na renda. Fernando Xavier, 65 anos, por exemplo, saiu de Alexânia em busca de alguma remuneração e, há 19 anos, trabalha como Papai Noel no Brasília Shopping. Tudo o que tem em casa, hoje, deve-se ao que ganha na atividade — ao tirar fotos e ouvir os pedidos de crianças e adultos. Ele prefere não revelar a remuneração por motivos de segurança, mas garante: “ganho o equivalente a um carro”.
 
(foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 
A remuneração média de um Papai Noel varia de acordo com o local de contratação e a carga horária. Para trabalhos em shoppings, com aproximadamente 48 dias de duração, a agência brasiliense Grupo Ciranda paga de R$ 6 mil a R$ 11 mil. Em São Paulo (capital), a faixa salarial está em um patamar mais elevado, segundo a empresa paulista Cia. do Bafafá, o valor pago é entre R$ 10 mil e R$ 15 mil.

Diversidade

Ainda na terra da garoa, o Vale Sul Shopping precisava completar o quadro de três Papais Noéis e encontrou um intérprete que preenchia todos os critérios: gordinho, tinha a uma barba branca e era simpático. Apesar de ter o carisma clássico, a foto desse personagem no trono viralizou nas redes sociais por um motivo: ele é negro. Rubens Campolino fez tanto sucesso que outros shoppings começaram a repensar as próprias políticas de contratação.
 
A reportagem do Correio Braziliense não encontrou um Papai Noel negro em centros comerciais de Brasília. O Grupo Ciranda tem um bom velhinho negro, mas como, segundo eles, não houve procura neste Natal, o intérprete não está trabalhando.

Carreira

Como nem tudo é magia, o trabalho tem exigências que justificam os altos salários. Para usar a tradicional roupa de veludo vermelha, os candidatos têm que ter muito mais do que uma barba bonita. “É necessário gostar de criança, ter um CPF limpo, ser pontual e ter uma saúde boa, para ficar sentado por mais de seis horas”, enfatiza Vânia. “A entonação do “hô, hô, hô!” também é importante.”
 
 
Por isso, existem cursos que ensinam as etiquetas da profissão. Contudo, nem todos os velhinhos tiveram tempo de aprender a teoria e já começaram praticando. Olídio dos Santos Pereira Dilho, 62 anos, por exemplo, estava desempregado e, de repente, se viu em um desafio: substituir um Papai Noel que estava doente. Quando olhou a quantidade de pessoas que o aguardavam para abraçar, tirar foto e conversar, entrou em desespero, mas, no fim,deu tudo certo. “E nessa brincadeira, vão fazer 29 anos”, constata.

Sem crise 

A empresária Vânia Moraes, do Grupo Ciranda, não acredita que haja crise nesse ramo. “É um personagem que simboliza esperança, uma vida e um ano melhor”, diz. Por isso, na agência, o Papai Noel é sempre muito requisitado por empresas, famílias e shoppings – mesmo em anos de recessão econômica e consumo baixo.
 
O bom velhinho, no trono do Taguatinga Shopping, em companhia de seus ajudantes(foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
O bom velhinho, no trono do Taguatinga Shopping, em companhia de seus ajudantes (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 
Dono da Cia. do Bafáfá, Paulo Mendes concorda. “Os shoppings encaram o personagem de Papai Noel como um impulsionador de negócios.” Com o objetivo de vender mais, muitos centros comerciais contrataram o bom velhinho já em outubro. No Brasília Shopping, por exemplo, a expectativa é otimista. “Acreditamos que, neste ano, nos dois meses de Natal, teremos um aumento de 15% nas vendas”, diz a gerente de marketing, Renata Monnerat.

Confraternizações

Outros tipos de festas também atraem os homens da Lapônia profissionais. Grandes empresas, por exemplo, costumam buscar um Papai Noel para festas corporativas em que funcionários levam os filhos. A remuneração de uma hora por noite para os contratados do Grupo Ciranda varia entre R$150 e R$ 250 em Brasília.

Por fim, o poder de observação das crianças tem gerado aumento na demanda até mesmo em eventos de família. “Não dá mais para o tio ou avô se vestirem de Papai Noel, pois a primeira coisa que a criançada faz é olhar em volta pra saber quem se caracterizou”, argumenta. Por isso, Mendes acredita que um intérprete profissional consegue transformar a atmosfera. “Quando os pequenos percebem que a família está reunida e que aquele que está ali fazendo o Papai Noel não é ninguém conhecido, você cria um ambiente mágico”, complementa Paulo Mendes.

Homem de Lapônia dedicado

"Procuro fazer sempre check-up e me comportar dentro da linha." Fernando Xavier, 65 anos (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
Com 19 Natais no currículo, Fernando Xavier, 65 anos, se autoproclama o Papai Noel mais querido de Brasília. “Digo isso com certeza, e eu faço por onde!” Desde 2000, o goiano deixa a casa em Alexânia para se transformar no bom velhinho do Brasília Shopping. Durante o período, ele dorme em um quartinho a três quadras do trabalho.

A trajetória natalina de Xavier começou por necessidade financeira, já que a aposentadoria como fuzileiro naval não era suficiente. Pai de três filhos, ele buscou emprego em uma agência e, enquanto esperava na fila, ouviu um anúncio: “Atenção, rapazes, estou atrás de um homem com olhos verdes ou azuis que saiba lidar com crianças”. Ele, que sempre adorou o público infantil, não hesitou em se pronunciar. Foi o pontapé da carreira.

“O que eu mais gosto é o carinho que a gente recebe. Nem vejo a hora passar”, enfatiza. Ele lembra do dia em que uma criança o abraçou e não queria mais soltar. “A mãe teve que ligar para o pai tirá-la do meu pescoço. Eu ganho beijo, abraço, e isso é muito gratificante para mim e para minha família”, diz.

Como toda profissão, ser Papai Noel tem suas exigências. Para Xavier, é necessário ser pontual, cumprir o horário direito e ter determinação, além de cuidar da roupa e da própria higiene para não ficar malcheiroso. A rotina dele é exemplo disso. Todos os dias acorda às 6h, faz sua comida e caminha até o shopping. Se prepara no camarim, onde também descansa até começar o expediente, das 10h às 22h, com intervalos.

Embora tenha cativado o trono do bom velhinho no Brasília Shopping, ele fala que sempre tem alguém para tentar derrubá-lo ou levá-lo para outro estabelecimento. Certa vez, recusou uma proposta para trabalhar ganhando mais em outro lugar. Quando seus superiores souberam do ocorrido, deram um aumento de 10% de recompensa pela fidelidade.
 
Como não é contratado por agência, Xavier é responsável pela própria roupa. Por isso, parte do salário de janeiro é investido na preparação para o próximo Natal. Na lista de compras estão cheirinho de bebê, essência, tinta para a barba, bota nova, cinto com fivela de prata, uniformes, entre outros itens. Nem o calor foge dos planejamentos do bom velhinho goiano. Para suportar o verão brasiliense, ele comprou e instalou, por conta própria, um ar-condicionado em frente ao trono. “Me preocupo com tudo.”

“As luvas encardem, mas ninguém me chama a atenção, porque faço questão de desencardir à mão”, exemplifica. São mais de 100 pares lavados à moda antiga, sem máquina. Além disso, o guarda-roupa natalino de Xavier é composto por 12 camisas, 15 calças, 25 roupões e 12 gorros. “Procuro fazer sempre meu check-up e me comportar dentro da linha.”
 
O Papai Noel conta que, com o mundo moderno, as crianças não querem mais brinquedos. “Agora, eles pedem celulares e videogames.” Já os adultos não mudaram: continuam desejando casamento, namoro, casa, entre outros. Ano passado, uma senhora pediu um apartamento e um marido. “E conseguiu”, lembra em tom descontraído. Desta vez, a mesma mulher voltou para pedir que a irmã fosse curada de um câncer. “Quando cheguei em casa, orei muito para Deus ajudá-la.”

O morador de Alexânia acredita que ganha algum tipo de poder enquanto representa o Papai Noel. “As pessoas dizem que eu realizo pedidos delas”, conta. “Há mais de 15 anos, vou a uma residência como Papai Noel e, ontem, descobri que eles acreditam que quem fez o casamento dos donos da casa fui eu, pois a mulher me pediu um marido, e hoje ela tem.”

Às vezes, o velhinho tira do próprio bolso para presentear pessoas ao seu redor. “Meu camarim tinha perfumes e um monte de coisas, aí dei para quem queria.” Ele doou uma das botas do uniforme para um amigo que precisava de um sapato para pescar. Também presenteou, com alguns gorros, jovens que falaram que queriam trabalhar como Papai Noel e não tinham dinheiro para começar com alguns de seus gorros. Com tantos anos no mesmo lugar, “Seu Fernando”, como ficou conhecido por todos no Brasília Shopping, acumula boas histórias.

“Tem um senhor que vem aqui todo ano e me mostra uma sequência de fotos de diferentes natais, desde que comecei”, orgulha-se. “Uma vez, parou aqui uma ambulância com um doente. Ele queria realizar um último pedido: abraçar o Papai Noel. O rapaz desceu da maca e veio até mim. Só em ver aquela cena, comecei a chorar”, lembra sorrindo. Em outra oportunidade, “Seu Fernando” estava indo para uma consulta médica e presenciou um acidente. “Prestei os primeiros socorros à vítima, liguei para os familiares e a deixei no posto policial mais próximo. Contei para ela que era Papai Noel no Brasília Shopping e, anos depois, ela apareceu com dois filhos e falou: ‘Esse aí que salvou a vida da mamãe’.”
 
Nos horários livres, ele faz um “extra” entregando presentes em casas do Distrito Federal. São R$ 700 por meia hora e “não adianta pechinchar”, porque o velhinho não abaixa o preço. “Se eu fizer mais barato, vira moda, e eu tenho que aproveitar que estou no auge da carreira. Cantor e artista não é assim? Eu quero ser um Papai Noel chique, mas também quero lucrar com isso”, argumenta.

O mais duro do período natalino é enfrentar a distância da amada. “É difícil lidar com a saudade”, desabafa entre lágrimas, mas “o salário vale a pena”. Xavier explica que arrumou toda a casa em que moram com o que ganhou durante as temporadas. (M.C)

Papai Noel conselheiro

"Eu estou com o emprego que todo mundo queria. Trabalho um mês e folgo 11" Olídio dos Santos, 62 anos (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
Olídio dos Santos Pereira Filho, 62 anos, também se tornou Papai Noel por necessidade, mas não financeira. O contratado para ser o Papai Noel em uma festa adoeceu e precisou declinar do convite em cima da hora. Quem organizava o evento era um colega de trabalho da mãe de Olídio. Sabendo que o filho estava desempregado e tinha quatro crianças para sustentar, ela ligou e perguntou se ele queria o papel. “Até levei um susto. Eu não tinha barba natural e nunca tinha trabalhado com isso, mas falei ‘vamos’. E, nessa brincadeira, já vão fazer 29 anos”, lembra.

“Eu estou com o emprego que todo mundo queria. Trabalho um mês e folgo 11”, brinca. A primeira vez foi 1992 e, até hoje, Olídio desempenha essa função no Natal. Está no Shopping Iguatemi desde 2013. Durante o resto do ano, Olídio trabalha como autônomo. Dono de uma firma de câmeras de segurança e cercas elétricas, ele sempre fecha a loja no período natalino para fazer a alegria da criançada. “E eu amo trabalhar no Natal porque eu gosto de criança.”
 
O que o motiva é ver a alegria no rosto dos pequenos. “A ingenuidade deles, o carinho que eles têm pelo Papai Noel e essa demonstração de amor que vem do coração são grandes recompensas”, vibra. Embora se divirta com as crianças, às vezes, ele vive situações inusitadas e tem que pensar bem no que falar. “Certo dia, uma criança fez o seu pedido e, quando estava indo embora, falou que a mãe queria de presente silicone para colocar nos seios. A mãe ficou mais vermelha que a roupa do Papai Noel. Eu ainda brinquei: ‘Viu? foi falar perto de criança…’”

Outra vez, uma criança falou: “Papai Noel, cura a minha avó, ela está com câncer”. Olídio saiu da situação orientando o pequeno. “O que Papai Noel pode fazer é orar e pedir a Deus para que ele venha curar sua avó, mas você tem que fazer a mesma coisa, é só colocar o joelhinho no chão na hora de dormir e pedir a cura da vovó”, aconselhou.

Pedidos igualmente difíceis foram feitos em outros momentos. “Um dia chegou uma criancinha de mais ou menos oito anos de idade e eu perguntei para ela: o que você quer ganhar de Papai Noel? Ela falou: Quero que você seja meu pai.” A tia da menina explicou que ela havia sido abandonada pelo pai e que estava numa etapa em que o colégio cobrava a presença do pai. “Eu expliquei para a tia que não é assim que se faz, porque é constrangedor para a criança”, conta Olídio.

E foram essas saias justas que ensinaram o velhinho a dar respostas. “No meu primeiro dia de trabalho como Papai Noel, tinha uma fila enorme, aí o rapaz olhou pra mim e falou: ‘Tá vendo aquela fila? Senta lá e trabalha?! No momento, o nervosismo tomou conta de mim. Eu pensei: ‘Pelo amor de Deus, o que eu vou falar?? No final, deu tudo certo. Fui conversando e pegando o traquejo.”

Olídio acredita que os Papais Noéis também são psicólogos e conselheiros. “As mães sempre pedem ajuda com os filhos. Falam que eles andam mal na escola e estão desobedientes, aí eu tenho que conversar com a criança”, explica. É quando intervém. “Se você quer ganhar presente, tem que se comportar. Eu tenho uma televisão grandona que vê tudo e, por isso, estou sabendo que você anda desobedecendo seus pais.” Segundo ele, é aí que as crianças se espantam, pois não esperavam que ele soubesse. Uma vez, o resultado da conversa foi tão positivo que a mãe voltou 15 dias depois para agradecer.

“Papai Noel também serve como ombro amigo”, brinca. Isso porque algumas mulheres chegam ao shopping falando que não acreditam na figura natalina, mas precisam desabafar. Então, sentam contam a própria história em busca de consolo. “Às vezes, estão no meio de uma separação difícil, então precisam abraçar alguém.”

Olídio também é cuidadoso com a aparência do personagem e, para que tudo esteja perfeito em dezembro, ele passa “o ano inteiro” hidratando o cabelo e a barba. “Tem que cuidar porque é a nossa presença”, afirma. O Papai Noel do Iguatemi também tem roupas próprias, sete uniformes de cetim, que ele utiliza durante a semana, e quatro de veludo, para o fim de semana. Ele trabalha das 12h às 21h e tem direito a dois intervalos, quando aproveita para tomar banho e colocar roupas limpas.

O bom velhinho acredita que o espírito natalino deveria permanecer o ano todo. “Chega nesta época, todo mundo se cumprimenta, faz agrados, mas deveria ser o ano inteiro assim”, destaca.

O primeiro negro

"Gosto de tudo, das crianças e dos pais" Rubens Campolino, 71 anos (foto: Rodrigo Digodo Jackson/Reprodução)
Rubens Campolino, 71 anos, é considerado por muitos o primeiro Papai Noel negro do Brasil. Pai de quatro filhos, o metalúrgico aposentado recebeu o convite para vestir o uniforme vermelho de um centro comercial de São Paulo em 2017. A princípio, o medo o fez recusar. “Eu não sabia qual seria a reação do povo”, confessa.
 
O Vale Sul Shopping (São José dos Campos, SP) estava à procura do terceiro Papai Noel para completar o quadro de funcionários. Foi quando os responsáveis pela seleção souberam de um concurso de miss terceira idade, realizado em uma casa que oferece atividades para idosos. Eles viram as fotos da edição do ano anterior e se encantaram por Rubens.
 
O sorriso e a simpatia do aposentado chamaram a atenção da equipe, que ligou para a casa dele a fim de saber mais sobre a figura. Com as boas referências que receberam, os agentes não tiveram dúvidas. Independentemente da cor, ele tinha que ser o Papai Noel do Shopping. Após recusar a proposta, o paulistano conversou com a esposa, que o incentivou. “Aí eu pensei, bora tentar.”

No primeiro dia como Papai Noel, Rubens lembra que ficou apavorado, mas, aos poucos, foi se “descontraindo” e pegando o jeito. “Não precisa de curso, eu não fiz. As coisas fluíram, e  fui aprendendo”, explica. Em três anos trabalhando no Shopping, ele tem conquistado visitantes e é conhecido como “Seu Rubens”.
Campolino disse que gosta muito da profissão por causa do público que atende. “Gosto de tudo, das crianças e dos pais.” Apesar disso, ele comenta que fica desconcertado quando alguns dos pequenos pedem de presente para Papai Noel um emprego para os pais. “Vamos rezar juntos”, responde. Outra situação delicada que enfrentou foi quando uma velhinha lhe pediu um abraço e disse que aquele seria o seu último Natal.

Para o velhinho, a profissão não tem nenhum aspecto negativo. Mesmo quando enfrenta calor com a roupa tradicional de veludo e pesada, ou pelo fato de ficar sentado por muitas horas seguidas. “É tudo resolvível”, comenta.
Como o Vale Sul Shopping tem três intérpretes que se revezam, Seu Rubens trabalha dois dias na semana, das 14h às 22h, com uma hora de descanso. O sucesso de Rubens foi tão grande que pessoas iam ao Shopping só para vê-lo. Há relatos de crianças que observam: “Ele é da cor do meu pai”. Por isso, contrataram, neste ano, outro Papai Noel negro. 

Bom velhinho blogueiro

"Não sei cuidar da barba, mas, como cresce muito e é volumosa, o pessoal gosta." Pedro Marcos Vilas Boas, 55 anos (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
O mais jovem entre os entrevistados, Pedro Marcos Vilas Boas, 55, trabalha como Papai Noel há sete anos. E, desde 2018, iniciou uma carreira como blogueiro. Dono de um Instagram com mais de 5 mil seguidores, ele mostra a “rotina” de um Papai Noel, como momentos de lazer ao lado da “Mamãe Noel”, ou a “hibernação” até a chegada do fim de ano. É assim que ele consegue engajar pessoas durante o ano inteiro. O primeiro e único local físico em que o aposentado atua como Papai Noel é o Taguatinga Shopping, onde está desde 2012.

Morador da Ponte Alta, no Gama, Vilas Boas vive com a esposa e um dos dois filhos. Aos 48 anos, se aposentou da carreira militar e resolveu deixar a barba crescer. Sem trabalho, ele passava o ano todo procurando algo para ocupar o tempo, até que uma vizinha o indicou para uma agência de Papai Noel. “Quando eles olharam para mim, já falaram que eu seria o Papai Noel”, diz. Ter uma barba verdadeira facilitou bastante o processo, mas, ao contrário de seu Fernando e Olídio, Pedro não é tão dedicado aos fios. “Não sei cuidar, mas como ela cresce muito e é volumosa, o pessoal gosta.”
Mesmo que a carreira não tenha começado por causa do dinheiro, o trabalho é um grande complemento de renda para o Velhinho. Neste ano, ele vai trabalhar 47 dias, em dupla jornada, das 10h às 22h. São R$ 22 mil pela temporada. “Hoje, eu conto mais com o dinheiro do que na primeira vez.” O salário deste ano será gasto para pagar a hipoteca da casa, que corre o risco de ser leiloada. No ano passado, a renda foi usada para viajar com a esposa.

Vilas Boas acredita que todo Papai Noel tem que gostar de criança, ser compreensivo, alegre, sorrir sempre e se cuidar. “A barba natural é muito importante, porque as crianças chegam e vêm direto, puxam e ficam tocando. Os adultos perguntam se é de verdade, e pegam pra ver”, explica. Para ele, a melhor e a pior parte da profissão são as emoções.
 
“Já aconteceu de alguém pedir pela saúde de um familiar. Isso me emociona, se eu não me segurar, começo a chorar junto”, diz. Nesses casos, a resposta de Pedro para as crianças é: “Quando você chegar em casa, faça oração para Papai do Céu, porque ele escuta as crianças e eu vou conversar com ele porque eu sou amigo dele.” O ex-militar explica que é muito importante dialogar e não prometer nada. “Imagina se você fala que vai ajudar alguém e, no outro dia, a pessoa morre?”

Por outro lado, ele adora quando consegue o abraço de uma criança que estava com medo. “Alguns pais querem forçar a criança a tirar foto, aí ela começa a chorar, então tem que ser flexível. Você vai conversando, oferece uma balinha, um biscoitinho e aí vai negociando e conquistando a criança. Quando ela vem no colo, é uma gratificação, até o pai fica bobo”, observa. Adolescentes também emocionam Papai Noel. “Eles falam pra mim: Papai Noel, não quero nada pra mim, quero a sua saúde, a sua felicidade, que o senhor seja muito feliz.”

Quando algum adulto diz que não acredita no Papai Noel, Pedro nem precisa pensar muito no que falar, tem o argumento pronto. “Eu digo que, se eles trazem o filho para sentar no colo de um desconhecido, eles têm que acreditar”, brinca. Com esse discurso, o Bom Velhinho fez muitos pais chorarem. “Eles acreditam mais do que as crianças”, completa.
Mas, quando as crianças pediram brinquedos que ele não conhecia, Vilas Boas se sentiu desatualizado. Longboard (um tipo de skate) e LOL (boneca em miniatura que vem dentro de um ovo) são alguns exemplos. Foi por isso que ele aproveitou o intervalo, em um dos dias no shopping, para entrar em uma loja e aprender um pouco mais sobre os pedidos que recebe. “As crianças falam e você tem que saber pelo menos um pouquinho”, afirma.

Assim como os outros Papais Noéis, ele também tem que orientar alguns visitantes. “Quando o menino senta e faz o pedido, o pai fala: ‘Mas, Papai Noel, é só para quem merece, né?’, e aí eu percebo que devo falar para a criança que ela tem que obedecer e ser educada”, conta. Entretanto, existem aqueles que tentam se justificar para ganhar presente. “Eles dizem que só desobedecem um pouquinho.  (M.C)

 
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá

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