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Pessoas com deficiência ainda são excluídas do mercado de trabalho

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, pesquisas mostram que esse grupo ainda enfrenta dificuldades para se inserir no mercado de trabalho. Falta inclusão tanto na parte de estrutura física quanto na integração com a equipe e chances de ascensão profissional


postado em 15/12/2019 17:17 / atualizado em 16/12/2019 12:08

O que falta para a inclusão?

A falta de acessibilidade, tanto de estrutura física quanto de acolhimento, é um dos grandes entraves para pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Segundo consultores de RH, o contexto tem melhorado, mas, em geral, ainda há muito a avançar
 
(foto: Hospital Brigadeiro/Divulgação , Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Hospital Brigadeiro/Divulgação , Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 
O servidor público Ricardo Rubenich, 24 anos, ficou cego aos 8 anos, depois de um câncer. Quando concluiu o ensino médio, ele decidiu prestar concurso público para se inserir no mercado de trabalho. “Eu sabia que esse seria o melhor caminho, porque, na esfera particular, normalmente as empresas não querem contratar pessoas com deficiência”, relata. Na época, ele morava em Santa Maria (RS) e começou a trabalhar como servidor em um banco. No entanto, Ricardo conta que, mesmo depois de conseguir a vaga, enfrentou dificuldades.

(foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
“Quando chegou o momento de me nomearem, eu tive de esperar oito meses para o banco comprar um leitor de telas que pudesse ser usado nos programas internos”, lembra o servidor, que é formado em direito pelo Centro Universitário UniCEUB. “Eu também percebia que havia resistência em me passar trabalho, não confiavam muito que eu pudesse desempenhar funções lá dentro”, conta. Em 2014, ele passou em outro concurso e se mudou para Brasília. No novo emprego, no Tribunal Superior do Trabalho (TST), encontrou um ambiente mais acessível. “Aqui eu consigo utilizar os programas tranquilamente. O acolhimento também foi muito bom, meus colegas sempre me ajudam quando preciso”, elogia. “Agora eu tenho um cão-guia, que também é superbem acolhido.”

As dificuldades enfrentadas por Ricardo ao longo da trajetória profissional estão entre as que pessoas com deficiência encaram no Brasil. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem aproximadamente 12 milhões de pessoas com deficiência no país, mas somente 3,5% trabalham no mercado formal. Além disso, segundo pesquisa da Catho, em parceria com a i.Social (consultoria especializada na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho), a Associação Brasileira de Recursos Humanos Brasil e de São Paulo (ABRH Brasil e ABRH São Paulo), esses profissionais, muitas vezes, desistem ou trocam de emprego devido à falta de um plano de carreira.

Preconceito ainda é uma barreira

(foto: Fernando Braga/Divulgação)
(foto: Fernando Braga/Divulgação)
Os obstáculos que dificultam a inserção de pessoas com deficiência no mundo do trabalho começam bem antes da contratação. Na avaliação de Anna Cherubina, consultora de empresas e professora de gestão de pessoas dos MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV), a discriminação ainda é uma barreira. “Qualquer tipo de inclusão na nossa sociedade tem resquícios muito vivos de preconceito que precisam ser trabalhados”, diz. “Muitas vezes, pessoas com deficiência têm sua capacidade menosprezada”, completa.

Para se ter uma ideia, uma pesquisa da consultoria Santo Caos com a Catho mostra que 40% dos profissionais de recursos humanos dizem ouvir com frequência de chefes de outras áreas que eles não estão abertos à contratação de pessoas com deficiência. Líder de Projetos de Inclusão na consultoria Social IN, Mara Lígia Kiefer explica que o senso comum em relação às pessoas com deficiência ainda é muito forte e dificulta a inclusão. “É comum acreditar que elas não se escolarizaram, que não são qualificadas nem produtivas”, diz. “Nós precisamos consolidar, por meio da informação, a percepção de que os profissionais com deficiência têm qualificação e, na maioria das vezes, desenvolveram autonomia em apoio à própria deficiência ou limitação funcional.”

Faltam perspectivas de crescimento

(foto: Appleredfotos/Divulgação)
(foto: Appleredfotos/Divulgação)
Depois de conquistarem oportunidades de emprego, os profissionais com deficiência costumam enfrentar outras barreiras no local de trabalho. Uma delas diz respeito à falta de perspectiva de crescimento profissional, como explica Mara Lígia Kiefer. “Se uma pessoa é contratada para cumprir cota por causa da deficiência, em geral, ela acha que vai ficar naquele posto de trabalho para o resto da vida”, afirma. “Isso acaba gerando a condição de não retenção desses trabalhadores. Muitas vezes, eles deixam uma empresa porque acreditam que podem buscar melhores oportunidades de desenvolvimento profissional em outra organização, mesmo que a diferença salarial seja pequena.”
 
De acordo com o levantamento da Catho em parceria com a i.Social, a ABRH Brasil e a ABRH-SP, os três fatores apontados por profissionais com deficiência como os principais na hora de pensar em desistir de um trabalho são a “falta de perspectiva de carreira”, seguida por “sentir-se apenas parte da cota” e “receber propostas de trabalho com melhores funções”. Vale ressaltar que, normalmente, as vagas ofertadas são em cargos mais baixos, o que também gera desmotivação.

“Justamente por causa do senso comum de que a pessoa com deficiência não tem escolaridade nem qualificação profissional, abre-se a mesma vaga ofertada para uma pessoa que está começando agora a vida profissional”, explica Kiefer. A pesquisa da Santo Caos em parceria com a Catho revela que menos de 10% dos profissionais com deficiência ocupam cargos de liderança. Dentre as funções que esses trabalhadores costumam ocupar, destacam-se: assistente (56,8%), analista (16,7%), técnico (11,9%), coordenador (5%), gerente (4%), aprendiz (3%), estagiário (2%), diretor (0,4%) e vice-presidente e/ou presidente (0,2%).

Mudanças a caminho

"É possível afirmar que houve uma evolução no reconhecimento dos profissionais com deficiência, bem como abertura para que eles pudessem ocupar as diversas esferas do mercado de trabalho" Tábitha Laurino, gerente sênior da Catho (foto: Tulio Vidal/Divulgação )
Apesar dos índices desfavoráveis, pouco a pouco, as organizações caminham em direção à inclusão e à acessibilidade. “É possível afirmar que houve uma evolução no reconhecimento dos profissionais com deficiência, bem como abertura para que eles pudessem ocupar as diversas esferas do mercado de trabalho”, analisa a gerente sênior da Catho Tábitha Laurino. Dados levantados pela empresa entre 2018 e 2019 apontam crescimento de 27% nas vagas para pessoas com deficiência,  principalmente nas áreas administrativa, financeira, comercial, industrial e de informática. “Apesar desse crescimento recente, uma questão é certa: mais profissionais precisam ser inseridos no mercado de trabalho”, afirma.

“É importante frisar que, nos últimos 20 anos, observamos um avanço nas discussões sobre minorias de modo geral, que se manteve em pautas cada vez mais consistentes. Essa mudança se refletiu diretamente na criação da lei que criou cotas para deficientes”, explica a gerente sênior da Catho. A legislação é de 1991 e, de lá para cá, avanços aconteceram, mas ainda não garantem a inclusão plena. Porém, há perspectivas de melhora, como aponta a professora da FGV Anna Cherubina. “Hoje, as empresas têm um olhar mais voltado para a inclusão de uma maneira geral. Isso é muito importante até para a imagem delas.”
 
Entenda
A Lei nº 8.213/1991 estabelece que empresas com número de empregos a partir de 100 precisa ter em seu quadro de 2% a 5% de funcionários com deficiência na seguinte proporção:
 
- Até 200 empregados: 2%
- De 201 a 500 empregados: 3%
- De 501 a 1.000 empregados: 4%
- De 1.001 empregados em diante: 5%

Como promover a acessibilidade 

Tornar o ambiente empresarial acessível para pessoas com deficiência se tornou uma necessidade e até obrigação. Para isso, é importante pensar tanto na infraestrutura do local de trabalho quanto no acolhimento desses profissionais junto à equipe. “Algumas empresas têm programas de inclusão muito bons, mas, na questão da infraestrutura, ainda não estão preparadas, não têm todos os instrumentos necessários”, analisa a professora da FGV Anna Cherubina.
 
 

“De nada adianta, também, a organização ter toda uma infraestrutura voltada para inclusão se os membros da equipe não forem culturalmente preparados para receber essas pessoas.” Anna explica que a inclusão precisa fazer parte da cultura de cada empresa. Thábita Laurino, da Catho, sugere que as organizações contratem consultorias especializadas em auxiliar no processo e criem grupos de discussão, onde o profissional com deficiência tenha espaço para dar voz às suas dores e conquistas. “Outro ponto muito importante que vale ser destacado é a participação de liderança nesse processo”, afirma.
 
“A gerência deve atuar tanto na parte de recrutamento e seleção quanto na manutenção desse profissional no ambiente de trabalho e na integração com os demais funcionários da equipe.” Para Mara Lígia Kiefer, da consultoria Social IN, é fundamental promover o debate sobre inclusão constantemente. “Não adianta falar sobre acessibilidade só no Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. É preciso discutir o assunto o tempo inteiro e trabalhar com exemplos”, opina. “Hoje nós temos exemplos incríveis de pessoas com deficiências severas que estão no mercado de trabalho, que se desafiaram e se desenvolveram.” 

Eu vivencio a acessibilidade 

Conheça histórias de trabalhadores que conquistaram seu espaço e contam com infraestrutura e equipe adaptadas 

“Eu sempre me senti muito igual”

Nunca percebi barreiras ou entraves ao meu desenvolvimento e ascensão profissional aquI
Nunca percebi barreiras ou entraves ao meu desenvolvimento e ascensão profissional aquI" Ekaterini Sofoulis, supervisora de seleção e carreira da Coordenadoria de Desenvolvimento de Pessoas e representante do Núcleo de Acessibilidade do TST (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
Ekaterini Sofoulis, 43, trabalha no Tribunal Superior do Trabalho (TST) desde os 21 anos. A servidora, que perdeu o movimento das pernas por causa de um acidente automobilístico aos 11 meses de idade, conta que sempre foi bem acolhida no serviço. “Nunca senti diferenciação em virtude da minha deficiência. Na realidade, tive oportunidade de mostrar minha competência e ocupar inclusive gratificações gerenciais, assim como até hoje eu exerço”, relata. “Eu sempre me senti muito igual, nunca percebi barreiras ou entraves ao meu desenvolvimento e ascensão profissional aqui”, acrescenta.
 
Animada e extrovertida, como ela mesma se define, Ekaterini sempre tenta trazer leveza e alegria ao ambiente de trabalho. “Modéstia à parte, acho que isso contribui para a abertura que eu tenho com os colegas e a equipe.” A servidora, que é formada em psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e atua na área de gestão de pessoas, lembra que demorou para se graduar pela falta de acessibilidade no câmpus na época em que estudava. 

“Eu sofri muito. Era muito difícil o deslocamento de um lugar para o outro. Eu contava com a boa vontade dos professores, que tentavam dar aulas em salas próximas, mas, no geral, era bem complicado”, relata. Já no TST, Ekaterini não enfrenta dificuldades de acessibilidade. De acordo com ela, no princípio, o prédio não tinha infraestrutura adequada para trabalhadores com deficiência. 

Hoje, entretanto, o tribunal conta com sinalização sonora e em braile na parte interna dos elevadores, software de leitura de tela para cegos, sanitários adaptados, coletores de pontos rebaixados para cadeirantes, entre outras estruturas de assistência que foram  implementadas entre 2018 e 2019. Dos 2.503 servidores que atuam no Tribunal Superior do Trabalho, 60 têm alguma deficiência ou limitação. A instituição tem um núcleo e uma comissão de acessibilidade que oferecem apoio a esses servidores.  

“Aqui sou acolhido” 

(foto: Tulio Vidal/Divulgação)
(foto: Tulio Vidal/Divulgação)
A rotina de Jefferson Luis Nunes da Silva, 35, no Hospital Brigadeiro, em São Paulo, é “corrida”, mas ele conta que gosta do ofício. Com diagnóstico de paralisia cerebral, o paulistano trabalha no estabelecimento há três anos e meio fazendo entregas entre os departamentos. Antes, trabalhou como office-boy e auxiliar administrativo durante cinco anos na Associação de Pais Banespianos de Excepcionais (Apabex), foi auxiliar de rouparia e de almoxarifado por quatro anos no Hospital Metropolitano da Lapa e atuou como auxiliar de escritório por quatro anos em uma empresa de engenharia.

Jefferson não teve dificuldade para conseguir oportunidades de trabalho graças ao programa Emprego Apoiado da associação sem fins lucrativos Apabex. “Eu frequentei escolas regulares, mas não conseguia aprender direito. Na Apabex, eu tive uma professora muito paciente; assim, aprendi a ler e a escrever”, relembra. “A associação também fez um acompanhamento para eu conquistar minha autonomia. Eu aprendi, por exemplo, a utilizar o transporte coletivo para ir e voltar do trabalho.”
 
Na opinião do paulistano, o Hospital Brigadeiro é exemplo de inclusão e acessibilidade. “Aqui há muitas pessoas com deficiência trabalhando e todas são bem acolhidas. Eu tenho muitos amigos e todos me conhecem”, conta. No entanto, ele reconhece que, em geral, as organizações ainda têm muito o que melhorar nesse sentido. “Ainda falta apoio e acessibilidade. As empresas precisam se abrir para receber as pessoas com deficiência.” 

Conheça a iniciativa 

(foto: Mauro Iarussi/Divulgação )
(foto: Mauro Iarussi/Divulgação )
 
O emprego apoiado é uma metodologia que visa à inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, por 
meio do acompanhamento constante na relação empregado-empregador, sensibilização dos profissionais da empresa contratante, assistência durante o treinamento inicial e no dia a dia.

“Quando uma pessoa com deficiência chega à Apabex, nós buscamos conhecê-la bem e, depois, desenvolver um trabalho em parceria com a família para que ela consiga a inclusão no mercado”, explica Maria Fernanda Prezia, coordenadora do programa Emprego Apoiado. “Nós acreditamos que qualquer pessoa que precisa de apoio, tendo o suporte de que necessita, consegue entrar e se manter no mercado.” 
 
 

Palavra de especialista 

Falta infraestrutura 

(foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
“O mercado de trabalho vem recebendo, a cada dia, mais pessoas com deficiência. Porém a infraestrutura ainda é incipiente, ainda não é boa. Para se ter uma ideia, eu estou no TST há 19 anos. Só agora, de 2018 para 2019, nós conseguimos implantar um projeto de sinalização conveniente para dar um ambiente de livre circulação tanto para nossos servidores quanto para os nossos visitantes com deficiência.

Nós recebíamos aqui pessoas com deficiências físicas diversas e não tínhamos estrutura suficiente ou pelo menos de qualidade para recebê-las. Pessoas com deficiência visual ficavam aqui tateando. Nós acabamos de implantar um projeto de acessibilidade, com piso tátil e braile nas salas e elevadores.

Isso faz parte de uma cultura que o mercado precisa oferecer. As empresas precisam oferecer mobilidade e precisam que seus agentes, sejam os gestores sejam os funcionários, conheçam as pessoas com deficiência que trabalham na organização para que todos possam contribuir com a inclusão e garantir um ambiente de trabalho seguro, saudável e solidário.”

Ministro Brito Pereira, presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST) 

Lei de cotas: cumprimento insuficiente

Empregadores dizem não conseguir preencher vagas ofertadas para pessoas com deficiência por não encontrarem perfis qualificados, mas, para procuradora, isso não passa de desculpa

É importante destacar também que, no Brasil e no DF, 98% das pessoas com deficiência contratadas preenchem as vagas da cota. Se a norma não existisse, essas pessoas não seriam empregadas de jeito nenhum. Essa é a realidade
É importante destacar também que, no Brasil e no DF, 98% das pessoas com deficiência contratadas preenchem as vagas da cota. Se a norma não existisse, essas pessoas não seriam empregadas de jeito nenhum. Essa é a realidade" Ludmila Reis Brito Lopes, procuradora do Trabalho (foto: Messias Carvalho/ASCOM MPT)
Vinte e oito anos após a aprovação da Lei nº 8213/1991, que determina cotas em grandes empresas, há ainda muitas companhias descumprindo a norma. De acordo com dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, em 2018, havia 32.180 vagas reservadas no mercado, mas apenas 17.964 foram preenchidas. “A gente sabe que, no Brasil, o fato de haver uma legislação por si só não implica mudança da realidade”, afirma a procuradora do Trabalho Ludmila Reis Brito Lopes.

Ela ressalta, entretanto, que a norma é muito importante e trouxe avanços. “A contratação de pessoas com deficiência no mercado de trabalho só começou a partir dessa lei. Antes, elas eram completamente invisibilizadas”, afirma. “É importante destacar também que, no Brasil e no DF, 98% das pessoas com deficiência contratadas preenchem as vagas da cota. Se a norma não existisse, essas pessoas não seriam empregadas de jeito nenhum. Essa é a realidade.”

Muitos empresários alegam que não cumprem a legislação porque não encontram profissionais com deficiência que preencham os requisitos dos cargos ofertados, como declara a professora da FGV Anna Cherubina. “A realidade é que grande parte das empresas não consegue cumprir a lei de cotas por diversas razões, não é pela falta de interesse. Uma delas é a falta de perfis adequados à vaga existente”, afirma. “Existem oportunidades que não têm como ser adaptadas a pessoas com algum tipo de deficiência”, completa.

Para a procuradora do Trabalho Ludmila Reis Brito Lopes, isso não passa de uma desculpa. “As organizações podem muito bem qualificar os profissionais com deficiência no curso do próprio contrato, como eles fazem com todos os outros empregados”, evidencia. “É muito difícil você ter um profissional contratado em qualquer empresa que já entre sabendo tudo o que precisa fazer. Eles sempre passam por capacitação e treinamento”, acrescenta. Na avaliação dela, as empresas colocam uma série de dificuldades na contratação de trabalhadores com deficiência por preconceito.

Fiscalização de adaptação física em atraso

A procuradora explica, ainda, que não basta contratar profissionais com deficiência: é preciso garantir acessibilidade para eles — elemento que ainda falta nas organizações. “A acessibilidade não é apenas arquitetônica, ela é atitudinal também. É preciso fazer o acolhimento desse trabalhador”, afirma.
 
Em entrevista ao caderno Trabalho & Formação Profissional em abril do ano passado, em reportagem de Ana Paula Lisboa que ganhou menção honrosa no Prêmio República, a auditora-fiscal Fernanda Maria Pessoa di Cavalcanti afirmou que a Secretaria de Trabalho e o Ministério Público do Trabalho (MPT) começariam a fiscalizar a acessibilidade dentro das empresas entre 2019 e 2020.
 
A iniciativa, no entanto, ainda não começou a ser implementada. “Por vários motivos, inclusive por causa da mudança do Ministério do Trabalho para o Ministério da Economia e a falta de auditores, nós não conseguimos trabalhar na velocidade que a gente queria”, justifica a procuradora do Trabalho Ludmila Reis Brito Lopes. 

“Meu trabalho sempre foi acessível” 

Um dos pré-requisitos para entrar em uma empresa siderúrgica era participar da dinâmica de grupo. Alertei as pessoas da avaliação a respeito da minha deficiência, mas não me deram acessibilidade e não consegui participar
Um dos pré-requisitos para entrar em uma empresa siderúrgica era participar da dinâmica de grupo. Alertei as pessoas da avaliação a respeito da minha deficiência, mas não me deram acessibilidade e não consegui participar" Leonardo Nascimento Castro, consultor matriz na área de risco de mercado da Caixa (foto: Braga/Esp.CB/D.A Press)
Graduado em ciências contábeis e mestre em economia, Leonardo Nascimento Castro, 32, é consultor na Caixa Econômica Federal (CEF), em Brasília. O carioca tem deficiência auditiva e conta que sentiu dificuldades para conseguir emprego por isso. “Um dos pré-requisitos para entrar em uma empresa siderúrgica era participar da dinâmica de grupo. Alertei as pessoas da avaliação a respeito da minha deficiência, mas não me deram acessibilidade e não consegui participar”, relembra. No atual emprego, entretanto, ele se sentiu acolhido desde o princípio.

“Durante o processo seletivo, exigiam entrevista a distância por telefone, mas aceitaram me entrevistar pelo MensageiroCAIXA (uma ferramenta de comunicação interna)”, relata. Ele conta também que os vídeos de capacitação sempre têm legenda e que a ferramenta de comunicação interna escrita facilita o trabalho. A Caixa conta com 84.346 empregados, sendo 3.419 profissionais com deficiência, o que representa 4,05% do total do quadro de funcionários. Para receber esses trabalhadores da melhor forma possível, a empresa elaborou a Cartilha Recepção de Empregados com Deficiência. Além disso, a Caixa organiza grupos focais para colher a percepção dos funcionários com deficiência a respeito do trabalho e, assim, aprimorar as ações de inclusão.  

 
 
*Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa   

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