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Correio Braziliense MAGISTÉRIO

Brasil pode ter excedente de professores nos próximos cinco anos

Educação de qualidade exige bons professores. Nesse sentido, é imprescindível atrair jovens talentosos para a carreira, garantir que eles tenham boa formação e que estejam motivados, como mostra estudo dirigido pelo Instituto Ayrton Senna. No entanto, a trajetória dos educadores, muitas vezes, está bem distante desses ideais


postado em 19/01/2020 17:23 / atualizado em 19/01/2020 19:21

Nos próximos cinco anos, o Brasil formará cerca de 1,5 milhão de professores. Em contrapartida, o número de matrículas nas escolas deve diminuir em função da queda da taxa de natalidade. Os dados são de balanço divulgado pelo Instituto Ayrton Senna no fim do ano passado. “Desde a década de 1990, a mensagem que as secretarias, o Ministério da Educação (MEC) e a sociedade passavam para as universidades era: nós precisamos de mais professores, formem mais professores”, afirma Laura Machado, especialista em educação na cátedra do instituto.
 
Laura Machado, do Instituto Ayrton Senna, acredita que a diminuição das matrículas pode ser uma oportunidade para melhorar a educação (foto: Instituto Ayrton Senna/Divulgação )
Laura Machado, do Instituto Ayrton Senna, acredita que a diminuição das matrículas pode ser uma oportunidade para melhorar a educação (foto: Instituto Ayrton Senna/Divulgação )
 
“Agora, o número de crianças está caindo, e as instituições estão formando aquele mar de gente. Se isso não mudar, esses profissionais podem ficar sem alocação a partir dos próximos cinco anos”, acrescenta a pesquisadora, que auxiliou na elaboração do balanço. As projeções do estudo para o Distrito Federal refletem a tendência nacional. Para se ter uma ideia, as matrículas na educação básica no DF devem cair de 406 mil, em 2018, para 382 mil, em 2025. Em 2050, o número de inscrições deve ser de 347 mil.

Diante desse cenário, uma opção que as Secretarias de Educação têm é a de reduzir a quantidade de alunos por sala de aula. Assim, não seria necessário diminuir o montante de turmas e mais professores poderiam ser contratados. Outra opção é aproveitar o ritmo de queda das matrículas e limitar a quantidade de turmas e escolas, o que poderia deixar uma grande quantidade de docentes sem emprego.

De acordo com Laura, se a situação for bem gerida, pode ser uma oportunidade para melhorar a qualidade da educação sem elevar os gastos públicos. Afinal, com menos alunos, o custo per capita por estudante aumenta. “Tudo depende do que vamos fazer com esses dados. Eles podem ser uma janela de oportunidade para alocar as despesas de forma eficiente”, opina. “Agora, se ninguém readequar a oferta e a demanda (de alunos e professores), teremos um problemão.”

Perfil dos candidatos 

O balanço divulgado pelo Instituto Ayrton Senna também mostra que a nota de corte para cursos de licenciatura no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) costuma ser menor do que a média de todas as graduações. No DF, entre 2014 e 2018, a pontuação mínima para as graduações em licenciatura foi, em média, 644,6. Já para o conjunto de cursos, a nota foi 685,7. No Pará, estado que teve a maior discrepância, a nota de corte para licenciatura, no mesmo período, foi 649,3, enquanto a média das outras graduações foi de 661,1 pontos.

Dessa maneira, em geral, esses cursos não atraem estudantes de ponta e abrem porta para muitos candidatos com deficiências educacionais. “Nós não estamos recebendo os melhores alunos para a carreira de professor. Em todos os estados brasileiros, a nota de corte para cursos de licenciatura está abaixo da média”, analisa o economista-chefe do Instituto Ayrton Senna, Ricardo Paes de Barros, conhecido na organização como PB. “Se não atrairmos pessoas talentosas, não teremos bons professores”, acrescenta.

Carreira desvalorizada 

"Nosso país está em dívida com os professores. E isso não é de hoje. É histórico" Rosilene Corrêa, presidente do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (foto: Deva Garcia/Divulgação)
 

Segundo especialistas, o problema das notas de corte inferiores à média ocorre por causa da baixa atratividade da carreira docente, que, em geral, é desvalorizada. “Nosso país está em dívida com essa profissão. E isso não é de hoje. É histórico. Infelizmente, já é uma condição crônica a educação não ter seu devido valor e, consequentemente, os docentes também não”, lamenta Rosilene Corrêa, presidente do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF). “O que nos mantém nesse ofício é o fato de que ser professor tem que ser para alguém que quer. Eu mesma costumo dizer que, se eu não fosse professora, eu seria professora”, brinca.“Não existia outra possibilidade para mim. É uma condição de rotina que você estabelece diferente de qualquer outra profissão.” 

De acordo com o doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestre em educação pela Universidade de Brasília (UnB) Erasto Fortes Mendonça, a desvalorização da carreira, somada às condições de trabalho — muitas vezes precárias — e aos salários baixos, é fator determinante para que a profissão não seja atrativa. “Eu digo isso lamentando, porque os países que são colocados pelos próprios governantes como exemplos e modelos são justamente os que valorizaram a carreira do professor”, comenta.

“No Brasil, o salário já é um problema. Mas eu digo que, para ter bons docentes, não basta oferecer uma remuneração alta”, opina. “O educador precisa ter oportunidades para progredir na carreira paulatinamente e boas condições de trabalho — uma escola adequada com utensílios e tecnologias adequadas”, completa. O professor aposentado da UnB garante que, quando isso ocorrer, a nota de corte para cursos de licenciatura passará a ser altíssima. “A juventude talentosa que nós temos espalhada pelas escolas vai ser a primeira a querer fazer parte do magistério.”

Falta motivação

"Precisamos atrair bem, formar bem e garantir que o professor esteja motivado" Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

Sentir-se motivado é fundamental para ter bons resultados na profissão. Quando falamos da carreira docente, o engajamento dos professores interfere diretamente na aprendizagem dos alunos. Não adianta ter educadores talentosos e bem formados se eles não tiverem motivação, como garante o economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, Ricardo Paes de Barros. “É uma trinca: atrair bem, formar bem e garantir que o professor esteja motivado”, explica. “Se talento e boa formação dessem bons resultados, Brasília seria uma maravilha. Os docentes da capital federal são supertalentosos e bem formados, mas, às vezes, não têm motivação com o trabalho.”
O estudo do Instituto Ayrton Senna consultou profissionais da rede pública que dão aulas para os anos finais e revela que 21% dos professores do Distrito Federal dizem ter se arrependido da escolha da profissão. A média brasileira foi de 14%. Além disso, 43% dos educadores da capital federal pensam se seria melhor ter escolhido outra carreira. Quando questionados se os problemas de aprendizagem dos alunos na escola seriam decorrentes da insatisfação e desestímulo do professor com a carreira, aproximadamente 36% dizem que sim.
“A rede pública do DF tem, talvez, os docentes mais bem formados do país. Então, a expectativa que um professor bem formado cria para a própria carreira é altíssima”, analisa o doutor em educação pela Unicamp Erasto Fortes Mendonça. “Quando ele passa a exercer a profissão e se desilude com as condições de trabalho e com a forma inamistosa com que os governos tratam os professores, como se fossem inimigos da população, isso desmotiva”, acrescenta o especialista, que foi conselheiro do Conselho Nacional de Educação (CNE) entre 2012 e 2016.

A educação transforma

"O professor é aquele que ajuda o aluno a enxergar os caminhos e as possibilidades de transformação da própria realidade e do mundo" Luana Izabel Ferreira Souza, estudante de licenciatura (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

Luana Izabel Ferreira Souza, 21 anos, está no 6º semestre de licenciatura em artes cênicas na UnB. Quando terminar o curso, pensa em dar aulas de teatro na rede pública de ensino, porque acredita no poder da arte e da educação. “O professor é aquele que ajuda o aluno a enxergar os caminhos e as possibilidades de transformação da própria realidade e do mundo”, opina. O interesse surgiu na adolescência, quando ela começou a cursar teatro no Centro de Ensino Fundamental 201 de Santa Maria. Depois, a estudante ganhou bolsa para participar da companhia Espaço Teatral H20.

“Lá eu tive professores muito dedicados que me inspiraram bastante. Eu entendi a importância de fazer teatro e o valor da arte na educação”, relembra. Atualmente, Luana dá aulas para crianças de 2 a 6 anos em uma casa de brincadeiras na Asa Sul. Ela conta que é uma experiência “deliciosa” e uma oportunidade de aprendizado. “Eu nunca havia trabalhado com alunos dessa faixa etária. Tive de pensar em uma nova metodologia, no que eu gostaria de ensinar para eles. Eu também preciso estar aberta o tempo inteiro para aprender, porque eles me ensinam muito”, relata.

“Cada aula é um espaço de muita troca e escuta. Lidar com crianças nessa idade está sendo algo muito gostoso”, acrescenta. Luana também dá aulas no cursinho voluntário Vestibular Cidadão há seis meses. De acordo com ela, o projeto é muito importante, porque contribui para que jovens alunos de escolas públicas e da periferia ocupem espaço na universidade pública. 

A estudante conta que já se sentiu desmotivada. O sinal de desânimo surgiu principalmente depois que fez estágio obrigatório na Escola Parque, localizada na 313/314 Sul. “Eu vi de perto todos os problemas e defasagens da escola”, conta. Outro fator desestimulante, de acordo com a estudante, é a forma como a figura do professor é vista atualmente. “Ele está sendo demonizado, tratado como vilão, como o que doutrina, o que manipula.” No entanto, ela não pensa em desistir. “Eu continuo acreditando no poder da educação e ainda tenho vontade de ir à escola e fazer a diferença na vida de um jovem e de uma criança.”

Salários da rede pública

Confira quanto ganha, no mínimo, um professor servidor das secretarias de Educação de cada unidade da Federação, de acordo com levantamento exclusivo do Correio Braziliense:

AC: R$ 2.402,48 (30 horas)
AL: R$ 2.555 (40 horas)
AP: R$ 4.470,00 (40 horas)
AM: R$4.349,50 (40 horas)
BA: R$ 3.426,92 (40 horas)
CE: R$ 3.648,77 (40 horas)
DF: R$ 3.858,87 (40 horas)
ES: R$ 3.447,26 (40 horas)
GO: R$ 3.339,25 (40 horas)
MA: R$ 5.750,84 (40 horas)
MT: R$ 4.349,55 (30 horas)
MS: R$ 6.078,60 (40 horas)
MG: R$ 2.135,64 (24 horas)
PA   R$ 2.068,83 (40 horas)
PB  R$ 3.151,84 (40 horas)    
PE: 2.577,74 (200 horas/aula)
PI: R$ 2.960 (40 horas)
PR: R$ 2.831,54 (40 horas)
RN: Magistério - R$ 2.165,12. 
 
Licenciatura: R$ 3.031,17 (30 horas)
RO: R$ 2.218,25 (40 horas)
RR: R$ 4.005,82 (40 horas)
RS: R$ 2.557,74 (40 horas)
SC: R$ 2.331,37 horas)
SE: R$ 2.455,35 (ensino médio) / 
R$ 2.602, 67 (ensino superior) – 40 horas
SP: R$ 3.500 (40 horas)
TO: R$ 4.541 (40 horas)

*A equipe entrou em contato com a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro de Janeiro, mas não recebeu o valor até o fechamento desta edição

Saiba mais

O estudo foi elaborado por Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper — instituição de ensino superior que atua nas áreas de negócios, economia, direito, engenharia mecânica, engenharia mecatrônica e engenharia da computação. O diagnóstico apresenta dados educacionais do DF e dos 26 estados. A análise também faz uma projeção da educação no Brasil até 2050. Ela foi dividida em quatro macrotemas: demografia; infraestrutura e qualificação dos professores; atratividade da carreira docente e engajamento e 
satisfação do corpo docente.

"Adoro dar aulas, mas me arrependo da escolha"

"É uma pena que, para eu ser realizado financeiramente, tenha de procurar outra carreira. Lamento que o magistério precise virar um bico e não possa ser minha ocupação principal" Bruno Santos de Araújo Fernandes, professor de história (foto: Arquivo Pessoal)
 

Formado em história e mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Bruno Santos de Araújo Fernandes, 37, é um dos professores da SEE-DF que se sentem desmotivados com a carreira. Ele reclama de receber um salário baixo, apesar de ter especialização. “Eu sou muito mal pago. Fiz mestrado e ganho R$ 300 a mais por isso”, lamenta. O valor corresponde à diferença de remuneração entre um educador com especialização e um com mestrado. “Se eu continuar recebendo o mesmo salário pelo resto da minha vida, pelo resto dela serei infeliz”, diz.

Segundo o Portal da Transparência, a remuneração bruta de Bruno é R$ 6.590,23. Os educadores da rede pública do DF têm salário-base inicial de R$ 3.858,87 para a carga de 40 horas semanais. Todos recebem auxílio-alimentação de R$ 394,50, auxílio-transporte de R$ 200 e gratificação pedagógica de R$ 1.157,66. Assim, um professor efetivo com carga horária de 40 horas semanais ganha mensalmente, no mínimo, R$ 5.611,03. Os dados são da SEE-DF. O piso nacional dos profissionais da rede pública da educação básica em início de carreira será reajustado em 12,84% para 2020, passando de R$ 2.557,74 para R$ 2.886,24.

De acordo com Bruno, falta valorizar o esforço. Ele observa que a diferença salarial, no fim da carreira, entre um professor que tem mestrado e outro que não tem é de cerca de R$ 700, enquanto, em um tribunal, essa distinção pode chegar a R$ 1.500. “Para quem é mais importante ter um mestrado? Um analista de tribunal ou um professor?”, indaga. “São essas questões que me fazem querer abandonar a profissão.” Ele está deprimido por causa das condições de trabalho e faz acompanhamento psicológico. Inclusive, passou um período afastado da sala de aula devido aos transtornos psíquicos.

“A depressão não é um caso isolado na Secretaria de Educação, ela acontece às pencas”, revela. O mestre reclama, ainda, da falta de recursos. Segundo o professor, é comum que docentes tenham de arcar com os custos de materiais utilizados. “Quando eu dava aulas na Educação de Jovens e Adultos (EJA), por exemplo, eu imprimia o material em casa. Comprei uma impressora boa para isso”, relata. “Muitas vezes, é preciso tirar dinheiro de um salário já ruim para fazer um bom trabalho. Se não, é meu nome que está em jogo, não o da Secretaria de Educação”, acrescenta Bruno, que, atualmente, está afastado para cuidar da mãe, que está com câncer.

Apesar de estar insatisfeito com a remuneração, ele garante que ama dar aulas. “Eu me dou muito bem com meus colegas e alunos”, diz. “É uma pena que, para eu ser realizado financeiramente, tenha de procurar outra carreira. Lamento que o magistério precise virar um bico e não possa ser minha ocupação principal.” O professor conta que está estudando para concurso do Senado. Outra opção, de acordo com ele, é procurar um emprego na rede particular para complementar a renda.

Incentivo da mãe

"O que eu mais gosto no fato de ser professor é trabalhar com crianças. Elas são um público que nos enche de esperança e renova nossas energias" Victor Bernardes, professor de educação física (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

“O que eu mais gosto no fato de ser professor é trabalhar com crianças. Elas são um público que nos enche de esperança e renova nossas energias”, conta Victor Bernardes, 28. Graduado em educação física pela Universidade Católica de Brasília (UCB), ele trabalha na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) desde 2013 e concluiu mestrado na UnB no ano passado. A escolha da carreira foi inspirada pela mãe, professora aposentada que dava aula na educação especial na rede pública.

“Eu cresci dentro de escolas públicas a acompanhando, apesar de nunca ter estudado em uma”, relembra. “Sempre vi as dificuldades inerentes à profissão, mas, ao mesmo tempo, percebia como minha mãe era realizada com o trabalho dela. Isso com certeza me incentivou.” Victor conta que pensou em desistir da carreira depois da eleição do presidente Jair Bolsonaro. “Imaginei que a situação fosse ficar muito difícil, principalmente por causa de alguns anúncios dele que têm os professores como alvo. E, de fato, está complicado”, lamenta.

“Algumas dificuldades que a gente tem enfrentado são o obscurantismo e o moralismo, que influenciam diretamente a prática pedagógica dos professores. Isso acaba nos inibindo de tocar em temas sensíveis e importantes na sala de aula.” No entanto, ele relata que o amor pela profissão o fez continuar. “Aos poucos, a gente vai se encontrando com os colegas e acaba renovando as energias. Desistir não passa mais pela minha cabeça.” Victor cita uma frase de Paulo Freire — patrono da educação brasileira, chamado de “energúmeno” por Bolsonaro — que ele  tem como inspiração: “Sou professor a favor da esperança, o que me anima apesar de tudo”.
 
 



*A estagiária, sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa, viajou a São Paulo a convite do Instituto Ayrton Senna

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