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Conheça a história de mulheres de destaque em diferentes carreiras

As mulheres conquistaram espaço no mercado de trabalho nos últimos anos, mas ainda enfrentam obstáculos como diferença salarial em relação aos homens e menor acesso a cargos de chefia. Um grande desafio é que, em casa, serviços domésticos pesam mais para elas


postado em 08/03/2020 16:36 / atualizado em 09/03/2020 16:48

A luta feminina é por equidade

A cada ano, o dia 8 de março serve de vitrine para trazer à tona injustiças e violências às quais as mulheres foram — e ainda são — submetidas ao longo da história. A data acaba sendo importante para relembrar a luta feminina por igualdade. No entanto, na verdade, é um erro pensar nisso apenas nessa ocasião: trata-se de uma discussão que deve durar o ano inteiro.
 
8 de março é uma data importante para marcar a discussão sobre a igualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho e nas outras esferas da vida. No entanto, esse debate deve continuar ao longo do ano. Conheça histórias de trabalhadoras que fazem a diferença em seus campos de atuação mesmo enfrentando dificuldades(foto: Fotos:Agencia Senado,Tailana Galvao,Nícolas Braga,Mario Duarte,Rafael Pavarotti,Annie Souza)
8 de março é uma data importante para marcar a discussão sobre a igualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho e nas outras esferas da vida. No entanto, esse debate deve continuar ao longo do ano. Conheça histórias de trabalhadoras que fazem a diferença em seus campos de atuação mesmo enfrentando dificuldades (foto: Fotos:Agencia Senado,Tailana Galvao,Nícolas Braga,Mario Duarte,Rafael Pavarotti,Annie Souza)
 
A boa notícia é que há, historicamente, muitas conquistas que merecem ser destacadas. Pouco a pouco, a população feminina ganhou espaço no mercado e passou a ocupar cargos antes exclusivamente destinados aos homens. De acordo com Isabelle Anchieta, doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), as mudanças são lentas, porém importantes.

“Estamos seguindo um caminho interessante. Já rompemos muitas barreiras. Acho que agora é uma questão de tempo trazer as mulheres para lugares cada vez mais importantes”, diz. A socióloga lembra que a população feminina teve um atraso muito grande no aspecto educacional. “As mulheres só puderam entrar na universidade no século 17 praticamente”, ressalta.
 
"Temos mais mulheres egressas do ensino superior do que homens e temos muitas mulheres cursando mestrado e doutorado. Nos últimos anos, o avanço feminino na ciência foi muito grande" Carmen Migueles, professora da FGV (foto: Fundação Getúlio Vargas/Divulgação)
Algo que se mostrou totalmente injustificado. “Hoje, pesquisas revelam que o nosso QI é até um ponto maior que o dos homens. Então, as diferenças  cognitivas, que sempre foram usadas para justificar certa desigualdade nesse sentido, não se sustentam mais”, explana. Carmen Migueles, professora dos cursos de administração e comunicação social da Fundação Getulio Vargas (FGV), observa que houve muitos avanços no campo do conhecimento.

“Nós temos muito a comemorar: como nação, temos excelentes notícias.” Ela explica que o Brasil faz parte de um grupo pequeno de países que estão vencendo o desafio da equidade de gênero na educação e na ciência. “Nós, na verdade, superamos. Temos mais mulheres egressas do ensino superior do que homens e temos muitas mulheres cursando mestrado e doutorado”, afirma.

“Nos últimos anos, o avanço feminino na ciência foi muito grande”, comemora. De acordo com Carmen Migueles, mestre em antropologia do consumo e doutora em sociologia das organizações pela Universidade Sophia, em Tóquio, houve avanço muito significativo especialmente nas áreas de biologia, farmácia, biotecnologia e nanotecnologia.

“Nas ciências da saúde, em geral, nós temos uma maioria de mulheres”, aponta. “Cerca de 68% dos pesquisadores nessas carreiras são do sexo feminino.  Os cursos de medicina, hoje, tendem a ter um equilíbrio razoável entre os dois gêneros”, acrescenta Carmen.

Desigualdades ainda marcantes

Estamos seguindo um caminho interessante.já rompemos muitas barreiras.Acho que agora é uma questão de tempo trazes as mulheres para lugares cada vez mais importantes
Estamos seguindo um caminho interessante.já rompemos muitas barreiras.Acho que agora é uma questão de tempo trazes as mulheres para lugares cada vez mais importantes" Isabelle Anchieta, doutora em sociologia pela USP (foto: Tony Yaa/Divulgação)

Apesar dos avanços das mulheres nos últimos anos, ainda há uma série de desafios a serem superados. Pesquisa de 2020 dos Profissionais Brasileiros Catho mostra que, embora a diferença salarial entre a população feminina e masculina tenha diminuído entre 2012 e 2018, ela persiste: as trabalhadoras ganham, até 46% menos que os trabalhadores no mesmo nível de escolaridade.
 
A doutora em Sociologia das Organizações pela Universidade de Sophia, Tóquio, Carmen Migueles explica que isso advém do fato de a participação feminina no mercado brasileiro estar concentrada em cargos com remuneração mais baixa. “Muitas vezes, elas se submetem a postos de trabalho piores para terem mais flexibilidade porque elas precisam equilibrar as duas jornadas: a familiar e a profissional”, comenta.

Tradicionalmente, atividades domésticas acabam pesando nas costas das mulheres, mesmo as que não são mães. Para as que precisam conciliar tudo isso com a maternidade, o desafio é ainda maior. “Elas não se integram com mais peso na força de trabalho porque, muitas vezes, sequer conseguem se liberar para procurar emprego. Em geral, está sob responsabilidade delas toda a parte de cuidados com as crianças”, explica Marilane Teixeira, professora de economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para mostrar o peso desse contexto, a docente cita um levantamento do IBGE, com base em dados de 2018, que mostra que, nas famílias pobres com filhos, a taxa de participação das mulheres no mercado cai. 
 
Nos grupos familiares sem filhos, esse índice sobe. Enquanto isso, para os homens, considerando o mesmo perfil de família, o percentual se mantém praticamente inalterado. Ainda segundo uma pesquisa da Catho, de 2018, 30% das mulheres deixam o mercado de trabalho para cuidar dos filhos.

Entre os homens, a quantidade é quatro vezes menor: 7%. Além disso, outro levantamento da Catho, feito em 2018, mostra que, entre os principais conflitos enfrentados pelas mães com empresas ou gestores, o receio de faltar ao trabalho caso o filho passe mal é o mais comum (48%). Também é considerado problemático “ter que pedir para chegar mais tarde ao trabalho para ir a uma reunião escolar” (24%) e “atrasar-se devido à exaustão da rotina” (10%).

Igualdade de gênero 

Na semana do Dia Internacional da Mulher, a Bain&Company, em parceria com a Linkedin, divulgou estudo mostrando que apenas 3% dos CEOs das 250 maiors empresas brasileiras são mulheres.

Mas o estudo traz boa notícia: os brasileiros estão convencidos da importância da diversidade nos negócios. Entre 85% e 95% dos entrevistados entendem que equipes de liderança diversas oferecem melhores resultados.

O peso da maternidade na carreira

As mulheres não se integram com mais peso na força de trabalho porque, muitas vezes, sequer conseguem se liberar para procurar emprego.Em geral, está sob responsabilidade delas toda a parte de cuidados com as crianças
As mulheres não se integram com mais peso na força de trabalho porque, muitas vezes, sequer conseguem se liberar para procurar emprego.Em geral, está sob responsabilidade delas toda a parte de cuidados com as crianças" Marilane Teixeira,professora de economia da Unicamp (foto: Agencia Senado/Divulgação)

A dupla jornada também é um obstáculo para as mulheres alcançarem cargos de chefia, o que explica o fato de elas ainda serem minoria nessas ocupações. Afinal, normalmente, as trabalhadoras têm menos tempo para atividades fora do expediente  que poderiam contar pontos para uma promoção.

“Em geral, ascende profissionalmente quem tem mais disponibilidade, quem pode viajar toda vez que a empresa exige, quem tem a possibilidade de ficar fora de casa em horários que não são do expediente normal ou que pode fazer cursos fora”, explica Marilane Teixeira, doutora em desenvolvimento econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp. De acordo com a especialista, são poucos os países que discutem seriamente o compartilhamento de atividades domésticas ou familiares.

Também são minoria os que obrigam empresas a cumprirem cotas para mulheres em cargos de chefia — essas iniciativas estão concentradas em nações desenvolvidas.

“Nós ainda convivemos com um conflito cotidiano de que, se a mulher engravida, a responsabilidade é dela. Então, eventualmente, o que pode acontecer é ser dispensada, rebaixada”, lamenta.

Ela explica que persiste todavia uma cultura empresarial de associar a mulher à maternidade. “Comparando com 30, 40, 50 anos atrás. Mas eles não são significativos para dizer que a gente tem uma relação equilibrada no mundo do trabalho”, aponta. “Só vamos conseguir resolver isso se equilibrarmos a relação no espaço doméstico. Precisamos de campanhas e iniciativas que façam com que os homens se conscientizem de que as responsabilidades com a casa e com os filhos também são deles.” 

Elas chegaram ao topo

No Dia Internacional da Mulher, o caderno Trabalho & Formação Profissional reuniu histórias de brasileiras que driblaram diversos obstáculos e se tornaram destaque em diferentes carreiras. Confira:

Exceção na tribuna 

Silvia Souza, defensora dos direitos de negros e pobres(foto: Tailana Galvao/Esp.CB/D.A Press)
Silvia Souza, defensora dos direitos de negros e pobres (foto: Tailana Galvao/Esp.CB/D.A Press)
 

Filha de uma empregada doméstica e de um marceneiro, Silvia Souza, 36 anos, foi a primeira da família a cursar o ensino superior. A advogada, que estudou direito na Universidade Paulista (Unip) com uma bolsa integral pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), conta que sempre cultivou o sonho de fazer uma faculdade, graças ao incentivo de um professor da escola. “Ele foi a pessoa que disse que eu poderia ser o que eu quisesse”, lembra.

“Em casa, não tinha tanto incentivo, porque não era uma realidade palpável para mim.” Silvia cresceu em uma região periférica de São Paulo. Até acesso a ônibus era complicado. “Quando chovia, eles não chegavam perto da minha casa, porque era uma estrada de terra”, conta. A escolha do curso veio a partir da própria experiência de vida. Como estudante, ela queria entender os próprios direitos para poder reivindicá-los.

Desde que começou a advogar, Silvia se envolveu na militância negra e se interessou por temas ligados aos direitos humanos. 
 
Até o ano passado, trabalhava como assessora jurídica da ONG Conectas, que luta pela defesa das populações mais vulneráveis. Um momento marcante da carreira foi quando fez a primeira sustentação oral no Supremo Tribunal Federal (STF), em 17 de outubro do ano passado. Tratava-se de um julgamento sobre prisão em segunda instância. Na ocasião, defendeu que a população mais afetada por essa pena são negros, pobres e periféricos. A advogada descobriu que participaria da sessão na noite anterior, quando recebeu uma ligação da ONG.

“A ficha só caiu quando eu cheguei sozinha ao STF”, diz. “Foi muito marcante, porque eu olhei para o plenário e ele estava lotado. Muitas pessoas foram assistir, mas só tinham quatro ou cinco negros.” Ela foi a única mulher e a única negra a se manifestar na tribuna na ocasião. “Isso é um retrato do poder judiciário, majoritariamente branco e masculino”, aponta. “Inclusive, muitas pessoas me reconhecem como a primeira mulher negra a fazer uma sustentação oral no STF. Não tenho certeza (dessa informação) e espero que não seja verdade. Espero que isso não tenha acontecido somente em 2019”, acrescenta.

Silvia conta que muitas estudantes e advogadas se sentiram encorajadas com o exemplo dela. “Agora, se isso vai abrir portas, não sei. As oportunidades ainda estão concentradas na mão de uma elite majoritariamente branca e masculina”, lamenta. Este ano, ela foi convidada para trabalhar na coordenação adjunta da equipe legislativa do deputado distrital Fábio Félix (Psol), na Câmara Legislativa do Distrito Federal, e se mudou para Brasília.

Uma história disruptiva no mundo dos negócios 

Juliana Guimarães, ex-executiva e empreendedora (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
Juliana Guimarães, ex-executiva e empreendedora (foto: Nícolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

Aos 35 anos, Juliana Guimarães tem uma bela carreira construída como executiva. Formada em comunicação social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) e pós-graduada em gestão de negócios pela Fundação Dom Cabral, ela chegou a ser diretora de uma multinacional antes dos 30 anos. “Eu tive a oportunidade de viajar o mundo todo, foram experiências incríveis”, lembra.

No entanto, ela não estava satisfeita com o trabalho. “Por mais que eu chegasse lá superjovem com meu all star para viajar como executiva, eu vivia infeliz”. Ela afirma que não conseguia se adaptar ao discurso das empresas de “querer transformar o mercado” enquanto fazem tudo sempre da mesma maneira, com as mesmas burocracias. “Foi aí que meu marido, Fernando, que sempre foi empreendedor, me deu um chacoalhão. Ele me disse: se você não concorda com isso, está na hora de utilizar todas essas suas habilidades e criar um ambiente para você”, lembra.

Na época, os dois moravam em São Paulo. Ele a convidou para ser sócia em um coworking de nicho jurídico que estava planejando abrir em Brasília, cidade natal de Juliana. “Naquele momento, eu estava tão desesperada que nem me toquei dos riscos que estavam envolvidos nessa empreitada. Eu voltaria para a cidade de onde tinha saído 15 anos antes e ainda seria sócia do meu marido”, recorda. “Morria de medo  todos os dias, porque eu não sabia como seria. Além disso, eu tinha uma certa desconexão com Brasília.” Apesar dos receios, alguns meses depois, eles desembarcaram na capital federal.

Mudança de rota

O coworking, chamado 4Legal, começou a crescer. “Decidimos ampliar o negócio para atender empresas de diferentes segmentos. Depois de nove meses, estávamos atendendo multinacionais, como a Uber”, relembra a empresária. Os resultados positivos do 4Legal levaram Juliana e Fernando a investirem em outros empreendimentos. Eles inauguraram a primeira anticafeteria de Brasília (espaço onde os clientes pagam  pelo tempo que passam lá, não pelo que consomem), além de iniciarem um programa de aceleração de empresas e um novo espaço de coworking no Lago Sul, chamado A Casa.
 
“Eu estava entrando em um mercado majoritariamente masculino. Não foram poucas as vezes em que eu fui para reuniões lançar projetos e todo mundo  me perguntava onde estava o Fernando”, conta Juliana. “Uma vez eu fui atender uma empresa que tinha uma cultura extremamente machista e tive que levar meu estagiário. O então diretor de marketing da companhia só fazia as perguntas para ele.” Enquanto dirigia  os negócios com o marido, Juliana ficou grávida do primeiro filho, João, 3 anos.

“Com quatro meses, o João estava indo fazer palestras, participava de reuniões e chegou até a ter uma sala no escritório para brincar com a babá enquanto a gente seguia os negócios”, relata a empresária. Cerca de um ano depois do nascimento de João, Juliana ficou grávida de Maria, 1 ano.

 “O desafio era maior. Tínhamos duas crianças pequenas e precisávamos conciliar tempo, estrutura e prioridades”, lembra. “Eu brinco que passamos de fase no videogame da vida.” Ela conta que, em meio a tantos empreendimentos, estava difícil focar o que eles realmente sabiam e gostavam de fazer: gerar negócios, contribuindo para o crescimento de outras empresas. 
 
Por isso, resolveram vender o 4Legal, A Casa e a anticafeteria. Atualmente, gerenciam o 55Lab, um laboratório de negócios que “conecta pessoas e consolida ferramentas para gerar empreendimentos e satisfação no trabalho”. Este ano, Juliana e Fernando lançarão o #ElasEmpreendem55, um programa voltado só para mulheres que querem melhorar resultado em suas empresas, começar um novo negócio ou se conectar com outras mulheres que atuam na mesma área.

Premiada no exterior

Liliane Rocha, uma embaixadora da luta pela diversidade e pela inclusão(foto: Mario Duarte/Divulgacao)
Liliane Rocha, uma embaixadora da luta pela diversidade e pela inclusão (foto: Mario Duarte/Divulgacao)
 

No começo deste ano, Liliane Rocha, 38 anos, recebeu, pelo segundo ano consecutivo, um prêmio pelo trabalho que desenvolve em prol da diversidade  nas empresas. Trata-se do 101 Top Global Diversity&Inclusion, promovido pelo World HRD Congress, evento que reúne lideranças do mundo inteiro, na Índia, para discutir o futuro do mercado de trabalho. Ela foi a única brasileira na lista de indicados.

Liliane é fundadora e CEO da Gestão Kairós, consultoria em sustentabilidade e diversidade. A primeira indicação ao prêmio, no ano passado, foi uma surpresa para a empresária. “Eu até demorei um pouco para responder ao convite para o congresso, pensando que era trote. Como esse pessoal chegou até mim?”, brinca. Negra, lésbica e de origem humilde, a empresária conta que a própria vivência a incentivou  a se envolver na defesa dos temas com os quais trabalha.
 
A primeira experiência que ela teve na área foi em um estágio na Philips, durante a graduação em relações públicas na Faculdade Cásper Líbero. Na  época, atuava na área de desenvolvimento sustentável. Depois, passou por empresas como Banco Real, Walmart e Votorantim, até decidir abrir o próprio negócio. Além de empresária, a paulistana é professora convidada de pós-graduação no curso de gestão estratégica para a sustentabilidade na Fundação Instituto de Administração (FIA) da USP.

Tem também uma cadeira fixa na pós em responsabilidade social empresarial e sustentabilidade do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), onde ministra aulas sobre sustentabilidade e diversidade. “Eu tive a sorte de, mesmo estudando em escola pública, ter alguns professores geniais, que me inspiraram”, lembra.

Ela conta que passou a compartilhar o que sabe tanto por valorizar o papel dos educadores quanto por acreditar que falta discussão dessas temáticas  em sala de aula .

“Não falamos da forma como deveríamos sobre sustentabilidade e diversidade na escola; na faculdade, também, não. Então, eu entro para falar na pós e nas empresas”, explica a mestre em políticas públicas pela Fundação Getulio Vargas. Entre 2017 e 2019, Liliane ministrou mais de 150 palestras, treinou pelo menos 15 mil profissionais e teve cerca de 400 artigos e matérias publicados na internet. Além disso, escreveu um livro para ensinar lideranças a aplicarem a igualdade e a inclusão na prática.

“A violência psicológica é cotidiana”

Liliane sentiu os desafios de ser mulher no mundo corporativo. “Já tanto escutei falas genéricas, do tipo ‘tal área é a menos produtiva porque é a que tem mais mulheres’, quanto vivenciei situações de assédio, de um homem tentar me agarrar em um lugar fechado”, conta. “Nunca presenciei um funcionário da minha equipe sendo cantado ou assediado. Já com minhas funcionárias, isso aconteceu mais de uma  vez.” De acordo com ela, a violência psicológica contra mulheres acontece cotidianamente no mercado de trabalho, de forma sútil e difícil de controlar e de provar.

Leia

 

(foto: Reprodução. Eu, Estudante)
(foto: Reprodução. Eu, Estudante)
 

 

 

Como ser um líder inclusivo — fuja do diversitywashing e valorize a diversidade: seu guia para construir uma sociedade mais justa e uma empresa mais competitiva 
Autora: Liliane Rocha
Editora: Scortecci  
80 páginas 
R$ 35
 
 
 
 
 

A filósofa brasileira que ganhou o mundo

Nos anos 1980, quando o trabalhador portuário Joaquim José Ribeiro dos Santos levava a pequena Djamila Taís Ribeiro dos Santos para as reuniões do Partido Comunista, ele carregava consigo a filha caçula, mas não imaginava que, tempos depois, ela se tornaria uma das 100 mulheres mais influentes do mundo. Aos 39 anos, Djamila é colunista da Folha de S.Paulo e professora convidada no curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde leciona a disciplina de jornalismo contra-hegemônico. “É fundamental ocupar esses espaços, trazer produções acadêmicas de mulheres para que o espaço acadêmico possa refletir o povo brasileiro em sua diversidade”, afirma.

Djamila nasceu em 1º de agosto de 1980, em Santos (SP), como a última dos quatro filhos do casal Joaquim e Erani. A família de classe média baixa proporcionou aos herdeiros uma herança imaterial: a educação. A biblioteca do pai era composta por mais de 100 livros contando a história do povo negro, tema que era pauta de debates frequentes dentro de casa. O berço político de Djamila foi a base para que, no fim da adolescência, ela começasse a trilhar caminhos próprios.
 
O reconhecimento da obra de Djamila Taís chegou ano passado à França, país de Simone de Beauvoir(foto: Rafael Pavarotti/Divulgação)
O reconhecimento da obra de Djamila Taís chegou ano passado à França, país de Simone de Beauvoir (foto: Rafael Pavarotti/Divulgação)
 
Em 1999, aos 19 anos, ela conheceu a ONG Casa de Cultura da Mulher Negra, organização feminista de Santos. Ali a paulista se entendeu como feminista. “Aquilo ampliou a cultura que eu já tinha de casa. Moldou muito da minha trajetória, foi ali que eu conheci a minha formação política de feminista negra, que me acompanhou durante a universidade”, recorda.

Aos 21 anos, Djamila decidiu começar o curso de jornalismo na Universidade Santa Cecília, em Santos. Lá ficou durante três anos, até engravidar da filha, Thulane, atualmente com 15 anos. Trancou o curso para se dedicar à maternidade. Só conseguiu voltar para a faculdade em 2008, aos 27 anos, quando passou para o curso de filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No mestrado em filosofia política, concluído em 2015, Djamila desenvolveu uma tese que compara a feminista francesa Simone de Beauvoir e a estadunidense Judith Butler ao feminismo negro.

Dando visibilidade a outras e outros

“Estudar filósofas não é fácil, a filosofia ainda é uma área muito masculina”, diz. No entanto, o esforço para se destacar numa área que ela considera desafiadora a recompensou com uma carreira cheia de realizações. Em 2016, foi convidada para ser secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Em 2017, publicou seu primeiro livro, que faz parte da coleção Feminismos Plurais, coordenada por ela na editora Pólen. “São livros de bolso, com preços acessíveis, para que as pessoas tenham acesso ao debate feminista”, explica.

A obra de estreia de Djamila se tornou referência na área e foi finalista do Prêmio Jabuti, o maior de literatura no mercado editorial brasileiro. A filósofa conta que a inspiração surgiu do seu incômodo de não existirem tantas autoras femininas publicadas, sobretudo negras. “Queria questionar o porquê de ainda a voz que prevalece ser a do homem no meio editorial e acadêmico. Então, quis trazer outros lugares de fala, das mulheres e também dos homens negros”, afirma. No mesmo ano de lançamento do livro, a figurinista Su Tonani denunciou o ator José Mayer por assédio sexual. Nessa época, o movimento “Mexeu com uma mexeu com todas” estourou nas mídias sociais, e Djamila foi convidada por um grupo de atrizes, diretoras e roteiristas da Rede Globo para dar uma aula sobre o pensamento e as teorias feministas. Ss aulas aconteciam na casa da atriz Camila Pitanga.

Em 2018, a escritora lançou seu segundo livro. Ela relata que, com as publicações de seus três livros, o trabalho ganhou mais consistência. Djamila ajudou a publicar, pela editora Pólen, outros autores negros.“Para mim, era importante usar a minha visibilidade para visibilizar outras pessoas”, relata. Além da coleção Feminismos Plurais, Djamila coordena, na editora Pólen, o selo editorial Sueli Carneiro, em homenagem à filósofa e feminista negra que é sua mentora. 

Leia!

(foto: Reprodução. Eu, Estudante)
(foto: Reprodução. Eu, Estudante)
 

 

 

O que é lugar de fala?
Autora: Djamila Ribeiro
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Letramento
96 páginas
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(foto: Reprodução. Eu, Estudante)
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Quem tem medo do feminismo negro?
Autora: Djamila Ribeiro
Editora: Companhia das Letras
120 páginas
R$ 23,90
 
 
 
 
(foto: Reprodução. Eu, Estudante)
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Pequeno manual antirracista
Autora: Djamila Ribeiro
Editora: Companhia das Letras
 136 páginas
 R$ 19,92 
 
 
 
 
 
 
 

Prêmio

Em 2019, com o lançamento do seu terceiro livro, que figura na lista de mais vendidos do país, o reconhecimento do trabalho de Djamila atravessou fronteiras e chegou à França, país de Simone de Beauvoir, uma de suas principais inspirações. Djamila foi convidada pelo governo francês para passar uma temporada no país, em uma turnê de lançamento de seus dois primeiros livros, que foram traduzidos e publicados lá. A filósofa de Santos também recebeu, na França, o prêmio Prince Claus Laureate, dedicado a personalidades do amanhã.

Na avaliação de Djamila, a luta por igualdade de gênero está mais disseminada. “É importante ressaltar que o feminismo é plural, heterogêneo e existem várias correntes do pensamento feminista”, destaca. “Acho que hoje isso está mais acessível, antes era um movimento apenas de mulheres privilegiadas, depois de acadêmicas”, declara. Fator de preocupação, aponta ela, é a alta taxa de violência contra a mulher, incluindo aquela que chega à morte. “Com o aumento do índice de feminicídio, o desmonte orçamentário da Secretaria da Mulher e um governo que não está pensando nessas políticas, vemos hoje como um desafio e com muita preocupação que essas pautas, que, de alguma maneira, estavam avançando, tenham um retrocesso”, reflete a filósofa. Apesar disso, esperançosa, Djamila diz que o papel social de uma mulher consciente dessas questões é não perder a capacidade de se indignar porque, de fato, a realidade feminina no Brasil tem se tornado cada vez mais difícil. “Nós temos direito a uma existência sem violência”, diz.

Ciência é coisa de menina, sim

Natália Mota, neurocientista e pesquisadora, foi eleita pela Revista Forbes uma das 20 mulheres mais poderosas do país(foto: Annie Souza/Divulgação)
Natália Mota, neurocientista e pesquisadora, foi eleita pela Revista Forbes uma das 20 mulheres mais poderosas do país (foto: Annie Souza/Divulgação)
 

Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a psiquiatra e neurocientista cearense Natália Mota, 35 anos, é um dos mais novos motivos de orgulho da ciência nacional. Eleita pela Revista Forbes uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil, ela foi a primeira e única brasileira indicada ao prêmio Nature Research Award de 2019, promovido por uma renomada revista científica. Desde 2016, no pós-doutorado também pela UFRN, Natália trabalha no desenvolvimento de um programa de computador que consegue diagnosticar a esquizofrenia com 90% de precisão a partir de apenas 30 segundos de fala do paciente. O diagnóstico, que levava até dois anos, pode ser feito de forma ágil e colaborar para o tratamento e o controle do distúrbio. Sobre a inspiração para o programa, ela conta que o incentivo veio de casos na própria família. “Comecei a ficar muito curiosa com o fenômeno da psicose, tenho histórico de alguns familiares que tiveram episódios. Então, aquilo me chamava um pouco a atenção, principalmente porque têm muitas lacunas, a gente entende muito pouco sobre isso”, afirma.

Cearense de Fortaleza, Natália sabia, desde criança, que queria ser cientista, e o pai, Silvio Mota, foi fundamental para isso. “Ele dava liberdade de escolha em relação à profissão e dizia que eu podia escolher entre medicina, engenharia e direito”, brinca. Quando chegou a hora, ela não exitou e optou por medicina, que parecia ser o caminho certo para chegar ao destino final: a ciência. Em 2002, mudou-se para Natal, onde fez graduação, mestrado e doutorado na UFRN. Mesmo recebendo diversos convites, Natália não pensa em sair do Nordeste. “Eu me sinto muito sortuda por ter feito essa trajetória. Lógico que eu quero fazer a melhor ciência que eu puder, mas acho que a gente consegue fazer isso estabelecendo colaborações internacionais e sendo ativa nessas colaborações”, declara. “A experiência que eu tenho, ao menos aqui em Natal, é de fazer ciência com muita liberdade, alegria, curiosidade e eu sou muito grata a tudo isso. Lógico que, com toda a situação nacional que nós vemos, isso vai ficar cada vez mais difícil, mas prefiro continuar otimista”, reflete.

Entre os desincentivos à ciência, está o corte de verbas para pesquisas científicas anunciado pelo governo federal em 2019. Com isso, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ficou sem dinheiro para continuar a pagar as mais de 4.500 bolsas de incentivo à pesquisa nas universidades públicas. “Eu sou bastante crítica disso porque eu acho que é um tiro no pé. Pesquisa, ensino e extensão são investimentos que têm um retorno direto para a sociedade”, defende. “Quando o governo decide que isso não é mais estratégico, determina que o destino da nação é continuar sobrevivendo das migalhas que se paga para commodities e não se tornar autônoma na produção de tecnologia, além de desperdiçar todo o recurso que foi investido na criação dessas comunidades (científicas)”, critica. 

Pela defesa de um patrimônio nacional

Apesar dos desafios, ela procura se manter positiva. “Prefiro acreditar nas pessoas, uma nação não é feita só de seus governantes. É feita principalmente da população! Tento sempre passar uma mensagem mais otimista porque eu sei que várias pessoas não entendem o que é feito nas universidades, e eu acho que o público geral precisa entender que quem está trabalhando nas universidades está trabalhando para a sociedade como um todo”, explica. “Mesmo que você não veja o trabalho específico daquela pessoa na sua vida, ele, com certeza, chega, em algum momento, ao seu cotidiano”, diz. “Acho que a gente precisa falar disso de maneira mais aberta e mais educativa para que as pessoas comecem a proteger aquilo que é delas: o trabalho de todos os cientistas e de todas as universidades é patrimônio da nação brasileira.”

As dificuldades enfrentadas na vida profissional e pessoal da neurocientista acabaram se encontrando em um ponto: o machismo estrutural. Natália conta que, em suas primeiras palestras, uma das perguntas que recebeu, vinda de um homem, foi: como foi que você aprendeu matemática?.“Eu comecei a rir porque eu saí do Ceará, mas o Ceará não saiu de mim”, brinca. Durante o pós-doutorado, achou que encontraria dificuldades para aprender a programar e fazer a parte mais dura do trabalho. Por isso, fez questão de aprender cada etapa do processo. “Eu sempre tive a ideia de que eu precisava ser autônoma naquela colaboração. Então, desde cedo entendi que, se a gente, como mulher, ficar só pedindo ajuda, normalmente um colega homem pega e faz no seu lugar, analisa aquele dado pra você e assim acaba que, daquela forma, você fica alienada do processo”, percebe.

A cada artigo que publicava, notava que os obstáculos ficavam cada vez maiores. Não era só o problema de ser mulher e ser mãe que fazia as pessoas acharem que ela não conquistaria espaço na academia. “É que, quando você chega lá, as pessoas não acham que foi você. Elas pensam: se esse artigo têm muitos autores, ela pode ser a primeira autora, mas eu imagino que ela tenha tido muita ajuda, invalidando aquele local que você conquistou com tanto esforço”, comenta. Publicando cada vez mais trabalhos, Natália viu que não adiantava querer a mesma credibilidade e reconhecimento que era dado aos colegas homens. “Então, eu comecei a desapegar dessa recompensa e a focar a curiosidade, e isso impactou bastante a minha rotina em termos do que esperar naquele ambiente social.”

Casada com o também neurocientista Sidarta Ribeiro, e mãe de Ernesto, 9 anos, e de Sérgio, 2 anos, ela relata que a primeira gravidez, aos 27 anos, foi um grande desafio. “Ele nasceu no fim da minha residência, eu tinha alguns dados coletados, mas ainda tinha que aprender muita análise e percebia que, em relação a colegas que eram meus contemporâneos, eu tinha uma limitação de tempo incrível”, compara. “Enquanto a galera ficava depois da aula, conversando e tomando cafezinho pra ter ideia, eu tinha de ir embora infalivelmente às 17h para ficar com meu filho. 
 
Natália percebeu que aquilo não acontecia só com ela, mas com várias outras colegas, especialmente as novatas. “Principalmente entre as mulheres que estavam na pós-graduação, era mais frequente o assunto de desistência. Era dado como normal uma mulher achar que desistiria do mestrado ou do doutorado”, lamenta. “Tem ciência sobre isso, não é um fenômeno que está acontecendo só aqui. São altas as ocorrências de reconhecimento menor de mulheres na ciência e também há uma taxa de abandono alta. Por isso, as mulheres tendem a não chegar a cargos de liderança (dentro da ciência).” 

Cientistas unidas

Pensando nisso, Natália se reuniu com colegas de laboratório e, em 2019, criou o Sci-Girls, grupo de debates semanais para conversar de maneira livre e segura sobre ansiedades, medos e alegrias na profissão e na vida pessoal. “Dá aquela sensação de que nós somos tanto terapeutas quanto pacientes umas das outras. É como se eu recarregasse minhas energias”, explica. Com o grupo crescendo e contando com mais de 20 cientistas, Natália pensa na possibilidade de expandir e, de repente, fazer uma página para institucionalizar as experiências e ideias dessa comunidade. “Acho que nós falamos pouco sobre mulheres na ciência”, critica. “

Para as meninas que têm o sonho de se tornar cientistas, ela incentiva: “Persevere, é difícil, mas têm várias de nós que chegaram lá e, se tantas conseguiram, você também pode!”. O primeiro passo, ensina ela, é identificar pensamentos limitantes que você pode quebrar, como: matemática não é pra mim, tenho muito medo de apresentar meu trabalho em público, não mereço os elogios que eu conquistei, entre outros. “A gente não consegue mudar o mundo de uma vez, mas, juntas, nós conseguimos”, acredita.

A youtuber que transmite feminismo em conversas francas

"Todas as mulheres que cruzam o meu caminho, as pessoas no geral que cruzam meu caminho... Quem me influencia são essas pessoas que estão aí vivendo, sobrevivendo, lutando e ainda chegando ao fim do dia e conseguindo tomar uma cerveja e dar algum sorriso, sabe?" Jout Jout (foto: Joutjout/Instagram)
 

Aos 28 anos, Julia Tolezano figura entre as youtubers mais populares do país. Jout Jout, como ficou conhecida, define seu trabalho como “falar coisas que as pessoas entendam”. A simplicidade e naturalidade no modo de se expressar se tornou marca registrada dela. “É muito simples, para mim, ver uma ideia ou um conceito e traduzir em palavras fáceis de entender”, diz. “É um arranjo de palavras que se dá na minha cabeça muito naturalmente. Então, acho que estou alinhada com o meu karma, com o que eu vim fazer”, explica. Foi com essa espontaneidade que, em fevereiro de 2015, Jout Jout ficou famosa ao publicar em seu canal, Jout Jout Prazer, o vídeo “Não tira o batom vermelho”, em que descreve situações típicas de relacionamentos abusivos. “Muitas mulheres me param na rua até hoje por causa desse vídeo, para falar que eu as ajudei ou que ajudei uma amiga, tia, prima, irmã a terminar um relacionamento abusivo”, conta.
 
Natural de Niterói (RJ), a fluminense é formada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Foi na PUC que conheceu Caio Franco, parceiro de trabalho e personagem frequente nos vídeos do canal. Julia terminou a graduação em 2013 e, em maio de 2014, começou no YouTube no intuito de perder a insegurança. “O meu medo de críticas chegava a ser paralisante. Eu deixava de colocar coisas no mundo com medo de alguém ver e não gostar. No primeiro vídeo já foi, acabou meu medo de críticas”, relata. A ideia para o nome do canal surgiu também de forma natural. “Eu trabalhava em um lugar que tinha outra Julia, aí ela virou Ju G e eu virei Ju T. Na época, o Caio começou a me chamar de Jout, e foi isso. Meu canal é tudo assim, tudo meio que na hora”, brinca. Nove meses depois, o JoutJout Prazer conquistou relevância nacional.

Troca constante com o público

Para Jout Jout, o que acontece no canal é um crescimento compartilhado entre ela e os telespectadores. “É uma troca constante quando tenho um pensamento que é muito legal a ponto de querer compartilhar com muita gente. Gosto quando as pessoas descobrem meu canal e fazem maratona, desde o primeiro vídeo até o último”, afirma. “Acho legal ter esse desenvolvimento lá, ao vivo, você vê uma pessoa genuinamente crescendo, aprendendo, errando, aprendendo de novo e se retratando. E é isso aí a vida, né?”, diz.

A fidelidade do público e a forma didática de interagir com ele fez Jout Jout adquirir credibilidade. Em fevereiro de 2018, o livro infantil A parte que falta, de Shel Silverstein, publicado pela primeira vez em 1976, voltou para a lista de mais vendidos da Amazon 42 anos depois, quando Jout Jout, após ganhar de presente o livro, resolveu apresentar a obra em um vídeo do canal, que teve 2 milhões de visualizações em 24 horas. “Muitos homens me param na rua para falar que esse livro mudou a vida deles, olha que loucura. Acho que é porque,nós mulheres, estamos ligadas nas partes que nos faltam, a gente conversa, desabafa sobre isso. Os homens estão cheios de falta e eles não falam sobre isso por achar que não é coisa de menino ficar falando sobre suas faltas”, conta.

Para ela, o segredo da credibilidade é a verdade. “Eu não minto! E eu já aviso que não estou mentindo, o tempo inteiro. Tenho um compromisso que criei desde o primeiro vídeo, que é: você pode confiar em mim! Se essas palavras chegaram até os seus ouvidos é porque eu realmente estava pensando isso neste momento”, garante. Apesar do ar despreocupado que demonstra, Jout Jout está sempre alerta com relação ao conteúdo que compartilha. “É um exercício de o tempo todo você ficar atenta para se aquilo que você está falando faz sentido, se é interessante, se vale a pena causar esse ou aquele incômodo, de que forma falar, como que a mensagem é passada de um jeito que entra na pessoa…”, reflete.“Eu posso falar um troço e não ter efeito nenhum, a frase está falada, a informação está ali e os corpos estão completamente fechados por causa do jeito que eu falei ou a frase que eu escolhi. Tem esse exercício também de não só como essa mensagem vai ser bem recebida, mas que vai realmente entrar ali naquela cabeça e fazer alguma transformação”, relata.

Jout Jout é considerada uma das principais youtubers feministas do mercado. Ela conta que, antes de fazer o canal, nunca teve contato com o debate feminista e que, para ela, o aprendizado veio na prática. “Se você for ver os meus vídeos, desde o início, o feminismo está muito ali, no ar, nas palavras, no jeito, no fato de eu ter sentado na frente de uma câmera e achado que alguma coisa que eu tenho que falar vale a pena ser ouvida”, esclarece. “Tanto que as pessoas viam os meus vídeos e falavam: querida, você é feminista, vai estudar. E aí eu fui estudar e falei: de fato, sou feminista.” E não, ela não sai dizendo tudo o que pensa sem antes pesquisar e se embasar: “É uma preocupação constante na minha vida. Eu prefiro não influenciar a influenciar mal”. 

Novos rumos 

Depois de morar quatro anos em São Paulo, em fevereiro de 2019, após se dar conta de que seus temas estavam ficando muito limitados, Jout Jout decidiu começar uma viagem sem rumo pelo país. “Eu estava falando sobre uma vivência de Brasil que eu não tinha, os meus temas partiam muito de uma experiência morando no Sudeste. Decidi dar uma rodada. Meu namoro tinha acabado, o aluguel do meu apartamento estava no fim do contrato…”, lembra. “Sabe aquele momento em que todas as amarras se desfazem? E aí eu falei: é agora! Meti o pé”, conta. Agora, no Fiat Uno que ela chama de Bruninho, a youtuber viaja o país.

Questionada sobre suas inspirações para produzir conteúdo, Julia diz que não leva seu trabalho de forma leviana. “Todas as mulheres que cruzam o meu caminho, as pessoas no geral que cruzam meu caminho... Quem me influencia são essas pessoas que estão aí vivendo, sobrevivendo, lutando e ainda chegando ao fim do dia e conseguindo tomar uma cerveja e dar algum sorriso, sabe?”, resume. “Apesar de a sua vida estar constantemente em risco, é essa galera que leva uma família inteira nas costas e no fim do ano está aí comemorando”, define.

Para Jout Jout, ser mulher no Brasil é diferente em cada região. “O que eu entendi é que não existe um Brasil, são vários, e é indefinível. É por isso que é tão incrível também. Você sabe que, no Amapá, tem um problema gravíssimo de escalpelamento de mulheres evangélicas no motor dos barquinhos?”, questiona. “Isso é ser mulher no Brasil? Não sei! Então, o que é ser mulher no Brasil? Que mulher é essa? De que mulher estamos falando?” Ela reforça que as mulheres precisam atentar mais à sexualidade. “Eu acho que tinha que fazer um chamado nacional para as mulheres se masturbarem. Mais da metade das mulheres que habitam a terra hoje vão morrer sem nunca terem gozado. Acho isso muito grave, de verdade. A gente aprende a pegar nossa sexualidade e jogar no lixo”, crítica.

“Pois não, sou a juíza”

Mariana Marinho Machado, magistrada em Itainópolis (PI) (foto: Arquivo Pessoal)
Mariana Marinho Machado, magistrada em Itainópolis (PI) (foto: Arquivo Pessoal)
 

Mariana Marinho Machado,magistrada em Itainópolis (PI) 

“A magistratura me escolheu, não fui eu que a escolhi.”
É assim que Mariana Marinho Machado, 35 anos, começa a contar sua história. A juíza titular da comarca de Itainópolis, no interior do Piauí, rompe preconceitos, e é uma força em ascensão na justiça brasileira. Natural de Salvador (BA), Mariana vem de um berço de mulheres inspiradoras, que a ensinaram a mostrar sua voz e seu lugar na sociedade. 
 
A avó, Wanda Azevedo Marinho, 86, que ela carinhosamente chama de “fonte de todo meu amor”, batalhou para a filha, Vera Lúcia Marinho Machado, 60, estudar na capital baiana durante a faculdade. Na época, foi a única do grupo de amigas da adolescência a fazer isso. Vera Lúcia se formou em odontologia e abriu caminhos para que a filha caçula, no futuro, se espelhasse nela. “Mulher arretada, minha fonte de inspiração diária”, define Mariana. 
 
Em muitas ocasiões, a magistrada negra causou espanto pela posição que ocupa. “Já aconteceu de pessoas entrarem no meu gabinete e acharem que sou assessora. Uma vez, eu estava sentada, e alguém chegou querendo falar com o juiz. Eu respondi: pois não, sou a juíza. Já brinquei de girar a cadeira e dizer: pronto, a juíza está aqui”, relata. Mariana conta que nunca sofreu racismo de forma explícita, mas confessa que seus funcionários enfrentaram casos de assédio moral por parte de pessoas com quem trabalhava de forma indireta, numa tentativa de atingir a juíza. “Em Brasília, em alguns órgãos, aconteceu de me pedirem identidade funcional, mesmo eu estando bem vestida e de acordo com a ocasião. 
 
É com bom humor, garra e responsabilidade que a baiana trilhou os caminhos do Judiciário em uma trajetória vitoriosa. Aos 19 anos, Mariana ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), para cursar jornalismo, até que fez um teste de vocação profissional e descobriu que o direito também a agradava. Então, resolveu cursar, também, direito na Universidade Católica de Salvador (UCSal). Durante dois anos, fazia uma faculdade de dia e outra de noite, até passar em um concurso de estágio de direito do Tribunal Regional do Trabalho da Bahia (TRT-BA), a partir daí trancou a faculdade de jornalismo. Depois, foi para o Ministério Público da Bahia (MPBA) como estagiária. Mariana se formou em 2009. Por meio de uma seleção, ou “por mérito”, como ela gosta de falar, o procurador de Justiça Franklin Ourives a escolheu para trabalhar como assessora pessoal dele. “Ele foi um dos primeiros chefes negros que eu tive e é um segundo pai para mim. Foi uma oportunidade profissional única, em que aprendi muito e desenvolvi a escrita”, afirma Mariana sobre a chance.

Ela foi aprovada para o cargo de juiz em 2012, sem cotas, apesar de defender e achar necessária a reserva de vagas para negros. Mariana passou nos Tribunais de Justiça do Pará (TJPA) e do Piauí (TJPI), onde atua há sete anos.

“Amo o que eu faço, não me vejo em outra profissão. Tem todas as dificuldades de falta de material, de servidores... Além disso, ser juíza no interior não é fácil, é diferente de ser juíza no Distrito Federal, que é a capital da Justiça e de todos os órgãos”, compara. “Mas, para mim, não tem preço ver as pessoas, principalmente as que passam mais dificuldades, dizendo que achavam que a Justiça não existia para pobres e negros e, hoje, acreditarem nela”, reflete.

Qualificada pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam), a magistrada também dá aulas para concurso de procuradores de municípios do cursinho on-line E3C, de Teresina. Pensando em tornar mais acessível o estudo e compartilhar um pouco do que faz profissionalmente, ela criou recentemente o perfil no Instagram @TogaEmVoga. Na plataforma, são constantes as postagens com a hashtag #MagistraturaPorAmor. Mariana faz questão de informar que não é coach. “As pessoas vivem me pedindo coaching para passar em concurso”, brinca.

Amor e incentivo

A magistrada tem uma equipe de 10 servidores e faz questão de exaltá-los. “Juiz nenhum é juiz sozinho. Se eu der uma sentença e os servidores não publicarem, não enviarem, não intimarem os envolvidos, não tem eficácia nenhuma”, afirma. A humildade torna Mariana querida por onde passa. Ela guarda com muito carinho na lembrança os momentos que passou na comarca onde trabalhou antes, na cidade de Pimenteiras (PI). Também foram marcantes um jantar oferecido em sua homenagem, por seus colaboradores da comarca de Pimenteiras (PI), e a ocasião em que recebeu o título de cidadã honorária de Itainópolis (PI), na última quinta-feira (5) de março de 2020. Na ocasião da solenidade em que recebeu o título de cidadã honorária, a jurista falou sobre feminicídio e violência doméstica.

Machismo enraizado

“Se não fosse o apoio da minha família, eu não conseguiria realizar tantos sonhos”, assegura.  Casada com o advogado Moacir Nascimento Júnior, ela desabafa que uma das maiores dificuldades é conciliar a vida pessoal e profissional, já que ambas exigem muito dela. Aos fins de semana, Mariana enfrenta uma viagem de 365 km até Teresina para ficar com o marido que, por sua vez, sempre que a agenda permite, vai para Itainópolis.

Devido a realidade social que a cerca, Mariana acredita que sofre muito mais com o machismo do que com o racismo. “Volta e meia me perguntam se meu marido me deixa trabalhar, já que ele fica na capital e eu venho sozinha para o interior”, diz. “Uma vez, eu estava passando mal, meu marido veio me buscar e disse que escutou um homem dizendo que ele era corajoso por ter se casado com uma juíza.“No Piauí, o machismo é grande, é uma sociedade em que muitas mulheres ainda não têm vida profissional. Magistradas aqui não chegam nem a 70 entre os quase 300 juízes”, constata. Em 2001, a jurista Ellen Gracie Northfleet foi a primeira mulher a ser ministra do Supremo Tribunal Federal (STF).

Para Mariana, é essencial que a resolução n° 255/2018 do Conselho Nacional de Justiça, que busca valorizar e incentivar a mulher no âmbito da magistratura e a participação feminina no Poder Judiciário, seja executada em plenitude. 

Caminho judicial

Mariana percebe que há mais obstáculos para o gênero feminino conquistar reconhecimento no exercício de um cargo de autoridade. “No começo, foi mais difícil, eu era uma mulher jovem. Tinha 27 anos quando cheguei para assumir a magistratura com toda aquela carga de responsabilidade de ser a juíza que chegou para ‘resolver a cidade’. Além disso, sou negra e, querendo ou não, o racismo institucional existe na nossa sociedade.” Mariana percebeu as suspeitas que pairavam sobre ela. “As pessoas, mesmo que fosse sem querer, acabam pensando: será que ela tem competência para assumir aquele cargo?” Para mostrar seu valor, Mariana não apelou para a briga. “É aí que entra a importância do mérito: eu nunca fui de discutir ou de bater de frente com quem possa ter desconfiado do meu mérito para ser magistrada”, afirma. “A melhor forma de nós combatermos isso é mostrando nosso trabalho e o nosso lugar”, garante.

A vara única de Itainópolis, pela qual Mariana é responsável, envolve três cidades. “Eu lido com processos que vão de crime até casos de família”, ilustra.

A juíza também chama a atenção para casos de reconhecimento de paternidade e adoção unilateral. “Por trás de um pedido de pensão alimentícia, tem todo o abandono emocional. Nós vemos que o filho, às vezes, não quer nem o dinheiro da pensão em si, mas, sim, o reconhecimento de afetividade por parte um genitor que ficou anos afastado”, reflete.
 

Violência contra a mulher 

Como outros juízes, por vezes, Mariana lida com casos de repercussão nacional e corre risco de vida, recebendo constantes ameaças de morte. “Em 2015 eu tive que andar com segurança pessoal, fiquei mais de um ano assim”, revela. Destemida, ela ressalta que isso não a intimida. “Nunca tive medo de exercer meu cargo, não.” Há dois anos atuando na comarca de Itainópolis, ela conta que o número de casos de violência contra mulher levam a pedidos semanais de medida protetiva. 

A cidade do interior não conta com muitos materiais que garantam a segurança da vítima, como tornozeleira eletrônica ou botões de pânico, porém Mariana encontra um jeito de fazer a medida funcionar. “Eu mando um oficial de Justiça intimar o réu e a vítima e mando uma cópia da medida para a delegacia a fim de que os policiais tenham conhecimento de que existe uma medida protetiva”, explica. Para a juíza, a medida é eficaz. Ela conta que houve apenas um caso de descumprimento da medida e foi parte da mulher, que decidiu reatar com o companheiro. A magistrada explica que toma sempre cuidado de fazer audiências individuais e explicar os processos para a vítima, conforme recomenda o artigo 116 da Lei de Violência Doméstica (nº 11.340/06). 

“Depois da Lei Maria da Penha (nº 11.340/06), com a cobertura da mídia sobre isso e os centros de apoio à mulher, as denúncias têm se tornado mais efetivas”, percebe. Existe também a Lei do Feminicídio (nº13.104/15), que serve para mapear casos em que a vítima morre por sua condição de mulher. “Muitas pessoas acham que os números aumentaram, mas o que eu entendo é que antes os casos não eram formalizados, muitos não buscavam a Justiça”, diz. “O que houve foi um aumento de denúncias. ”Nos casos de relacionamentos com agressões verbais e psicológicas, ela explica que isso traz riscos. Esses abusos precisam ser combatidos desde cedo para não acabarem com uma consequência trágica. “Muitas vezes, a falta de informação faz as pessoas acharem que não é um relacionamento abusivo, não entendem os abalos psicológicos que um parceiro pode fazer.” São esses os casos com menor taxa de denúncia. 

Ela incentiva, porém, as mulheres a procurarem, sim, a Justiça, uma entidade em quem podem confiar. “Os tribunais superiores, hoje em dia, afirmam que, em relação à violência doméstica, a palavra da vítima tem grande relevância, porque muitos abusos físicos e psicológicos acontecem dentro de casa sem testemunha nenhuma”, destaca. “As pessoas, às vezes, confundem gestos de violência com amor, mas o amor não é assim! Em uma mulher, não se bate nem com uma rosa”, conscientiza. “É preciso ter a coragem de denunciar. Não só isso, como também de prosseguir e passar pelos danos que a violência doméstica causa que não são só estéticos, mas também psicológicos”, evidencia, “A mulher precisa ter voz não só para combater a violência doméstica, como também para buscar sua posição na sociedade”, defende. 

Honra e responsabilidade definem a trajetória da jovem magistrada, que ainda tem um longo e virtuoso caminho pela frente. “Tenho muito orgulho de onde cheguei, mas sei das responsabilidades que vêm das demandas da magistratura. Tenho muito prazer em exercer a minha profissão”, declara. Mariana conclui dizendo que, para ela, ser mulher no Brasil é romper barreiras. É mostrar meu valor e buscar chances para que mais mulheres tenham oportunidades como eu tive”, define. Sorte da Justiça brasileira, com outras como Mariana florescendo por aí.


*Estagiárias sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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