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Correio Braziliense CORONAVÍRUS

Profissionais da saúde reforçam linha de frente contra pandemia

Aumentam as oportunidades abertas para profissionais de saúde atuarem tanto no SUS quanto na rede particular. Vários recém-formados estão sendo contratados, incluindo os que tiveram a formatura antecipada


postado em 10/05/2020 15:28 / atualizado em 10/05/2020 17:44

Há dois meses, em 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarava a covid-19 como pandemia. Um pouco antes, no fim de fevereiro, era anunciado o primeiro caso identificado do novo coronavírus no Brasil. Desde então, a vida de profissionais da saúde atuando na linha de frente contra a doença não é mais a mesma. A disseminação do vírus preocupa governos de todo o globo pelo alto nível de contágio, que pode ocasionar colapso nos sistemas, além de consequências sérias aos pacientes mais graves. No Brasil, até a noite de sexta-feira (8/5), eram mais de 145 mil casos confirmados, mais de 9,8 mil mortos e uma taxa de letalidade de aproximadamente 7%.

 

Equipe de saúde de hospital particular da Rede D'Or envia mensagem de consolo por meio de foto(foto: Rede D'or São Luiz / Divulgação)
Equipe de saúde de hospital particular da Rede D'Or envia mensagem de consolo por meio de foto (foto: Rede D'or São Luiz / Divulgação)
 

Com base na evolução dos casos no país, há esforços das autoridades para ampliar o quadro de funcionários que atuam atendendo infectados e prevenindo o contágio de outros. Entre as principais medidas está o programa O Brasil Conta Comigo, lançado pelo Ministério da Saúde. A iniciativa promove a capacitação de profissionais para o enfrentamento à pandemia e contratações temporárias, que podem ser renovadas por até seis meses. O programa recebeu cerca de 500 mil inscrições de interessados em atuar no combate ao coronavírus. De acordo o último levantamento do Ministério da Saúde, são 394 mil cadastros referentes a 14 áreas e mais de 103 mil estudantes de medicina, enfermagem, farmácia e fisioterapia.

 

Manaus (AM) recebeu, na última segunda-feira (4/5), a primeira equipe do programa que fará a capacitação presencial para o combate à covid-19. Os profissionais reforçarão a capacidade de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) do estado do Amazonas. O início das atividades está previsto para esta segunda (11/5). Inicialmente, os trabalhadores ficarão na capital para, depois, serem deslocados para Tabatinga, Itacoatiara e Manacaparu. Foram convocados para o estado 37 médicos, 118 enfermeiros, 57 técnicos em enfermagem, 12 farmacêuticos, 17 biomédicos e 26 fisioterapeutas.

Importante missão

A fisioterapeuta Manoela Rios está entre os 267 profissionais da saúde encaminhados para atuar na linha de frente no Amazonas(foto: Arquivo Pessoal)
A fisioterapeuta Manoela Rios está entre os 267 profissionais da saúde encaminhados para atuar na linha de frente no Amazonas (foto: Arquivo Pessoal)
 

Manoela Rios, 25 anos, faz parte desse último grupo. Antes de decolar para Manaus, a fisioterapeuta recebeu uma homenagem emocionante junto aos colegas. O comandante do voo 2054, da Gol Linhas Aéreas, chamou a atenção dos passageiros e convocou o nome algumas pessoas, pedindo que ficassem de pé. Eram os 15 profissionais da saúde selecionados para trabalhar no programa no Amazonas, considerado um dos epicentros da doença no país. “Esses brasileiros são heróis anônimos, que trocaram a capa por jaleco. E assim, como nos filmes, merecem os créditos por tanta dedicação”, disse o comandante, que, em seguida, pediu à tripulação e aos passageiros uma salva de palmas aos profissionais presentes.

 

Para a fisioterapeuta Manoela, foi um momento de emoção. Ela conta que, somente após ouvir as palavras do comandante, entendeu o quão valiosa era a atitude de se juntar àquela força-tarefa. Formada em fisioterapia pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), a jovem se especializou em infectologia e neurologia na Universidade Franciscana (UFN). Quando foi convocada para o programa, Manoela não teve dúvidas sobre aceitar a oportunidade. “Senti na hora que era meu dever. Para mim, vir para cá era uma decisão óbvia. Agora, com a repercussão que isso teve, pude perceber a importância de estar aqui. Não só por mim, mas por todo mundo”, reflete. 

 

Além dos profissionais formados, uma outra versão do O Brasil Conta Comigo prevê a contratação de estudantes do ensino superior, de instituições públicas e particulares, do quinto e do sexto anos de medicina e também do último ano dos cursos de enfermagem e fisioterapia. Sob supervisão, 314 estudantes atuam em diversas regiões do país. São 128 alunos de medicina, 105 de enfermagem, 69 de farmácia e 12 de fisioterapia. O cadastro vinculativo tem caráter de compromisso para futuro recrutamento, conforme a necessidade dos gestores do SUS.

 

Time aumentado no GDF

Em nota, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informou que, desde o início da pandemia, foram nomeados 1.000 profissionais para o setor. A rede pública recebeu o reforço de 773 médicos em diversas especialidades, 152 enfermeiros, 75 especialistas em saúde e um técnico em saúde. Na Subsecretaria de Gestão de Pessoas da SES, está em andamento a contratação temporária de técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos e especialistas, que comporão um cadastro de reserva para substituições de servidores que precisem se afastar. Esses profissionais também poderão ser chamados para dar suporte aos leitos que estão sendo criados.

Contratações na rede particular

O primeiro emprego de Francilayne, fisioterapeuta pela UnB, é na linha de frente do combate à pandemia(foto: Arquivo Pessoal)
O primeiro emprego de Francilayne, fisioterapeuta pela UnB, é na linha de frente do combate à pandemia (foto: Arquivo Pessoal)

 

Esforços dobrados e adaptações para ampliar equipes também ocorrem nas instituições particulares de saúde. A Rede D’Or São Luiz tem 46 unidades espalhadas pelo Brasil e, desde março, contratou mais de 4 mil funcionários. O número é quatro vezes maior do que a média mensal habitual da empresa. De forma direta e indireta, os novos empregados desempenharão funções ligadas às infecções pelo coronavírus. Do total, mais de 1.700 são técnicos de enfermagem e 1.000 são enfermeiros. O diretor executivo da rede nacional de hospitais, Rafael Froes, formado em relações internacionais, contou com empresas parceiras para fazer as contratações da forma mais rápida e segura possível.

 

“Aumentar o quadro é fundamental para estarmos aptos a atender o fluxo adicional de pacientes com covid-19. A doença avança de forma acelerada, de difícil previsão. Se não nos anteciparmos e fizermos os reforços necessários, haverá um problema de capacidade de atendimento por falta de mão de obra”, pontua. Além do aumento da demanda, há afastamentos de profissionais classificados como grupo de risco. Por isso, as contratações podem continuar sendo feitas por mais tempo. “Ainda não temos segurança para falar que não precisamos mais contratar. Em maio, devemos receber mais pacientes. Então, ainda é cedo para reduzir o ritmo”, afirma.

 

O processo seletivo da fisioterapeuta Francilayne Lima, 24 anos, para o Hospital São Francisco (HSF), em Ceilândia, começou no ano passado. De acordo com ela, as contratações efetivadas em março foram antecipadas para que a equipe hospitalar estivesse pronta quando os casos aumentassem. “Quando entrei, houve primeiro um período de integração. Foram dois dias em que o RH nos reuniu, e tivemos palestras com um infectologista para explicar essa questão da covid”, conta. Logo no primeiro emprego, a fisioterapeuta encara a pandemia de uma doença altamente transmissível.

 

Formada pela Universidade de Brasília (UnB), ela dá suporte nas internações e na unidade de terapia intensiva (UTI). Francilayne elogia a forma como o HSF tem organizado a situação e presta suporte aos profissionais, deixando-os mais confortáveis perante os dias difíceis. “No entanto, hospital é uma caixa de surpresas. Por mais que tenha uma boa divisão da equipe, chega um momento em que são muitas pessoas para atender”, relata. Francilayne não nega que o medo é um sentimento presente. “Nós, como profissionais de saúde, sabemos que isso faz parte do ofício”, diz.

 

“Se não fosse o coronavírus, seria qualquer outra doença. Estamos em risco desde sempre”, expõe. Os desafios são muitos. A doença é nova e os profissionais que estão há mais tempo precisam treinar os recém-chegados. Todo dia significa uma longa luta. Por isso, a fisioterapeuta pede que as pessoas continuem levando o isolamento social a sério até que novos métodos de contenção sejam estabelecidos. “As pessoas não estão presas em casa, estão salvas. É triste e preocupante a falta de empatia da população”, observa.

Mortes no país

Rafael Froes, diretor de rede que contratou 4 mil pessoas(foto: Arquivo Pessoal)
Rafael Froes, diretor de rede que contratou 4 mil pessoas (foto: Arquivo Pessoal)
 

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) divulgou números de infecções e óbitos de enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem no Brasil devido à pandemia:

 

Infectados com coronavírus: 12 mil

Mortos por coronavírus: 98

Letalidade: 2,5%

 

Observação:  O Ministério da Saúde não tem números sobre as outras categorias. Foram consultados os conselhos responsáveis por médicos, fisioterapeutas, farmacêuticos e biomédicos, que disseram não ter dados sobre suas respectivas categorias. Os óbitos da enfermagem no Brasil (98) são mais do que o dobro da Itália (35) e da Espanha (4). As informações são da Federazione Nazionale degli Ordini delle Professioni Infermieristiche e do Consejo General de Enfermería, órgãos de atividades equivalentes ao Cofen na Itália e Espanha, respectivamente.

Primeiro emprego surge na crise

A enfermeira recém-formada Kézia conseguiu emprego em meio à pandemia(foto: Arquivo Pessoal)
A enfermeira recém-formada Kézia conseguiu emprego em meio à pandemia (foto: Arquivo Pessoal)
 

Contratada no início de abril pelo Hospital Santa Luzia, a enfermeira formada pela UnB Kézia Ferreira, 25 anos, trabalhava fora da área da saúde quando soube de uma vaga pela consultoria de RH Luandre e se inscreveu. O recrutamento foi rápido. Em duas semanas, ela passou pelas entrevistas virtuais e presenciais e foi chamada. Kézia trabalha na UTI direcionada para pacientes com coronavírus. Os primeiros 15 dias foram de treinamento com enfermeiros mais experientes. Agora, ela atua em parceria com uma colega veterana.

 

“Como recém-formada, está sendo um desafio muito grande”, comenta. Sobre trabalhar cara a cara com o vírus na primeira experiência como enfermeira, a profissional diz que, por algumas vezes, chega a esquecer que está lidando com essa situação. Enquanto, em outros momentos, sente medo de se infectar. “Como penso muito no paciente, esse temor até diminui. No entanto, tomo todas as precauções. Eu não quero que ninguém fique doente por minha culpa”, conta. Para Kézia, o mais difícil é lidar com a pressão psicológica.

 

Luan Henrique Ferreira faz triagem de paciente em hospital particular (foto: Arquivo Pessoal)
Luan Henrique Ferreira faz triagem de paciente em hospital particular (foto: Arquivo Pessoal)
 

“Eu me sinto bem por ajudar os outros, mas, por ter muitos pacientes, eu fico me cobrando. Fico angustiada e triste na maioria das vezes. A doença é nova e precisamos ter destreza para lidar com isso da noite para o dia”, relata. Também enfermeiro, Luan Henrique Ferreira, 23, é formado pela Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs). Em 13 de março, na mesma semana em que o primeiro decreto de suspensão de aulas para contenção do vírus foi publicado no Distrito Federal, ele começou a trabalhar no Hospital das Clínicas e Pronto Socorro de Fraturas da Ceilândia (HCPSF).

 

Inicialmente, a função de Luan era administrativa, mas o hospital foi, aos poucos, se adaptando aos novos protocolos de saúde e ele foi transferido para a triagem de pacientes. Apesar da rotina pesada de plantões noturnos, o enfermeiro diz estar satisfeito com o serviço prestado. A mãe do jovem chegou a sugerir que o filho deixasse o emprego, o que ele não cogitou. “É a profissão que eu escolhi para a minha vida e sou apaixonado por ela. É o que eu gosto de fazer”, afirma. Como as contratações emergenciais para o SUS são, até então, temporárias, Luan diz não ter interesse em se inscrever em iniciativas como O Brasil Conta Comigo. “Para mim, não compensa. No meu caso, só iria se não fosse temporário”, afirma.

Formatura antes do previsto

Erick é um dos 87 médicos que receberam diploma por drive-thru (foto: Arquivo Pessoal)
Erick é um dos 87 médicos que receberam diploma por drive-thru (foto: Arquivo Pessoal)

 

Em caráter excepcional para auxiliar nas ações de combate à pandemia do novo coronavírus, o Ministério da Educação (MEC) autorizou a antecipação da formatura de alunos de cursos da área da saúde. A medida engloba todo o sistema federal, instituições mantidas pela União e instituições particulares de ensino superior. De acordo com a pasta, 1.058 médicos, 150 enfermeiros, 23 farmacêuticos e 10 fisioterapeutas foram graduados mais cedo por isso, totalizando, até agora, 1.241 novos profissionais da saúde. No DF, o Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos (Uniceplac) possibilitou a colação de grau de 87 estudantes de medicina no fim de abril em esquema de drive-thru.

 

Os estudantes receberam o certificado de conclusão dentro do carro.    Erick Neres, 26, é um dos recém-graduados pelo Uniceplac. A formatura do médico estava prevista para somente daqui dois meses, em 24 de junho. O jovem planejava descansar por pelo dois meses antes de investir na carreira. A antecipação do diploma mudou os planos. “Além desse período sabático, eu queria continuar estudando para a prova de residência. Quero fazer isso ainda, mas vou aproveitar este tempo para fazer plantões e adquirir experiência”, conta. Antes mesmo de efetivar a inscrição no Conselho Regional de Medicina (CRM), oportunidades de emprego começam a surgir para Erick.

 

São ofertas em hospitais de diversas cidades, em especial de Manaus (AM), que recentemente entrou em colapso devido ao número de casos e mortes por covid-19. “A priori, estou querendo ir para alguns lugares a fim de ajudar na batalha contra o coronavírus. Recebi ofertas de várias regiões, mas ainda estou tomando uma decisão.” A reflexão é muito importante para definir os próximos passos. “Meu pais ficam muito aflitos com a possibilidade de eu ir para a linha de frente, mas, se posso ajudar, acho que é quase que uma obrigação moral minha”, afirma. A tão sonhada formação, ainda que motivada pelo cenário extraordinário, traz no fundo esperança de dias melhores. 

Revalida emergencial pode estar a caminho

Heloísa Fonseca, graduada em medicina em universidade argentina (foto: Arquivo Pessoal)
Heloísa Fonseca, graduada em medicina em universidade argentina (foto: Arquivo Pessoal)

 

Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 1780/2020, em caráter emergencial, para o estabelecimento do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituição de Educação Superior Estrangeira (Revalida). O texto, assinado por 17 deputados, prevê que todos os médicos brasileiros formados no exterior possam participar do exame. A prova é essencial para que graduados fora possam trabalhar no combate à pandemia do novo coronavírus no Brasil.

 

No projeto, deputados argumentam que aplicar o teste neste momento ajudará a incorporar rapidamente médicos que fazem falta no combate à covid-19. Na justificativa, os parlamentares mencionaram a estimativa de “que são 15 mil os médicos brasileiros que têm formação em universidades no exterior, mas não tiveram a oportunidade de convalidar o seu diploma devido à total paralisação do Revalida, que teve sua última edição em 2017 não concluída”. Em nota, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) informa que a prova do Revalida ocorrerá neste ano.

 

 

 

O órgão alega estar trabalhando com a formação de banca de especialistas para escolha das questões e a definição do cronograma de aplicação do exame. Formada em medicina pela Universidad Adventista del Plata, na Argentina, Heloísa Fonseca, 30 anos, está desempregada no Brasil. Para ela, o Revalida é a oportunidade que falta para exercer a profissão no próprio país. “Sempre foi meu sonho ser médica no Brasil. Eu não consegui passar (numa faculdade) aqui e também não tinha dinheiro para continuar pagando cursinho ou pagar uma universidade particular. Então, essa prova me dará o que sempre sonhei na vida”, admite. Ela se prepara para o exame desde 2017. Antes de voltar para o Brasil, Heloísa trabalhou durante um ano na Argentina.

 

“Eu tive o gostinho da prática. Estou estudando este ano. São vários altos e baixos, mas sigo me esforçando”, conta. A reivindicação, agora, é apenas pela chance de fazer o exame. “Nós não estudamos para sermos médicos medíocres. É muito triste quando vemos o nosso próprio país não dar importância para o nosso esforço.” Se conseguir a revalidação, ela não teme trabalhar no combate ao coronavírus. “Sou médica e vou fazer tudo o que eu puder”, garante.

 

Jodair Francisco de Paula, formado em medicina em universidade boliviana(foto: Arquivo Pessoal)
Jodair Francisco de Paula, formado em medicina em universidade boliviana (foto: Arquivo Pessoal)

 

Jodair Francisco de Paula, 50, se formou em enfermagem antes de decidir fazer medicina fora do país. Ele optou por se graduar no exterior, na Universidad de Aquino, na Bolívia. Apesar da formação fora, é no Brasil que Jodair deseja atuar. “Eu sou brasileiro. Fui para fora, estudei e voltei. Agora, nada mais justo do que exercer a profissão aqui”, defende. O médico percebe que vivemos um momento preocupante, em que existe uma necessidade de mais profissionais de saúde para fazer os atendimentos. “É importante estarmos na linha de frente atuando. Nós estudamos para isso, para ajudar as pessoas que necessitam e auxiliar no que é necessário com base no nosso conhecimento”, declara. 

O valor do Mais Médicos para o Brasil

Apesar de querer, Luan Alexandre Lima não pode se inscrever em programa de governo por não ter CRM(foto: Connekt/Divulgação)
Apesar de querer, Luan Alexandre Lima não pode se inscrever em programa de governo por não ter CRM (foto: Connekt/Divulgação)

 

A fim de reforçar o atendimento durante a pandemia do novo coronavírus nos postos de saúde, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou a convocação de 3.391 médicos para se juntarem ao Projeto Mais Médicos para o Brasil. Os profissionais da saúde poderão atuar em 1.202 municípios de todas as unidades federativas, além dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI). O Ministério da Saúde publicou dois editais de chamamento público, com foco em ações do plano de contingência do novo coronavírus, para a contratação de profissionais. Os profissionais brasileiros precisam ter registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) para se inscrever.

 

Essa exigência não existe para intercambistas, caso dos cubanos que atuaram no Brasil, que precisam ter, no entanto, habilitação para exercer a medicina em seus países. Em ofício, governadores do Consórcio Nordeste pedem ao Ministério da Saúde a integração de médicos brasileiros formados no exterior, mesmo sob supervisão, para atuarem no Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta permitiria a atuação sem o registro no CRM. No entanto, o Ministério da Saúde ainda não se manifestou sobre essa hipótese. Luan Alexandre de Souza Lima, 32, é um dos profissionais impedidos de se inscreverem no projeto. Formado pela Universidad de Aquino, na Bolívia, ele não tem CRM nem habilitação para exercer a medicina no Brasil.

 

E, como o Revalida não é aplicado desde 2017, não conseguiu fazer seu diploma se tornar válido no Brasil. Atualmente, presta serviços relacionados à saúde e ao bem-estar. Participar do Mais Médicos seria uma oportunidade de adquirir experiência. “O programa traz certa estabilidade para os recém-formados conseguirem pontuação para uma futura especialização”, acrescenta. Trabalhar na linha de frente é um desejo de Luan. Inclusive, ele tem feito um curso de capacitação on-line disponibilizado pela Universidade de São Paulo (USP). “Já me disponibilizei frente a algumas organizações para atuar no combate à essa pandemia”, declara.

Atuação prolongada 

Rubem Almeida da Rosa teve o contrato para o Mais Médicos renovado (foto: Arquivo Pessoal)
Rubem Almeida da Rosa teve o contrato para o Mais Médicos renovado (foto: Arquivo Pessoal)
O médico Rubem Almeida da Rosa, 38, trabalha para o programa Mais Médicos há três anos em Novo Hamburgo (RS). O contrato, que se encerraria no fim de abril, foi prorrogado por mais seis meses em virtude da demanda por médicos na linha de frente do combate à pandemia nas unidades de saúde. Para ele, a renovação é eficaz, uma vez em que existe uma relação pré-estabelecida com a população.

 

“Fica mais fácil de organizar uma medida preventiva porque esses pacientes confiam e acreditam na gente”, aponta. Segundo Rubem, há grande deficiência de médicos para atender na atenção básica, em especial nos postos que se encontram em comunidades e periferias. “Essas unidades são as portas de entrada das pessoas para investigar doenças crônicas e preventivas. O que evita a superlotação nos hospitais e nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento)”, afirma.

Oportunidades fora do país

Assim como o Brasil, outros países precisam aumentar o quadro de funcionários nos hospitais. De acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o país busca médicos e enfermeiros estrangeiros para ajudarem no tratamento de pacientes infectados pela covid-19. Em uma rede social, a órgão fez uma publicação para incentivar os profissionais médicos “que procuram trabalho nos EUA com um visto de trabalho ou de intercâmbio”. Após o anúncio do governo dos Estados Unidos, as buscas por informações na Bicalho Consultoria Legal para entender os caminhos migratórios quadruplicaram, segundo a empresa, que é especializada em migração e internacionalização de negócios.

 

Vinícius Bicalho ajuda médicos a migrarem para os EUA (foto: Bicalho Consultoria Legal/Divulgação)
Vinícius Bicalho ajuda médicos a migrarem para os EUA (foto: Bicalho Consultoria Legal/Divulgação)
 

Como forma de atrair o interesse dos profissionais da saúde, o departamento tem acelerado os casos dos profissionais que já têm petição aprovada e aguardam pela entrevista final. “O que nós percebemos é que muitos estados norte-americanos atingidos pela pandemia flexibilizaram as regras de licenciamento. Não é uma abertura total, mas eles reduziram um pouco das exigências”, afirma Vinícius Bicalho, CEO da consultoria. Segundo o advogado, os vistos para trabalhar naquele país são baseados na trajetória do profissional. A autorização de residência permanente pode ser dada por meio de vistos, classificados como EB-1 ou EB-2, concedidos para trabalhadores com habilidades extraordinárias.

 

“Em razão da pandemia fica mais fácil para ilustrar que o profissional da saúde é desejado pelo governo americano. Agora, mais do que nunca, ficou evidente que tê-los é importante para o país”, afirma. “O profissional precisa preencher certos requisitos. Não é todo e qualquer médico que se qualificaria para essas vagas”, completa o mestre em direito pela Faculdade de Direito Milton Campos e pela University of Southern California. O pedido pode ser feito do Brasil, por meio dos consulados, ou nos Estados Unidos, caso o profissional esteja no país legalmente com outro tipo de visto. Vinicius Bicalho explica que, para conseguir a contratação, o interessado pode também procurar diretamente alguma instituição médica que esteja autorizada a contratar estrangeiros ou buscar por um profissional que o auxilie no processo migratório.

Três perguntas para

Tatiana Gonçalves, diretora da Moema Medicina do Trabalho formada em administração e publicidade pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie (foto: Moema Medicina do Trabalho /Divulgação)
Tatiana Gonçalves, diretora da Moema Medicina do Trabalho formada em administração e publicidade pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie (foto: Moema Medicina do Trabalho /Divulgação)
 

Tatiana Gonçalves, diretora da Moema Medicina do Trabalho formada em administração e publicidade pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie

 

Os médicos do trabalho são responsáveis pela saúde de muito trabalhadores em empresas, órgãos públicos e instituições diversas. Nesse momento, como a profissão se estabelece como uma força essencial no enfrentamento ao coronavírus?

 

No começo, recomendou-se a suspensão do serviço da medicina do trabalho. Agora, essa parte é vista como muita atenção. Sabemos que não haverá vacina tão cedo para a covid-19 e, em algum momento, as empresas vão voltarão. A medicina do trabalho será fundamental nesse processo. Esses médicos serão importantes para autorizar afastamentos, principalmente para os profissionais de serviços essenciais e dos grupos de riscos. Os locais de trabalho não poderão ser centro de proliferação do vírus. Então, são os médicos do trabalho é que poderão orientar as empresas.

 

Há possibilidade de mais contratações na área?

 

Sim. Isso deve acontecer, mas ainda estamos na expectativa de que saiam normativas indicando esse retorno de médicos do trabalho às empresas.

 

Muitas empresas estão dispensando a obrigatoriedade do exame admissional. Seria esse um fator de risco?

 

Quando saiu a Medida Provisória nº 927/20, ela foi interpretada da maneira errada. A norma não diz que o exame não precisa ser feito, mas, sim, que é preciso fazer depois da pandemia dentro de 60 dias. Isso é adiar o problema. Nossa orientação é fazer o exame. Olhando pelo lado da pandemia, não dá para contratar um funcionário sem saber se ele está infectado ou não.

O papel do RH na área de saúde

Trabalhadores encaram uma verdadeira luta pela vida a cada dia(foto: Diana Raeder/Esp.CB/D.A Press)
Trabalhadores encaram uma verdadeira luta pela vida a cada dia (foto: Diana Raeder/Esp.CB/D.A Press)
 

Patricia Pousa, professora do Institute Business Education (IBE), da Fundação Getulio Vargas (FGV), analisa como a área de gestão de pessoas deve agir dentro de hospitais e outras instituições de saúde.

 

Planejamento integrado

Com o envolvimento de todo o time, é necessário um plano de ação “vivo”, mutável e com acréscimo de linhas nas planilhas de mais ações, detalhamentos e mudanças acrescentados diariamente, às vezes, em questão de horas.

 

Novas contratações

Após esta largada, um esforço gigantesco para captação de novos colaboradores, por meio de várias iniciativas e ferramentas, buscando os muitos profissionais no mercado com as competências para compor o quadro de pessoal.

 

Fiscalização

Monitoramento diário da taxa de ocupação do serviço, complexidade dos pacientes e performance dos colaboradores, num trabalho de grande engajamento e com a expertise da enfermagem, processos de apoio e da área da qualidade e segurança do paciente.

 

Treinamento

Treinar, treinar e treinar os recém-contratados e o quadro de colaboradores existentes. Utilizam-se, para isso, técnicas e ferramentas diversas, tais como treinamentos presenciais, práticos, informativos em murais, vídeos, plataformas e sempre procurando avaliar a eficácia desses treinamentos.

 

Permear a nova realidade

O Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT) reafirma o papel fundamental e escopo intenso para garantir entendimento e adequação nos fluxos de dimensionamento, entrega e orientação de EPIs, com a implantação e regulação de fluxos e acesso dos profissionais para tratar e prevenir a saúde, tanto os que se apresentam sintomáticos quanto os assintomáticos com relação à covid-19.

 

Saúde mental

A definição do Programa de Saúde Mental a todos os profissionais de saúde com ações específicas à pandemia é crucial com apoio psicológico, espaços de escuta e acolhimentos individuais; consultas on-line para os profissionais que testaram positivo para a doença, espaços de reconhecimento; frases motivacionais; atividades lúdicas; protocolo para acolhimento em casos de óbito.

 

Estrutura

Adequação e aumento da estrutura de suporte aos colaboradores, tais como locais e espaços de alimentação, de conforto e descanso, vestiários, chuveiros, todos com as devidas orientações de acesso.

 

Diálogo

Os canais de comunicação e acolhimento, mais do que nunca, ganham papel importante ao acesso e ao alcance de todos os profissionais da saúde, para que recebam continuamente informações claras e transparentes, incluindo boletins epidemiológicos, com a coerência entre o discurso, cultura e valores organizacionais.

 


* Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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