Ministro da Educação garante que não haverá corte em bolsas da Capes

Rossieli Soares defendeu, ao mesmo tempo, mais recursos para a educação e gestão mais eficiente dos investimentos durante o congresso de jornalismo e educação

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postado em 07/08/2018 10:08 / atualizado em 07/08/2018 12:40

Durante a segunda edição do Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, o ministro da Educação, Rossieli Soares, respondeu a perguntas de profissionais da imprensa, sobre diversos assuntos, como a manutenção de bolsas de pesquisa, a crise nas universidades federais, e a qualidade do ensino médio. Promovido pela Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), no Colégio Rio Branco, em São Paulo, o evento começou na segunda-feira (6) e segue até esta terça-feira (7), contando com cerca de 400 participantes. Confira ponto a ponto da conversa:

 

Jeduca/Divulgação
 

Bolsas da Capes

A ameaça de corte às bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) se tornou um escândalo nos últimos dias. O ministro da Educação começou a acalmar pesquisadores na última sexta-feira (3), quando sinalizou que a verba da instituição seria mantida. Durante entrevista no congresso da Jeduca, Rossieli garantiu que não haverá corte de bolsas. "Os estudantes vão continuar recebendo. As bolsas estão mantidas” Ele afirmou que brigará por mais recursos.

O debate em torno da continuidade das bolsas da Capes ganhou força depois que o ministro recebeu uma carta, assinada pelo presidente do Conselho Superior da instituição, Abílio Baeta Neves, em que dizia que o teto que limitaria o orçamento de 2019 teria como consequência a suspensão de 93 mil bolsas de pesquisa e pós-graduação a partir do segundo semestre do ano que vem, além do corte de mais de 105 mil bolsas de educação básica.

Gestão no ensino superior

Durante a crise orçamentária da Universidade de Brasília (UnB), que enfrenta um rombo que pode chegar a R$ 92 milhões até o fim do ano, a Reitoria da instituição afirmou que faltavam recursos, enquanto o MEC contra-argumentou que o problema era decorrente de falta de gestão. Questionado sobre o assunto, Rossieli Soares defende que a administração de capital precisa ser aprimorada nas instituições de ensino superior. "Nunca há dinheiro suficiente. Mas como a UnB pode ter um problema como esse com um orçamento que é maior que o da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que é maior e tem seis hospitais universitários?", questiona.

"Temos que investir mais. Mas, para o tanto de dinheiro investido em educação no Brasil, deveríamos estar melhor. É preciso discutir mais recursos, mas também gestão eficiente de recursos, nas universidades e nas escolas", completa. A questão está em saber priorizar, de acordo com ele. "Para ter dinheiro para algo, é preciso tirar de outro lugar. Tem de tirar penduricalho, rever número de pessoas contratadas, aluguel de carro para diretoria, gráfica", exemplifica.

"O Brasil precisa ter controle de gastos, não pode gastar mais do que arrecadou, assim como é o caso na casa de todos nós. Estamos num momento de crise. E se há crise em casa, tem de mudar algo. Se eu for demitido, e minha casa passar a contar só com o salário da minha mulher, teremos de fazer escolhas. E eu não vou cortar na educação do meu filho. Claro que o corte deve ser feito em outras áreas, não na educação. Eu faço parte do governo, mas, antes de tudo, faço parte da educação!

Momento político

Questionado sobre o desafio de ter assumido o Ministério da Educação (MEC) durante um governo transitório pós-impeachment, Soares reconheceu que trata-se de um momento delicado. "Eu sou brasileiro igual a vocês, vivendo todos os problemas como os outros brasileiros. É muito difícil fazer qualquer coisa em educação no Brasil, independentemente do momento. Mas, realmente, temos agora um momento político mais grave e mais difícil", admitiu. Isso, porém, defende o ex-secretário de Educação do Amazonas, não é motivo para não lutar a favor da educação.

Rossieli se define como gestor técnico, e não politico. "Quando vim para o MEC, como secretário de Educação Básica, eu nem conhecia o Mendonça Filho (ex-ministro da Educação). Eu o conheci no dia em que ele me convidou para vir para o MEC", afirma. Segundo Rossieli Soares, ele continuou defendendo as mesmas causas antes e depois de passar a atuar no Ministério da Educação, entre elas a reforma do ensino médio.

Ana Paula Lisboa

Ensino médio

Críticos à reformulação dos três anos finais da educação básica, aponta o ministro, questionam se um currículo flexível no ensino médio acirrará desigualdades. "Eu questiono porém: tem como aumentar ainda mais a desigualdade? Tratar todo mundo igual não tem dado certo. O modelo que a gente tem não está trazendo equidade", critica. Com a reforma, o ministro acredita que talentos da matemática, da química e de qualquer outra área do conhecimento poderão se desenvolver melhor, sem a cobrança de serem igualmente bons em todos os componentes curriculares. "Você não chega para o Neymar, o melhor jogador de futebol do Brasil, e pede para que ele seja bom também no basquete. Não dá para falar isso para um menino ou menina que é fantástico em matemática. Tem que deixar ele ou ela ser fantástico naquilo que é bom. É preciso deixar que os estudantes desenvolvam aptidões", diz.

A esperança do ministro é de que a reforma do ensino médio possa ajudar a reverter o grande problema da falta de atratividade e da evasão do ensino médio. "A maior parte das pessoas que chegam ao 9º ano do ensino fundamental nem chegam a ingressar no ensino médio. Só 28% se matriculam. E não é por falta de vaga, mas porque elas não veem sentido naquilo", afirma. Entre os poucos que começam o ensino médio, o desafio é fazê-los terminar.

"A maioria não sai. No 1º ano, há 13 milhões de matriculados. No fim do 3º ano, só cerca de 1 milhão se formam." Algo que precisa mudar, na avaliação dele, é o modo como escolas (e até a mídia) têm usado o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) como validador de qualidade e foco de conteúdos a serem ensinados em sala de aula. "O Enem não pode ser o norte do ensino médio. É um exame de entrada para outros sistemas, não um avaliador de saída. E ele precisará mudar para se adaptar à BNCC", ressalta. Um novo modelo do Enem poderia começar a funcionar em 2020.

O novo formato depende da validação da proposta de BNCC dessa fase, que está em análise no CNE (Conselho Nacional de Educação).

EJA

Todos os problemas de falta de atratividade e de evasão no ensino médio geram terreno fértil para o crescimento da educação de jovens e adultos (EJA). Rossieli observa que as matrículas desse formato de ensino têm crescido, justamente porque quem abandonou a escola lá atrás (e há um grupo muito grande que faz isso) pode voltar depois. "Não temos que diminuir a EJA, mas temos que parar de alimentá-la."

Além de melhorar o ensino médio, considerar os alunos que precisam trabalhar é uma maneira de evitar que jovens precisem concluir os estudos na EJA. Um exemplo nesse sentido está em Pernambuco, que "será o primeiro lugar do país a contar com escolas de tempo integral trabalhando em mais de um turno". Num deles, o aluno entra de tarde e fica até de noite. Assim, pode trabalhar de manhã, por exemplo.

Alfabetização

Um problema que afeta a qualidade do ensino médio está lá atrás: a alfabetização. "O Brasil coloca 99% das crianças na escola, mas elas saem sem o conhecimento mínimo necessário", lamenta.

Escola pública x Escola particular
Respondendo a questionamentos, Rossieli revelou que o filho dele estuda numa escola particular de confessional em Brasília. Quando Rossiele era secretário de Educação no Amazonas, o filho dele estudou na rede pública. O ministro contou que ele próprio é "oriundo da rede pública" e que só frequentou a rede particular na condição de bolsista.

Filho de um bancário, motivo pelo qual relatou ter se mudado bastante de cidade quando menino, Rossieli, que é gaúcho de Santiago (RS), acabou sendo aluno de instituições de ensino em diversas cidades do país. "Dá para pinçar coisas que dão muito certo na escola pública, mas isso está longe do que deveria ser em termos de quantidade", aponta. Ele pondera que é complicado comparar instituições públicas e privadas porque o investimento financeiro é muito diferente.

"Financiamento é um desafio na rede pública, que investe de R$ 4 mil a R$ 5 mil por aluno por ano. Enquanto, na esfera particular, tem escola cobrando R$ 3 mil, R$ 4 mil por aluno por mês..." Apesar disso, claro, a qualidade não depende apenas do que o dinheiro pode comprar e do aspecto físico. "Infraestrutura é importante, mas mais importante são a formação de professores, a educação integral."

Formação de professores

O representante do MEC acredita que, para melhorar todas as etapas da educação, uma necessidade crucial é rever a formação de professores. "Em todos os níveis, educação infantil, alfabetização, ensino fundamental, educação de jovens e adultos...”, diz.

“Há muitos anos, (a maior parte da) formação de professores é delegada para instituições privadas, algo a que não sou contra, desde que
se tenha aonde chegar”, comenta. No caso da educação básica, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, documento formativo que deverá nortear o que é ensinado em que cada etapa de estudo) poderá ajudar a nortear as formações, mas, segundo Rossieli, é preciso mais do que isso.

*A jornalista viajou a convite da Fundação Itaú Social