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Com a BNCC e a reforma, ensino médio preparará para o mercado?

A partir de 2021, quando o novo modelo começar a ser aplicado, a expectativa é que jovens deixem a escola com melhor aptidão para o mundo das profissões. Especialistas têm muitas dúvidas sobre como o sistema funcionará, já que ele se guiará pela Base Nacional Comum Curricular, documento ainda em tramitação que propõe mais interdisciplinaridade e o desenvolvimento de competências socioemocionais

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postado em 15/04/2018 18:28 / atualizado em 16/04/2018 19:56

O ensino médio vai preparar para o mercado?

A partir de 2021, quando a reforma do período começar a ser aplicada, a expectativa é de que jovens deixem a escola com melhor aptidão para o mundo do trabalho. Especialistas têm muitas dúvidas sobre como o modelo funcionará, já que ele se guiará pela BNCC, documento ainda em tramitação que propõe interdisciplinaridade e o desenvolvimento de competências socioemocionais

 

 

 

É consenso entre especialistas que as três séries finais da educação básica brasileira deixam muito a desejar em termos de qualidade, engajamento e até de utilidade dos conteúdos ensinados. É inquestionável que algo precisa ser feito a fim de reverter o quadro de queda de matrículas, evasão e defasagem idade-série e possibilitar aos jovens sair da escola com preparação adequada para a vida e para o mundo do trabalho. É nesse contexto de tentativa de melhoria que se insere a reforma do ensino médio, regulamentada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Após quatro anos de elaboração, o Ministério da Educação (MEC) entregou a parte desse documento voltada ao ensino médio para a análise do Conselho Nacional de Educação (CNE). O arquivo deverá passar por várias mudanças a partir de contribuições do próprio CNE e da sociedade, por meio de audiências públicas.

Antes disso, porém, é preciso entender o que ele propõe. Uma inovação é o ensino a partir de competências, que abrangem aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais e servem para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. Uma grande novidade é a aproximação e a interdisciplinaridade entre matérias pertencentes ao mesmo eixo — são quatro no total: matemática, linguagens (português, inglês, artes e educação física), ciências da natureza (biologia, física e química) e ciências humanas e sociais (história, geografia, sociologia e filosofia). A norma detalha as expectativas de aprendizado separadamente apenas para português e matemática. As outras disciplinas não são esmiuçadas isoladamente, sendo tratadas de forma interdisciplinar dentro de cada eixo. Assim, o guia elaborado pelo MEC gera muitos questionamentos. É aqui que o consenso entre especialistas acaba.

 

Antonio Cunha/CB/D.A. Press
 

 

O que é a BNCC?
Documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas da educação básica. Diferencia-se de currículo, sendo uma referência obrigatória que norteará a elaboração de currículos de todas as escolas e sistemas educacionais do país. A BNCC foi prevista na Constituição de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, e no Plano Nacional de Educação, de 2014. A parte que trata dos ensinos infantil e fundamental foi aprovada pelo CNE e homologada pelo MEC em dezembro do ano passado. Agora, a única etapa que falta regulamentar é o ensino médio.

Tramitação
A BNCC do ensino médio entregue pelo MEC é a terceira versão do documento, que foi construíndo coletivamente ouvindo especialistas e professores. Agora, a proposta será tema de audiências públicas abertas à população. O CNE também receberá documentos com sugestões de diferentes setores da sociedade. “Todos que quiserem se manifestar terão espaço”, garante Cesar Callegari, membro do conselho. Os relatores da proposta serão Joaquim José Soares Neto e José Francisco Soares, os mesmos que atuaram nessa função durante a tramitação da BNCC dos ensinos infantil e fundamental. Para começar a valer, a proposta terá de ser aprovada no CNE e, depois, ser homologada pelo MEC. Caso o ministério não concorde com a versão, ela volta ao conselho. Depois de finalmente publicada, as escolas e os sistemas de ensino terão um ano para a complementação de orientações normativas; depois, mais um ano para alterar as propostas pedagógicas. “No melhor dos mundos, as consequências efetivas poderão começar a acontecer em 2021 ou 2022”, espera Callegari. Confira na íntegra o texto elaborado pelo Ministério da Educaçaõ que passará pela análise do Conselho Nacional de Educação.

 

Diálogo aberto
Cinco encontros do CNE em capitais das cinco regiões brasileiras abrirão espaço para que a sociedade civil, professores, alunos e outros interessados façam sugestões à base. Confira o calendário:
11/5: Florianópolis
8/6: São Paulo
6/7: Fortaleza
10/8: Belém
29/8: Brasília

No mercado

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

 

Aos 23 anos, Thaynara Ferreira Barreto está desempregada desde o meio do ano passado, quando a empresa em que trabalhava  como auxiliar administrativo faliu. A jovem sempre frequentou colégios públicos. “Cursei até o 1º ano do ensino médio e parei de estudar. Eu morava em Samambaia e estudava em Taguatinga, mas era ensino noturno, então o transporte ficava difícil”, lembra. Tempos mais tarde, retomou os estudos por meio de supletivo. Thaynara não se lembra de boa parte dos conteúdos aprendidos no colegial. “O ensino médio não prepara para o mercado”, percebe. A jovem entende a importância de competências socioemocionais. “Iniciativa e trabalho em equipe valem muito.”

Empregadores como Dominique Marques Margoto, 48, e Morgana Marques Margoto, 22, sentem a falta que faz um ensino médio de qualidade na equipe. Mãe e filha coordenam juntas a Medcar, empresa de estética automotiva. Mais que conhecimentos das 13 disciplinas do período, elas valorizam competências socioemocionais, como iniciativa e comunicação. “Só que, no modelo de educação que temos, não é na escola que se desenvolve isso”, opina Dominique. “Nossos dois  empregados são honestos e responsáveis, mas faltam outras competências. Vai fazer muita diferença se as escolas começarem a ensinar isso”, afirma Morgana, estudante de biologia. Wesley Paiva dos Anjos, 20, cursou até o 2º ano do ensino médio na rede pública em Planaltina (GO) e, agora, faz supletivo. “A única forma que encontrei para concluir o ensino médio foi por meio da EJA (Educação de Jovens e Adultos). Nunca gostei muito de estudar. Na escola, a gente só decora as coisas, não consigo citar um exemplo do que aprendi e hoje utilizo no trabalho”, comenta o funcionário, que mora com os pais. Colega de Wesley no lava-a-jato, Francisco Gonçalves Duarte, 40, abandonou a escola pública em que estudava, em Santa Maria, no 3º ano do ensino médio. “Não terminei porque tinha de trabalhar para cuidar da minha família. Eu não conseguia fazer tudo ao mesmo tempo”, relata o pai de seis filhos. Diferentemente de Wesley, ele vê aplicação de conteúdos do colégio, mas aqueles mais básicos, que se aprendem no fundamental.

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press


“Todos os dias utilizo algo que aprendi na escola no meu trabalho, pois é nela que aprendemos a ler, conversar, conviver com as pessoas e a trabalhar em equipe.” Transformação  reformulação do ensino médio foi determinada, primeiramente, pela Medida Provisória nº 746/2016, depois transformada na Lei Nº 13.415/2017. A legislação flexibiliza a grade curricular e prevê que 60% do currículo deve ser preenchido pela BNCC, será a parte comum e obrigatória do ensino, responsável por 1,8 mil horas. Os outros 40% serão ocupados pelos itinerários formativos optativos, que dão ao estudante a chance de se concentrar em uma das seguintes áreas: matemática, linguagens, ciências da natureza, ciências humanas e sociais ou formação técnica e profissional.

Abertura da proposta gera polêmica

Arquivo Pessoal
 

 

Para o presidente da Comissão de Elaboração da Base Nacional Comum Curricular do CNE, Cesar Callegari, a proposta apresentada pelo MEC tem graves defeitos de estruturação e é incompleta. “Faltam a ela qualidade, seriedade e completude. O que está ali posto são platitudes e generalidades que pouquíssimo orientam sobre o que deve e pode ser feito pelas escolas”, critica. “O documento só detalha um pouco mais português e matemática, levando a pensar que apenas essas matérias são importantes. A base silencia sobre uma parte gigante do currículo. Não temos nenhuma indicação sobre o que deve ser feito nos cinco itinerários formativos”, completa. O especialista em gestão de políticas públicas se queixa ainda da ausência de indicação de base teórico-conceitual, já que o documento não faz referência a conteúdos específicos, ao concentrar-se em competências.

“Caberá agora ao CNE realizar um amplo debate, arregaçar as mangas e, com auxílio da sociedade, fazer o que o MEC poderia ter feito”, diz. Sandra Garcia, diretora pedagógica da Mind Lab, empresa que integra jogos de raciocínio a salas de aula para estimular o desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais, compartilha essas preocupações. “Havia expectativa muito alta e fiquei frustrada ao ver que o documento veio sem diretrizes claras para quem está no chão da escola aplicar a proposta”, diz. Ela se preocupa também com o fato de os itinerários formativos ficarem “bastante abertos”, sem menção às habilidades que serão priorizadas e a como se dará a escolha do jovem por uma área de ênfase. “Tenho um grande temor de que, na pressa de fazer algo diferente, a gente faça um projeto-piloto que não decole e não resolva os problemas que temos hoje, de desistência e evasão”, diz.

 

“Espero que, agora, o CNE retome essa discussão com bastante propriedade”, afirma. Na visão do secretário de Educação do DF, Júlio Gregório Filho, porém, o fato de o documento não detalhar o que deve ser ensinado é positivo. “E o que seria uma base completa? Uma que amarra, engessa e traz tudo o que vai ser dado no ensino médio?”, questiona ele, ressaltando que há muitas dificuldades na hora de elaborar currículos no contexto atual. “Há mil amarrações que nos obrigam a ficar com as 13 matérias blocadas de sempre”, diz. Para Gregório, que deu aulas de química na rede pública do DF por 24 anos, o importante não é listar os tópicos de aprendizagem, mas, sim, as competências esperadas. “A BNCC tem que ser bem básica mesmo para abrir espaço para possibilidades, abrir oportunidade para que os alunos sejam protagonistas, até correndo o risco de errar”, argumenta.

Ponto de partida

 

Sergio Lima/Divulgação
 

 

Questionado sobre a possibilidade de a abertura gerar aulas superficiais ou muito diferentes entre si nas cinco regiões do país, Gregório rebate: “Pelo menos, não terão todas a mesma ‘ruindade’ que vemos hoje no Brasil todo”. De acordo com o especialista em administração da educação e em avaliação institucional, é imperativo mudar. “Não tem mais sentido ter 50 alunos, um olhando para a nuca do outro, diante de um professor esgoelando lá na frente, como se fosse o detentor exclusivo das informações, repassando muitos conhecimentos que serão menosprezados e esquecidos depois, porque não têm importância para a vida da pessoa, só servem para passar na prova”, comenta. Rafael Lucchesi, diretor do Serviço Social da Indústria (Sesi) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), concorda com a completude do material. “Foi um trabalho bem construído , com a participação de especialistas e professores. Vai haver avanços, mas o MEC entregou uma boa proposta”, elogia ele, que é conselheiro do CNE.

“Além disso, as nossas diretrizes curriculares atuais são bem abertas. Não houve mudança substantiva com relação a isso”, contrapõe. “A base sai do conceito de disciplinas como caixas fechadas e prioriza áreas e competências. É um avanço e uma tendência mundial. Afinal, as habilidades é que importam para a vida e para o mundo do trabalho”, explica. “Nosso país é muito plural, com realidades muito diferentes em áreas urbanas, rurais, industriais, grandes assimetrias de renda per capita… A base uniformiza a expectativa de aprendizagem a cada ano e tem flexibilidade para atender todas essas diferenças”, comenta. Na avaliação de Álvaro Domingues, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe/DF), o documento não é “superficial”. Para ele, o importante é que seja um ponto de partida para a construção coletiva que está por vir.

“É uma proposta de início  que pode, sim, ser melhorada pelas audiências públicas e pelo CNE. É um modelo bem democrático, que permite flexibilidade, já que será possível acrescentar a ele o que se julgar importante”, diz o membro do Conselho de Educação do Distrito Federal. Miguel Thompson, diretor executivo do instituto de formação de professores Singularidades, afirma que o grande mérito da versão atual da norma orientadora dos três anos finais da educação básica elaborada pelo MEC é, justamente, gerar dúvidas e debates. “Ela vem como provocação, é uma possibilidade de reflexão, o que é bom, porque, do jeito que está não dá para continuar. O mundo mudou e o ensino médio, que é a porta para o mundo do trabalho, precisa mudar!” Na concepção do doutor em oceanografia biológica, este é o momento certo para levantar perguntas e, assim, gerar algo melhor para os estudantes brasileiros. “A desconstrução é ótima para causar bagunça no centro escolar, que é bem-vinda.”

Numeralha

7,9 milhões
Quantidade de alunos no ensino médio — total está em queda; em 2016, eram 8,1 milhões

28,2%
Taxa de distorção
idade-série

28,5 mil
Número de instituições de ensino que oferecem a etapa

7,9%
Percentual de escolas que oferecem atividades em tempo integral

Fonte: Censo Escolar da Educação Básica de 2017 / Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)

Porta de entrada para a carreira

Instituto Ayrton Sena/Reprodução
 

 

Um dos maiores questionamentos que surgem a partir desta versão preliminar da base é: será que as orientações ali presentes serão a solução para revolucionar o ensino médio e, consequentemente, a mão de obra brasileira? Rafael Lucchesi, diretor de Educação e Tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), tem expectativas positivas. “Se conseguirmos melhorar a qualidade do sistema educacional, isso vai impactar a produtividade. O domínio de mais competências implicará em profissionais melhores”, aponta o economista.

Mestre e doutor em educação e especialista em orientação educacional, Júlio Furtado também está confiante nas possibilidades de preparação para o mercado laboral. “É um modelo que se abre mais para o mundo do trabalho, o aluno até pode escolher ter uma preparação técnica. Caso contrário, optará por uma área de ênfase que será mais útil para a carreira que escolher no futuro”, diz.

 “Concentrar-se em grandes áreas em vez de em 13 disciplinas obriga as escolas a proporem uma aprendizagem integrada, analisando um fenômeno social à luz de diversos campos do conhecimento, o que forma pessoas mais antenadas”, afirma o pedagogo e psicopedagogo. “O ensino médio atual é divorciado do mundo do trabalho, trazendo muitas disciplinas de forma descontextualizada do projeto de vida do estudante. Portanto, se o que a base propõe for bem aplicado nas escolas, há chances de isso mudar”, acredita Simone André, gerente-executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna.

Presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada (IBSA), Cesar Callegari é cético quanto às possibilidades de essa aproximação com o eixo laboral se concretizar. “A educação profissional não admite improvisações. Não dá para falar que fará sem garantir método e estrutura (laboratórios, profissionais qualificados, parcerias com as organizações do mundo do trabalho, investimento)”, critica. “Sem essa sustentação, que pouquíssimas instituições de educação básica têm no momento”, alerta o conselheiro do CNE, “corre-se o risco de gerar mais frustração, com o jovem participando de um simulacro de educação profissional para, depois, ser rejeitado pelo mercado”.

Mestre em psicologia, desenvolvimento humano e processos de ensino-aprendizagem, Sandra Garcia aposta que a ênfase em competências socioemocionais (como autoconhecimento e autocrítica, empatia, resolução de conflitos e resiliência) apresentada pela base fornecerá preparação de maior qualidade para a carreira e para a vida. “Nem sabemos quais serão as profissões do futuro, mas cuidar do desenvolvimento pessoal ajudará o jovem a fazer escolhas e se preparar”, diz.

 Responsável pela implementação de diversos projetos de educação integral, Simone André tem visão semelhante. “Comunicação, colaboração, pensamento crítico, autoconhecimento… São competências presentes na base que são fundamentais para o mundo do trabalho e que se desenvolvem a partir da resolução de problemas”, esclarece.  Cesar Callegari reconhece a importância desse tipo de competência, mas argumenta que o simples fato de o assunto ser citado na base não significa que haverá real desenvolvimento dessas habilidades nas escolas. “O ‘como fazer’ não é indicado no documento”, aponta.

Ex-deputado estadual por São Paulo em dois mandatos, Callegari alerta que a possibilidade de parte do ensino médio ser ministrada a distância (a partir de brecha aberta pela reforma da etapa) afasta de vez a chance de desenvolvimento de competências socioemocionais. “Não se aprende isso atrás da tela de um computador, mas, sim, na convivência, trabalhando em grupo, lidando com diferenças.” Por isso, ele é totalmente contra aulas on-line. “As tecnologias devem ser complementares, mas tendo a escola como território. As propostas de EAD ligadas à base devem ser rejeitadas”, defende.

Como ficam os vestibulares?

Instituto Singularidades/Reprodução
 

 

Se o ensino médio será reformado, os processos seletivos para acesso ao ensino superior também devem mudar, correto? Não necessariamente. E é aí que mora o perigo de que a BNCC fique apenas no papel. “Se não houver alteração nos vestibulares, no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e no PAS (Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília), não haverá reforma, pois as seleções continuarão ditando como deve ser o ensino médio”, observa Júlio Gregório Filho, fazendo referência a diversos conteúdos que são ensinados apenas porque são cobrados em provas de acesso ao ensino superior, mas não têm qualquer serventia para a vida do aluno. É preciso quebrar a lógica de que a prova de êxito de uma escola seja o número de aprovados em universidades. “Todos queremos que os alunos passem no vestibular, mas a realidade é que a maioria deles não chegará ao ensino superior. Temos de parar de ensinar só para os 18% que farão faculdade e contemplar também os 82% que não farão graduação”, afirma.

Para que essa mudança seja possível, o membro do Conselho Técnico Científico da Educação Básica da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) aposta no diálogo com as instituições. “É preciso haver grande discussão e mudança de mentalidade porque a universidade desconfia das avaliações das escolas, já que o 10 de uma pode valer 5 em outra. Mas todo o processo é centrado em memorização: tem melhor nota quem memoriza melhor e não necessariamente o que será melhor profissional ou aluno.” Levar em conta, nos vestibulares, não só a nota da prova, mas também o perfil comportamental e projetos e experiências extracurriculares (como ocorre nos Estados Unidos) poderia ser uma solução. Miguel Thompson, do Instituto Singularidades, também acredita que as seleções universitárias devem parar de guiar o ensino médio, mas é preciso tomar cuidado com outro risco envolvido. “O perigo é os vestibulares e o Enem começarem a cobrar só o que está na base, sem abordar nada fora dela. Desse jeito, a base viraria currículo, o que também é negativo”, comenta.

Aplicação na capital federal

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

 

O secretário de Educação do DF, Júlio Gregório Filho, comenta como seria a implementação do
novo ensino médio nas escolas da rede pública local


“A proposta é que existam disciplinas obrigatórias e optativas e o aluno monte a própria grade, como ocorre em instituições de ensino superior como a UnB. Não acho que é uma fase em que o jovem precise escolher nada em termos de carreira, é preciso ter flexibilidade para testar e mudar de percurso caso deseje. Para preparar as escolas e os professores, faremos uma grande discussão. O importante é que os colégios (tanto públicos quanto particulares) não precisarão ser todos iguais uns aos outros: alguns terão foco no vestibular, outros se especializarão numa ênfase (como ciências humanas, ciências da natureza...). Os alunos e as famílias escolherão onde estudar dependendo do que desejam. Hoje em dia, os históricos escolares de todos os alunos são iguais, só mudam as notas. Isso vai acabar: cada um será único. Também defendo que outras atividades, como oficina de teatro, projeto social num hospital, entrem no currículo do aluno."

Obstáculos à frente

Antonio Cunha/CB/D.A. Press

 

Os especialistas consultados pela reportagem voltam a entrar em consenso quando o assunto são os desafios envolvidos na implementação da reforma do ensino médio a partir do que for preconizado na BNCC: são muitos. Entre as principais dificuldades está a preparação de docentes para lidar com o novo modelo. “Ao pensar um novo ensino médio, temos que pensar em quem vai garantir isso na escola”, destaca Cesar Callegari, relator da Comissão de Formação de Professores do CNE. “O documento não traz orientação para que um professor de determinada disciplina, como geografia, seja capaz de falar sobre outra, como filosofia”, comenta. Segundo o consultor em educação Júlio Furtado, esse deve ser o maior obstáculo na implementação da base. “Os professores estão acostumados a dar aula dentro de uma gavetinha e precisarão atuar de maneira mais ampla e ajudar os alunos a desenvolverem competências.” Sem a formação dos educadores, o risco é de as mudanças ficarem apenas na lei. Agora, se a proposta for aplicada de fato, Júlio tem boas expectativas.

Já para Sandra Garcia, da Mind Lab, os professores não são a maior dificuldade de aplicação da base. “Os profissionais da área têm perfeitas condições de integrar diferentes disciplinas se tiverem um projeto a partir do qual trabalhar.” Entra em campo outro possível entrave. “Tudo só se concretiza com um bom currículo desenhado, que traduza a inovação para os professores”, aponta Simone André, membro da Cátedra de Educação e Desenvolvimento Humano da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Miguel Thompson defende que é preciso revolucionar a formação de professores, tanto a inicial quanto a continuada.

“As licenciaturas devem se debruçar sobre esse modelo e deixar o foco em disciplinas para trabalhar conteúdos em conjunto, habilidades do século 21, competências... O problema é que as universidades são muito herméticas: os departamentos de física e biologia, por exemplo, não costumam conversar.” Os educadores que já deixaram o banco das faculdades precisarão receber orientação das escolas e trabalhar com elas para aplicar os conceitos da base. “Esse documento será como o asteroide que caiu na terra, mudando todo o ecossistema: ele cairá nas mãos dos colégios e eles precisarão se reorganizar por completo”, compara. Álvaro Domingues, do Sinepe, cita como avanços necessários conscientização e constância. “O maior desafio nas escolas será romper paradigmas e vencer resistências (de alunos, famílias, professores, diretores...). Depois, é preciso que o governo federal continue a monitorar o assunto, já que política educacional tem de ser de estado, não pode ser transitória e não se pode trabalhar com perspectiva inferior a 10 anos”, diz. Miguel Thompson enxerga outra complicação na execução do projeto: o financiamento na rede pública, num momento de contenção orçamentária, agravada pela Emenda Constitucional nº 95/2016, que limita os gastos públicos por 20 anos.

Projeto-piloto do Sesi testa novo modelo

Alex Malheiros/Divulgação

 

Afinal, como se dará o cumprimento dos preceitos estabelecidos na reforma e na base curricular do ensino médio? Até o momento, não há regras tão rígidas, então cada escola poderá encontrar a própria maneira. “A tendência é que as instituições organizem os horários de aula por temas e não mais por disciplinas. Mas isso não é regra: é possível manter a divisão por matérias, mas possibilitando a integração entre áreas de outras maneiras”, esclarece Miguel Thompson, do Instituto Singularidades. “As redes adotarão soluções próprias”, completa Rafael Lucchesi, diretor das entidades do Sistema S ligadas à indústria. Uma das instituições que ele representa, o Sesi, começou a experimentar o novo ensino médio, antes mesmo de ele virar regra, em unidades em Aparecida de Goiânia (GO), Serra (ES), Maceió (AL), Fortaleza (CE), Feira de Santana e Salvador (BA).

As turmas-piloto têm aulas de três horas de duração cada uma, organizadas a partir de grupos de conhecimento, em vez de por disciplinas. Os professores de matérias do mesmo eixo planejam as atividades juntos. Os 222 estudantes participantes estão no 1º ano do ensino médio e têm como área de ênfase a educação profissional em eletrotécnica.

Trata-se de um experimento pioneiro no país que começou este ano. A metodologia, em fase de teste, teve boa recepção em Aparecida de Goiânia, segundo o diretor da unidade, Adair Prateado. “É um sucesso total. Os pais, os professores e os alunos estranharam no início, mas a adaptação tem sido muito boa”, afirma. Na cidade goiana, 38 adolescentes passam pelo experimento. Na sala de aula, nada de carteiras enfileiradas: ali os alunos sentam em pufs, em constante movimento e trabalho em grupo. A interação com tablets, celulares e notebooks é constante.

 

Alex Malheiros/Divulgação

 

“É um método ativo, os alunos constroem o conhecimento com os professores, que não chegam ali só para dar aula: eles propõem temas, os estudantes pesquisam na internet e, depois, existe a troca”, conta. A tecnologia também serve de base para os trabalhos, que podem incluir vídeos, animações, apresentações orais. Os discentes não passam por provas. A avaliação é constante, por meio de trabalhos, elaboração de portfólio e participação e desempenho em sala de aula. Questionado sobre se isso pode prejudicar os que desejarem passar por exames, como vestibular e Enem, Adair está certo de que não haverá problemas. “Eles aprendem de fato, não ficam só decorando.”

Pedro Henrique Mota, 15, integra a turma-piloto e está satisfeito. “Eu me sinto muito melhor na escola agora do que no formato antigo. A gente é avaliado em tudo e não tem mais a pressão da prova. O que isso fez foi me deixar mais interessado por aprender”, conta ele, que pensa em se formar em medicina ou biologia. A colega dele, Barbara de Sousa Faria Correa, 15, vê o formato com bons olhos. “Acho esse modelo muito bom. O ensino é muito prático, você mesmo confecciona seu material de estudo”, comenta. No início, a jovem teve medo de não conseguir se adaptar, mas, hoje, vê que a novidade trará muitas vantagens. “Percebi mudanças até no meu modo de falar e me comportar.”

Geógrafo pós-graduado em meio ambiente, Thiago Francesco dos Anjos Borges trabalha no Sesi há 10 anos e, agora, em vez de dar aulas de geografia, é professor de ciências humanas. Para ele, o sucesso dos alunos no mercado de trabalho está garantido. “O modelo não prepara apenas para processos seletivos e provas, prepara para a vida e para o mundo!” Como os outros educadores da equipe, passou por capacitações para se adaptar ao novo sistema.

O povo fala

Estudantes do Centro de Ensino Médio da Asa Norte (Cean) comentam as propostas da BNCC

Antonio Cunha/CB/D.A. Press

 

Ruan Lúdui Vilarindo dos Santos, 17 anos, aluno do 3° ano do ensino médio, filho de uma administradora e de um funcionário público, morador de Santo Antônio do Descoberto (GO)
“Eu gosto do Cean, mas há pontos que poderiam ser melhorados, como a organização e a comunicação entre a direção e os alunos. Acho que as escolas deveriam trabalhar mais as habilidades socioemocionais, como a liderança, como proposto pela BNCC. Nos nossos trabalhos em grupo, sempre as mesmas pessoas são líderes. A situação pode mudar se outras aprenderem sobre isso. A reforma do ensino médio é boa porque, se você faz algo de que gosta, com certeza terá melhor rendimento. A minha preocupação é com relação ao vestibular: será que os alunos serão prejudicados pelo modelo?”

 

Antonio Cunha/CB/D.A. Press
 

 

Ruth Hellen Oliveira Rodrigues, 17 anos, aluna do 3º ano do ensino médio, filha de uma microempresária e de um eletricista, moradora da Asa Norte
“A escola não nos prepara totalmente para o mercado de trabalho, prepara mais para a faculdade. O Cean é muito aberto a melhorias e foca bastante o PAS. Eu gostaria de fazer o novo ensino médio, pois a BNCC traz mais chances de escolha a partir dos diferentes gostos das pessoas. Desse jeito, você escolhe para qual área quer ir, algo com que se identifica, e desenvolve mais suas capacidades em torno disso. Acho que, assim, os colégios conseguirão se preparar melhor para o mercado. Tem que ver se o sistema vai funcionar mesmo. Na teoria, a proposta é boa; temos de ver como será a prática.”

 

Antonio Cunha/CB/D.A. Press

 

Ysaias Gonçalves Neves, 16 anos, aluno do 2° ano do ensino médio, filho de uma dona de casa e de um artista plástico, morador do Núcleo Bandeirante
“Eu gosto do Cean. É um colégio bem diversificado, não tem preconceito, existe igualdade social aqui. O problema é que a escola não prepara para o mercado de trabalho. O ensino médio público dá algumas ferramentas para você conseguir se inserir no mercado, mas principalmente mirando o vestibular, e só passa quem tem alguma aptidão e se dedica bastante. Acho que a base será boa, ajudará a gerar melhores profissionais, mas isso vai depender de como ela será implantada.”

 

Antonio Cunha/CB/D.A. Press

 

Amanda Araújo Santos, 16 anos, aluna do 2° ano do ensino médio, filha de uma dona de casa, moradora da Asa Sul
“Eu gosto de estudar, acho que faço um bom ensino médio, mas ele não prepara para o mercado. Acho que a reforma que o MEC vai fazer será muito ruim. A BNCC está supervalorizando matérias como matemática e português, enquanto deixa de lado disciplinas que também são importante para a nossa formação, como filosofia e sociologia, que receberão menor atenção. Prefiro o ensino médio como ele é agora, eu não gostaria se tivesse de estudar pelo novo modelo.”

 

Estudantes do câmpus Riacho Fundo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília (IFB) comentam as propostas da BNCC

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press
 

Larissa Souza da Silva, 16 anos, aluna do 2º ano do ensino médio integrado a curso técnico em cozinha, filha de uma frentista e de um transportador de carga, moradora de Samambaia


“O IFB me prepara para o mercado de trabalho e também para o vestibular de um jeito muito diferente, temos uma interação muito grande entre as disciplinas e o lado técnico, um método fora do comum. Analisando a reforma do ensino médio, acho que ela me ajudaria, pois já sei em que área pretendo atuar: comunicação. Mesmo assim, eu iria querer estudar todas as matérias por igual para me sair bem no vestibular. A função do ensino médio não é preparar para o mercado de trabalho, mas, sim, fazer a pessoa entender sobre todas as ciências. A reforma pode dar muito certo ou muito errado. O ensino médio precisa mesmo de uma reforma e só será possível entender se funcionará ou não quando entrar em vigor.”

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press

Bianca da Silva, 15 anos, aluna do 2º ano do ensino médio integrado a curso técnico em cozinha, filha de uma dona de casa e de um bombeiro, moradora do Núcleo Bandeirante


“O ensino médio prepara as pessoas de forma mediana para o mundo do trabalho, mas não adianta nada a escola e o professor oferecerem condições se o estudante não der o seu melhor. O curso técnico do IFB abre muitas portas e já tem essa interdisciplinaridade proposta na base: aprendemos sobre como a química e a física influenciam na cozinha, por exemplo. Eu não gostaria de estudar em uma escola com o novo ensino médio, porque jovens de 15 anos não têm maturidade para escolher o que querem fazer por toda a vida: mudamos de opinião muito rápido. Acho que todo mundo precisa estudar todas as matérias de forma igual. Eu ficaria frustrada e me sentiria limitada se fosse obrigada a escolher uma parcela de matérias, pois eu gosto de estudar tudo e entender sobre tudo.”

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press

Ana Beatriz Santana, 16 anos, aluna do 2º ano do ensino médio integrado a curso técnico em hospedagem, filha de uma gerente de RH e de um engenheiro mecânico, moradora do Riacho Fundo


“Eu gostaria muito de estudar em uma instituição que trabalhasse a partir da BNCC do ensino médio. Caso o estudante já saiba o quer fazer profissionalmente, será ainda melhor. Se um aluno deseja prestar vestibular para medicina, por exemplo, ele só tem a ganhar e vai sair na frente de muita gente se puder estudar mais ciências da natureza. Sair do ensino médio tendo responsabilidade, sabendo trabalhar em equipe e com projeto de vida é muito positivo.”

 

Marília Lima/Esp. CB/D.A Press

João Victor Machado, 16 anos, aluno do 2º do ensino médio integrado a curso técnico em hospedagem, filho de uma dona de casa e de um mecânico, morador do Núcleo Bandeirante


“O ensino médio integrado do jeito que eu faço no IFB é vantajoso, pois, quando sair da escola, terei algo a mais no currículo. O Instituto Federal de Brasília agrega muito matérias ‘comuns’, como química e geografia, com a parte técnica. O ensino médio brasileiro em geral não prepara os jovens para o mercado de trabalho, muitos jovens nem se lembram do que aprenderam em sala de aula. Com a proposta da BNCC, acho que a pessoa sairá da escola mais bem preparada. No meu caso, por exemplo, eu quero cursar direito e ser juiz, e poderia estudar mais o que vai ser mais importante para a minha área. Agora, se a pessoa não sabe o quer e se arrepender lá na frente, pode se prejudicar e perder tempo.”

*Colaboraram Marília Lima e Neyrilene Costa, estagiárias sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa