Primeiro dia de aula. Para alguns pais, apenas a volta à rotina. Para outros, o desafio de ver pela primeira vez o pequeno entrando pelo portão da escola. “O coração está apertado. Como cresce rápido. Um dia desses, estava na barriga e, agora, estou comprando material escolar”, brinca a técnica em enfermagem Cecília Martins, 32 anos.
A apreensão é ainda maior pois, durante o parto de Pietro, hoje com 2 anos e 5 meses, houve complicações e o menino chegou a ter parada cardíaca e a ser entubado. Mas ela e o marido, o professor de educação física e capoeira Gleiderson Alves de Oliveira, 35 anos, estão se preparando para dar esse passo este ano. “Os médicos diziam que ele ia ter problemas de desenvolvimento. Talvez não enxergasse ou andasse. E ele está aí, saudável, superinteligente e empolgado para ir à escola. Acho que quem vai ter problemas com a adaptação sou eu”, comenta.
Muitas vezes, de fato, é a insegurança dos pais que acaba prejudicando o processo. É o que afirma a psicóloga especialista em terapia familiar sistêmica Lia Clerot. “Sem querer, muitos pais acabam transferindo esta sensação de abandono para seu filho. É preciso ter em mente que a tranquilidade da criança no primeiro dia de aula não depende exclusivamente dela, mas da confiança dos pais”, pontua.
Para a doutora em educação Fátima Vidal, professora da Universidade de Brasília (UnB), uma alternativa para acalmar os ânimos nessas horas é trocar experiências. “Ao conversar com outras mães e pais e escutar a experiência de quem já passou por isso, é possível identificar muita coisa em comum, o que ajuda a perceber que tudo passa. No fim, ver o filho ou filha caminhando, correndo, brincando e se divertindo com os colegas e professores será muito bom”, aconselha.

Porém, manter Lorenzo no colégio era necessário, já que Ingrid precisava se dedicar ao trabalho e aos estudos. Depois de tanto sufoco, a mãe de primeira viagem tem certeza de que fez a escolha certa. “A criança tímida deu lugar a um sapeca. Hoje, ele brinca com os colegas da idade dele, aprendeu a dividir os brinquedos e se desenvolve mais rapidamente, criando independência. Agora é ele quem pede para ir para a escola, trazendo a mochilinha.”
É comum que a primeira vez na escola cause estresse, euforia, medo, tensão. Para a especialista Fátima Vidal, os pais precisam ser firmes e acolher todos os sentimentos dos pequenos. “A dificuldade da adaptação é comum. Por isso, é necessário insistir carinhosamente, mas sem se oferecer como alternativa às professoras ao primeiro sinal de choro. É um momento importante. Autonomia, criatividade, amizades e novas descobertas sobre o mundo esperam por nossas crianças nas escolas”, afirma.
Fim das férias

Preparar as crianças para os primeiros dias de aula não é um desafio apenas para os que estão estreando na vida acadêmica, já que a volta para a rotina escolar não é automática. Por isso, no caso da advogada Roberta Vancini, 36 anos, e do consultor em marketing digital Luiz Paulo Araujo Pedrosa, 44, a preocupação vem em dobro: vão colocar Felipe, de 2 anos e 6 meses, pela primeira vez na escola e precisam reintroduzir a filha mais velha, Maitê, 7, aos estudos.
“Estou entrando em pânico em imaginar que o Felipe possa dar tanto trabalho quanto a Maitê quando entrou no colégio pela primeira vez. Ela chorava todos os dias e eu acabava chorando junto. Hoje, ela gosta muito de voltar às aulas, rever os amigos. Mas, para fazer os deveres de casa e entrar no ritmo, demora um pouco. Por isso, costumo ir voltando aos poucos com a rotina. No começo deixando brincar até mais tarde e, depois, estabelecendo melhor o horário para dormir”, detalha Roberta.
Começar a mudança gradativa dos horários de férias é uma forma de adaptação recomendada, uma vez que, durante o recesso, as crianças acabam se desacostumando com a rotina. Além disso, podem ficar ansiosas com as novidades que serão inseridas: mudança de professores, novos amigos ou perda de alguns e novas responsabilidades.
De volta à rotina
Confira as orientações para ajudar o seu filho na retomada da rotina escolar
- É necessário não só estabelecer as regras, mas ouvir a criança, já que esta será a rotina dela. Faça perguntas como: o que deu certo no ano passado que podemos continuar e o que acha que devemos mudar? Informe também a sua rotina para que a criança compreenda todas as possibilidades.
- A presença dos filhos na compra dos materiais é importante não só para que eles sintam vontade de voltar à escola, mas também para que consigam entender que há um investimento financeiro. Incentivar que eles participem da organização da mochila — ou, para crianças a partir de 9 anos, deixar que elas mesmas arrumem — é importante no sentido de estimular a autonomia.
- Envolva-se com os novos professores e com a escola para saber se o filho está se sentindo acolhido. A escolha de uma instituição que tenha uma proposta pedagógica compatível com o perfil da criança é essencial para uma boa adaptação.
- O diálogo diário com os filhos é importante para que os pais tomem conhecimento da rotina dentro da escola e possam auxiliar caso surjam dúvidas ou problemas. Esses momentos não podem ser forçados. A dica é que os pais contem o próprio dia para que a criança se sinta confortável em dialogar.
- Estabeleça metas com os filhos ao longo do ano, perguntando a eles o que querem conquistar em relação aos estudos. Após definir os objetivos, defina prazos e faça avaliações ao longo do ano para conferir se as metas foram alcançadas.
Fonte: Bruna Santos, coordenadora pedagógica de anos iniciais do ensino fundamental