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Correio Braziliense

A dura tarefa para ser o professor do amanhã

Brasil forma em quantidade, mas peca em qualidade, o que gera resultados globais ruins


postado em 12/01/2020 08:17 / atualizado em 16/01/2020 20:00

Um bom professor precisa ser um mediador entre teoria e prática. Segundo especialistas, Para dar conta das mudanças da sociedade das necessidades dos alunos, sobretudo ante novas exigências do mercado de trabalho e de um mundo cada vez mais ágil, complexo e conectado, os professores precisam estar atualizados. Para isso, precisam de formação contínua de qualidade. E somente boas políticas públicas e investimentos podem reunir as condições para garantir esses requisitos. 
 
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)
 
O Brasil oferece mais de 7,2 mil cursos de licenciaturas em 1.330%u202Finstituições de ensino superior. São mais de 1,6 milhão de alunos matriculados em licenciaturas em instituições públicas (37.6%) e privadas (62,4%), o que representa quase 20% das matrículas no ensino superior, 64,5% em universidades, segundo Maria Alice Carraturi, organizadora da Base Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (BNCC), aprovada no ano passado, e ex-diretora de formação de profissionais da Educação Básica do Ministério da Educação (MEC) 

A solução, diz ela, está na qualidade e não quantidade de professores. “Há mais vagas do que a demanda. Temos também que olhar as taxas de natalidade que diminuem, o que, consequentemente, reduz o número de escolas no Brasil. No Censo escolar de 2017, havia 287 mil escolas; no de 2018, o total não chega a 282 mil escolas. E continuamos com 2,2 milhões de professores na educação básica”, analisa. 

Maria Alice salienta que número de ingressantes em cursos voltados à docência aumentou 44%, de 2010 a 2017. “Temos uma equação que não fecha: diminui número de crianças e escolas e aumenta o número de alunos nas licenciaturas e permanece o mesmo número de docentes. Estamos no caminho errado. Oferecemos milhares de cursos com qualidade duvidosa, formamos mal os docentes e, consequentemente, temos resultados pífios de aprendizagem”. 
 
(foto: Arte CB/D.A Press)
(foto: Arte CB/D.A Press)
 
Para ela, o Brasil oferece formação incompatível com as atuais demandas atuais e não há preocupação com a qualidade dos cursos que formam professores. Maria Alice afirma que as universidades dão cursos mais baratos, mas sem recursos. “São formações fáceis de entrar e de concluir e, por isso, atraem um grande número pessoas que não conseguiriam entrar em cursos mais concorridos”. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), 70% dos alunos de pedagogia têm pontuação abaixo da média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).  

“Não existe país melhor do que a sua educação e não existe educação melhor do que a qualidade dos seus professores. É preciso entender que uma boa educação se faz com bons professores e esses precisam de formação de excelência”, diz a especialista. 

Para ela, a Base Nacional de Formação de Professores (BNC) é uma evolução, pois define o que é ser um bom professor e as competências que devem ser desenvolvidas para isso. “Começa a estabelecer um padrão de qualidade a ser seguido, monitorado e avaliado. Não podemos mais permitir cursos de baixa qualidade na formação de professores. Cada década perdida em educação condena centenas de milhares de crianças e jovens à ignorância e o país ao subdesenvolvimento”, diz.

Residência e Certificação 

O também educador, escritor e ex-secretário de Educação de Pernambuco Mozart Neves Ramos, que integra o Conselho Nacional de Educação (CNE), defende a prática de residência pedagógica para os professores. “Para isso, as escolas precisam ter todos os recursos necessários para receber os residentes e deveriam ser credenciadas.  É preciso levar a sério o estágio curricular do professor”, diz. “Os médicos não fazem residência? Por que o professor não faz residência na escola? No Brasil, 61% dos professores de física não se formaram em física”. 

Para ele, com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Base Nacional de Formação de Professores prontas, o desafio agora é mudar os cursos de licenciatura. “É preciso modernizar as licenciaturas atuais. Pegar as matrizes construídas e colocar em prática. Se as universidades não ajudarem, não vamos ter êxito. A BNCC tem 10 diretrizes e a Base Nacional para a Formação de Professores também, com três grandes dimensões: conhecimento, prática e engajamento profissional, ou seja, o que o professor precisa saber para desenvolver as diretrizes da BNCC para os alunos”, explica. “É a primeira vez que Brasil faz isso. Quando tomou a decisão, há cinco anos, de construir a BNCC para o aluno, foi um passo muito importante. Agora é preciso colocar no chão da escola”, completa. 

Segundo Mozart, cabe agora ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) pensar na formação continuada.  “INEP vai ter dois anos para preparar um novo instrumento para avaliar se os alunos aprenderam”, diz. Ele explica que será preciso articular com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do  MEC, para que haja uma política continuada de formação para os professores.  

“As universidades precisam compreender que a licenciaturas têm que ser definidas com base em competências. É preciso dar significado ao aprendizado, pois as organizações estão olhando para as competências que as pessoas desenvolveram ao longo da vida para ocupar posições, e a formação do professor precisa ir na linha da educação integral, que une teoria, prática, conhecimento e habilidades do mundo digital e  socioemocionais”, afirma. 

Para Ramos, o foco do ensino mudou.  “Hoje, o aluno vai à escola para resolver problemas e dar função e significado à informação, que está em toda a parte, e o professor é quem faz a mediação entre a teoria e prática”, diz. Na sua opinião, hoje em dia, professores precisam ensinar a trabalhar em equipe e de forma colaborativa. “No Japão, mudaram o volume dos brinquedos para que as crianças aprendam a desenvolver colaboração e empatia. 

Educação a distância 


Professora universitária e gestora pública, Cláudia Costin elogiou a Base Nacional para a Formação de Professores principalmente porque limita o ensino a distância em 50%. “Antes, não tinha limite para o que poderia ser usado em Educação a distância, o que era problemático, mas foi limitado a 50%. Por mim, limitaria até mais. Isso é importante porque hoje 46% dos professores são formados a distância em cursos de qualidade questionável” alerta 

Para ela, é preciso esperar dos professores a mesma perícia profissional que se espera de outras carreiras e dar condições para que eles se desenvolvam com remuneração adequada. “Ninguém espera que um neurocirurgião seja formado a distância. Metaforicamente, o professor também opera o cérebro e o dano pode ser tão grave como o da imperícia de um eventual neurocirurgião, que tem uma formação muito vivencial”, diz.

Ela conta que grandes centros que formam professores combinam teoria e prática e preparam bem as pessoas para profissão de professor. “Nos últimos anos, descobrimos mais sobre o que, efetivamente, gera aprendizado e como as crianças aprendem. Os professores precisam ser formados com base nesses conhecimentos”, diz.
Segundo Maria Alice Carraturi, nos países mais desenvolvidos em educação, a formação inicial é presencial tanto na universidade quanto na escola básica. “É uma educação profissional baseada na prática e, como tal, precisa de momentos presenciais para seu desenvolvimento. Por isso, não costumam manter cursos de formação inicial a distância. No Brasil, a maioria dos professores, hoje, são formados a distância. Mais do que questionar a modalidade, é preciso questionar a qualidade. Podemos ter bons e maus cursos em qualquer das modalidades, entretanto, agora as regras obriga que parte prática da formação inicial seja presencial.


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