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Correio Braziliense

O "efeito colateral" da leitura

Mais do que absorver cultura e diversão, melhora a escrita e o sistema cognitivo


postado em 12/01/2020 08:24

Para a família Ferraz, ler em conjunto se tornou mais que atividade intelectual. É um traço de união de todos em torno dos livros(foto: Rayssa Brito/Esp. CB/D.A Press)
Para a família Ferraz, ler em conjunto se tornou mais que atividade intelectual. É um traço de união de todos em torno dos livros (foto: Rayssa Brito/Esp. CB/D.A Press)
“A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados”. Foi o que escreveu o físico e filósofo René Descartes (1596-1650), antecipando em alguns séculos o que hoje os educadores já sabem: ler possibilita entender a sociedade em que vive, melhora a escrita e, sobretudo, desenvolve o intelecto.

Que o diga Adelaide Paula, mestra em teoria literária pela Universidade de Brasília (UnB) e autora de livros infanto-juvenis. “O leitor nunca estará sozinho. Ele dialoga com inúmeras vozes, que atuam sobre o seu mundo e o auxiliam a olhar para si com um distanciamento, que dificilmente ele teria de outra maneira”, afirma. “A melhoria da escrita é um bônus que a leitura oferece a todos que pelejam com a palavra”.

Mas, no Brasil, ainda se lê insuficientemente. É o que constata o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), cujos dados de 2019 mostraram que o país não conseguiu registrar avanços significativos da leitura entre os estudantes. “Esse resultado é um triste registro do crescente desinteresse de crianças e jovens por leitura e preocupa pais e educadores, que reconhecem a importância que tem para o desenvolvimento cognitivo e emocional pleno de seus filhos”, salienta Adelaide.

Ela explica que existem inúmeras pesquisas que comprovam a contribuição da leitura para o desenvolvimento. Criança estimulada precocemente, ainda no ventre da mãe, por meio de músicas e histórias, tem maior inclinação por ler. Aquela que vê os pais usando parte do tempo lendo tende a imitá-los, e achar natural usá-la para descansar, distrair, divertir. Adelaide acrescenta que ouvir os pais rindo sozinhos diante de um livro, comentando entre si uma notícia, ou pedindo silêncio para concluir uma leitura, é mais persuasivo que qualquer conselho sobre o assunto.

Da barriga da mãe

Na família Ferraz, a leitura vem de antes do berço. “Sempre li desde nova, minha mãe é leitora assídua. Quando engravidei da minha primeira filha, Yasmin, entrei no mundo da literatura infantil, me apaixonei. Acabei criando o blog Cuca de Gente Miúda, que tinha muitos seguidores”, diz a servidora pública Erica Nathair, 40 anos.

Ela explica que criou o blog para estimular a leitura em Yasmin. “É a minha paixão. Eu pensei que minhas filhas precisavam ler também”. A partir daí, Erica se engajou em movimentos pela leitura e realizou, em 2013, uma ciranda literária pelo Brasil .

Erica diz que a leitura proporciona aprendizado, sentimentos e sensações únicas para quem se permite descobrir um universo diferente do que se encontra. “Vejo a mudança que a leitura fez na vida das minhas filhas ,porque ela amplia muito o vocabulário da criança. Em algumas situações, pergunto para a mais nova: ‘onde você aprendeu essa palavra?’, E ela fala: ‘ué, no meu livro!’”.

A servidora conta que as filhas conseguem fazer conexões entre as sensações da vida real com o que leram no livro. “Isso é que é incrível na leitura”, explica. Na opinião dela, a ligação entre receptor e conteúdo é diferente, se feita pela tela de um aparelho.

Curtição em família

Encorajado pela mulher, Marcelo Ferraz, 43, professor de educação física, sentiu-se incentivado quando Erica contava as histórias dos livros à familía. Hoje, a leitura é compartilhada por todos em vários momentos juntos. Ele explica que há sempre uma leitura diária de, no mínimo, 30 minutos, em que todos escolhem um livro e se reúnem.

“Pode ler qualquer coisa, menos no celular. Na hora da leitura, é proibido mexer em aparelhos eletrônicos”. Em todas as viagens que faz, a família leva os livros que irá ler e visita as livrarias locais.

Aos 11 anos, Paulo Fernando gosta de vários tipos de livros. Ele diz que a mãe é a principal incentivadora da prática. “Eu gosto mais da saga Percy Jackson, do Rick Riordan. Mas boa parte dos meus amigos não gosta de ler, prefere jogar bola e brincar”. 

Estudante do La Salle, Débora Liz, 14, acredita que a leitura seja essencial. “Meus pais me incentivam bastante e os gêneros de que eu mais gosto são comédia e investigação”, conta a  jovem, que começou a ler aos 5 anos de idade. Débora sempre troca ideias de livros com as amigas.

“Acredito que, com a internet, muitos jovens preferem a praticidade do celular. As pessoas estão perdendo a vontade da leitura em forma de papel”, lamenta.

Laura, 15, estudante do 2º ano do Ensino Médio, conta que começou a ler por prazer aos 4 anos.  “Amo livros de aventura, suspense, poesia e também gosto de um romance bem escrito”. Mas, sobretudo, se anima com os festivais de leitura do colégio e com a biblioteca, “que vive cheia”. 

*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

 

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