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Correio Braziliense

Fórum Mundial da Água debate desigualdade de gênero na gestão de recursos hídricos

No DF, crise fez com que agricultoras reduzissem as produções e se enchessem de prejuízos e incertezas


postado em 18/03/2018 07:30 / atualizado em 19/03/2018 13:16

No ano passado, a seca castigou a propriedade de Prakceda Jakubowsi (acima), onde a família planta flores tropicais para garantir o sustento(foto: Arquivo Pessoal)
No ano passado, a seca castigou a propriedade de Prakceda Jakubowsi (acima), onde a família planta flores tropicais para garantir o sustento (foto: Arquivo Pessoal)
Os olhos azuis e a pele clara de Prakceda Jakubowsi revelam o cansaço e a garra de uma mulher que, aos 73 anos, nunca parou de lutar. Ela enaltece os títulos de produtora rural e de dona de casa e, para mantê-los, acorda às 6h e só para quando o sol se põe. Vivendo às margens do Descoberto, dona Prakceda tem uma relação incomum com o lago, que oferece tudo de que ela precisa. 

Onde hoje há um reservatório, há cinco décadas, havia a casa da família, que perdeu tudo quando as comportas foram abertas e inundaram a região. Em uma nova residência, foram as águas do Descoberto que germinaram a plantação de flores tropicais que sustentam a família Jakubowsi, com 11 pessoas, das quais oito são mulheres. No auge da crise hídrica, a escassez fez 75% da produção morrer. Em outubro, o Descoberto ficou tão seco, que Prakceda reencontrou a estrutura da casa que perdeu com a criação do lago. 

Nos anos 70, após o Descoberto inundar parte de Brazlândia, a família Jakubowsi tentou reconstruir a vida no Paraná, mas voltou às margens do lago ao conseguir parcelar uma propriedade de 15 hectares. “Era só terra. Eu passava o dia em cima de um tratorzinho. Isso aqui (fala enquanto mostra a mini floresta, rica em diversidade, que construiu no território) foi nossa família que fez sozinha”, recorda. 
 
 
A produção de flores tropicais sustenta a família Jakubowsi (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
A produção de flores tropicais sustenta a família Jakubowsi (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
Francisco José de Carvalho, pai da família, passava o dia fora da propriedade, lutando para defender as terras e para melhorias coletivas para região, como luz, telefone, estradas e segurança.Enquanto isso, a mãe cuidava do gado e fazia mudas para o reflorestamento das margens do lago Descoberto. O esforço era tão grande, quea dona Prakceda leva 10 pontos nos pulsos, adquirods após uma cirurgia para corrigir problemas causados por tanto tirar leite das vacas. Após isso, decidiu mudar de ramo, plantando flores, um amor antigo da mulher. Enquanto passava o dia na roça, a pequena Rosany Jakubowsi, hoje com 50 anos, cozinhava as refeições da família. A outra filha, Márcia Jakubowsi, 48, ajudava a mãe nas plantações e, quando ficou mais velha, tornou-se a responsável por fechar acordo com grandes compradores. Para atender esses negociantes, Rosany começou a cozinhar para fora e, assim, juntando o talento das três com o apoio do pai, Francisco Carvalho, elas montaram um rancho aberto ao público. 
 
 

Hoje, quem vê a plantação toda verdinha, não imagina que há quatro meses a família quase desistiu de tudo devido à seca. “As bichinhas (referindo-se às plantas) morriam na minha frente e eu não podia fazer nada. A vontade que dava era de vender tudo e ir embora. Mas para onde? A seca está em todo lugar, menos nas piscinas do centro de Brasília”, comentou Prakceda, ao protestar contra as restrições de captação da área rural do DF que, no ano passado, permitia aos produtores pegarem água apenas por três horas a cada dois dias. 
 
Escassez hídrica fez 75% da produção morrer (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Escassez hídrica fez 75% da produção morrer (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

As mulheres da família temem o futuro. “Acho que este ano pode ser ainda pior do que o ano passado”, aposta Prakceda. Já Márcia pede que o governo ajude os produtores rurais a continuarem na região. “Nós queremos ficar e produzir água, mas, precisamos de apoio”, roga Márcia. 

Desigualdade 

Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) verificou que, em quase todas as localidades do mundo, quando há falta de água ou má distribuição de serviços de saneamento, são mulheres e meninas as principais prejudicadas, já que coletam recursos para manter a higiene do lar. Por dia, elas gastam, juntas, 200 milhões de horas andando para ter acesso ao recurso. 

Em âmbito nacional, esse número é menor, mas ainda assustador. O projeto do doutorado em Sociologia da pesquisadora do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB) Daniela Nogueira analisou o semiárido brasileiro e identificou que cada mulher em situação de escassez gasta entre três e quatro horas por dia para buscar água para as residências. 

“Em tempos de escassez, acaba se tornando uma carga de trabalho que cai de uma forma muito específica sobre elas. É uma tarefa não compartilhada, que rouba tempo que poderia ser investido em algo para a própria pessoa”, conta Daniela. 

Enquanto, dentro das residências, elas são as responsáveis pela água, a criação de políticas públicas ainda está em mãos masculinas. 

No Conselho Nacional de Recursos Hídricos -- entidade formada por representantes do governo e de organizações civis, responsável pela implementação da gestão dos recursos hídricos brasileiros — dos 57 membros titulares, apenas 14 são mulheres. No DF, dos 80 membros, apenas 23 são do sexo feminino.

A situação é tão grave que os fóruns Mundial e Alternativo da água, que ocorrem nesta semana em Brasília, reservaram lugar em suas programações para o debate de gênero. 
 

Uma vida dedicada à terra


Quando o rio baixou o volume a um nível crítico, há três anos, Mariza e o marido colocaram um cano para puxar água da represa, e salvar os peixes. No momento mais difícil da seca, eles perderam 300 kg do produto da pesca, consequentemente, parte do lucro da fazenda. Na terra, é a mesma coisa: se não chove, não há produção. Sem o produto, não há dinheiro.
 
Mariza Matsui:
Mariza Matsui: "Sem renda, as mulheres são as mais afetadas" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

Hoje, Mariza Stuani de Almeida Matsui, 59 anos, é quem toma conta da área de 528 hectares. O marido morreu há um ano, mas há dez ela já comandava toda a produção de milho, abóbora, trigo, soja, gado, suíno, aves, e dos rios que abastecem toda a plantação. “As mulheres são as mais afetadas. Não tendo renda dentro de casa, elas são muito afetadas porque, para os filhos, falta roupa, e o dinheiro é escasso. E é sempre a mulher que tem que resolver essas questões”, explicou a agricultora.

Nesse tempo em que está à frente da fazenda, Mariza já perdeu dinheiro, produtividade e, agora, pela primeira vez desde que trabalha no campo, há 36 anos, não plantará nos meses de setembro e outubro, época em que a estiagem chega no momento mais dramático no cerrado. E, mesmo que a água seja essencial para o cultivo, as fazendas também passam pelo racionamento. Não é possível que todas as propriedades liguem os pivôs - instrumento de abastecimento hídrico agrícola - ao mesmo tempo. Por isso, tem que haver a alternância entre as terras. “Só que, como não é possível plantar em setembro e outubro, a gente só vai plantar em novembro, e aí só colhe no ano seguinte. É um período de 90 a 110 dias sem renda”, explicou. 
 
 

Filha de agricultores, Mariza casou-se com um agricultor, e tem dois de três filhos no mesmo ramo. Ela nunca teve que se preparar para tantos meses sem plantação ou água. “Acabou a escravidão no Brasil, e eles trouxeram os italianos pra cá, que são meus ascendentes, para plantar café em São Paulo. E também chamaram os japoneses, para cuidar da agricultura, e meu marido é descendente de japonês”, contou. 

Os dois se conheceram depois que Mariza deixou o sudeste, e foi para o Paraná. Casados, eles receberam uma proposta para “desbravar” o cerrado brasileiro e trouxeram na mala toda a coragem de quem parte rumo a uma aventura. “A gente nem sabia se o cerrado produzia ou não”, disse. A terra seca deu fruto, água, e também construiu a residência onde Mariza mora, hoje, sozinha, a pouco mais de 80 km do centro de Brasília.

Na fazenda, os filhos e os cinco netos vivem em outras casas espalhadas pela propriedade. A terra fornece mais que produtos agrícolas. Também conta a história de vida da família Stuani Matsui, e da própria Mariza. Ela põe  um chapéu de palha na cabeça para se proteger do sol e torce todos os dias para que os níveis do rio voltem a aumentar. 
 

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