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Correio Braziliense

Aquecimento ameaça complexo do Everest, utilizado por 240 milhões de pessoas

O aumento da temperatura tem alterado padrões de chuva e neve no sistema hídrico da região do hindu kushi do Himalaia, utilizado por um sexto da população do planeta. Estudo mostra ainda que 33% do gelo da área deve sumir ainda neste século


postado em 21/03/2018 06:00 / atualizado em 20/03/2018 22:58

Retração das camadas glaciais na região chamada de terceiro polo da Terra coloca em risco os ecossistemas das geleiras (foto: Zingadi-zog-e-Safar/Divulgação )
Retração das camadas glaciais na região chamada de terceiro polo da Terra coloca em risco os ecossistemas das geleiras (foto: Zingadi-zog-e-Safar/Divulgação )


Um sexto da população mundial serve-se do sistema hídrico da região hindu kushi do Himalaia (HKH), que se estende por 3,5 mil quilômetros ao longo de oito países — do oeste do Afeganistão ao leste de Mianmar. Fonte de 10 grandes rios asiáticos, incluindo o Ganges, o Huanghe, o Yangtsé e o Mekong, esse cenário repleto de montanhas geladas, como o icônico Everest, é a base da vida de 240 milhões de habitantes, ao mesmo tempo em que as bacias hidrográficas que elas abastecem fornecem água para 1,3 bilhão de pessoas. Isso tudo pode acabar. As mudanças climáticas estão provocando a retração glacial no topo do mundo, colocando em risco um dos mais dinâmicos e diversos complexos montanhosos do planeta.

Também chamado de terceiro polo da Terra, o HKH sofre com o aumento da temperatura global, que provocou alterações bruscas nos padrões de neve e chuva na região. “Quanto mais alto um ecossistema, mais ele é afetado com o calor”, observa Aditi Mukherji, pesquisadora sênior do Centro Internacional de Desenvolvimento Integrado das Montanhas (Icimod), na Índia, e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC).

Em uma apresentação, ontem, no 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília, a especialista alertou que o cenário, já dramático, pode piorar. “Foi feito um estudo sobre o impacto do aumento da temperatura no HKH. Um aumento global de 1,5ºC poderia elevar a temperatura no Himalaia em até 1,8ºC”, disse. Ou seja: mesmo se o melhor cenário do Acordo de Paris, celebrado em dezembro de 2015, for atingido — limitar esse crescimento em 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais —, a região gelada vai sofrer. “Isso não é bom o suficiente para preservar os ecossistemas de geleiras. Significará um calor muito maior nas altas altitudes”, alerta Mukherji.

O estudo realizado pelo Icimod mostrou que, mais que a retração do gelo, as alterações nos padrões de chuva e neve devido às mudanças climáticas deverão ter impactos no fornecimento de água regional e na recarga do lençol freático (processo do ciclo natural hídrico pelo qual a água retorna aos subterrâneos pela chuva e pelo derretimento da neve). Conduzido pelos especialistas Anjali Prakash e Arun B. Shrestha, o estudo mostrou que, em elevações mais baixas, o recuo das camadas geladas não deve causar mudanças muito significativas na disponibilidade de água nas próximas décadas. Contudo, o uso excessivo dos recursos hídricos pelo homem e o comprometimento da recarga do lençol freático terão um grande impacto.

Já nas áreas mais elevadas, poderá haver alteração no fluxo de água em algumas bacias hídricas caso as taxas atuais de retração glacial continuem. No hindu kushi do Himalaia e, particularmente, nas montanhas, os glaciares são a principal fonte de recarga do lençol freático, alertaram Prakash e Sreshtha. Evidências científicas e imagens aéreas — algumas delas exibidas ontem no 8º Fórum Mundial da Água — evidenciam que a maior parte das geleiras da região está encolhendo.

Mais enchentes

O estudo do Icimod prevê uma perda de 33% do volume total de gelo no HKH até 2100. “O clima está ficando mais quente. Se a temperatura aumentar 1,5ºC (em relação aos níveis pré-industriais) no fim do século 21, veremos a perda de um terço do volume de glaciares, neve e gelo”, alerta Philippus Wester, cientista-chefe da gerência de recursos hídricos do instituto à agência Indo-Asian News Service.

De acordo com Aditi Mukherji, o aumento no derretimento da neve pode, inicialmente, elevar o volume de água nos rios, o que significaria mais enchentes. Dando continuidade a esse processo, à medida que os glaciares desaparecerem de vez, a quantidade de neve derretida reduziria até acabar.

A pesquisadora indiana e integrante do IPCC lembrou ainda que as geleiras desempenham um importante papel nas correntes hídricas da região. Um estudo publicado em novembro passado pela Universidade de Aberystwyth, da Inglaterra, mostrou que os pequenos lagos que se formam nas geleiras cobertas de detritos glaciários no Himalaia controlam o fluxo de água derretida rio abaixo. Esse sistema e as pessoas que vivem dele estão ameaçados pelas mudanças climáticas, segundo Irvine-Fynn, pesquisadora que liderou o trabalho, publicado na revista Geophysical research letters, adverte: “Esse é um recurso crítico para os habitantes das montanhas e das terras baixas e alterações nesse sistema terá um impacto crítico sobre eles”, sustenta.



“Quanto mais alto um ecossistema, mais ele é afetado com o calor (…) Um aumento global de 1,5ºC poderia elevar a temperatura no Himalaia em até 1,8ºC”

Aditi Mukherji, pesquisadora sênior do Centro Internacional de Desenvolvimento Integrado das Montanhas (Icimod)

 

Gigante gelado

 

3,5 mil quilômetros
Extensão do sistema hídrico da região hindu kushi do Himalaia (HKH)

8
Quantidades de países por onde passa o HKH

10
Quantidade de rios alimentados pelo HKH

240 milhões
Quantidade de pessoas que têm o KHK como base de vida

1,3 bilhão
Quantidade de pessoas cujo fornecimento de água se dá por bacias hidrográficas alimentadas pelo HKH

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