Publicidade

Correio Braziliense

Falta de informações faz captação de água subterrânea ser incerta

Reservatórios embaixo da terra abrigam mais água potável do que é encontrada na superfície


postado em 23/03/2018 15:08 / atualizado em 23/03/2018 15:26

Foram encontrados coliformes fecais no poço artesiano de Geraldo Costa do Amaral, na vila São José, em Brazlândia (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Foram encontrados coliformes fecais no poço artesiano de Geraldo Costa do Amaral, na vila São José, em Brazlândia (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)

 

Cerca de 71% do planeta são cobertos por água. Porém, dessa grande quantidade do recurso, apenas 2,6% é água doce e potável. Nesse número, que já é pequeno, só 28% estão na superfície — em rios e lagos. O resto fica em geleiras e no subterrâneo. Com a escassez de água no mundo, começou-se a investir pesado na captação das águas subterrâneas, como uma possibilidade de frear a crise hídrica.

Exemplo do tamanho do manancial embaixo dos nossos pés é o aquífero de Alter do Chão. Pesquisas das universidades federais do Pará e do Ceará estimam que o reservatório subterrâneo abrigue mais de 86 mil km³ de água doce, o que seria suficiente para abastecer toda a população mundial cerca de 100 vezes. O problema na captação desse e de outros aquíferos no planeta é a falta de informação sobre essa água. Há o risco de a retirada causar, por exemplo, a morte de rios superficiais.

Os níveis e a qualidade dos recursos que vêm dessas minas foram tema de debate no 8º Fórum Mundial da Água. Para o austríaco Pradeep Aggarwal, da Agência Internacional de Energia Atômica, ter tamanha disponibilidade hídrica é muito bom, mas pode ser um perigo no futuro. “Não sabemos se essas águas são boas e se, ao tirarmos, elas estão sendo recolocadas”, afirma. “Ao retirar recursos de aquíferos, podemos correr o risco de em um dia secar água que demorou milhões de anos para brotar. E não sabemos quando ou se elas vão um dia se realocar de novo”, completou Roberto Kirchheim, do Serviço Geológico do Brasil.
 

 Risco

 
No Brasil, a gestão das águas subterrâneas fica nas mãos dos estados onde estão as reservas. As agências reguladoras dão as outorgas para construção de poços artesianos, mas estima-se que 85% dos que funcionam no país sejam ilegais, conforme estudo da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas). “O acesso à água é um direito universal, mas a captação de poços artesianos esbarra nisso, porque, se eu retiro muita água, minha vizinha vai acabar sem”, explicou Everton Oliveira, secretário executivo da entidade.
 
Para o professor Ailton Shinoda, especialista em Hidrologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), só seria seguro investir na captação de águas subterrâneas após investimentos em tecnologia e recursos humanos. “Posso afirmar que hoje o nível de conhecimento dos nossos aquíferos é pobre. Precisamos de financiamento para satélites e simuladores, além de tecnologia básica, para ter segurança de qual recurso pode ser usado”, garantiu. 
 
 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade