Publicidade

Correio Braziliense

Deputado João Campos mostra precisão, mas derrapa em dado da Arena Pernambuco

O parlamentar do PSB de Pernambuco acertou cinco das sete informações verificadas pelo Holofote

Compartilhar

postado em 28/02/2019 15:12 / atualizado em 28/02/2019 18:53

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Em entrevista aos jornalistas Leo Cavalcanti, Denise Rothenburg e Simone Souto ao programa CB.Poder, uma parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília, o deputado federal João Henrique Campos (PSB-PE) comentou o papel do partido na oposição ao governo federal, a reforma da Previdência, o acidente aéreo do pai, Eduardo Campos, a tragédia em Brumadinho, em Minas Gerais, o superfaturamento na Arena Pernambuco e o ensino integral no país. A entrevista do engenheiro civil de 25 anos foi dada na quarta-feira (27/2). Confira a checagem do Holofote para algumas respostas dadas pelo parlamentar:


"Enquanto isso, a gente tem mais de 2 milhões de jovens que não estão nas escolas, nós temos 11,8 milhões de analfabetos no Brasil, 38 milhões de jovens e adultos analfabetos funcionais, que é um problema histórico no Brasil, mas a gente não vê o governo discutindo isso"


Vamos por partes. Primeiro, é difícil precisar qual faixa etária o termo "jovens", usado pelo deputado, define. Por isso, buscamos estudos diferentes. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-C) 2016, pouco mais de 2 milhões de crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos não estudavam. 

Já de acordo com o documento do 2º Ciclo de Monitoramento das Metas do Plano Nacional de Educação (PNE), elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 1,95 milhão de crianças ainda estão fora das escolas. O estudo considera também o período de 2016. 

Uma matéria do início de 2018, veiculada no Bom Dia Brasil (TV Globo), cita 2,1 milhões de crianças e adolescentes fora da escola. A reportagem cita o IBGE como fonte da informação, mas sem apontar qual pesquisa específica. 

Os dados são muito parecidos e mostram que o deputado acertou, ou ao menos chegou bem perto. Observação: se jovens de 18 a 29 anos que também não estudam forem incluídas na conta, então, o número sobre para 24,8 milhões.

Na segunda parte da afirmação, o deputado João Campos chegou bem perto: a PNAD Contínua 2017 aponta que o Brasil tem 11,5 milhões de analfabetos. 

Na questão do analfabetismo funcional, o deputado acertou em cheio: são 38 milhões de pessoas, entre 15 e 64 anos, no país. O número é medido pelo Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional 2018, medido pelo Ibope Inteligência e desenvolvido pela ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro. O Correio noticiou o dado

______________________________________________________________________

"A Polícia Federal fez um bom trabalho de investigação e chegou a quatro hipóteses (para o acidente aéreo do pai, Eduardo Campos). (...) Entre as quatro hipóteses que foram levantadas pela Polícia Federal, que sejam admitidas que elas existiram: uma é a falha humana possível; a segunda é uma colisão ou possível colisão com pássaros; e as outras são duas falhas mecânicas, uma referente ao estabilizador e a outra ao profundor, que são duas peças da aeronave"


De fato, o relatório final da investigação da Polícia Federal sobre a morte do então candidato à Presidência da República Eduardo Campos, em 2014, apontou quatro hipóteses para o acidente aéreo em Santos (SP). Segundo reportagem da Agência Brasil, "o documento aponta que a queda do avião ocorreu, de maneira isolada ou cumulativa, pelas seguintes razões: colisão com pássaros; desorientação espacial por parte dos pilotos; possibilidade de disparo de compensador de profundor; ou uma pane com travamento de profundor em posições extremas."

Na quarta-feira, mesmo dia da entrevista do deputado federal João Henrique Campos ao CB.Poder, o Ministério Público Federal arquivou o inquérito por não ser possível determinar as causas do acidente, em 13 de agosto de 2014. Além de Eduardo Campos, mais seis pessoas morreram na queda da aeronave.

______________________________________________________________________


"A minha pretensão política é de dar conta dessa missão que o povo me deu, de Pernambuco. Ter sido o deputado federal mais votado da história do nosso estado não é tarefa fácil"



João Campos recebeu 460.387 votos, equivalentes a 10,63% dos votos válidos, o que, de fato, o torna o deputado federal mais votado da história de Pernambuco. A informação pode ser conferida no site do TSE: nas seções da eleição de 2018, na qual ele foi eleito, e nas anteriores desde 1994

______________________________________________________________________

"A gente tem de evitar, a gente de proibir que esse método construtivo (barragem de rejeitos ou a montante) seja feito no nosso país. Ele já é proibido em alguns países. Países onde têm terremoto, por exemplo, como o Japão e o México, você não pode construir nesse método"



O método construtivo citado pelo deputado João Campos, de fato, é proibido em alguns países, e não é recomendado em países com histórico de terremotos. No Chile, por exemplo, esse tipo de barragem não pode ser construído desde a década de 1960, como mostram as matérias da Folha de S. Paulo e da revista Exame

Até a publicação desta verificação, o Holofote não havia conseguido confirmar se o método construtivo é proibido especificamente no México e no Japão.
 

Atualizado em 28/02/2019, às 18h47

O Holofote procurou a assessoria do deputado João Campos (PSB-PE) para saber qual era a fonte da declaração dada na entrevista. A resposta foi a seguinte:

 

"Chile e Peru, países com a incidência de terremotos, têm a proibição do modelo.

O Japão e o México realmente não têm proibição.

De fato, houve uma falha nos exemplos citados, mas o Japão, por exemplo, é um país com ocorrências de rompimento de barragem em relação ao modelo de alteamento a montante, inclusive por incidência de terremoto. Mas, fica registrado o fato de que esse modelo de alteamento a montante é verdadeiramente proibido em países com histórico de terremoto, como é o caso do Chile e Peru.

No Japão, em função de um terremoto, houve o rompimento da barragem japonesa de Mochikochi n°1, em 14 de janeiro de 1978. *Modelo de alteamento a montante"


_____________________________________________________________________

"São 84 barragens com esse mesmo método no Brasil, e elas têm de ser descomissionadas. Não basta ser desativada. Brumadinho estava desativada"


Nota explicativa da Agência Nacional de Mineração (ANM), divulgada em 15 de fevereiro de 2019, 21 dias após a tragédia em Brumadinho (MG), confirma a existência de "84 barragens construídas a montante ou com método construtivo desconhecido na PNSB, onde destas, 43 são classificadas como de alto dano potencial, ressaltam essa urgência."

A nota faz o alerta para o risco desse tipo de construção usado em larga escala entre as décadas de 1970 e 1990 e orienta que "todas essas barragens terão até 15 de agosto de 2021 para concluir o descomissionamento ou a descaracterização da barragem." A barragem de Brumadinho, como mencionou o deputado João Campos, estava desativada desde 2015.

A tragédia na Região Metropolitana de Belo Horizonte matou 189 pessoas, segundo balanço divulgado na quarta-feira (27/2). Outras 126 permanecem desaparecidas.

______________________________________________________________________


"A Arena Pernambuco foi a arena mais barata, por assento, do Brasil, de todas as arenas"


O Holofote analisou números fornecidos pelo próprio governo federal e pela Pluri Consultoria. Em termos absolutos, a afirmação está longe de ser verdade. De acordo com dados do governo federal, a Arena Pernambuco gastou R$ 532,6 milhões e foi o oitavo estádio mais caro construído/reformado para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, entre 12 obras.

Mesmo se for considerada a equação entre custo total e o número de assentos, a Arena Pernambuco, com 46.154 lugares, não aparece em primeiro lugar. O estudo da Pluri Consultoria, feito pouco antes da Copa, aponta que cada cadeira no estádio teve o preço de US$ 6.378 mil, na verdade, o sétimo mais barato entre os campos brasileiros. De acordo com os valores divulgados pelo governo federal, a Arena Pernambuco aparece como a sexta mais barata entre os 12 estádios, com o custo de R$ 11.539,62 por assento.

Mas há um problema: os custos divulgados pelo governo federal, pelo governo pernambucano e pelo Tribunal de Contas do Estado são diferentes. O primeiro aponta um total de R$ 532,6 milhões; o segundo, de R$ 479 milhões; e o terceiro, de R$ 389,4 milhões. A diferença vem da suspensão de pagamento ao consórcio da Odebrecht, por suspeita de superfaturamento. Se for considerado somente o último valor, cada cadeira da Arena Pernambuco saiu por R$ 8.436,97. Mesmo assim, fica somente na terceira colocação: o Beira-Rio (R$ 7.307,29) e o Castelão (R$ 8.133,24) ocupam os dois primeiros lugares. 

______________________________________________________________________


"A gente (Pernambuco) tem 52% dos alunos da rede em escola de tempo integral. O segundo estado que mais tem é São Paulo, e não tem 10% dos alunos"


O deputado não acertou na mosca o dado informado na entrevista ao CB.Poder por causa de uma leve imprecisão. Consultada pelo Holofote, a Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco informou "que a modalidade integral de ensino contempla 57% dos estudantes matriculados no ensino médio da rede e é a maior do País. São 412 unidades de ensino na modalidade, sendo 368 Escolas de Referência em Ensino Médio (EREMs) e 44 Escolas Técnicas Estaduais (ETEs), distribuídas em todos os municípios do Estado."

Confira a entrevista completa:


Checagem de Ana Carolina Fonseca, Guilherme Goulart, Igor Silveira e Leonardo Meireles

Etiquetas

Informação comprovadamente verdadeira


Informação parcialmente correta, mas precisa de esclarecimentos


Informação comprovadamente incorreta ou falsa


Afirmação ou dado exagerado coloca em xeque a informação


A fonte se valeu de ferramentas digitais para modificar foto, áudio ou vídeo


Contradição ameaça a credibilidade da informação


A equipe precisa de mais tempo para atestar a veracidade das informações


Faltam dados e fontes capazes de comprovar a informação


↑Topo