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Correio Braziliense ENTREVISTA

Pedro Burgos: 'A checagem exige que as informações não tenham viés'

Especialista em jornalismo de dados fala sobre a relação da área com o combate às notícias falsas e a importância de se vender o impacto dos jornais na sociedade

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postado em 11/03/2019 15:44 / atualizado em 11/03/2019 15:58

(foto: Reprodução/Internet)
(foto: Reprodução/Internet)

O brasiliense Pedro Burgos sempre foi um apaixonado por tecnologia e jornalismo. Daí para a especialização em jornalismo de dados foi um pulo. Para ele, quanto mais dados mensuráveis um profissional conseguir coletar e apresentar de forma “didática” ao grande público, mais credibilidade o jornalismo consegue. “O jornalismo de dados te permite investigar esses números e apresentar num gráfico de uma forma que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. E a seleção do jornalista pode parecer menos enviesada”, diz ele em entrevista exclusiva ao Holofote.
 
Burgos aponta diversas dicas para que o jornalistas e os jornais agarrem com todas as forças o que as pessoas mais perseguem: a verdade. A transparência é um dos pontos fundamentais. Outro é o impacto que a área tem sobre a vida das pessoas. Para ele, há uma dificuldade muito grande para se vender essa ideia. E é nisso que ele vem trabalhando ultimamente, com o projeto Impacto.jor. “Se o jornal se vende como um jornal importante para a democracia ou para a sua cidade, fica mais fácil o combate às notícias falsas”. Confira outras respostas de Burgos para aprender um pouco mais sobre jornalismo e a luta contra as notícias falsas. 


Qual a relação entre o jornalismo de dados e a checagem de notícias?
A grande vantagem do jornalismo de dados em relação ao jornalismo tradicional, que se baseia mais em opiniões de especialistas ou em conversas e entrevistas, é que o jornalismo de dados tem uma conclusão um pouco mais objetiva. Se você está querendo fazer uma matéria sobre as pedaladas da Dilma (Rousseff, ex-presidente) em relação às pedaladas de outros presidentes, o jornalismo de dados te permite investigar esses números e apresentar num gráfico de uma forma que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. E a seleção do jornalista pode parecer menos enviesada. É claro que há viés na seleção de dados, sempre pode haver. Mas eu acho que os dados, eles se mostram de maneira um pouco mais objetiva quando você fala que X pessoas morreram ou quando você fala que a Vale gastou X bilhões ou gastou menos dinheiro na prevenção de acidentes do que deveria, se você investigar as contas, conseguir isso pelo jornalismo de dados. Você consegue apresentar conclusões que são mais embasadas, mais difíceis de serem atacadas. Por isso, o jornalismo de dados é tão usado na checagem de notícias, porque a checagem exige que as informações não tenham viés ou não seja uma opinião, seja uma afirmação mais possível de ser objetiva, e por isso que existe uma relação entre os dois.

Você é um dos precursores do jornalismo de dados no Brasil. Como o jornalismo de dados pode ser usado nesse mundo de pós-verdade, em que opiniões pessoais e apelos emocionais valem mais do que um fato, e na luta contra as notícias falsas?
Porque os dados podem ser apresentados de maneira objetiva, mas tem outra coisa que acho importante. Em várias reportagens, especialmente na checagem, se você pegar um manual de checagem de notícia, os checadores são mais transparentes em relação aos métodos utilizados. Se você diz que o Ministério da Educação não gasta com educação superior, o checador vai não só buscar os dados, mas ele vai mostrar o link da prestação de contas do MEC ou um screenshot da transparência.gov. Você é obrigado a mostrar como chegou a essa conclusão. E essa disciplina de ter a transparência sobre método ajuda bastante nessa luta contra as notícias falsas. Porque quando você é transparente sobre o método, é mais fácil construir confiança das pessoas. É interessante: eu vi esses dias, o MBL (Movimento Brasil Livre), que teoricamente apoiaria o governo, repercutindo a apuração da Folha de S. Paulo sobre as candidatas laranja de Minas (Gerais) que apoiaram o ministro do Turismo (Marcelo Álvaro Antônio). O MBL compartilhou o link da reportagem da Folha, e os seguidores no Twitter falaram assim: “Como vocês podem acreditar na mídia, que é contra o Bolsonaro e tal?”. E aí, no tuíte seguinte, o MBL postou os dados da prestação de contas do TSE. Ou seja, ele (o MBL) fez a disciplina do jornalismo de dados: está aqui a fonte primária. Contra a fonte primária, você não tem como brigar. E as pessoas baixaram a bola. Essa disciplina (...) ajuda, na minha opinião, na luta contra as notícias falsas.
 
"Por isso, o jornalismo de dados é tão usado na checagem de notícias, porque a checagem exige que as informações não tenham viés ou não seja uma opinião, seja uma afirmação mais possível de ser objetiva, e por isso que existe uma relação entre os dois"

Qual o papel dos jornalistas neste contexto de notícias falsas?
Esta é uma resposta que pode demorar horas… (risos). A gente tem essa ideia um pouco liberal, no sentido econômico, de que existe um mercado de ideias — marketplace of ideas —, em que as ideias mais fortes tendem a prevalecer. E essas ideias mais fortes são mais embasadas, por assim dizer. O papel do jornalista é atuar nesse mercado de ideias, embasando ideias ou fortalecendo ideias boas para a democracia, embasadas em verdades, no sentido de objetivamente verificáveis, com experiência empírica. É interessante que na academia se passou muito tempo falando que não existe verdade, que a realidade é subjetiva. A gente passou muito tempo discutindo esse tipo de coisa. E agora a gente está sendo bombardeado com essa ideia de que tudo (o que é) subjetivo está sendo usado contra a gente. A gente tem que dar uns passos para trás e usar mais verdades ou mais ideias, mais informações verificáveis. Para isso, o jornalista precisa abandonar algumas práticas. Por exemplo: eu acho que, no Brasil, a gente abusa do chamado jornalismo declaratório. A gente coloca as aspas de alguma pessoa, teoricamente especialista ou não, na manchete e aí o que a gente faz com isso é só ver a reação das outras pessoas sobre essa declaração. Isso é muito ruim. Eu acho que isso acaba contribuindo para a ideia das pessoas de que o jornalista está sendo enviesado. Outra coisa é o uso de fontes anônimas. Muito do colunismo político no Brasil é baseado em fontes anônimas que não tem nenhuma forma de as pessoas verificarem se aquela informação é correta ou não. Aí, perde-se credibilidade. Então, o papel do jornalista, quando ele está para escrever uma reportagem, ele tem que pensar com a cabeça do leitor. Especialmente do leitor que pode, potencialmente, ver aquilo de uma forma, digamos assim, atacando suas crenças ou atacando seus candidatos, seus políticos. Você tem que saber que a gente está neste mundo bastante polarizado e tomar os cuidados. Como minha reportagem pode não ser vista, necessariamente, como ataque gratuito? Quais são os dados que eu tenho para provar que isso é importante? De que forma essa reportagem ajuda a construir um ambiente melhor para a democracia. Enfim, o jornalista tem que à missão do jornalista de informar melhor a sociedade e não apenas dar munição para diferentes grupos ficarem brigando.
 
"Eu acho que, no Brasil, a gente abusa do chamado jornalismo declaratório. A gente coloca as aspas de alguma pessoa, teoricamente especialista ou não, na manchete e aí o que a gente faz com isso é só ver a reação das outras pessoas sobre essa declaração. Isso é muito ruim" 

Por que você acha que houve uma reação tão negativa, no Brasil, da parceria do Facebook com agências de checagem de fatos?
Eu entendo por que as pessoas ficaram bravas. O Facebook é uma empresa que tem muito, muito poder sobre o que é discutido no mundo hoje. As pessoas não querem que um player só tenha capacidade de decidir o que é ou não verdade. Especialmente porque ele pode selecionar empresas que vão ajudá-lo a ser árbitro dessas coisas. Eu entendo o argumento de que, em uma plataforma que é usada por mais de 100 milhões de pessoas no Brasil, duas empresas não podem ser responsáveis por definir, digamos assim, o que é ou não verdade. Não é que o Facebook foi “covarde”, mas ele poderia usar mais recursos, trazer mais gente, ter um diálogo maior com as pessoas antes de tomar essa decisão. Eu acho que, principalmente, o trabalho do Aos Fatos é muito bom, e é interessante que o Facebook faça alguma coisa, mas esse processo todo foi muito pouco transparente, e eles se beneficiariam de trazer mais empresas, mais agências de checagem, mais pessoas a essa coisa.

Como você vê o crescimento do número de núcleos e sites de checagem de notícias no Brasil e no mundo?
Eu acho que isso foi um fenômeno, mas não sei se isso vai acontecer para sempre ou por muito mais tempo. Houve uma necessidade de checagem de notícias extras durante as eleições, e muitos núcleos foram criados para atender isso. Mas me incomoda que muito da checagem de dados está baseada ou, primordialmente, centrada na política. Há muita oportunidade de checagem de dados em saúde. Tem muito boato sobre curas milagrosas. Tem muito espaço para checagem de notícias de produtos ou em relação à segurança pública, enfim. Seria bom se essas agências de checagem mudassem um pouco o foco ou, pelo menos, variassem um pouco o foco. A gente vê muitas agências fazendo o mesmo trabalho. Quando você tem um debate entre candidatos, várias agências estão checando as mesmas informações com as mesmas fontes. Como hoje há recursos escassos no jornalismo, ou as agências tendem a se diferenciar um pouco mais, seja em método ou em campos de análise, ou não vai ter espaço para todo mundo. Ainda existe um desejo do jornalista de fazer mais disso, mais checagem, mas o mercado não tem espaço infinito.

Em um texto seu de 2016, você prevê — ou deseja — que o jornalismo "se venda mais pelo seu impacto do que pelo produto em si". Isso ocorreu?
Eu acho que isso não aconteceu tanto no Brasil. Aconteceu, topicamente, na Folha de S. Paulo. A Folha fez uma campanha falando da importância do jornalismo para a democracia. Acho isso positivo. O Globo fez uma coisa parecida. A Gazeta do Povo, em Curitiba, também. Mas ainda pode ser mais. Eu estou trabalhando o Impacto.jor para isso. As pessoas não tem muita noção do quanto o jornalismo é importante para a democracia. E os jornalistas tendem a achar que isso é dado, que todo mundo sabe, e para isso basta reafirmar que é importante. Mas a gente precisa ir um pouco mais além, a gente precisa mostrar de forma mais didática, sem ser arrogante, mas falar assim: “Olha, toda essa discussão sobre candidaturas laranja, sobre fazer candidatos que peguem mais dinheiro do fundo partidário e vejam brechas na legislação eleitoral, toda essa discussão aconteceu por causa de uma reportagem da Folha de S. Paulo.” Caiu um ministro, o (Gustavo) Bebianno, pode cair outro, mas, mais do que isso, talvez a lei possa ser reformulada por causa do jornalismo. Eu penso que uma campanha de marketing da Folha deveria ser: “Nós denunciamos o mal uso de X milhões de reais nas campanhas eleitorais em 2018. Você está interessado em saber como o seu dinheiro está sendo utilizado nas campanhas eleitorais? Assine a Folha e permita que o nosso trabalho siga adiante.” Então, eu acho que há uma desconexão entre o trabalho real, o resultado real e a forma como o jornalismo se vende. Isso está começando a ser internalizado nas redações, os jornalistas sabem disso, mas do ponto de vista prático de campanhas de marketing ou campanhas de assinatura isso ainda é incipiente. É melhor do que em 2016, mas ainda tem muito o que melhorar.
 
"Me incomoda que muito da checagem de dados está baseada ou, primordialmente, centrada na política. Há muita oportunidade de checagem de dados em saúde. Tem muito boato sobre curas milagrosas. Tem muito espaço para checagem de notícias de produtos ou em relação à segurança pública, enfim"
 
Como foi e está sendo a experiência com o Impacto.jor e o Burgo Media Watch? Uma análise mais aprofundada desses dados, por parte de jornais e jornalistas, poderia ajudar em um jornalismo mais impactante e na luta contra as notícias falsas?
No Impacto.jor, eu estou fazendo um trabalho individualizado com algumas redações, eu estou trabalhando especialmente com jornalismo local, em que o impacto não é polarizante, digamos assim. Às vezes, o impacto de uma revista nacional ou de um jornal de alcance nacional pode ser visto como polarizante, por exemplo, como um ataque ao Bolsonaro. Então, ele é positivo para uma parcela da população e negativo para outras. O impacto de um jornalismo local: se o Correio Braziliense faz uma reportagem sobre as condições do Hospital de Base e o GDF tem que mudar a alocação de recursos, isso aí é um impacto que não importa se você torce para um time ou para outro. Todo mundo vai comemorar. Eu estou trabalhando muito com jornais locais para que eles coletem e divulguem de maneira mais eficiente e sistematizada para os leitores esse impacto local. Estou trabalhando com o jornal O Popular, de Goiânia; o Correio 24h, da Bahia; a Gazeta On-line, do Espírito Santo; e a Gazeta do Povo, de Curitiba. Trabalhando significa que eu vou, frequentemente, às redações, a gente estabelece formas de coletar esses impactos e pensa junto em como comunicar isso aos leitores. É um trabalho lento porque para fazer isso você precisa de uma mudança de mentalidade. E quando você fala mais sobre impacto e não sobre alcance, se o jornal se vende como um jornal importante para a democracia ou para a sua cidade, fica mais fácil o combate às notícias falsas porque isso exige que as pessoas levem mais a sério as informações divulgadas e publicadas pelo jornalismo profissional. E, ao comunicar o impacto, ao convencer o leitor, o assinante de que o jornalismo praticado ali é importante para a vida dele, para a cidade, para a democracia, fica mais fácil vender a ideia de que o que a gente está fazendo é a verdade ou o mais próximo da verdade. Por tudo isso, pensar mais no impacto e falar mais do impacto para o leitor e mesmo dentro da redação é importante nessa briga.

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