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Correio Braziliense

Conheça Rebeca Realleza, voz feminina do rap de Ceilândia

Ceilândia é protagonista nas letras de Rebeca, mas não é a violência e a criminalidade que aparecem nas músicas da rapper que mora no Sol Nascente


postado em 27/03/2018 06:15 / atualizado em 27/03/2018 06:37

A artista traz o que há de bom na cidade em suas letras(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
A artista traz o que há de bom na cidade em suas letras (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)


Foi no colégio que Rebeca Realleza, 22 anos, teve os primeiros contatos com o rap. A mãe não gostava do gênero, “achava que era música de bandido”, mas um projeto dentro da própria escola apresentou a menina às rimas e ao som.

A partir de então, ela começou a cantar com os amigos em outras escolas e a paixão pela música e pelo estilo se tornou mais forte. “Um dia cantamos no Teatro Newton Rossi, e percebi que era aquilo que eu queria fazer”, lembra Rebeca, um dos novos nomes de destaque do rap ceilandense.

Ceilândia é protagonista nas letras de Rebeca, mas não é a violência e a criminalidade que aparecem nas músicas da rapper que mora no Sol Nascente. “Nas minhas letras, falo das coisas boas de Ceilândia. Do amor, da esperança… Se a gente da arte não levar o amor, quem vai levar? A bala, o tiro a gente já escuta todo dia”, explica.

Apesar das dificuldades que a região enfrenta, Ceilândia é feita de esperança e de sonhos. “Eu amo os sonhos daqui. Amo a luta de Ceilândia. Aqui as pessoas sonham com algo melhor, com a melhoria da cidade. Mesmo com todas as dificuldades elas têm esperança”, aponta a rapper, que é também estudante de direito.

O amor por Ceilândia é evidente nas letras e nas palavras de Rebeca, que canta a força de vontade e a união de um povo capaz de superar as adversidades. O rap e a cidade foram, para a rapper, responsáveis por tudo o que ela se tornou. “Foi aqui que me descobri como mulher. Onde eu brotei. Onde eu descobri também como queria escrever e como fazer minhas letras.”

A dura realidade no Sol Nascente, por exemplo, inspirou Receba, mas por outro ponto de vista. “A gente não precisa ser o que esperam porque acham que somos assim. Por isso, canto que ‘minha cabeça não está a prêmio.’ Nós não precisamos entrar todos na vala do crime, das drogas...”, avalia.


Diversidade e união


Para Rebeca, “Ceilândia é cheia de cultura, muito diversa, com muita gente fazendo música, muita gente envolvida com a arte e se ajudando”, acredita.

“A gente mora numa região muito difícil, era pra ser cada um por si. Mas sozinho não se chega a lugar nenhum. Então damos as mãos e conseguimos construir algo. Sem esse desejo de união, nada aconteceria. Essa consciência vem da falta de recursos, pela necessidade”, ressalta.


O pioneiro Japão


Um dos expoentes do rap na cidade, Japão nasceu no mesmo ano que Ceilândia, 1971. O artista, de 47 anos, tem uma trajetória que, de fato, se confunde com os caminhos da região. É impossível falar da cultura de Ceilândia e não lembrar dele.

“Além de ser meu local de nascimento, Ceilândia é o melhor lugar onde eu possa estar, aqui tenho tudo que preciso para seguir com minha arte, sem contar as pessoas, os 17 bairros. O dia a dia agitado e tenso é uma inesgotável fonte de inspiração”, afirma Japão.

Japão simboliza a militância cultural da cidade(foto: Bruno Peres/Esp. CB/D.A Press - 23/3/17)
Japão simboliza a militância cultural da cidade (foto: Bruno Peres/Esp. CB/D.A Press - 23/3/17)


O rapper fala sobre a diversidade da cultura ceilandense, que vai do rap ao samba, dos saraus ao rock e comenta os locais onde costuma ir. “Gosto de frequentar o Sarau VA e o samba da comunidade, que ocorrem na praça da Bíblia. Vou também à Praça do Cidadão, onde rolam várias investidas culturais”, cita.

Em 2019, Japão planeja lançar o décimo álbum da carreira, que vai se chamar justamente Ceilândia 1971. “O disco vai ser aberto com uma frase do sambista e poeta Marcelo Café, que resume, para mim, a maior qualidade de Ceilândia: ‘Ceilândia é mulher e, como toda mulher, se reinventa na dor’”, adianta.