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Juventude negra e feminina

Mesmo com as barreiras do racismo e do machismo, ceilandenses conseguem construir histórias de vitória, autoestima e afirmação


postado em 27/03/2019 07:00 / atualizado em 26/03/2019 19:16

Queren e Thay superaram preconceitos, viveram descobertas e se reinventaram(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Queren e Thay superaram preconceitos, viveram descobertas e se reinventaram (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 
“Morando na periferia, você tem que arranjar um refúgio ou acaba sendo tudo que as pessoas esperam que uma mulher, negra e de Ceilândia seja”, diz a ritmista Thaynnara Caroline Rodrigues, 24 anos (mais conhecida como Thay Nega). Ela é uma dentre as milhares de ceilandenses negras que, a despeito do preconceito, do racismo e do machismo, conseguem uma maneira de se reinventar e de criar uma história vitoriosa.

Afirmação, empoderamento e resistência são palavras de ordem para quem cresceu ouvindo que não fazia parte do padrão de beleza estabelecido e que deveria alisar o cabelo e mudar a essência para agradar. “Demora até a gente perceber que tudo isso é racismo e para se aceitar. Eu sou do jeito que eu quero e não vou mais abaixar a cabeça para ninguém”, diz Thay.

Criada por mãe solteira com dois irmãos, Thay quase não teve contato com o pai, que tem mais 18 filhos. O refúgio encontrado por ela para se livrar do estereótipo da violência e da criminalidade foi a música. Em 2003, viu da janela de casa um grupo de percussão tocando e pediu à mãe para participar.

O projeto chamava-se Bateria Nota Show e segue vivo até hoje. Ali, Thay começou a se ver como musicista, aprendeu a tocar diversos instrumentos e encontrou motivação. “Era algo que me fazia bem. Eu não pensava em seguir isso como carreira, mas acabou acontecendo e sou muito grata por isso”, diz. Ela continua no grupo, tornou-se ritmista, eventualmente dá aulas e transmite a outros jovens o conhecimento que recebeu no projeto.

Independência

 
“Os homens negros matam um leão por um dia, a gente tem que matar dois. Por ser negra, mulher, periférica, a gente é calada o tempo todo, é escondida pelos outros”, diz a trancista Queren Hapuque Costa, 23. “Mas Ceilândia me ensinou a ser forte, independente, a ter minha fala, meu posicionamento”, pondera.

Queren é dona, com a irmã, de um salão de beleza voltado apenas para o estilo afro, no JK Shopping. Ela também foi criada por mãe solteira. O pai era dependente químico. “É aquela história clichê de periferia. Minha mãe trabalhava de gari e foi estudando para nos ajudar, enquanto meu pai nos roubava tudo e a agredia”, lembra.

A mãe conseguiu se tornar conselheira tutelar e incentivou as filhas a entrar no ramo dos salões de beleza. “Minha irmã aprendeu a fazer as tranças na escola, e minha mãe começou a incentivar a gente para fazer isso como uma forma de sustento. Com o tempo, abrimos o salão, que tem dado muito certo.”

Queren destaca a importância dos projetos sociais que ajudam a valorizar jovens negros e periféricos. “Hoje, há mais iniciativas que mostram o valor da nossa beleza e que promovem o nosso empoderamento. Mas ainda é pouco, falta representatividade. Falta entrar numa loja e achar facilmente bonecas negras, de cabelo crespo, por exemplo”, diz.

Em Ceilândia, acredita, há várias iniciativas que auxiliem nesse processo de afirmação e empoderamento. “Mas isso precisa se expandir. Os projetos sociais que nos ajudam e as ideias precisam ir para outras regiões. Tem gente que não tem a mesma informação e não encontra essas saídas.”

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