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Correio Braziliense

Moeda única é sonho distante

Lula diz que América do Sul caminha para banco central integrado, mas analistas admitem dificuldades. Mudanças políticas internas e concessão de soberania são pré-requisitos para a consolidação do projeto


postado em 27/05/2008 08:46 / atualizado em 27/05/2008 08:51

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, durante o programa Café com o presidente que, após a assinatura da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), a região caminha para a criação de uma moeda comum e de um banco central único. No entanto, Lula reconheceu que “isso é um processo, e não uma coisa rápida”.

Para o projeto de integração monetária, a União Européia (UE) demorou 10 anos. Em 1988, quando o bloco era Comunidade Européia (CE), 11 países encarregaram um comitê dirigido pelo presidente Jacques Delors de estudar os passos para a união. O resultado foi o Pacote Delors, com o projeto de que a integração econômica e monetária seria alcançada após três etapas (veja o quadro). Em fevereiro de 2002, chegava ao fim o período transitório de coexistência das moedas nacionais. O euro passava a ser a moeda única em 12 países.

Para Lula, a Unasul “vai facilitar que a gente negocie com outros blocos. Isso vai facilitar que possamos fazer mais obras de integração. Poderemos fazer mais ferrovias, rodovias, pontes. Foi a realização de um sonho, mas vamos ter que trabalhar muito para consolidar as coisas práticas”.

O coordenador do curso de Pós-Graduação em Comércio Exterior da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Edson Peterli Guimarães, explica que, nos processos de integração, a moeda única “é o ultimo estágio”. “As diferenças em termos de remuneração dos fatores de produção são anuladas. Para se chegar a este estágio as políticas dos países devem convergir para a igualdade.”

Para o diretor de Comércio e Finanças Internacionais da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Renato Baumann, as vantagens da adoção de uma moeda única estão na redução do custo de transação entre países e dos desencontros entre paridades cambiais, no estímulo ao comércio, produção e participação de empresas menores. Mas ele ressalta: “Não é sempre que você pode ter moeda comum. É preciso ter volume de comércio, movimentação de mão-de-obra e capitais. Ainda não chegamos neste ponto.”

Baumann explica que “todo processo de integração representa abrir mão de algum grau de soberania”. “É preciso a existência de um banco central comum; os países teriam que abrir mão de sua política monetária”, afirma. Não se sabe quando este sonho de uma moeda comum sul-americana será possível. Guimarães considera o projeto da Unasul viável, mas admite que ele demandará “um esforço grandioso”. Baumann completa: “As condições estão muito distantes. Acho mais sensata a trajetória que Brasil e Argentina têm perseguido, que é a de viabilizar o comércio em moedas nacionais ”.

Como os europeus chegaram lá

O processo de união monetária na União Européia começou em 1º de julho de 1990. Em dezembro de 1995, o bloco decidiu chamar a moeda única de euro. Para que ela pudesse circular, a partir de janeiro de 2002, algumas pré-condições tiveram de ser cumpridas pelos países, segundo Jesús Marqués, professor de economia da Universidade de Valência (Espanha):

Taxa de câmbio: nenhuma desvalorização das moedas nos dois anos anteriores;

Inflação: não poderia superar em 1,5 ponto percentual a média dos três países com a menor taxa de inflação;

Déficit público: inferior a 3% do PIB;

Dívida pública: inferior a 60% do PIB;

Taxa de juros nominal a longo prazo: não deveria exceder em mais de 2 pontos percentuais a taxa média dos três países com menor índice de inflação.

Impasse na Argentina

O governo argentino rompeu o diálogo com os agricultores depois de uma manifestação realizada pelos dirigentes rurais no domingo. A presidenta Cristina Kirchner cancelou uma reunião com os produtores marcada para a tarde de ontem e não há previsão de retomada das negociações. Segundo o chefe de gabinete, Alberto Fernández, o tom dos discursos no evento que reuniu 200 mil pessoas em Rosário (a 300km de Buenos Aires) “rompe toda lógica de diálogo”.

“Lamentavelmente, com esse tipo de discurso agressivo, o que eles conseguiram foi impedir a discussão. Eles é que romperam o diálogo, com suas ameaças e imposições”, disse Fernández sobre o ato em Rosário. O presidente da Sociedade Rural Argentina (SRA), Luciano Miguens, disse que a ruptura nas negociações foi um “enorme equívoco” e causa “um dano enorme”. O impasse entre governo e dirigentes do campo teve início com o aumento de tarifas à exportação de grãos em 11 de março.

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