Ronaldo Rogério de Freitas Mourão (*)
Agora com a chegada em Marte da sonda Phoenix, em 25 de maio de 2008, as evidências sobre a existência de água na superfície marciana foram confirmadas de modo inquestionável, segundo as informações da Nasa. Com efeito, a sonda européia Mars Express, em 2003, já havia detectado indícios, confirmando as hipóteses baseadas em medidas realizadas pelo Mars Odyssey. Desde 2001, esse orbitador vem fornecendo dados que levaram à conclusão de que a calota polar austral de Marte é constituída de água em estado sólido. Essa ilação já havia sido obtida de modo indireto e especulativo. Ao contrário, as observações diretas do pólo sul realizadas com o Omega ; espectrômetro imageador, construído pelo Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França ; não deixam dúvidas de que as vastas banquisas das calotas polares de Marte são em sua maior parte constituídas de gelo seco (dióxido de carbono) e de gelo, sendo que este último se apresenta em concentrações de 80% para determinadas regiões.
Acredita-se que a presença de água suja, em estado sólido, junto ao gelo seco, sugere que a calota polar está em regressão. Se esse fato for confirmado por outros métodos, a "regressão" do dióxido de carbono por sublimação (passagem do estado sólido para o estado gasoso) significaria que o planeta vermelho não está inativo, mas atravessando um estado transitório de sua história. Na realidade, o pólo sul de Marte -- assim como a água provavelmente existente no sub-solo -- é, com efeito, geralmente considerado pelos astrônomos defensores da terraformação. A teoria defende que é possível tornar qualquer planeta -- onde as condições fossem favoráveis -- habitável, à semelhança do que ocorreu com a Terra, que passou por tal evolução.
Aliás, como esta zona do planeta se encontra constantemente numa temperatura de 130 graus abaixo de zero, condição segundo a qual o dióxido de carbono permanece em equilíbrio entre os estados sólido e gasoso, uma pequena variação de temperatura no pólo sul pode induzir a passagem, para a atmosfera marciana, de uma grande quantidade de gás carbônico. Tal alteração levará, por exemplo, a um aumento de densidade da atmosfera do planeta que vai favorecer uma subida de temperatura em conseqüência do efeito estufa. Deste modo, o permafrost ; congelamento permanente no subsolo numa profundidade da ordem de 50cm a um metro, enquanto a parte superficial do solo só gela quando a temperatura do ambiente atinge um nível muito baixo ; do planeta vermelho constitui "um reservatório de uma futura atmosfera".
Além das medidas do imageador Omega, o Mars Express liberou outras informações sobre a atmosfera marciana. Assim, por exemplo, o segundo instrumento francês da sonda européia ; o Spicam ; transmitiu os primeiros registros sobre a existência de dois gases: o oxigênio e a água em estado gasoso, no entanto, em fraca quantidade na atmosfera marciana, essencialmente composta de dióxido de carbono. A ausência de água em estado líquido reduz a esperança de encontrar forma de vida marciana suspensa nesse estado.
Uma grande revolução ocorreu quando, em 2 de março de 2003, o robô Opportunity encontrou indícios de que já existiu água líquida entre as rochas da região chamada Meridiani Planum, onde ele pousou. Parece que diversas regiões da superfície de Marte já foram cobertas por água e tiveram ambientes propícios à existência de vida, como supunha uma grande parte dos astrônomos. No entanto, esta é a primeira vez que a Nasa confirmou a existência de água líquida no passado de Marte a partir de análises feitas na superfície do planeta. A análise das rochas identificou a presença de sulfatos e traços físicos, como a erosão e formação de nichos de cristais.
A ação da água mudou a textura e a composição química da superfície. Além do mais, as análises do robô conseguiram traduzir as pistas deixadas na rocha e, em conseqüência, a Nasa está mais confiante nesta conclusão da missão Mars Exploration Rover. Tudo parece sugerir que a região de Meridiani Planum é um dos lugares que teria permitido a existência de vida, mas ainda não há uma confirmação em relação a esta última conclusão. Tanto o Opportunity como o robô gêmeo Spirit, que pousou em Marte em janeiro de 2003, examinam o solo e as rochas para descobrir a possível existência de vida no planeta, numa missão que deve durar no mínimo três meses.
Na realidade, a maior parte dos exobiólogos acredita que as condições atmosféricas reinantes em Marte podem ter levado a água a se refugiar nas profundidades do solo, ou seja, a cerca de 100 metros abaixo da superfície da região equatorial, onde a temperatura é mais elevada do que na superfície, em conseqüência do efeito geotérmico comum aos planetas semelhantes à Terra, como é o caso de Marte. Em todo o caso, se viermos a encontrar vida em Marte, ela deve existir sob a forma de bactérias que, tendo surgido nas épocas passadas, quando as condições em Marte eram mais favoráveis, sobreviveram ao clima mais rigoroso, adaptando-se.
Se alguma forma de água acessível no planeta se confirmar, além de implicar na possibilidade de vida, toda ela será de grande importância para os futuros colonizadores do planeta. Com efeito, se por um lado a água marciana, depois de purificada, poderá ser tão útil para beber quanto a água terrestre, por outro lado, como ela é constituída de hidrogênio e oxigênio, será possível aos futuros exploradores do planeta extrair o hidrogênio necessário à propulsão dos seus motores de combustível líquido.
Na realidade, uma vez instalada em Marte, tal destilaria teria a capacidade de decompor água, usando para isto a energia solar. Seria também fácil obter o combustível necessário ao reabastecimento dos tanques das espaçonaves. Ademais, o oxigênio assim produzido pela decomposição da água poderia ser usado para reabastecer a atmosfera respirável das primeiras instalações dos colonizadores de Marte.
Se for possível gerar combustível, ar e água na própria superfície marciana, também será possível cultivar alimento. Aliás, o tipo de solo vulcânico existente em Marte é muito favorável à agricultura, como se verificou em relação às regiões atingidas por lavas vulcânicas na superfície terrestre. As primeiras experiências e os depósitos de combustível e de água poderiam ser realizados por sondas que iriam preparar as condições para a chegada das primeiras missões tripuladas. Alguns engenheiros espaciais acreditam que os robôs poderiam construir as primeiras estufas, onde seriam cultivados alguns alimentos. Os benefícios tecnológicos das missões a Marte, inicialmente com robôs e, em seguida, com viagens tripuladas, causarão as mais profundas mudanças na vida da humanidade do que aquela provocada pela missão Apollo, que conduziu os primeiros homens à superfície lunar.
O ser humano terá de se adaptar às novas condições de vida no espaço, criando instrumentos jamais sonhados pela nossa mente como ocorreu com o homem pré-histórico, que ao elaborar os seus primeiros objetos de pedra lascada nem imaginaria a parafernália eletrônica que hoje nos cerca. Sem dúvida, os avanços maiores serão na qualidade de vida, em especial, na medicina, tendo em vista as condições que o frágil organismo humano será obrigado a conviver.
Se a descoberta de água em Marte é muito importante para os futuros colonizadores do planeta vermelho, para nós, terráqueos, será de enorme importância para o futuro da vida em nosso planeta conhecer como as atmosferas dos nossos vizinhos no espaço interplanetário evoluíram ao longo do tempo.
*Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é astrônomo e autor de mais de 85 livros, entre outros, Quem é vivo sempre aparece: um pequeno ensaio sobre a procura dos ETs.